Ontem fiz sessenta e três anos de idade. Muito, né?
Eu sempre fui uma pessoa que conhecia a família que tinha. Quando digo "conhecia", refiro-me ao fato de ser a família inteira. Ou, pelo menos, queria saber quem eram. Sabia, desde os nove, dez anos de idade, praticamente toda a árvore genealógica da família de minha mãe. A da minha avó materna era enorme e facilitava o fato de que em todos os aniversários dela (17 de julho) e de sua irmã Angélica (a tiozona de todos, que não teve filhos - 25 de novembro), além do aniversário de casamento desta mesma tia (28 de setembro), eram comemorados na casa de minha avó na Vila Mariana (às vezes na casa de minha tia), por causa de meu avô Sud, que sempre ajudou a todos e mesmo depois de sua morte então, as festas foram na casa dele, até a morte de minha avó (1987).
Já a família de meu pai eu conhecia pouco. Claro que conhecia os irmãos dele e meus primos, mas indo para a parte de meus tios-avós, era mais difícil. A família de minha avó paterna estava em grande parte em Joinville e a de meu avô, espalhada por Minas Gerais e Rio de Janeiro; poucos moravam em São Paulo.
Mesmo assim, fazia o possível. Alguns, conheci somente como quadros na parede. Meu próprio avô, do qual acabei sendo biógrafo (Sud Mennucci), era um quadro na parede, como o eram também tios, primos, bisavós e até trisavós.
Quando nasci, em São Paulo (13 de novembro de 1951), o que acontecia pelo mundo? O jornal O Estado de S. Paulo mostrava em sua primeira página uma conferência nas Nações Unidas, cuja relação dos ocidentais com os russos era difícil por causa da Guerra da Coreia, que comia solta. Na Argentina, Peron acabava de ser reeleito presidente e Evita ainda estava viva. Os egípcios bloqueavam a guarnição britânica no Canal de Suez. O porto de Alexandria estava paralisado. Na Inglaterra, o rei George VI convalescia nos jardins do palácio, mas ele morreria poucos meses depois, já em 1952. Truman e Churchill encontrar-se-iam em janeiro em Washington. Só se falava em guerra, mas a Segunda Guerra já havia acabado havia seis anos.
Eu fui crescendo - em 1956, fui para os Estados Unidos com meus pais, onde passamos um ano, por causa de um curso que ambos fizeram, Eu fui para o Kindergarten em Urbana, Illinois. Disso eu já me lembro, e de mais muita coisa.
Em 1958, entrei no primeiro ano primário do Colégio Porto Seguro, base da minha vida. Eu sempre gostei de lá, onde passei boa parte dos meus onze anos seguintes. Meus maiores amigos são gente de lá.
Sempre gostei de "fazer anos" com festinhas em casa. Alguns colegas vinham de carro com meu pai - que me buscava todos os dias na escola na Praça Roosevelt no seu Studebaker 51 (mais tarde, nas duas Kombis que ele teve em seguida) - para almoçar e participar mais cedo da festa. Eu ganhava presentes, que punha sobre a minha cama. Eu apertava os embrulhos - se eram duros, eu os abria, pois certamente eram brinquedos. Se eram moles, eram certamente roupas, que eu largava lá sem abrir mesmo.
O dia de meu aniversário foi sempre esperado com alguma ansiedade por mim. Apesar disso, no ano de 1988, nesse dia morreu um de meus maiores amigos do Porto Seguro: Roland Müller, fato que, por diversas razões, fiquei ciente apenas quatro meses depois.
Em 1962, com a Copa do Mundo, comecei a não somente gostar de futebol, mas a ser fanático por ele. Antes disso, não sabia de nada do assunto. Minha mãe me pôs em escola de dança (Poças Leitão, na rua Joaquim Floriano), aulas de ginástica na ACM (rua Nestor Pestana), piano (em casa), jiu-jitsu (na rua da Consolação) e me forçava a ler livros. Nunca adiantou, Durei pouco nos cursos e gostava mesmo era de ler revistas em quadrinhos. Acabei, depois de fuçar muito, tendo a coleção completa de O Pato Donald e passei também a ler as revistas do Super-Homem (hoje, DC Comics - compro até hoje, desde 1959).
Hoje em dia, posso dizer que há muito não sou mais um fanático por futebol. Sem saudosismo, posso garantir, o futebol valeu a pena acompanhar mais até a Copa de 1970. Depois disso, foi mudando muito e para pior, em minha opinião. Ainda assisto os jogos de meu time, o São Paulo, mas a Seleção Brasileira é apenas uma sombra de seu passado já faz muitas décadas. Para isso, muito contribuiu a falta de ligação afetiva dos jogadores com os times em que jogavam. Na Seleção, então, os convocados hoje em dia são praticamente desconhecidos, jogando na Europa e outros continentes. Acabou a magia, para mim.
Enfim, quando escrevi três livros, entre 1997 e 2003, um a biografia de meu avô Sud e os outros dois sobre ferrovias paulistas, minha mãe se espantou com o fato - como poderia eu, péssimo em redação e leitor de histórias em quadrinhos poderia estar escrevendo livros de história?
Terminei o Porto Seguro em 1969, no ano seguinte comecei a estudar Biologia na USP, fiquei apenas seis meses e larguei, para cursar química nos quatro anos seguintes na mesma universidade. Ali conheci, no primeiro ano, a mulher de minha vida - Ana Maria, linda, charmosa, inteligente e carinhosa. Casamo-nos em julho de 1974.
Trabalhei três meses no final de 1974 e início de 1975 na GTE Sylvania, para mudar para a Shell Química entre 1975 e 1980, passando para a DuPont em 1980, onde fiquei até 1995 e, depois, um ano na De Nora, em 1995 e 1996. Foi a época em que descobri parte do mundo: Estados Unidos e pequena parte da Europa.
Minha avó Maria morreu em 1987. Meu pai em 1996. Nesta época, comecei a ficar fanático pela história das ferrovias brasileiras, depois de uma viagem a Porto Ferreira, onde encontrei uma estação que já não funcionava como tal e trilhos enferrujados e não utilizados desde 1989. Quis saber por que isso havia acontecido.
Também em 1996 comecei a trabalhar com minha esposa, na firma que ela fundou para trabalhar com realocação de estrangeiros para empresas multinacionais. Estamos nisto até hoje.
Mamãe ainda vive, lúcida com 91 anos, mas a enorme família dela que conheci hoje se resume a meia dúzia de idosos, nos quais eu ainda não me incluo.
O que quis dizer com isto é que minha vida não daria um livro como o que fiz de meu avô Sud e como poderia fazer, se hoje tivesse tempo, sobre meu bisavô Wilhelm Giesbrecht, que viajou o Brasil inteiro projetando e construindo ferrovias e rodovias.
Meus três filhos me dão orgulho, sendo que a menina Veronica casou-se e hoje vive na Toscana com seu italiano. Ganhei um neto, Guilherme (filho de meu primeiro filho, Alexandre), hoje com seis anos - nome de seu tetravô, que fundou a "dinastia" Giesbrecht em terras brasileiras. Ganharei outro, soube hoje que será um menino, lá por março ou abril. Filipe continua solteiro, mas com uma namorada muito bonita, inteligente, culta e simpática.
Mas foi uma vida boa até agora. Conheci boa parte do Brasil justamente estudando as ferrovias nos últimos 18 anos. Tive meus bons e maus momentos, mas valeu a pena. Espero que continue valendo por mais muitos anos.
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
COISAS PRA FAZER EM JOINVILLE QUANDO SE É UM FLAGELADO DA GOL
Texto - todo ele - enviado por Antonio Augusto Gorni em 24/9/2012 às 00:52, em plena madrugada.
Fim de tarde ensolarada de sexta-feira no aeroporto de Joinville,
check-in feito, só esperando o pouso do avião da Gol que me levaria
para SP. Falando francamente, não gosto da Gol e sempre prefiro viajar
pela TAM – não é aquela maravilha, mas me parece uma empresa mais
séria. Só a Gol oferecia um horário mais cedo para SP, e caí em
tentação para começar mais cedo o fim de semana. De repente, o aviso
da Gol nos alto-falantes, informando que o avião não havia conseguido
pousar devido a um tal de “vento de cauda” e que ele iria tentar
novamente em alguns instantes. “Bom”, pensei, “vamos pensar positivo.
Daqui a pouco ele desce”. Curiosamente, durante minha otimista espera,
aviões da TAM e da Azul pousavam e decolavam alegremente. Fiquei
intrigado – por que eles eram imunes ao tal “vento de cauda”? Enquanto
isso, o avião da Gol arremetia pela segunda vez. Aí vem o golpe final:
“Vôo Gol para SP cancelado”...
A empresa não dá maiores detalhes sobre o problema. Um dos flagelados,
veterano da batalha que é viajar de avião no Brasil, informa que o
aeroporto de Joinville, entre o mar e a serra, às vezes é afetado por
um vento de cauda meio traiçoeiro. Os aviões da TAM e da Azul,
respectivamente feitos pela Airbus e Embraer, seriam mais
automatizados e permitiriam um pouso seguro sob tais circunstâncias,
ao contrário dos Boeings da TAM, que não possuiriam tal nível de
automação. Seja por essa razão ou outra, o fato é que as perspectivas
agora são soturnas: o início do fim de semana foi perdido, agora é ir
para o hotel, pegar um ônibus às 3:30 para Curitiba e, de lá, o avião
para SP – se é que o aeroporto de Curitiba, líder nacional em
fechamento por falta de teto, estiver operacional no momento da
decolagem. A coisa promete...
Uma vez acomodado no hotel, desço ao lobby e acabo integrando um grupo
de flagelados que decide renunciar à eventual gororoba oferecida pela
Gol e prefere jantar melhor num bom restaurante. Meno male, o incômodo
causado pelo atraso é amenizado pelo papo divertido, boa comida e pela
beleza das garotas de Joinville. De repente, quase no final da
refeição, absorto na conversa, sou abordado por uma linda catarinense
que me pede para soprar em seu bafômetro. Hã? Cuma?? Pra que
bafômetro? Estou a pé e, depois do quarto chope, não há dúvidas sobre
os resultados do teste. Mas trata-se de uma campanha educativa e, OK,
vamos gastar inutilmente um bafômetro. O resultado já esperado
valeu-me o adesivo mostrado na foto, que me foi pregado no peito.
Bizarramente, talvez influenciado pelo jeitão alemão da cidade,
lembrei-me dos distintivos amarelos que os judeus eram obrigados a
usar na Alemanha nazista. Então é isso? Primeiro os bêbados, depois os
fumantes, a seguir os torcedores do Grêmio São-Carlense?? Bem que meu
pai criticava minha mania pela II Guerra Mundial. E não, não rolou
nenhuma caroninha, fui a pé para o hotel.
Às 3:30, pontualmente, seguimos para Curitiba e, após os clássicos
problemas com uma fila de check-in que não andava por falta de
atendentes, finalmente embarcamos e segui para SP sem maiores
problemas. Será que aprendi a lição?
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sábado, 14 de abril de 2012
AS NUVENS NEGRAS DE 1912
Cédulas de mil-réis que circulavam pelo Brasil em 1912O que ocorria há cem anos? Claro, o Titanic afundou. Já estou cansado do caminhão de melancias (melancias, não: Titanics...) que me tem jogado a mídia nos últimos dias sobre o assunto. Então, lembrei-me de outras coisas com relação às minhas pesquisas usuais e resolvi aqui colocar.
Há cem anos, 1912, eram inauguradas dezenas de estações e diversos trechos de linhas férreas pelo Brasil afora. Especificamente nos Estados de São Paulo, de Minas Gerais e do Mato Grosso do Sul (na época, era Mato Grosso), foram inaugurados: o trecho entre as estações de Guaxupé e de Itiguassu, passando por Guaranésia, no ramal de Passos da Mogiana, em Minas; as estações de Monteiros e de Mendonças, no prolongamento do ramal de Jataí da Mogiana, hoje desaparecido; o trecho entre Amália e Cajuru, do ramal de Cajuru, também da Mogiana e também desaparecido.
Também foram abertas estações da Companhia Paulista no trecho entre Colina e Barretos, de nomes Palmar e Frigorífico; Izar e Posto Rangel, na E. F. do Dourado e, também nesta ferrovia, parte do ramal de Jaú-dourado, entre Posto Rangel e Itapuí - então chamada de Bica de Pedra; na linha principal da E. F. Araraquara, foram abertas as estações de Cedral, Engenheiro Schmidt e São José do Rio Preto; na E. F. Funilense, as estações de Conchal e de Pádua Salles.
Além disso, os prédios das já existentes estações de São Carlos, Dois Córregos e Americana foram inaugurados ñas suas versões atuais, desaparecendo os prédios antigos. E, finalmente, foram abertos dois trechos da E. F. Noroeste do Brasil no Mato Grosso, um entre Três Lagoas e Água Clara, outro entre Pedro Celestino (hoje Imbirussu) e Porto Esperança, que seriam unidos dois anos depois, passando por Campo Grande.
Foram, portanto, entregues nessa época quilômetros e quilômetros de linhas férreas pelo país. Ainda houve outras entregas de trechos em outros estados nesse mesmo ano, não mostradas aqui. Bem diferente de hoje, onde muito se anuncia e pouco se constrói.
Em São Paulo, a cidade não contava ainda com mil automóveis pelas suas ruas, mas em compensação ela era cortada por inúmeras linhas de bondes elétricos.
Meu avô Sud Mennucci, sempre citado neste blog, começou o ano como professor primário em Piracaia e terminou em Dourado. Na primeira ele chegou a cavalo e na segunda, de trem. A linha férrea para Piracaia somente chegaria lá no ano seguinte. Sua futura esposa, Maria, a qual ele ainda não conhecia, ia e voltava todos os dias de trem de Porto Ferreira a Pirassununga, para estudar na Escola Normal de lá. Já meu avô paterno Hugo Giesbrecht estava se formando, terminando o terceiro ano do que hoje se chama segundo grau, no Colégio Dom Pedro II no Rio de Janeiro, para tentar iniciar uma faculdade de engenharia no ano seguinte. Sua futura esposa, que ele ainda não havia conhecido, Rosina, ainda brincava com bonecas em Joinville.
Lá no sul do país, irrompia a terrível Guerra do Contestado. No norte de Mato Grosso, hoje Rondônia, a ferrovia Madeira-Mamoré era entregue pela Brazil Railway depois de anos e anos de construção e muitas mortes. Na Europa, nuvens negras começavam a se espalhar pelo continente com a eclosão da Segunda Guerra Balcânica, prenúncio da Grande Guerra que chegaria dois anos depois, mudando completamente o mundo de então.
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domingo, 30 de maio de 2010
A MÃO NEGRA
Francisco Ferdinando de Habsburgo, (quase) Imperador da Áustria, rei da Hungria, etc. , etc. , etc., no distante 1910.Há exatos cem anos, meu bisavô Giesbrecht morava em Teófilo Ottoni tentando administrar a complicada E. F. Bahia a Minas e fazendo projetos para a sua continuação Minas Gerais adentro. Meu avô Sud tentava começar sua vida profissional de professor primário no distrito de Serrinha (hoje município de Serrana, próximo a Ribeirão Preto) e aguardando todos os meses o salário para gastá-lo todo comprando livros na única livraria de Cravinhos, ali perto. Meu bisavô Daniel tocava a companhia telefônica em Porto Ferreira, e a família Klein tentava tocar a vida lá em Joinville, comandados por meu bisavô Nicolau, aquele que vendia velas com carrinho de mão nas ruas da cidade.
Os brasileiros mais abastados, como os "paulistas quatrocentões" esperavam o embarque para Paris, "cidade das luzes" e, naquela época, local para onde todos iam para depois dizerem que foram, numa viagem de navio de quase um mês só de ida e uma estadia que geralmente não durava menos de três meses. Os Estados Unidos não eram uma opção.
As revistas da época publicavam fotografias da "elite" de então em trajes com ternos e cartolas, os homens quase sempre com barbas grandes e as mulheres com roupas apertadas e desconfortáveis. Também nelas se podia ler os anúncios, os "reclames" de remédios milagrosos que curavam qualquer mal, o que podia ser comprovado sempre por depoimentos de "curados" que vinham do distante interior do Nordeste brasileiro. Provavelmente, para que v. não conseguisse chegar até eles para tentar saber se era mesmo verdade.
O mundo era em branco e preto, a não ser naqueles dias quando alguém o pintava com pincéis que lhe davam cores nem sempre realísticas... as locomotivas a vapor silvavam pelos trilhos brasileiros, e como se construíam ferrovias nessa época! A Paulista estava chegando a Bauru, os gaúchos a Caxias do Sul; a São Paulo-Rio Grande, comandada pelo poderosíssimo Percival Farquhar e seu misterioso sócio francês Hector Legru, construía a ferrovia lá no sul de Santa Catarina - ou seria do Paraná? O Contestado iria ser decidido somente seis anos mais tarde... tinham pressa, pois o ministro argentino Zeballos ameaçava o Brasil com uma invasão e a ferrovia para o sul precisava estar pronta antes disso! Por isso, avançava pela selva ao longo do rio do Peixe tentando chegar ao rio Uruguai pelo meio do nada.
Lá na Europa, enquanto a realeza da Inglaterra, Alemanha, Rússia, Itália, Turquia, Espanha e Portugal visitavam-se mutuamente escondendo as pistolas, o imperador de contos de fadas da Áustria, Francisco José de Habsburgo, tentava salvar seu vasto reino apresentando seu sobrinho-neto, o Arquiduque Francisco Ferdinando, como seu herdeiro, já que seu único filho Rodolfo havia se matado em Mayerling vinte e um anos antes.
Era esse Francisco, de bigodes armados e olhos azuis, que seria apresentado pelo jornal O Estado de S. Paulo em sua edição de segunda-feira, 30 de maio de 1910, como um homem de "cabello cortado á escovinha e já um pouco grisalho", um hábil general e com a confiança do Exército austro-húngaro, mas sem a simpatia, a bondade e a misericórdia de seu tio-avô. Seria um "novo Bismarck".
Não, não seria. Quatro anos e um mês mais tarde, ele seria assassinado com sua esposa nas ruas de Serajevo, então território austríaco, por um estudante de nome Gavrilo Prinzip, pertencente à sociedade secreta sérvia Mão Negra. Este episódio daria início à Primeira Guerra Mundial, também chamada de "Grande Guerra", "Guerra do Kaiser" e outros nomes. Foi esta a guerra que mudou o mundo para sempre, muito mais do que a segunda, esta, na verdade, nada mais do que uma continuação da primeira.
No seu final, em novembro de 1918, já não existiria mais a realeza em seu país, bem como na Alemanha, Rússia e Portugal (esta última, aliás, caiu em 1910 mesmo). A da Turquia e da Espanha não durariam muito, também. Só a da Inglaterra ficou, junto com a da Itália, esta encerrada em 1946. Aliás, no caso da Áustria, nem a realeza ficou, nem o país - o que sobrou da Áustria foi somente o país dos alemães que nela viviam, muitíssimo menor do que o Império, herdeiro do milenar Sacro Império Germânico.
É sempre muito interessante ler as notícias-previsões um dia escritas e que nunca se concretizaram. A vida de meus avôs e bisavôs jamais seriam as mesmas por causa da "guerra para acabar com todas as guerras".
sábado, 20 de março de 2010
UM ASSOBIO NA NOITE
Em fotografia de 1922, o jovem Ernesto, então com menos de um ano, posava sorridente e muito contente no seu jipinho Paige. Essa foto deve ter sido tirada em Ponta Grossa ou em Joinville.Há cerca de uma semana, ouvi ao fundo, entre o ruído de duas televisões ligadas no piso superior da minha casa, um assobio duplo. Para tentar descrevê-lo, um assobio em duas notas: uma mais alta, depois uma mais baixa. Deve ter sido da televisão que estava mais distante de onde eu estava naquele momento.
O fato é que o assobio era igualzinho ao assobio de meu pai quando chegava em casa ou na casa de meus avós. Eu até havia me esquecido dele, mas eis que, no meio de diversos ruídos, ele apareceu e despertou minha memória adormecida.
Meu pai faleceu há quase quatorze anos. Morreu num sábado de manha, na casa dele, onde morava com a minha mãe e minha irmã. Foi, infelizmente, o cume de um ano (1996) em que ele passou cada vez pior, principalmente depois de uma operação mal conduzida no mês de março. Ele, que já não vinha muito bem de saúde antes, depois dessa operação piorou bastante.
Ele provavelmente teve um AVC que o matou de forma fulminante. Tinha então setenta e cinco anos e uma vida bem vivida e bem sucedida. Era uma pessoa amada por todos: sempre de bom humor, atendia a todos com um sorriso. Comia de tudo e adorava cerveja. Filho de “alemães” nascidos em Jaguariúna, SP e em Joinville, SC, foi criado em Ponta Grossa, PR, e com treze anos de idade veio com a família – seu pais, um irmão e uma irmã, para São Paulo, onde foi estudar no Liceu Coração de Jesus.
Dali Ernesto Giesbrecht – este era seu nome – foi estudar na Faculdade de Ciências e Letras da USP, na alameda Glette, no curso de Química. Na época, foram três anos de curso. Depois de formado, chegou a Professor Catedrático de Química Inorgânica na mesma faculdade, cargo que depois foi alterado para Professor Titular.
Viajou a trabalho e a turismo pelo Brasil e pelo mundo inteiro, quase sempre com minha mãe. Quando morreu tinha acabado de completar cinquenta anos de casamento, em festa que foi dada na casa de meus avós maternos, na Vila Mariana.
Eu me lembro dele sempre com muita saudade. Era ele que preparava o café da manhã em casa: até casar, eu sempre comia ovos com bacon e ovos pela manhã, acompanhados por uma xícara de Nescau. Sim, muito calórico, deve ter me afetado bastante no índice de colesterol, mas era muito bom. Aliás, o nível de colesterol de papai era baixíssimo, principalmente se lembrarmos que ele comia bastante.
Como disse, sempre que ele chegava na casa de parentes e na nossa própria casa, ele soltava seu assobio registrado. Eram tempos bons.
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domingo, 24 de janeiro de 2010
VOLTA A JOINVILLE
Depois de muitos anos, visitei novamente a terra natal de minha avó paterna e sua família: Joinville. Cheguei junto com meu filho Filipe lá por volta de cinco da tarde da última sexta-feira, dia 22. Infelizmente chovia sem parar. De qualquer forma, hospedado no centro da cidade num hotel antigo na rua 15 de Novembro, deu para perceber como a cidade mudou.
A quantidade de bons e renomados hotéis me surpreendeu. Para uma cidade de quase 500 mil habitantes (segundo estimativa do IBGE para 2005), é uma concentração bastante grande. Basta comparar com uma cidade como Ribeirão Preto, com pouco mais de 560 mil habitantes, que não tem nem sombra disso, embora seja maior. Eu diria que nesse quesito Joinville suplanta até mesmo a cidade de Campinas, com mais de 1 milhão e 70 mil pessoas. Creio que isso mostra a força do parque industrial da região de Joinville, única cidade no Brasil que é maior do que a capital de seu Estado, no caso Santa Catarina.
Como a maioria das cidades catarinenses que conheço, a limpeza e a conservação dos imóveis, bem como a preponderância das casas em estilo alemão, prevalecem. A cidade continua muito bonita e ainda lembra em grande parte a cidade que conheci nos anos 1950 e 1960, quando ainda era uma criança.
Mas como chove na cidade. Choveu até pelo menos o meio-dia do sábado, quando deixamos a cidade rumo a São Francisco do Sul. No centro histórico, demos uma volta grande, passando por praticamente todas as suas ruas, com casas antigas, algumas ainda do século 19. Muito bonita. A estação ferroviária fica na entrada do porto da cidade. Ainda se conserva basicamente como era em 1906, quando foi inaugurado o prédio e a própria estação. Ainda funciona como uma. Uma pessoa da ALL lá estava acompanhando as manobras das composições, debaixo de uma chuva que não parava. Hoje a estação está cercada por um muro, que ultrapassamos depois de passarmos uma cancela com guarda na guarita.
As fotos que eu possuo do prédio mostram uma estação muito bem conservada externamente. Não está assim hoje, apesar de utilizada: as marcas de infiltração de água devem ter piorado com as últimas pesadas chuvas. Há plantas crescendo nas extremidades do telhado, mostrando que a umidade anda alta. Mas é um belíssimo prédio.
Finalmente, para seguir até Camboriu, passamos por Araquari, pequena cidade, hoje município, e também demos uma entrada para visitar a estação, pequenina e hoje ocupada pelo Corpo de Bombeiros Voluntário da cidade. Cidade muito tranqüila, onde apesar de ter composições passando pela linha principal, tem num de seus velhos desvios uma pequena locomotiva a vapor e um carro de passageiros exposto.
É uma satisfação voltar ao leste de Santa Catarina depois de muitos anos e conhecer cidades que eu jamais havia visitado, como as duas últimas.
A quantidade de bons e renomados hotéis me surpreendeu. Para uma cidade de quase 500 mil habitantes (segundo estimativa do IBGE para 2005), é uma concentração bastante grande. Basta comparar com uma cidade como Ribeirão Preto, com pouco mais de 560 mil habitantes, que não tem nem sombra disso, embora seja maior. Eu diria que nesse quesito Joinville suplanta até mesmo a cidade de Campinas, com mais de 1 milhão e 70 mil pessoas. Creio que isso mostra a força do parque industrial da região de Joinville, única cidade no Brasil que é maior do que a capital de seu Estado, no caso Santa Catarina.
Como a maioria das cidades catarinenses que conheço, a limpeza e a conservação dos imóveis, bem como a preponderância das casas em estilo alemão, prevalecem. A cidade continua muito bonita e ainda lembra em grande parte a cidade que conheci nos anos 1950 e 1960, quando ainda era uma criança.
Mas como chove na cidade. Choveu até pelo menos o meio-dia do sábado, quando deixamos a cidade rumo a São Francisco do Sul. No centro histórico, demos uma volta grande, passando por praticamente todas as suas ruas, com casas antigas, algumas ainda do século 19. Muito bonita. A estação ferroviária fica na entrada do porto da cidade. Ainda se conserva basicamente como era em 1906, quando foi inaugurado o prédio e a própria estação. Ainda funciona como uma. Uma pessoa da ALL lá estava acompanhando as manobras das composições, debaixo de uma chuva que não parava. Hoje a estação está cercada por um muro, que ultrapassamos depois de passarmos uma cancela com guarda na guarita.
As fotos que eu possuo do prédio mostram uma estação muito bem conservada externamente. Não está assim hoje, apesar de utilizada: as marcas de infiltração de água devem ter piorado com as últimas pesadas chuvas. Há plantas crescendo nas extremidades do telhado, mostrando que a umidade anda alta. Mas é um belíssimo prédio.
Finalmente, para seguir até Camboriu, passamos por Araquari, pequena cidade, hoje município, e também demos uma entrada para visitar a estação, pequenina e hoje ocupada pelo Corpo de Bombeiros Voluntário da cidade. Cidade muito tranqüila, onde apesar de ter composições passando pela linha principal, tem num de seus velhos desvios uma pequena locomotiva a vapor e um carro de passageiros exposto.
É uma satisfação voltar ao leste de Santa Catarina depois de muitos anos e conhecer cidades que eu jamais havia visitado, como as duas últimas.
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