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sábado, 5 de dezembro de 2015

NOVOS E VELHOS NOMES DE RUAS NA CIDADE DE SÃO PAULO

Sara Brasil, Mapa de São Paulo (detalhe), 1930

O Brasil é provavelmente um dos países do mundo onde mais se mudam nomes de ruas.

Na verdade, jamais vi qualquer estatística sobre o assunto, mas, pelo que acompanho sobre o assunto, isso até poderia ser verdade. Os motivos alegados para tal na maioria das vezes são ridículos. Cada vez que se muda o nome de uma rua, perde-se um pouco da história da cidade e do país.

A capital paulista pode até ser a campeã mundial de mudanças de nomes de logradouros.

Seguem vários nomes de ruas que mudaram de nome durante a história da cidade (a mudança pode ser antiga ou recente). 

Rua de São Bento - já foi Moreira César (apenas entre 1897 e 1898)
Avenida Brigadeiro Luiz Antonio - já foi Estrada de Santo Amaro
Rua Desembargador Eliseu Guilherme (Vila Mariana) - já foi rua do Bispo
Avenida Doutor Arnaldo - já foi avenida Municipal e Estrada do Araçá
Rua Heitor Penteado - já foi Estrada do Araçá
Avenida Jabaquara - já foi Avenida Presidente Vargas (por um período entre 1940 e 1960)
Rua da Consolação - já foi Estrada de Pinheiros e Estrada de Sorocaba
Rua da Consolação (entre al. Santos e rua Estados Unidos) - já foi rua Pe. Donizetti Tavares de Lima 
       por um curto período nos anos 1960
Rua Oscar Freire - já foi alameda Iguape (entre Rebouças e Casa Branca) e rua São José (entre av. 
       Dr. Arnaldo e Rebouças)
Avenida Corifeu de Azevedo Marques - já foi Estrada de Itu
Avenida Heitor Antonio Eiras Garcia - já foi Estrada Velha de Cotia e Estrada Velha do DAE
Rua Butantan - já foi rua do Commercio
Avenida Prof. Francisco Morato - já foi Estrada de Itapecerica
Avenida Prestes Maia - já foi avenida da Luz
Rua Carlos de Souza Nazareth - já foi rua Anhangabaú
Avenida Paulista - já foi av. Carlos de Campos (entre 1927 e 1930)
Rua Estado de Israel - já foi rua do Tanque
Rua Diogo de Faria - já foi rua do Gado
Avenida Diógenes Ribeiro de Lima - já foi Estrada da Boiada
Rua Groenlândia - já foi Estrada da Boiada
Rua Virgilio de Carvalho Pinto (Pinheiros) - já foi rua Borba Gato
Rua Luiz Murat e rua Inacio Pereira da Rocha (ambas em Pinheiros) - já foram rua Galeno de
       Almeida
Avenida dos Bandeirantes - já foi Avenida da Traição
Avenida Pedro Bueno - já foi Avenida Jabaquara
Rua Gil Eanes (Campo Belo) - já foi rua Almirante Barroso e rua Adolf Hitler
Rua Irineu Marinho (Santo Amaro) - já foi rua da Liberdade
Avenida Vereador José Diniz - já foi avenida Conselheiro Rodrigues Alves
Rua Cardoso de Almeida - já foi rua Tabor
Avenida Nove de Julho - já foi rua Salvador Pires (entre alameda Itu e av. Brasil)
Avenida Nove de Julho - já foi rua Chile (entre rua Estados Unidos e rua Groenlândia)
Avenida Nove de Julho - já foi rua Russia (entre rua Marina Cintra e rua João Cachoeira)
Rua Marina Cintra - já foi rua Russia
Avenida Conselheiro Rodrigues Alves (Vila Mariana) - já foi rua Jabaquara
Avenida Quarto Centenário - já foi rua França Pinto (entre o Parque Ibirapuera e a rua Afonso
       Braz)
Avenida Washington Luiz - já foi Auto-Estrada de Santo Amaro
Rua Xavier de Toledo - já foi rua do Paredão
Rua Dom José de Barros - já foi rua Onze de Junho
Praça da República - já foi Largo da Palha e Largo dos Curros
Rua Sete de Abril - já foi rua da Palha
Rua Libero Badaró - já foi rua Nova de São José
Rua Julio Marcondes Salgado - já foi avenida São João
Avenida Rio Branco - já foi rua dos Bambus, rua Visconde do Rio Branco e rua Barão do Rio 
       Branco
Avenida General Olimpio da Silveira - já foi Estrada de Campinas e rua das Palmeiras
Rua Dona Balduína (Sumaré) - já foi rua Cametá
Avenida Angélica - já foi rua Itatiaia
Rua Sampaio Vidal (Jardim Paulistano) - já foi rua Doutor Rosa
Alameda Gabriel Monteiro da Silva - já foi rua Dona Hippolita
Avenida Santa Marina - já foi Estrada da Água Branca à Freguesia do Ó
Rua Leopoldo Couto Magalhães Jr. - já foi rua do Porto
Avenida Juscelino Kubitschek - já foi rua Eduardo de Souza Aranha

E, acreditem: há muitas e muitas outras ruas que tiveram seus nomes alterados na história da Cidade de São Paulo.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

VINTE E CINCO DE NOVEMBRO

Angélica, foto c. 1915 - sentados, meus bisavós, pais dela. Em Porto Ferreira
.

Eu já escrevi aqui que conhecia muito bem a árvore genealógica de minha família, principalmente dos Silva Oliveira (a família derivada de meus bisavós portugueses, Daniel de Oliveira Carvalho (1846-1928) e Constança da Silva Oliveira (1896-1932)), que se casaram em Porto Ferreira, SP, antes que se conhecessem um ao outro.

Por procuração, Daniel e Constança casaram-se em 1885, Daniel como noivo e um irmão de Constança como noiva por procuração. Constança chegou somente algum tempo depois, de navio, vinda de Portugal.

Já eram pais em 1886. Em 1916, tiveram seu décimo-terceiro e último filho (Flávio, 1916-1982). Um deles, ou melhor, uma delas, a quinta filha, foi Angélica Carvalho de Oliveira (a única que não tinha o sobrenome Silva Oliveira, sabe-se lá por que). Nascida em 1897, como todos os irmãos e irmãs em Porto Ferreira, formou-se (também como todos os outros irmãos, menos uma, que morreu bebê, a misteriosa Madalena) professora primária na Escola Normal de Pirassununga.

Madalena foi a sétima filha. Viveu dezessete dias, Nasceu em 1899 e morreu em 1900. Viveu em dois séculos (bom, a não ser que se considere a forma castiça de se designar o século, que começa sempre no final 1 (2001) e termina com final zero (2100)). Nada praticamente se sabe de Madalena, a não ser que morreu. De que? Por que? Por que o tabu nas histórias de família de se falar destes casos?
Casa da rua Vergueiro 2024, (a da esquerda, que não tinha garagem mas jardim e tinha uma escadaria do portão ao primeiro piso, que não aparece na foto). Pouco antes da demolição, em 1969. O casal sobre a garagem da casa vinha eram... os vizinhos
.

Enfim. Angélica casou-se em 1916 com Antonio Siqueira de Abreu, num casamento em Porto Ferreira duplo: no mesmo dia e local, mais um irmão, Joaquim da Silva Oliveira, casou-se com Deolinda Bergström Lourenço, gerando a família Lourenço de Oliveira. A festa deve ter sido grande. Considerando-se que, na época, a cidade não chegava a 3.000 habitantes de população, a foto da feta com todos os presente, tirada em alum quintal, seja lá urbano ou rural, é muito significativa.

Siqueira - era assim que todos os chamavam - também era filho de portugueses e era de São Simão, SP, não muito longe do "Porto". Era universitário, formado em Farmácia e em Odontologia. Angélica e Siqueira foram morar ali. Não tiveram filhos. Não conseguiram, segundo se contava. Tornaram-se os "tiozões", os célebres segundos pais de todos os sobrinhos.

Tio Siqueira (Que eu conheci muito bem) e tia Angélica (idem), moraram em São Simão até cerca de 1939, quando por problemas políticos - Siqueira foi prefeito lá em meados dos anos 1930 - resolveram deixar a cidade e vir para a Capital, onde estavam morando praticamente todos os irmãos de Angélica, sobrinhos etc. Angélica era diretora do Grupo Escolar de São Simão. Foi transferida para outro Grupo em São Paulo, mas não foi esse o motivo de terem se mudado.

Não sei se Siqueira continuou a ser dentista em São Paulo. Desde que me lembro deles, estavam aposentados já (meados de 1955). Havia três festas anuais para eles. Uma, a 11 de agosto, aniversári de Siqueira. Outra, a 25 de novembro, aniversário de Angélica. E outra, talvez esta a mais tradicional das três, o seu aniversário de casamento - 28 de setembro. Eu fui praticamente a todas elas. Era impossível não ir, salvo se estivesse viajando, ou doente. Numa dessas festas, a do casamento, Siqueira chegava à casa de Maria - esta festa era sempre feita na casa da irmã de Angélica, minha avó, e dizia, com as mãos para o alto: "O Sud está aqui!" Isto passou a ser dito na primeira festa dada depois da morte de meu avô Sud, marido de Maria, em julho de 1948.

Era fantástico. A família praticamente inteira comparecia. Imagine-se os descendentes de doze irmãos (fora Madalena a própria Angélica e Lollio, que morreu solteiro com vinte e poucos anos e era músico). Lollio era um retrato na parede. E uma ou outra história já muito antiga, já que ele morrera pelo menos trinta anos antes de meu nascimento.

Hoje é 25 de novembro, fez-me lembrar de uma dessas festas - a do aniversário de Angélica. Incrível como, depois de vinte e um anos de sua morte (em 1993 - Siqueira faleceu em 1977), ainda possa me bater na memória não somente essa data, quanto as outras duas. Eram realmente pessoas muito amadas.

Finalmente, para constar: depois de casados, moraram em São Simão em endereço para mim desconhecido - mas tenho foto da casa, sei que era de esquina e de fundo para o córrego do vale, hoje uma avenida. Em São Paulo, moraram na Vila Romana (rua Guaicurus, 77, casa que não conheci, mas que até uns trinta anos atrás ainda existia, tendo sido depois derrubada), depois na rua Vergueiro 2024 (esplêndida casa, demolida pelo metrô, ficava a meio quarteirão do largo Ana Rosa e se fosse hoje reconstruída no mesmo local, ficaria no meio da pista direita da rua - que na época era estreita, pista única, mão única sentido cidade, cheia de ônibus que faziam o segundo andar da casa balançar, pois o que separaca o primeiro do segundo piso eram travas de madeira com assoalho de tábuas). De lá mudaram-se em 1969, para a rua Nicolau de Souza Queiroz (o número não lembro, mas parece que a casa ainda existe), quase em frente à rua Apeninos. Nesta casa morreu tio Siqueira. Ou já teria sido na casa seguinte? Não consigo me lembrar exatamente.

Com isso, tia Angélica mudou-se para uma casa na rua Ambrosina de Macedo, 51, muito próxima à rua Cubatão. Ficando doente sem poder mais andar devido a uma queda em idade avançada, Angélica mudou-se para a casa de minha avó Maria, sua irmã, na rua Maracaju, 58 - a meio quarteirão da casa da Ambrosina. Morreu ali com 95 anos em 1993.

Saudades deles. Muitas.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

SESSENTA E TRÊS ANOS: UMA VIDA

Ontem fiz sessenta e três anos de idade. Muito, né?

Eu sempre fui uma pessoa que conhecia a família que tinha. Quando digo "conhecia", refiro-me ao fato de ser a família inteira. Ou, pelo menos, queria saber quem eram. Sabia, desde os nove, dez anos de idade, praticamente toda a árvore genealógica da família de minha mãe. A da minha avó materna era enorme e facilitava o fato de que em todos os aniversários dela (17 de julho) e de sua irmã Angélica (a tiozona de todos, que não teve filhos - 25 de novembro), além do aniversário de casamento desta mesma tia (28 de setembro), eram comemorados na casa de minha avó na Vila Mariana (às vezes na casa de minha tia), por causa de meu avô Sud, que sempre ajudou a todos e mesmo depois de sua morte então, as festas foram na casa dele, até a morte de minha avó (1987).

Já a família de meu pai eu conhecia pouco. Claro que conhecia os irmãos dele e meus primos, mas indo para a parte de meus tios-avós, era mais difícil. A família de minha avó paterna estava em grande parte em Joinville e a de meu avô, espalhada por Minas Gerais e Rio de Janeiro; poucos moravam em São Paulo.

Mesmo assim, fazia o possível. Alguns, conheci somente como quadros na parede. Meu próprio avô, do qual acabei sendo biógrafo (Sud Mennucci), era um quadro na parede, como o eram também tios, primos, bisavós e até trisavós.

Quando nasci, em São Paulo (13 de novembro de 1951), o que acontecia pelo mundo? O jornal O Estado de S. Paulo mostrava em sua primeira página uma conferência nas Nações Unidas, cuja relação dos ocidentais com os russos era difícil por causa da Guerra da Coreia, que comia solta. Na Argentina, Peron acabava de ser reeleito presidente e Evita ainda estava viva. Os egípcios bloqueavam a guarnição britânica no Canal de Suez. O porto de Alexandria estava paralisado. Na Inglaterra, o rei George VI convalescia nos jardins do palácio, mas ele morreria poucos meses depois, já em 1952. Truman e Churchill encontrar-se-iam em janeiro em Washington. Só se falava em guerra, mas a Segunda Guerra já havia acabado havia seis anos.

Eu fui crescendo - em 1956, fui para os Estados Unidos com meus pais, onde passamos um ano, por causa de um curso que ambos fizeram, Eu fui para o Kindergarten em Urbana, Illinois. Disso eu já me lembro, e de mais muita coisa.

Em 1958, entrei no primeiro ano primário do Colégio Porto Seguro, base da minha vida. Eu sempre gostei de lá, onde passei boa parte dos meus onze anos seguintes. Meus maiores amigos são gente de lá.

Sempre gostei de "fazer anos" com festinhas em casa. Alguns colegas vinham de carro com meu pai - que me buscava todos os dias na escola na Praça Roosevelt no seu Studebaker 51 (mais tarde, nas duas Kombis que ele teve em seguida) - para almoçar e participar mais cedo da festa. Eu ganhava presentes, que punha sobre a minha cama. Eu apertava os embrulhos - se eram duros, eu os abria, pois certamente eram brinquedos. Se eram moles, eram certamente roupas, que eu largava lá sem abrir mesmo.

O dia de meu aniversário foi sempre esperado com alguma ansiedade por mim. Apesar disso, no ano de 1988, nesse dia morreu um de meus maiores amigos do Porto Seguro: Roland Müller, fato que, por diversas razões, fiquei ciente apenas quatro meses depois.

Em 1962, com a Copa do Mundo, comecei a não somente gostar de futebol, mas a ser fanático por ele. Antes disso, não sabia de nada do assunto. Minha mãe me pôs em escola de dança (Poças Leitão, na rua Joaquim Floriano), aulas de ginástica na ACM (rua Nestor Pestana), piano (em casa), jiu-jitsu (na rua da Consolação) e me forçava a ler livros. Nunca adiantou, Durei pouco nos cursos e gostava mesmo era de ler revistas em quadrinhos. Acabei, depois de fuçar muito, tendo a coleção completa de O Pato Donald e passei também a ler as revistas do Super-Homem (hoje, DC Comics - compro até hoje, desde 1959).

Hoje em dia, posso dizer que há muito não sou mais um fanático por futebol. Sem saudosismo, posso garantir, o futebol valeu a pena acompanhar mais até a Copa de 1970. Depois disso, foi mudando muito e para pior, em minha opinião. Ainda assisto os jogos de meu time, o São Paulo, mas a Seleção Brasileira é apenas uma sombra de seu passado já faz muitas décadas. Para isso, muito contribuiu a falta de ligação afetiva dos jogadores com os times em que jogavam. Na Seleção, então, os convocados hoje em dia são praticamente desconhecidos, jogando na Europa e outros continentes. Acabou a magia, para mim.

Enfim, quando escrevi três livros, entre 1997 e 2003, um a biografia de meu avô Sud e os outros dois sobre ferrovias paulistas, minha mãe se espantou com o fato - como poderia eu, péssimo em redação e leitor de histórias em quadrinhos poderia estar escrevendo livros de história?

Terminei o Porto Seguro em 1969, no ano seguinte comecei a estudar Biologia na USP, fiquei apenas seis meses e larguei, para cursar química nos quatro anos seguintes na mesma universidade. Ali conheci, no primeiro ano, a mulher de minha vida - Ana Maria, linda, charmosa, inteligente e carinhosa. Casamo-nos em julho de 1974.

Trabalhei três meses no final de 1974 e início de 1975 na GTE Sylvania, para mudar para a Shell Química entre 1975 e 1980, passando para a DuPont em 1980, onde fiquei até 1995 e, depois, um ano na De Nora, em 1995 e 1996. Foi a época em que descobri parte do mundo: Estados Unidos e pequena parte da Europa.

Minha avó Maria morreu em 1987. Meu pai em 1996. Nesta época, comecei a ficar fanático pela história das ferrovias brasileiras, depois de uma viagem a Porto Ferreira, onde encontrei uma estação que já não funcionava como tal e trilhos enferrujados e não utilizados desde 1989. Quis saber por que isso havia acontecido.

Também em 1996 comecei a trabalhar com minha esposa, na firma que ela fundou para trabalhar com realocação de estrangeiros para empresas multinacionais. Estamos nisto até hoje.

Mamãe ainda vive, lúcida com 91 anos, mas a enorme família dela que conheci hoje se resume a meia dúzia de idosos, nos quais eu ainda não me incluo.

O que quis dizer com isto é que minha vida não daria um livro como o que fiz de meu avô Sud e como poderia fazer, se hoje tivesse tempo, sobre meu bisavô Wilhelm Giesbrecht, que viajou o Brasil inteiro projetando e construindo ferrovias e rodovias.

Meus três filhos me dão orgulho, sendo que a menina Veronica casou-se e hoje vive na Toscana com seu italiano. Ganhei um neto, Guilherme (filho de meu primeiro filho, Alexandre), hoje com seis anos - nome de seu tetravô, que fundou a "dinastia" Giesbrecht em terras brasileiras. Ganharei outro, soube hoje que será um menino, lá por março ou abril. Filipe continua solteiro, mas com uma namorada muito bonita, inteligente, culta e simpática.

Mas foi uma vida boa até agora. Conheci boa parte do Brasil justamente estudando as ferrovias nos últimos 18 anos. Tive meus bons e maus momentos, mas valeu a pena. Espero que continue valendo por mais muitos anos.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

ONTEM E HOJE NO JARDIM PAULISTA (SÃO PAULO, 1966-2014)


A comparação em um mapa publicado na Folha de S. Paulo de 22 de dezembro de 1966 (reproduzido logo acima deste parágrafo) com um mapa extraído do Google Maps no dia de hoje mostra modificações entre a Brigadeiro Luiz Antonio e a 23 de Maio, no Jardim Paulista.

Apesar de estarem distantes apenas quarenta e oito anos, o mapa de 1966 - feito sem muita escala e preocupações com as ruas mais distantes dali, o que não invalida na comparação - mostra o porque do projeto de união das ruas Estados Unidos por uma rua que viria a ser a rua Stenio de Albuquerque Lima.

Quando o nome foi dado à rua aberta e quando ela foi efetivamente aberta ao tráfego, não sei. Nem consegui saber quem foi o Marechal (ele era marechal). Ele deve ter morrido nessa época, anos 1960-70. Encontrei breves referências a ele no Google, único lugar onde procurei. Sei que foi promovido a general em 1958, por exemplo. Portanto, já tinha alguma idade quando a rua foi aberta - ou já estava morto.

Olhando no texto sob o mapa de 1966, é interessante saber que a rua "passaria sobre" um boliche, divertimento bem popular na época. E ela é bem mais larga que a rua Estados Unidos. Vejam pelo mapa abaixo (do Google de hoje) que ela forma uma praça ao lado do Ginásio do Ibirapuera e depois se une à rua Curitiba, que manteve o nome.

Vejam que a 23 de Maio ainda não estava aberta naquele trecho entre o viaduto sob a av. Bernardino de Campos e o Parque Ibirapuera. Essa abertura arrasou vários quarteirões de ruas ali no bairro do Paraíso, na época. Eu me lembro vagamente disso - na verdade, eu passava pela rua Cubatão muitas vezes a caminho da casa de minha avó, mas ela mudou-se da Vila Mariana no início das obras, de forma que as obras da 23 de Maio naquele trecho estavam apenas começando então.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

A LIGAÇÃO LESTE-OESTE EM SÃO PAULO (1966)

Duas opções das quatro sugeridas. Nenhuma das duas acima foi utilizada, a ligação passou por baixo da praça inteira. (Folha de S. Paulo, 13/9/1966)
.

Eu já escrevi neste blog sobre a construção da Radial Leste, há cerca de três anos. Já sobre a ligação da Radial Oeste com a Radial Leste, creio que não.

A Radial Leste, a partir do Parque Dom Pedro II, começou a ser construída bem antes, ainda nos anos 1950. Já a Radial Oeste, da Praça Roosevelt para a avenida São João, estava sendo acabada com o alargamento da rua Amaral Gurgel ainda no final de 1966.

Além de nem se falar em Minhocão nessa época, via que acabou deteriorando a própria Amaral Gurgel duplicada e a São João e sua continuação, a General Olímpio da Silveira, em outubro de 1966 ainda se discutia como a rua Amaral Gurgel iria atingir a avenida Alcântara Machado ali no Braz. A Praça Roosevelt ainda mantinha sua feira aos sábados e a passagem do Oeste para o Leste da cidade ainda era feita pelo centro novo da cidade, seguindo a Consolação, Maria Paula até a Praça João Mendes e dali se descendo para a Rangel Pestana.

Eu estudava no Colégio Visconde de Porto Seguro e não me lembro tão bem assim dessa obra.

A discussão em outubro de 1966 era sobre se a ligação seguiria pelo alargamento da rua Caio Prado, se sobre uma paralela a ela a ser construída - o que levaria à demolição do Colégio Des Oiseaux ou ainda se passaria pela rua Olinda (hoje rua Guimarães Rosa), a rua lateral da Praça Roosevelt, o que levaria 'a demolição certa do Col~egio onde eu estudava.

Dessa discussão não li nada na época, mas hoje sei que os jornais a noticiavam. No fim, acabaram escolhendo uma quarta opção, fazendo a reforma total da praça Roosevelt - em cima e em baixo. Ou seja, em cima tornou-se um parque de concreto onde apenas a igreja da Consolação sobrou em pé entre as duas ruas que a formavam (Olinda e Martinho Prado) e por baixo fez-se a ligação entre a rua Amaral Gurgel e o Braz.

Após passar por baixo da praça, a avenida passou também sob a rua Augusta e por cima da rua Avanhandava e da avenida Nove de Julho (este foi chamado de Viaduto do Café) e depois, por uma enorme trilha de demolições, no meio do bairro do Bexiga, cortando várias ruas, passando por sobre a avenida 23 de Maio, por baixo da avenida da Liberdade e da rua Galvão Bueno, para finalmente ter uma saída para a Alcântara Machado passando por sobre o Parque Dom Pedro II. O parque foi destru~ido por uma sequência de viadutos nos anos 1960.

Uma das opções para a Leste-Oeste está retratada no mapa no topo da página.

Por fim, posso dizer que me lembro das obras de construção do viaduto da rua Augusta sobre a ligação Leste-Oeste; do bate-estacas na Praça Roosevelt funcionando os dias inteiros em 1968; do alargamento da rua da Consolação, especialmente em frente à praça Roosevelt e na subida até a Paulista. Uma "carnificina" de belas casas na época.

O Colégio Porto Seguro sobreviveu. Mudou-se para o Morumbi em 1972 e hoje é o Caetano de Campos. O Des Oiseaux foi demolido no início de 1970, mas não por causa de alargamento de rua alguma. No seu terreno, até hoje não existe coisa alguma.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ROMANTISMO E REALIDADE


Quando escrevi o livro Um Dia o Trem Passou por Aqui, em 2001, eu o fiz com um primeiro capítulo chamado "A Ferrovia Romântica". Era para ser o quarto capítulo, mas minha esposa me convenceu a colocá-lo primeiro, antes dos outros, como "gancho" para a leitura. Foi ótimo.

No fim das contas, o livro todo puxa para uma ferrovia romântica do passado, que existe mais na memória e na saudade das pessoas do que na realidade em que ela existiu.

Isso é um caso comum: a lembrança dos pedaços sempre bons de nossa vida. "Os bons tempos"... quais seriam os bons tempos, seriam aqueles em que nós sempre vivemos ou será que eles eram bons apenas porque éramos mais jovens? É difícil definir os bons tempos, "o velho e bom professor Tal"...

Qual seria a realidade, afinal? A realidade é mais cruel, muitas vezes muito mais cruel do que pensamos. Há pouco tempo, a irmã mais velha de um amigo meu, ela alemã e nascida na guerra de 1939, contava-me sobre os horrores que seus olhos de criança de 4 anos ainda se lembrava de aviões passando sobre sua cabeça na Turingia e do incêndio do Jardim Zoológico em Berlim causado por bombardeio. Como isso marca.

Quantas pessoas não se deliciam com imagens da guerra, uma guerra que a maioria das pessoas vivas hoje não presenciou ao vivo? Ou mesmo pelos jornais? O "romantismo" do afundamento do Bismarck no Mar do Norte e do Graf von Spee nas costas uruguaias, em 1939 e 1940, onde centenas de soldados morreram? Ou do Dia D, ou da retirada de Dunquerque, na França? Da invasão da Russia por Napoleão e mais de cem anos depois por Hitler? Quantas pessoas não foram assassinadas ou morreram de fome e de frio neste episódio?

E da Revolução de 1932, das quais São Paulo tanto se orgulha? Realmente, foi uma guerra onde o entusiasmo inicial da ida para os campos de batalha realmente existiu! Porém, em poucas semanas, assim como os trens das tropas alemãs, francesas e inglesas partindo para o fronte em 1914, de lugares como seus próprios países e de locais tão distantes como a estação da Luz em São Paulo, todo esse entusiasmo se transformaria em desespero.

Que romantismo é esse que tanto enaltecemos? Mesmo assim, continuamos a nos lembrar com saudades de coisas que nem presenciamos. Como podemos ter saudades do que não vivemos? Faz sentido isso? Ainda assim, continuamos nos emocionando ao ler velhos relatos de tempos passados...

Quantas pessoas não morreram em acidentes ferroviários no Brasil e no mundo inteiro? E mesmo assim, continuamos nos lembrando de ferrovias como algo bom em nossas vidas, apesar de criticarmos o que ainda existe hoje para nós aqui em São Paulo, como o metrô e a CPTM, muito, mas muito melhores dos que os trens de subúrbio de antigamente?

Era tão melhor assim a nossa infância? Claro - salvo exceções - mas, afinal, éramos muito mais jovens, a responsabilidade era mínima, nossos pais faziam tudo por nós - quando podiam, claro. A vida era mais calma, também, Meus pais, que ambos trabalhavam fora, vinham almoçar em casa todos os dias, dava tempo! Isto, em São Paulo, que na época já tinha dois milhões de habitantes!

Não nos lembramos, ou não fazemos questão de lembrar, no entanto, dos maus tempos. Preferimos a antiga vida calma e jovem. Enfim, somos contraditórios. Choramos às vezes simplesmente por lembrar. De nada em especial, somente de... lembrar. Pois o que lembramos não voltará mais.

segunda-feira, 12 de março de 2012

TREM SÃO PAULO-CAMPINAS - PARTE II

Trem Bandeirante da FEPASA no apagar das luzes (1998), que passava por Campinas. Aqui ele está em Jundiaí - Foto José Henrique Bellorio

Um dos comentários relativos à minha postagem de anteontem, "O trem São Paulo-Campinas" foi uma aula resumida da história mais recente dessa linha, que, como já expus aqui, fez sua última viagem em fins de 1998.

O texto que vem a seguir é preticamente o mesmo comentário (fiz uma ou outra pequena modificação) feito por Antonio nesse dia. Quem quiser conferir, é só ir até essa postagem. E quem prefere achar que eu sou preguiçoso e não quis escrever nada hoje, pois era mais fácil "chupar" o que meu amigo Antonio escreveu, que esteja à vontade.

Um dos filés mignons ferroviários na Europa (e, creio, também no nordeste dos EUA) são os trens regionais. É incrível que a CPTM não tenha continuado o trem regional SP-Campinas, no seu fim operado pela FEPASA. Essa linha era de longe a mais bem articulada desde a década de 1950, quando começou a operar com os TUEs Gualixo (vale notar que a mesma rota era compartilhada com dezenas de trens de longo percurso da Companhia Paulista).

Em 1970 essa rota recebeu as litorinas Budd elétricas (criminosamente incineradas no pátio do Pari depois da desativação do serviço). Em meados dessa década usou os tão criticados Trens Húngaros - que apesar disso também têm seus admiradores. E, dez anos depois, usou muito rapidamente um Frankenstein ferroviário composto de uma locomotiva elétrica EE (Pimentinha) mais carros Budd da EFCB (do Santa Cruz/Vera Cruz). Que, se tivesse sido bem operado, não teria sido uma má opção.

É só ver o enorme tráfego do complexo Anhanguera/Bandeirantes para se convencer da viabilidade de um trem relativamente rápido (mas muito confiável) entre SP e Campinas. Só falta mesmo a tal vontade política. Nesse ponto a culpa é dos próprios usuários dessa rota, que se caracteriza por uma bovina passividade - eles preferem sofrer a bordo de seus SUVs a pleitear o transporte coletivo que, para eles, é coisa da plebe. Afinal, esses novos trens tem todo jeito de ser uma "dádiva" do governo, não vi nenhuma manifestação pública séria a favor deles, particularmente dos usuários dessa rota.

E tantas outras rotas poderiam ter um serviço confortável , menos estressante e poluente: SP-Mogi das Cruzes-Jacareí-SJ dos Campos, SP-Sorocaba, SP-Santos...

Tristeza!!!

quarta-feira, 7 de março de 2012

CÓRREGOS QUE DESAPARECEM

Na foto do Google Maps, vemos no centro a servidão construída sobre o leito do córrego Uberaba. No canto direito inferior, a rua Araguari. No canto esquerdo superior, a avenida Helio Pellegrino

Hoje estive no bairro de Moema, na rua Periquito. Para isso, tive de estacionar o carro em uma pequena rua paralela a essa rua. Andei dali até onde precisava, e para isso cruzei o rio (ou córrego) Uberaba. Já havia estado por ali antes, mas é sempre interessante. Principalmente porque não se vê rio algum, somente uma espécie de calçadão. Uma servidão, na verdade.

Eu me lembro de ter visto esse córrego a céu aberto, anos antes - provavelmente, quase vinte anos atrás - no cruzamento da avenida Santo Amaro com a atual avenida Helio Pellegrino. Nessa época, não existia esta última avenida, mas sim um córrego sujo e ao seu lado um caminho de terra, com uma placa: "Avenida Uberaba". De avenida não tinha nada, nem saída do outro lado.

Ali onde o encontrei hoje, ele cruza a rua Araguari e segue até a avenida Helio Pellegrino, entrando por ela e seguindo até a Vila Olimpia, onde deságua no rio Pinheiros entre as barras dos córregos do Sapateiro e da Traição no mesmo rio.

O que gostaria de ressaltar é que, da mesma forma que considero absurdo canalizar e tapar um córrego que estava ali havia séculos, acho também extremamente difícil manter limpo e sem cheiro uma corrente de água que é constantemente poluída por esgotos clandestinos e servindo como depósito de lixos dos mais variados, desde sacos plásticos até pneumáticos e sofás. Certamente isso passa pela educação das pessoas, que eu, com o passar dos anos, considero cada vez mais difícil de se alcançar.

Uma pena. Em lugar de uma calçada - até que decorada e com pequenos jardins, mas pessimamente conservada, com mato alto e lixo jogado - teríamos um córrego cristalino passando entre os muros das casas ao longo dele. Melhor ainda seria nem ter os muros... É muita imaginação, não é?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A VELHA ESTRADA DE SANTO AMARO

O "médico dos Fords", na estrada de Santo Amaro (Folha da Manhã, 2/12/1928)

Primeiro era só estrada de Santo Amaro. Desde quando, não sei. A localidade era antiga - existia pelo menos desde o século XVII. Com o tempo, tornou-se um município - "villa", como se dizia à época para municípios abaixo de um certo padrão de desenvolvimento. Em 1832, quando se desmembrou de São Paulo, capital, a estrada que ligava as duas cidades começava no Piques e terminava na igreja do atual largo Treze de Maio.

Nessa época, "Estrada de Santo Amaro" era o seu nome em toda a extensão, que seguia pela atual rua Santo Amaro, pela Brigadeiro Luiz Antonio a partir do entroncamento das duas (o entroncamento não existia: aquele trecho da Brigadeiro que existe hoje entre a rua Riachuelo e o fim da rua Santo Amaro só foi construído no início do século XX), dali seguia até o Itaim, no córrego do Sapateiro, onde hoje começa a avenida Santo Amaro. Seguia por esta até onde hoje está a estátua do Borba Gato e subia pela hoje avenida Adolfo Pinheiro até o largo Treze. A divisa entre os dois municípios era o córrego da Traição, onde hoje está a avenida dos Bandeirantes.

No fim do século XX, aquele trecho inicial passou a se chamar rua de Santo Amaro, nome que conserva até hoje. O resto seguiu como era - na mesma época, o trecho final passou a se chamar rua (depois avenida) Adolfo Pinheiro, personalidade da distante vila de Santo Amaro.

O tempo passou e veio o nome Brigadeiro Luiz Antonio para o trecho entre a rua Santo Amaro e a avenida Paulista. Depois, esse nome seguiu até o Itaim, como é hoje. Nos anos 1950/60, a estrada virou avenida, enquanto a Adolfo Pinheiro já designava então todo o trecho desde a Traição até o Largo Treze. Em meados dos anos 1960, nova mudança: a Adolfo Pinheiro passou a nomear apenas o trecho Borba Gato-Largo Treze, enquanto a então avenida Santo Amaro era prolongada até a rua da Fonte, onde hoje se iniciam a avenida João Dias e a rua Antonio Bento. Só que a João Dias, com isso, encurtou: el, que tinha seu início no Borba Gato, cedeu o nome para a avenida Santo Amaro até a citada rua da Fonte.

Portanto, quando se fala da estrada de Santo Amaro, há de se saber qual época de que estamos referindo. Está bem. E como era essa estrada nos anos 1920 e início dos anos 1930?

Nessa época, esse nome se dava ao trecho Itaim/Córrego do Sapateiro (onde hoje está a av. Juscelino) e o Brooklin, digamos, perto do Córrego do Cordeiro. Ela ainda percorria dois municípios. Não era pavimentada, pelo menos no trecho que ficava em Santo Amaro (que deixou de ser município e foi anexado a São Paulo em 1935):

"As estradas de rodagem que ligam São Paulo às cidades vizinhas, com exceção do Caminho do Mar, estão quase que intransitáveis. A de Santo Amaro, por exemplo. Movimentadíssima, cortada a todo instante por automóveis, tal estrada já não se presta para excursões costumeiras das famílias paulistanas à represa da vizinha cidade. A Prefeitura de Santo Amaro não tem verba para o concerto (sic) dos numerosos buracos ali abertos pelas chuvas. Aliás, isso não admira, porquanto, embora próximo da capital, Santo Amaro mais parece uma villa do sertão, tal o estado de suas ruas. A parte próxima ao Brooklin Paulista, bem mais bonita que a sede do município, então, é uma lástima. Os autos encaixam ali até os eixos, padecendo os conductores toda sorte de contratempos para arrancar da lama os carros" (Folha da Manhã, 5/5/1926).

Realmente, o trânsito devia ser pesado por ali. Nada como é hoje, entupida por congestionamentos de dia e de noite e de ônibus que formam filas intermináveis numa avenida certamente mais larga do que era a estrada, mas a quantidade de acidentes reportados nos jornais nessa época era grande, praticamente um por mês, envolvendo caminhões, ônibus, automóveis e carroças. Como a quantidade de ruas que a cruzavam era muito menor e as construções eram raras - a avenida passava no meio de matagais e de campos com uma edificação ou outra - o local desses acidentes geralmente não era reportado, pois não havia muitas referências a dar, como numeração de casas, etc. Citava-se eventualmente o Brooklin, o córrego da Traição e a rua França Pinto (que tinha esse nome desde a rua Domingos de Moraes até sua chegada na estrada, chegada hoje que tem o nome de Afonso Braz no elegante bairro de Vila Nova Conceição - note nos mapas de hoje as ruas com nomes diferentes que formaram um dia a França Pinto, como IV Centenário e a própria Afonso Braz.

Uma das citações em 1926 fala de um curtume - São Luiz - na estrada, próximo à rua França Pinto. Teria esse curtume dado o nome ao atual Hospital São Luiz, também ali próximo hoje em dia? Uma propaganda de 1928 fala do "médico dos Fords", de G. Lazzaro, uma oficina automotiva que ficava em algum ponto da estrada... não citava o número nem a proximidade de qualquer rua, o que mostra que não seria difícil localizar o prédio numa rua que quase não os tinha. Era também constantemente usada como pista em competições de bicicletas e de motocicletas... até de automóveis.

Vale ressaltar que essa estrada, nos anos 1910 ganhou uma concorrente: a atual avenida Ibirapuera, que tinha a linha de bondes do Tramway de Santo Amaro e que, partindo do lado do atual Instituto Biológico na Vila Mariana, encontrava a Adolfo Pinheiro na rua da Fraternidade, no Alto da Boa Vista. No final dos anos 1920, surgiu a Auto-Estrada de Santo Amaro, que seguia de onde hoje é o lago do Ibirapuera pela atual República do Líbano, depois pela Indianópolis, entrava pela hoje Moreira Guimarães e depois pela Washington Luiz até a ponte do Socorro. Esta era pavimentada com concreto. Cheguei a ver placas azuais de rua com o nome "Auto-Estrada Washington Luiz" nos anos 1970 ainda afixadas nas esquinas dessa avenida.

Fora isso, o arqui-antigo Caminho do Carro para Santo Amaro, que era nada mais do que a rua Vergueiro, depois Domingos de Moraes, entrando pela atual avenida Senador Casemiro da Rocha, cruzando o córrego Paraguai e entrando pelos meandros do planalto paulista para chegar à velha vila. Quantas histórias esquecidas...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A NOVA LUZ E OS DELIRIOS DE KASSAB

Construções antigas e belas na "Nova Luz" - leia-se Santa Ifigênia, no caso.
O nosso querido prefeito Kassab, que tanto se importa com a população paulistana, que vive presa em congestionamentos, que toma ônibus caindo aos pedaços e pisa e cheira lixo o dia inteiro, quer - e já faz tempo - revitalizar o bairro da Luz (que, aliás, nem tem esse nome, mas sim o de Campos Elísios).

O bairro da Luz original foi na verdade zona suburbana por muito tempo e está situado na região além-linha, ou seja, depois de se cruzar os trilhos da velha Santos-Jundiaí vindo do centro velho da Capital. Já Campos Elísios apareceu por volta de 1878 como uma continuação bem mais chic do bairro de Santa Ifigênia - este surgido no final da Guerra do Paraguai (no final da década de 1860) - por causa da facilidade de embarque para as fazendas no interior nas estações da Luz e da Sorocabana. Hoje, uma mistura destes dois bairros mais do que centenários está sendo chamado de Luz (erradamente).

Por ter sofrido uma (relativamente) rápida deterioração, ambos os bairros mantiveram por muito tempo boa parte das velhas construções. Agora, com muitas delas bastante deterioradas, o que quer fazer é pô-las abaixo sumariamente (segundo li, com algumas exceções) para se construir inúmeros novos edifícios de forma a trazer para o local empresas para ocupá-los.

Pergunto: a quem interessa toda essa derrubada e a construção dos edifícios? Parece-me mais que somente à Prefeitura e às empresas construtoras. Não há grandes notícias de certeza de ocupação por empresas interessadas. A região tem ruas muito estreitas - não vi nenhum projeto para alargá-las, por exemplo. Mesmo as demolições até agora foram poucas. E muito do que foi demolido virou ponto de encontro dos chamados habitantes da cracolândia. Que, aliás, a cada dia que passa, aumentam sua área de "passeio" dentro desses bairros.

Por que não simplesmente restaurar tudo o que existe por lá em termos das propriedades? Seria mais barato e bonito. Aumentaria muito menos a população da região, causando menos impacto no trânsito e na demanda de água, gás, eletricidade etc. Há casarões por ali que são extremamente belos. Exemplos há diversos, mas basta ver os que ficam no largo Coração de Jesus, esquina com a Barão de Piracicaba.

O que se pode concluir é o de sempre: prevalecem os interesses econômicos e não os da população. Além disso, o aumento da concentração de tráfego e demanda pelos itens citados de infraestrutura certamente se tornarão problemas a mais para a já sofrida, conturbada e inchada cidade de São Paulo. É uma pena que tenhamos, um após outro, prefeitos que pouco se importam com o que devem fazer, mas sim com o que cismam de fazer.

Está na hora de a população se unir e dar um basta nisso tudo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

OS BONS TEMPOS. MESMO?


Corria o ano de 1945. Meu avô Sud era Diretor-Geral do Ensino do Estado de São Paulo e, apesar de seus esforços, não conseguia melhorar da forma que imaginava o ensino paulista. Em sua administração construíram-se algumas escolas pelo interior do estado, melhoraram-se algumas instalações - de acordo com os jornais da época - mas algumas escolas continuavam mal instaladas, e isto em plena Capital estadual.

Um dos professores fez um trabalho - possivelmente pedido por meu avô - e saiu fotografando os edifícios escolares paulistanos. Na verdade, parece ter visitado todos os que existiam no município então - e só relatou realmente os que tinham problemas. E, pelas fotos e comentários cáusticos desse professor não identificado, a situação de diversos prédios era bastante comprometedora.

A fotografia reproduzida acima, por exemplo, estava grampeada (ainda hoje está) no alto de um papel que era uma das páginas do relatório que ele apresentou. Por algum motivo, o relatório ficou nos arquivos pessoais de Sud e veio cair em minhas mãos. Na folha de papel, estava datilografado em tinta azul o texto abaixo, mantido na ortografia original:

Uma casa de colono de um sitio decadente a centenas de quilometros da capital?
Casa abandonada a beira da estrada, esquecida dos homens e amada dos morcêgos?
Lembrança de séculos idos, quando o avião, o submarino, o telefone, o rádio, eram fantasias dos livros de Julio Verne?
Pouso de tropeiros que vêm de longe, em demanda da humilde cidadezinha que se ergue no planalto?
Cenário trágico de algum conto de assombramento?
Nada disso.
O que se vê acima é o presente! É o século XX.
É o prédio de um grupo escolar da Capital de São Paulo.
Nele se preparam os pequeninos brasileiros para o Brasil maior de amanhã.
Nele labuta uma plêiade de professores!
Êle está situado a meia hora da Praça do Patriarca!
Chama-se Grupo Escolar João Teodóro!
Está situado à rua Joaquim Marra no. 20, em Vila Matilde.

O prédio, quase que certamente, não mais existe. E devia ficar a meia hora da praça do Patriarca... de trem da Central. A rua citada fica ao lado da estação da Vila Matilde.

Fica o registro de uma época.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

ERNESTO E A GLETTE

Palacete Jorge Street, em 1926, pouco antes das reformas que sofreu para abrigar a Faculdade.

Uma das ruas mais nobres da cidade de São Paulo na virada do século XX, a alameda Glette foi perdendo aos poucos seu casario e se transformando em rua de pequenas lojas de negócios e bares. Hoje, apenas algumas das construções que ela tinha ainda sobrevivem, algumas em más condições.

Começando na rua das Palmeiras, como continuação da rua Martim Francisco, a alameda Glette tem seu nome dado em homenagem ao alemão do mesmo nome, um dos loteadores do bairro de Higienópolis, este situado muito próximo ao início da rua. Termina em frente ao pátio da Sorocabana, na alameda Cleveland.
Era na Glette que ficava uma das garagens de bondes da Light e mais tarde da CMTC. A rua também abrigou os dois prédios da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo até o final dos anos 1960. Uma das casas, a mais antiga, era o Palacete Jorge Street. Estas construções não mais existem. Da última, sobrou apenas uma enorme figueira, esta tombada pelo patrimônio dentro do terreno - hoje um estacionamento - onde as construções existiram um dia, chamada hoje de "Figueira da Glette".

Ainda se preservam em pé algumas casas do final do século XIX, bem como o antigo Palácio do Governo, hoje sede de uma secretaria estadual, entre a rua Guaianases e a avenida Rio Branco. Um belo palacete também está ainda de pé na esquina da Rio Branco, do outro lado da avenida em relação ao ex-Palácio.

Meu pai, Ernesto Giesbrecht, morou, estudou e trabalhou na alameda Glette. Residiu ali numa casa dessas casas com janelas para a calçada, vários quartos, térrea, de mais ou menos 1940 até 1948, aqui, quando já estava casado. Ia estudar e depois trabalhar a pé, pois a Faculdade - ele fez Química - ficava no quarteirão ao lado. Também estudou, de 1934 a 1941, no Liceu Coração de Jesus - que também ficava na Glette, próxima ao seu final. Ernesto não era daqui, nasceu em Ponta Grossa e veio com os pais, aos treze anos de idade, no início de 1934.

Depois de 1967, quando a Faculdade foi transferida para a Cidade Universitária, ele, que já morava no Sumaré desde 1950, nunca mais voltou para a Glette, depois de trinta e três anos seguidos passados nela. Não havia mais nada a fazer ali. Sua antiga casa já havia sido demolida. O Liceu, ele havia terminado. O Liceu ainda está ali até hoje, sofrendo com os "nóias" que ficam vagando em volta dele, assustando alunos, professores e pais todos os dias. A Glette, quem diria, acabou no meio dos drogados.

sábado, 3 de julho de 2010

A URBANIZAÇÃO TRAUMÁTICA DE SÃO PAULO

Não muito distante da região descrita neste texto, esta rua mostra o último limite do município, em foto que tirei há uma semana atrás, praticamente no seu extremo noroeste. Ainda é muito bucólico, mas o "pogresso" chegará rapidamente. É só aguardar.

Pesquisando hoje em meus arquivos, eis que, para concluir a localização original de alguns córregos e rios na periferia do município de São Paulo, tenho de esquadrinhar velhos nomes de bairros e estradas para conseguir concluir algo palpável.

Como se muda nome neste país de Deus.

Coloco aqui algumas informações curiosas. No possível matagal que era a cidade em 1930, cortado por uma ou outra estrada de terra na zona noroeste do município, saibam todos que esta lêem que: a atual "Estrada Turística do Jaraguá" - que de turística não tem nada, parece brincadeira esse nome - se chamava Estrada do Ribeirão Vermelho. Isso, num trecho dela, no início; porque esta última fazia uma quebrada para leste e chegava à estrada do Mutinga (esta, hoje se chama avenida Mutinga, embora de avenida também não tenha nada). Nesse trecho da "quebrada", os nomes hoje são: rua Ribeirão Vermelho, rua Jurubim, rua Itamogi.

A Estrada do Jaraguá, que hoje continua se chamando assim no seu trecho mais perto da subida do morro do mesmo nome, hoje se chama, em seu trecho mais próximo à via Anhanguera, rua Jornalista Paulo Zingg. Com todo respeito a este senhor, que não conheci e do qual apenas sei que foi jornalista, a sua rua deveria ter continuado com o nome histórico antigo. Outro trecho da velha estrada se chama hoje rua Coronel José Rufino Freire.

O trecho ao norte desta última rua, que é o bairro Jardim Maristela, tinha ali a Chácara Maria. E o córrego que acompanhava a estrada do Ribeirão Vermelho nesse trecho era exatamente... o ribeirão Vermelho, só que com um alagado enorme, que foi contido com uma canalização feita a posteriori.

A via Anhanguera nem existia ainda. No lugar dela, que hoje naquela região faz uma curva para o sul, havia algumas estradinhas que foram em grande parte engolfadas pela própria abertura da rodovia em 1943. No meio delas, o córrego da Olaria. Um pouco mais ao sul, hoje há um canteiro enorme de obras ao longo da Anhanguera para a construção de um enorme viaduto de acesso para a avenida Mutinga.

Enfim, de matagal, exceto pequenos pontos isolados, a região não tem mais nada. É tudo urbano e feio. Ali, a transformação de rural para urbana foi traumática.

Isso não ocorreu apenas ali, claro. Um livro bastante grosso poderia ser escrito com textos como o acima, apenas para a cidade de São Paulo. Imagine para o resto do Brasil.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BROOKLYN PAULISTA BY GORNI

Foto: Antonio A. Gorni, junho de 2010

Meu amigo Antonio envia uma mensagem esta noite relembrando seus tempos de Brooklyn, São Paulo, nos anos 1970. Achei muito interessante; como sempre, ele escreve muito bem. Transcrevi-o. O texto todo abaixo foi escrito por ele:

Minha esposa encasquetou de comprar umas plantas numa loja que ela localizou em SP através da internet. O endereço era no Brooklyn. Coloquei-o no GPS e, ao chegar ao local... cadê? Não havia loja ou prédio nenhum lá, era só um muro cruzado pela linha de alta tensão que acompanha a avenida dos Bandeirantes. Mas havia uma abertura no muro e, lá dentro, um jardim e as cabanas do comerciante de plantas. Um jardim elétrico em plena SP...

Eu até já tinha visto esse jardim ao longo da linha de transmissão, mas nunca o havia visitado. Ao atravessar o quarteirão ao longo da linha, pude lembrar um pouco do velho ambiente do Brooklyn dos anos 1970 - que já não era nenhum arrabalde, mas ainda havia poucos carros na rua e muito terreno baldio, especialmente mais próximo da região da marginal. O quarteirão que não visitei não tinha prédios, ainda há quintais com churrasqueiras, puxadinhos, canteiros de flores e, para que não nos esqueçamos de nosso real habitat, mortais cercas elétricas para fritar eventuais intrusos.

De todo modo, fiquei contente em reencontrar um pouquinho do ambiente que via nas minhas excursões ciclísticas pelo bairro, quando buscava explorar um pouco da antiga hidrografia local. Aliás, outro dia, na TV Cultura, vi uma série sobre exploradores urbanos - que, a pé ou, quando muito de ônibus, exploram a geografia urbana de SP. Bom, se eu já achava o ambiente meio agreste há quarenta anos atrás, que dizer nos dias de hoje... Às vezes passo pelo Brooklyn em dias de semana, indo ou voltando de alguma visita técnica, e é decididamente claustrofóbico ver as grosas de carros que entopem as ruas.

Concrete dream flesh broken shell
Lost soul lost trace lost in hell!

King Crimson: Pictures of a City

domingo, 27 de junho de 2010

A DETERIORAÇÃO DE SÃO PAULO

Casa na rua João Moura, não muito longe das casas que já estão sendo demolidas para o prédio citado abaixo, em foto do ano passado, tirada por mim. Na mesma quadra.

A deterioração da cidade de São Paulo - e das grandes cidades em geral - segue a passos largos, sem dar sinal de esmorecimento.

Uma reportagem publicada hoje no jornal O Estado de S. Paulo, no caderno Metrópole, dá conta de que em uma quadra do bairro antigamente chamado de Cerqueira César - hoje, Pinheiros, mesmo - mais especificamente, a quadra formada pelas ruas João Moura, Galeno de Almeida, Cristiano Viana e Cardeal Arcoverde, teve alguns de seus imóveis vendidos para a contrução de um prédio de apartamentos (aparentemente, tipo loft, de oito andares - até que não tão alto assim), onde, entendo, terá frente para a rua João Moura e fundos para a rua Cristiano Viana.

Essa quadra ainda é "virgem", ou seja, não tem qualquer edifício construído com mais de dois andares, pelo que me recordo.

O texto tenta explicar como são feitas essas vendas - interesses mais das imobiliárias e das construtoras e incorporadoras do que mesmo dos donos dos imóveis, pelo que se entende. Claro que os donos concordam com a venda, não estão aqui dizendo que houve pressões insuportáveis para a venda - mas são em geral imóveis antigos, geralmente algo deteriorados (não conheço a situação de cada um deles, mas conheço aquela quadra).

O fato é que esta verticalização sem fim tende a deteriorar a cidade, por causa da quantidade de pessoas a mais vivendo por metro quadrado de área projetada, a necessidade de aumento de suprimento de água, energia elétrica, gás, segurança pública e de regulamentação de trânsito local, necessidade esta que nem sempre - ou melhor, quase nunca - é calculada a cada construção de um prédio que arbigará muito mais famílias do que as que atualmente lá vivem.

Também é interessante lembrar que essa quadra é cortada pela galeria do antigo córrego - ou rio - Verde, do qual tanto comentei neste blog em outras postagens. Seria por isso que prédios não foram construídas nela até hoje?

E todos são afetados com isto - tanto os vizinhos, quanto os habitantes da cidade como um todo, mesmo que morem longe do local. Acho que não preciso explicar o por quê desta afirmação. Os políticos se omitem, as construtoras é quem mandam, etc. etc. etc.. Sem pressão, haveria realmente a venda de tantos desses imóveis? Não - geralmente as pessoas procuram vender um imóvel quando precisam do dinheiro ou quando precisam se mudar dali para outro local.

Enfim, enquanto isso, a cidade vai perdendo sua história. Por coincidência, acabei hoje uma página na Internet - uma página, não um site - que mostra em breves pinceladas alguns dos detalhes históricos que ainda conseguem sobreviver na cidade de São Paulo. Para quem está interessado, basta ler (sim, ele está, pelo menos por enauqnto, inserido no site das estações ferroviárias, de minha autoria).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ESCOLHENDO A PIOR OPÇÃO

Até 1996, estas casas ficavam na antiga rua Miguel Isasa, estreita e que começava no largo da Batata, em Pinheiros. Desde lá são parte da avenida Faria Lima e se deterioram cada dia mais. Apenas aguardam o seu fim por uma opção que somente vai piorar as coisas: os edifícios "chiques" de escritórios (Foto Ralph M. Giesbrecht, 24/6/2010).

Hoje estive no largo da Batata. Como eu já falei antes aqui, o Largo da Batata, em Pinheiros, cidade de São Paulo, é um local meio indefinido, com um nome que jamais foi oficial - portanto, não procurem por uma placa com esse nome.

Ele se parecia mais com um pequeno largo antes de a avenida Faria Lima passar por ali, pegando o leito da rua Miguel Isasa e alargando-a até desaparecer todo o seu lado par. Hoje, o seu antigo lado ímpar foi renumerado (no lado par) para o leito da avenida.

Com isso, virou um canteiro de obras nos últimos anos, com as obas do metrô, da linha 4. A estação Faria Lima, já aberta e funcionando, era para ter o nome do antigo largo - mas nem na estação seu nome acabou sendo colocado. Logo ele será apenas uma lembrança longínqua na mente de poucos paulistanos, até desaparecer de vez.

O mesmo vai certamente ocorrer com as casas desse lado da Miguel Isasa - totalmente deterioradas, eram pequenas residências geminadas ou semi-geminadas que gradativamente foram se transformando em pequenas lojas, galpóes e oficinas. A sujeira do local é terrível. E não estou falando somente do pó das obras e do seu entulho. Falo de lixo jogado pelas pessoas que não se incomodam, mesmo, com a aparência das calçadas e das próprias casinhas.

A tendência, do lado da estação, é que elas sejam demolidas em pouco tempo. Não se sabe o que é pior: as casas e a sujeira de hoje ou os edifícios de escritórios que deverão surgir ali, tornando tudo totalmente impessoal e acabando com o trânsito de uma vez por ali.

No duro, mesmo, a solução dos utópicos sonhadores como eu e algumas pessoas que conheço seria a restauração das casinhas, a construção de jardins e a manutenção de uma limpeza impecável. Infelizmente, porém, a especulação imobiliária e a apatia do povo não vai permitir isso. Vão ficar as fotos que ingênuos como eu tiram de vez em quando, como a que está ali em cima desta postagem.

sábado, 5 de junho de 2010

NÃO DÁ PARA LER

Vila Itororó. Autor desconhecido.

Está mesmo na hora de se demitir todos os vereadores, deputados estaduais e federais, além dos senadores, e economizar para o Tesouro uma boa quantia de dinheiro. Afinal, eles não servem para nada. Além de — de acordo com a imprensa dos últimos 188 anos — constantemente aplicarem mal o dinheiro público, eles fazem leis que não são seguidas. Se não são seguidas, eles não servem para nada. Para que fazer leis que não são seguidas nem pelos políticos — ou principalmente por eles?

Basta abrir o jornal hoje. Na cidade de São Paulo, uma lei de 2003 determina que sejam abertas 31 centrais de triagens de lixo reciclável. Não estou aqui discutindo as vantagens ou desvantagens delas. Mas o fato é que elas não foram criadas, sete anos depois. Então, para que a lei? Também está escrito que o presidente Lula foi multado pela quinta vez por fazer propaganda política indevida. Ora, se ele já descumpriu a lei cinco vezes, o que faz pensar que ele não descumprirá mais? Principalmente porque a punição é a multa — que os políticos, sabe-se, jamais pagam. Enfim: para que serve essa lei? É melhor não gastarmos dinheiro pagando para pessoas fazê-las.

Ainda no jornal, a remoção das famílias que moram na Vila Itororó, na rua Martiniano de Carvalho, na Bela Vista. Tombada pelo Patromônio Histórico, construída nos anos 1920, era uma vila de casas tão comum (essa, na verdade, não era "comum", era diferente das outras, por suas características arquitetônicas únicas) então na cidade e habitada por diversas famílias. Está malcuidada, mas continua sendo habitada por moradores. Pô-los para fora por quê? (serão removidos para um prédio da COHAB ali perto.) O local vai ser transformado em centro cultural. Para quê? Se centro cultural desse cultura, o povo brasileiro seria o mais culto do mundo, pois tudo que é prédio velho, estação ferroviária, armazém, fábrica velha, vira centro cultural. E não somos cultos, não...

Enfim, se a função da vila é abrigar moradores, que os deixemos lá morando. Apenas coloquemos ordem na bagunça: sujeira e criminosos (se é que existem ali), não. E pronto, tudo resolvido, e que se abra para visitas de quem queira a vila. Afinal, vilas são públicas. Transformá-la em cinema e centro cultural, embora mantenha sua arquitetura, o que é ótimo, vai descaracterizá-la.

Seguindo adiante, pichadores foram surpreendidos emporcalhando um prédio na Consolação. A polícia foi chamada e um deles caiu no chão e foi levado ao hospital. Não morreu. Porém, o jeito que a imprensa publica essas coisas dá a nítida impressão de que os culpados são os policiais e quem os avisou, não esses idiotas que arriscam a vida para sujar e enfeiar a cidade. E o site da UOL de ontem condenava uma repórter de televisão que havia usado esse termo para se referir aos pichadores.

Enfim: é ótimo ler jornais pela manhã. Nós sempre nos surpreendemos com as coisas que cada vez parecem mais absurdas que lemos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A HISTÓRIA NUMA PORTA DE METAL


Hoje fui almoçar com um amigo em um restaurante na praça atrás da Biblioteca Municipal. Na volta, fomos a pé dali até a rua da Boa Vista, passando pela rua João Brícola.

Ali há uma curiosíssima e bela porta metálica no prédio de uma antiga agência bancária. Era do Banco Econômico, mas teria sido colocada ali por algum banco que ocupou o prédio antes desse.

Ela mostra moedas desde a época do Império até a época do cruzeiro - o primeiro cruzeiro (1941-67), claro. A última moeda embaixo à direita mostra a de 20 centavos (de cruzeiro) dos anos 1940.

Tal porta foi fotografada por minha esposa Ana Maria há quatro anos atrás quando fomos almoçar também com amigos num restaurante no largo de São Bento, o Girondino. A foto está acima.

É um prazer caminhar pelo centro velho e novo. Os prédios, em sua maioria antigos, são em grande parte muito bonitos e não tão altos. O predio do Banco do Brasil na esquina da rua da Quitanda com a Álvares Penteado, a antiga Casa Garroux na 15 de Novembro, a única casa que ainda sobra na rua 7 de Abril em frente à Conselheiro Crispiniano que hoje é um restaurante.

Há muito mais. Um passeio atento pelo centro leva pelo menos um dia inteiro.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

CORRENDO ATRÁS DO RABO

Terraplanagem do pátio da estação Tamanduateí do metrô em 2008 - Foto Julio C. Paiva

As notícias dos últimos dias, semanas, meses, anos, vão dando conta de qua a cidade de São Paulo está crescendo - ou até já cresceu - além da conta, além do que deveria ter crescido. Muito se fala que o metrô veio tardiamente para a cidade... é verdade, até certo ponto. Se considerarmos que metrô e trem metropolitano são a mesma coisa, a cidade possui linhas férreas há muito tempo. Desde quando ela era uma cidade de pouco menos de 100 mil habitantes.

Atualizando nomes, São Paulo já possuía linhas em 1867, quando a população era mínima. Quantos trens havia por dia cruzando a cidade de noroeste a sudeste (a Santos-Jundiaí)? Poucos é certo (um vindo e outro indo?), mas a cidade tinha, sei lá, 60 mil pessoas. Em volta de quais paradas da época havia demanda? Somente a Luz - onde os passageiros tinham de vir "de longe", do centro velho (Sé) e o que mais? Jundiaí! Nem Santo André, nem São Caetano... tudo foi se formando em volta das estações.

São Paulo começou a ter bairros ao longo da linha, mas somente em alguns pontos. A Lapa e a estação somente surgiram mais próximos do final do sévulo. Idem a Mooca.

Em 1875, abriu-se a Sorocabana, partindo de bem próximo à Luz. Mas a primeira parada era... Barueri, que também era um bairro (de Santana de Parnaíba) que estava se formando desde o início da construção da linha, três anos antes! As estações intermediárias - mesmo a Barra Funda - surgiram depois.

No mesmo ano, abriu-se a São Paulo-Rio, depois Central do Brasil. Partia do Brás, bem mais longe da Luz que a estação da Sorocabana, mas alcançável pelo trem da Santos-Jundiaí (SPR). A primeira estação era São Miguel, que era o nome da estação de Itaquera naquela época. Não havia nada ali, a localidade mais próxima era o bairro de São Miguel, sei lá quantos quilômetros para o norte (daí o nome da estação primitiva) e com acessos à estação certamente terríveis.

E foi se espalhando a cidade pelos braços da Sorocabana, SPR e Central. O problema: não foi somente por ali. Crescia rápido demais, por causa de diversos fatores e inclusive por ser a capital do Estado, para onde afluíam os ricaços da época que viviam nas fazendas do interior e que no início vinham com mais frequência, pois precisavam discutir seus assuntos com o governador e que, depois, passariam a aqui morar.

As linhas "estacionaram". Aumentou-se o número de trens diários fazendo o percurso mais próximo à capital (ou seja, os trens de subúrbio), aumentou-se o número de estações nas mesmas linhas, sem a criação de novas. Entre 1875 e 1957, não se criou nenhuma via férrea dentro do município, com exceção da Carris de Santo Amaro, que ligavam a Liberdade ao centro do então município de Santo Amaro, que depois virou linha de bonde, e a frágil Cantareira. Em meados dos anos 1960, ambas desapareceram, juntamente com as linhas de bondes elétricos, "mini-trens", hoje chamados de VLTs, mas que disputavam a via com os automóveis, ao contrário dos trens.

Em suma, a quilometragem de linhas férreas na cidade não cresceu um centímetro (exceto duplicações de linhas) até 1957, quando se criou a linha que ligava a estação Julio Prestes a Santo Amaro e dali a Santos, hoje linha 3 da CPTM.

Enquanto em 1875 a população da cidade não chegava a cem mil pessoas, em 1957, já passava de 2 milhões. E quando acabaram as citadas Cantareira e os bondes, a população já estava em, pelo menos, 3 milhões, se não mais, Confesso que não fui conferir estes dados de populações, mas, com as diferenças mostradas, detalhes nem são necessários.

Quando o metrô foi entregue em toda a sua extensão em 1975, cem anos depois da Sorocabana, a população já se espalhava por todo o município, com uma área quase o dobro da de 1875 (Santo Amaro havia sido anexado e Osasco, desanexado). Quantos metrôs seriam necessários para se preencher toda essa área? É verdade que os trilhos deste avançaram muito devagar após sua inauguração, mas, mesmo assim, a necessidade era tão grande que muito dificilmente seria alcançada - e dificilmente será alcançada - agora. Os custos são muito maiores pois naõ há áreas livres.

O que quero dizer é que é muito mais fácil se planejar uma cidade a partir de linhas implantadas em uma área escassamente povoada do que planejar linhas de trens em cidades já excessivamente populadas. Não dá. Por isso, a "superpopulação" no metrô e na CPTM anunciados nos últimos meses por quase todos os dias. Não há governo que dê conta. Que se desinche São Paulo. Que se pare a cidade, construções, etc. e se tente arrumar o que está aí. Vai ser bem difícil.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O ESTADO DE SÃO PAULO EM 1600

Nas minhas limitadíssimas capacidades com o programa de desenhos, tento comparar os limites do atual Estado de São Paulo (contorno em preto) com o que seriam os territórios das capitanias de São Vicente (esta dividida em duas porções) e a de Santo Amaro (no meio das duas porções da outra). Em vermelho, o que resultou disto, considerando-se a linha aproximada de Tordesilhas. Desconsiderei os territórios das capitanias em Estados como o Paraná, Minas e Rio. Estão localizadas os cinco municípios da época.

Como seria o Estado de São Paulo em 1600?

Em primeiro lugar, há que se definir o que chamaríamos de "estado de São Paulo" naquela época: havia a capitania de São Vicente, com delimitações em linha reta a partir mais ou menos da cidade de Macaé, hoje Estado do Rio de Janeiro até Caraguatatuba. Daí para o sul, a Capitania de Santo Amaro, até a ilha de Santo Amaro (Guarujá). E mais ao sul, da ilha citada até Cananéia, a segunda secção da Capitania de São Vicente - que abrigava o primeiro município constituído no Brasil, a atual cidade de São Vicente.

Se juntássemos os três, elas englobariam terras de cinco Estados hoje: São Paulo (menos o extremo norte), Minas Gerais (pequeníssima parte do sul), Rio de Janeiro (3/4 do atual), Mato Grosso do Sul (a metade sul) e Paraná (a metade norte). Porém, as capitanias chegavam em domínio apenas até parte do atual território desses Estados interior adentro: elas paravam no meridiano de Tordesilhas.

Tordesilhas passava, com extrema aproximação, onde hoje estão cidades como Olímpia, Catanduva, Bauru, Cerqueira César e Itararé. Portanto, o Mato Grosso do Sul de hoje estaria fora, assim como quase todo o Paraná (o meridiano passava próximo à atual Curitiba). Imagine então, isso seria o Estado naquela época, "dividido" em duas capitanias, sendo que uma delas tinha duas porções. No início do século XVII, elas se juntaram, absorvidas por São Vicente, mas, em 1600, não eram um bloco conjunto.

Nesse bloco dividido havia cinco vilas (os municípios de hoje): São Vicente, Santos, Itanhaém, Cananéia (criada em 1600) e São Paulo. Este último era o único município no planalto. A cidade era, então, "boca-de-sertão": além dela, para oeste e norte, nada existia, a não ser três pequenos povoados a cerca de 30-40 km da futura capital: Aldeia de Carapicuíba, Aldeia de Barueri (não nos locais onde hoje está a sede dos dois municípios) e Parnaíba, além de povoados que hoje são bairros da Capital: Pinheiros, Penha, Freguesia do Ó. Os dois últimos às margens do Tietê. Talvez alguma outra coisa, extinta hoje ou não.

Enfim: se considerássemos São Paulo de 1600 como tendo os limites que tem hoje, a civilização não passaria de 40 km a oeste da sua atual capital. Dali para a frente, o "sertão desconhecido povoado por índios". Curioso que esta expressão se manteve até próximo de 1920, portanto 320 anos mais tarde: até o ano de 1900, essa expressão começava, coincidentemente ou não, no já de há muito então extinto meridiano de Tordesilhas.