Locomotiva a vapor soltando vapor na estação de Moema, Santa Rita do Passa Quatro, em 1917. Esse local hoje é impossível de ser fotografado - foi arrasado e transformado em canavial
A notícia é de janeiro de 1916. Cem anos atrás. As locomotivas a vapor eram unanimidade no Brasil - somente mais tarde viriam as elétricas e as diesel.
Havia locomotivas de diversas bitolas, distribuídas entre ferrovias de tráfego público e ferrovias de usinas e fábricas para uso próprio.
As de menor bitola eram as de 60 centímetros de bitola. No caso, as que rodavam no ramal de Santa Rita do Passa Quatro, que ligava, nesta época, a estação da cidade de Porto Ferreira às estações de Santa Rita seguindo até a pequena estação de Moema (depois Bento Carvalho) num trajeto de pouco mais de trinta e seis quilômetros.
Aí, alguém notou que estava havendo descarrilamentos "constantes" no ramal. Por que seria? O leitor (ou leitores) do jornal O Estado de S. Paulo davam a sua opinião: no último deles, ocorrido logo depois que o trem deixou o pátio ferroviário de Porto Ferreira, o "vagão número 19" teria tombado porque se tratava de um vagão (de passageiros? de carga? Na época, se chamava vagão a qualquer um deles - hoje, para passageiros, seria "carro") que fora transformado da bitola métrica para de sessenta centímetros. Falta de estabilidade nas curvas, portanto. E afirmaram que foi a destreza do maquinista que evitou "desastres pessoais".
A notícia repetiu-se três dias depois, falando agora de dois descarrilamentos no ramal, E que houve pânico, mas que ninguém saiu machucado (parece que tratava-se de carros de passageiros, mesmo). Pediam inspeção na linha por parte da Paulista.
E, depois, pelo menos nos jornais, não se voltou a falar do assunto. Teria sido isto mesmo um caso tão importante assim ou apenas reclamações muito fortes de quem não tinha mais o que fazer?
Hoje, cem anos depois, reclama-se muitas vezes nos jornais nos trens metropolitanos de São Paulo e de outras cidades... dos menos de 3 mil quilômetros de linhas com trens de passageiros que sobraram das 38 mil que existiram em 1960. Estas, hoje, trafegando com trens elétricos ou a diesel.
Trens na região do ramal de Descalvado ou do de Santa Rita? Nem sonhando. Nem há trilhos... as estações das duas linhas de bitolinha de 1916 já foram quase todas demolidas. Sobraram duas.
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segunda-feira, 28 de março de 2016
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
IMAGENS DO FIM DO RAMAL FERROVIÁRIO DE DESCALVADO
Este local, em Araras, chama-se "Facão". A fotografia dos trilhos seguindo de Araras para Remanso, ao fundo, foi tirada pouco antes de seu arrancamento em 2002, de sobre o viaduto na via Anhanguera. Hoje, nem sombra de linha por ali. Foto RMG.
Esta região do Estado de São Paulo foi a que primeiro me chamou a atenção. A região entre Cordeirópolis e Descalvado, pode ser percorrida, tendo as cidades sempre à sua direita quando você percorre a via Anhanguera entre os quilômetros 153 e 227 - exceto as duas cidades das extremidades, Cordeirópolis e Descalvado, que ficam à esquerda e não tão próximas à estrada quanto as da direita. Além disso, há o fato de Porto Ferreira ser um dos berços da minha família,
A linha em 1996, em Porto Ferreira, segue para a estação, vinda de Laranja Azeda; ao fundo, fará uma curva para a esquerda para chegar à estação da cidade. Também nada sobrou. Foto RMG.
A saída para Porto Ferreira e Descalvado é a mesma, no quilômetro 227. A primeira cidade, para a direita. A segunda, para a esquerda.
Por que este trecho? Na verdade, todas essas cidades foram formadas ao longo da inicialmente chamada de Estrada do Mogy-Guassu - que, depois, teria rapidamente o seu nome alterado para Ramal de Descalvado. Estamos, aqui, falando de uma estrada de ferro construída entre 1876 e 1881.
Inicialmente, esta era a linha-tronco da Companhia Paulista de Estradas de Ferro - começava em Jundiaí e seguia até Porto Ferreira, passando por Cordeiros (então um povoado no município de Limeira e que, a partir de 1944, tornou-se o município de Cordeirópolis) e terminando às margens do rio Mogi-Guaçu no Porto do Ferreira. De lá deveria cruzar o rio e seguir para Ribeirão Preto.
Por problemas políticos, a linha dobrou 90 graus a oeste e terminou em Descalvado, sem jamais cruzar o rio.
De Cordeiros, saía um ramal para Rio Claro, que,a partir de 1916, já esticado até São Carlos (e mais tarde, atingindo Colombia, às margens do rio Grande, na divisa São Paulo-Minas), foi transformado na nova linha-tronco e o ramal de Descalvado passou a existir com ramal.
Com isso, a eletrificação do tronco da Paulista, construída entre 1920 e 1928, entre Jundiaí e Rincão, não seguiu para o ramal. Os carros-restaurante pararam, com o tempo, de seguir, como antes seguiam, para Descalvado e o nome "ramal da fome" passou a ser usado para o trecho.
A decadência ferroviária chegou. Os ramais sofreram primeiro. O de Descalvado teve os trens de passageiros extintos entre Pirassununga e Descalvado em 1976 e entre Cordeirópolis e Pirassununga, em 1977. E, nos últimos anos, eram trens mistos, apenas. Isso significava trens sem horários de chegada definido.
Cargas pelo ramal seguiram até 1989, diminuindo ano a ano até seu fim.
Quando comecei a estudar o ramal, em 1996, ele não possuía movimento algum, apenas, eventualmente, de autos de linha. O mato existia, mas não tão intenso, pois a FEPASA era incompetente em 1996, mas ainda cuidava mal e mal do mato sobre os trilhos, mesmo em linhas sem tráfego.
Foto do Jornal Regional de 9/6/1995: a estação já estava desativada havia dois meses. Dois dias depois, a cabine de controle seria destruída.
Nesse mesmo ano, os trilhos foram arrancados dentro da cidade de Descalvado. Em 1997, foram arrancados entre Descalvado e Araras. Em 2002, já com tudo abandonado, arrancaram os trilhos até Cordeirópolis. As estações que sobraram de pé foram abandonadas. De promessa em promessa, hoje, 2015, apenas Araras, Leme, Pirassununga, Porto Ferreira e Descalvado têm suas ex-estações em boa forma e com outros usos. Duas delas viraram terminais de ônibus.
Elihu Root e Laranja Azeda estão em péssimo estado de conservação. Remanso, São Bento, Souza Queiroz e Butiá, estações rurais, foram totalmente demolidas.
As fotografias que mostro mostram uma pequena parte das tragédias no rama hoje extinto.
Fotografias do mesmo jornal publicadas no mesmo dia da que está mais acima. Abandono total num prédio que deveria estar fechado e trancado, mas que foi invadido sob os olhos das autoridades.
Cordeirópolis sofreu o primeiro golpe em 1991, com o famoso botequim de madeira construído em 1914 no centro da plataforma triangular da estação sendo destruído por um incêndio criminoso. Em abril de 1995, a estação foi fechada. Passageiros passaram a se utilizar apenas da plataforma para embarque e desembarque, passando a pagar as passagens do trem do tronco dentro dos carros de passageiros. Dois meses depois, a estação, já invadida, teve seus móveis roubados, depredações e documentos que ainda estavam no prédio espalhados pelo chão. Logo em seguida, outro incêndio, em 11 de junho desse mesmo ano, praticamente destruiu o velho prédio da cabine de comando da estação. A partir daí, o abandono da estação só foi piorando. Hoje, todo o telhado e o piso de madeira que sustentava o andar superior, bem como a escadaria de madeira, não existem mais. A estação é apenas uma carcaça de tijolos. Data de sua construção: 1876. Uma história de 140 anos jogada no lixo.
As outras fotografias, de minha autoria, mostram a linha em Porto Ferreira e em Araras, respectivamente em 1996 e em 2002, hoje, apenas uma saudade.
sábado, 25 de abril de 2015
FAMÍLIA
Angélica (em pé), Constança e Daniel, em foto cerca de 1915 em Porto Ferreira
.
Continua sendo difícil para mim arranjar algo que me inspire a escrever neste blog. A última postagem foi há três dias atrás. O motivo, já escrevi aqui diversas vezes: os problemas sérios causados a nossas vidas por diversos fatores, mas, hoje, é pior: um governo incompetente, desonesto e corrupto que está acabando com as nossas vidas.
O problema é: estarei certo? Há gente, certamente, que discorda de mim. E não serão poucas. Vão dizer que eu sou um fracassado - não, eu não sou um fracassado, tive uma vida normal (defina "normal", por favor), ou seja, nunca fui rico nem pobre. Nunca fui pessimista, sempre fui otimista. Hoje, não vou dizer que sou pessimista, mas estou cruzando a linha entre o primeiro e o segundo.
Será que é a idade: Sessenta e três anos. Tenho uma saúde razoável, mas sempre lembro que fui operado já duas vezes do coração. Mas já não posso jogar futebol. Antes disso, teria realmente que fazer um longo tempo de exercícios até conseguir começar aos poucos. E não jogaria três, quatro hoeras seguidas como jogava antigamente aos domingos de manhã., por exemplo.
Minha família é pequena Minha esposa sempre me deu e continua me dando apoio. Meus filhos têm seus problemas, mas também tocam suas vidas. Gostam de nós e gostamos deles.
Eu sempre fui muito ligado à família. Quando era pequeno, e até meus trinta e cinco anos, tinha muito contato com eles: primos, tios, pais, avós. Hoje, tenho minha esposa e três filhos. Tenho minha mãe. Tenho meus primos, com os quais me dou bem mas pouco vejo porque estão longe, em Santa Catarina. Contato, quase sempre por telefone e eventualmente vi facebook e e-mails.
Eu gostava quando a minha família era enorme - e estou falando de uma parte dela, dos Silva Oliveira. Eu nem tenho esse nome, nem minha mãe tem, embora seja filha de uma delas. Como eles levaram suas vidas? Meu bisavô português nasceu em 1846. De todos os meus quatro bisavôs, era de longe o mais velho. Era português, de Trás-os-Montes e veio para o Brasil com aproximadamente vinte e cinco anos, ainda solteiro. Trabalhou no interior de São Paulo, como peão de obras. Sei que trabalhou na Comapnhia Paulista de Estradas de Ferro, no ramal de Descalvado, Provavelmente foi por isso que se fixou em Porto Ferreira. A cidade passou a existir em 1880, quando a linha férrea chegou ali, mas ele logo em seguida mudou-se para lá. Ou já estava por ali, vai saber.
Ele se casou em 1885, com uma irmã de um amigo seu que provavelmente conheceu já no Brasil, Casou-se por procuração e conheceu sua esposa quando ela chegou ao Brasil, já como sua mulher. E deu certo. Havia vonte e cinco anos de diferença entre eles. Em 1886 já tiveram o primeiro filho (Manuel, como todo bom português) e tiveram treze no total, o último em 1916, Flavio, quando ele tinha setenta e um anos.
Daniel era Oliveira. Oliveira Carvalho, na verdade. Sua mulher era Silva. Os filhos eram Silva Oliveira. somente uma delas, minha tia Angélica, que era Oliveira Carvalho, sabe-se Deus por que. Em Porto Ferreira, foi ele que trouxe as linhas telefônicas (1909). Trabalhou também no cartório. Foi um dos autonomistas do município, criado em 1896 - as reuniões eram em sua casa.
Treze filhos e filhas. Com exceção de dois, que morreram cedo (uma, Madalena, com treze dias e o outro. Lollio, de pneumonia, com vinte e um anos), todos vieram para a capital para morar, em épocas diferentes. Muitos ficaram e morreram em São Paulo, como minha avó Maria, por exemplo, a que se casou com Sud Mennucci em Porto Ferreira e que com ele veio morar na Vila Mariana, em São Paulo, em 1925.
Os outros onze: Manuel foi para São Paulo, morou no Belém, teve um sítio no Embu e acabou voltando para Porto Ferreira, onde foi prefeito na segunda metade dos anos 1940. Depois, doente, parece que voltou para São Paulo. Morreu com Alzheimer, ou algo do tipo. Luiza foi infeliz com o marido, com quem se casou aos 14 anos. O marido acabou morrendo depois de lhe dar quatro filhos e ela ficou sem nada. Meus avós a ajudaram a vida toda; ela morou com eles, depois em outros locais, com filhos ou em Mogi das Cruzes. Morreu na Capital. Joaquim morreu jovem, mas casado e com três filhos. Morava em São Paulo. Angélica morou muito tempo em São Simão, pois seu marido era de lá. Mudou-se para São Paulo, onde morreu com 95 anos. Lollio morreu em Porto Ferreira. Era músico e professor. Como já disse, morreu de pneumonia. Não havia penicilina. Minha avó sempre contava que ela foi descoberta pouco tempo depois de sua morte. Madalena nem conheceu o mundo.
Olimpia nasceu na virada do século XIX para o XX. Casou-se com um Mussolini, alfaiate em São Paulo. Morreu perto dos noventa anos na Capital. Mario morreu perto dos sessenta. Casou-se e teve uma filha. Moravam na Vila Mariana. Urbano também veio para São Paulo. Casou-se e teve quatro filhas. Seu concunhado era Jean Villin, de quem sempre falo. Homero veio para São Paulo com a esposa, que era de uma familia (Sotero), do Vale do Paraíba. Tiveram dois filhos. Morreu perto de fazer setenta anos, em Piracicaba, onde foi morar depois de deixar a Capital. Esther nunca se casou. Era professora de musica. Sempre morou com minha avó, depois que minha bisavó faleceu, em 1932. Flavio, o mais novo de todos, também veio para São Paulo, morou com minha avó (que era irmã dele, mas também passou a ser mãe, depois que minha bisavó Constança morreu), depois se casou e ficou em São Paulo, também na Vila Mariana, onde teve dois filhos. Voltou para Porto Ferreira e foi vereador. Morreu em 1982, de infarto.
A influência que tive na vida foi sempre dos Silva Oliveira. Conheci todas as pessoas que citei acima, exceto meus dois bisavós, Madalena, Lollio e Joaquim. Sobram muito poucos deles hoje. Mamãe está viva, com 95 anos. Das famílias Mennucci, pequeníssima no Brasil, tive pouco contato, nem meu avô conheci, e Guesbrecht, que, apesar de grande, morava espalhada pelo Brasil. E tinha os Klein, de minha avó Rosina, casad com meu avô Giesbrecht, dos quais tive algum contato também.
Isso pode não interessar para ninguém que me lê, mas para mim, ajuda-me a não falar dos problemas que citei acima. Mas continuo a achar que nada como uma boa família. Todos com seus problemas, com seus defeitos, mas sempre fui muito bem tratado.
Hoje as famílias são bem menores, ninguém é louco de ter treze filhos mais. Porém, fico imaginando uma mesa com quinze pessoas, no almoço e no jantar, numa pequena cidade do interior paulista, com fogão a lenha, sem eletricidade, sem telefone, sem celulares, sem computador, i-pads e i-pods, há cem anos atrás, com as crianças pegando o trem para fazer a Escola Normal de Pirassununga todos os dias, indo e voltando sozinhas.
.
Continua sendo difícil para mim arranjar algo que me inspire a escrever neste blog. A última postagem foi há três dias atrás. O motivo, já escrevi aqui diversas vezes: os problemas sérios causados a nossas vidas por diversos fatores, mas, hoje, é pior: um governo incompetente, desonesto e corrupto que está acabando com as nossas vidas.
O problema é: estarei certo? Há gente, certamente, que discorda de mim. E não serão poucas. Vão dizer que eu sou um fracassado - não, eu não sou um fracassado, tive uma vida normal (defina "normal", por favor), ou seja, nunca fui rico nem pobre. Nunca fui pessimista, sempre fui otimista. Hoje, não vou dizer que sou pessimista, mas estou cruzando a linha entre o primeiro e o segundo.
Será que é a idade: Sessenta e três anos. Tenho uma saúde razoável, mas sempre lembro que fui operado já duas vezes do coração. Mas já não posso jogar futebol. Antes disso, teria realmente que fazer um longo tempo de exercícios até conseguir começar aos poucos. E não jogaria três, quatro hoeras seguidas como jogava antigamente aos domingos de manhã., por exemplo.
Minha família é pequena Minha esposa sempre me deu e continua me dando apoio. Meus filhos têm seus problemas, mas também tocam suas vidas. Gostam de nós e gostamos deles.
Eu sempre fui muito ligado à família. Quando era pequeno, e até meus trinta e cinco anos, tinha muito contato com eles: primos, tios, pais, avós. Hoje, tenho minha esposa e três filhos. Tenho minha mãe. Tenho meus primos, com os quais me dou bem mas pouco vejo porque estão longe, em Santa Catarina. Contato, quase sempre por telefone e eventualmente vi facebook e e-mails.
Eu gostava quando a minha família era enorme - e estou falando de uma parte dela, dos Silva Oliveira. Eu nem tenho esse nome, nem minha mãe tem, embora seja filha de uma delas. Como eles levaram suas vidas? Meu bisavô português nasceu em 1846. De todos os meus quatro bisavôs, era de longe o mais velho. Era português, de Trás-os-Montes e veio para o Brasil com aproximadamente vinte e cinco anos, ainda solteiro. Trabalhou no interior de São Paulo, como peão de obras. Sei que trabalhou na Comapnhia Paulista de Estradas de Ferro, no ramal de Descalvado, Provavelmente foi por isso que se fixou em Porto Ferreira. A cidade passou a existir em 1880, quando a linha férrea chegou ali, mas ele logo em seguida mudou-se para lá. Ou já estava por ali, vai saber.
Ele se casou em 1885, com uma irmã de um amigo seu que provavelmente conheceu já no Brasil, Casou-se por procuração e conheceu sua esposa quando ela chegou ao Brasil, já como sua mulher. E deu certo. Havia vonte e cinco anos de diferença entre eles. Em 1886 já tiveram o primeiro filho (Manuel, como todo bom português) e tiveram treze no total, o último em 1916, Flavio, quando ele tinha setenta e um anos.
Daniel era Oliveira. Oliveira Carvalho, na verdade. Sua mulher era Silva. Os filhos eram Silva Oliveira. somente uma delas, minha tia Angélica, que era Oliveira Carvalho, sabe-se Deus por que. Em Porto Ferreira, foi ele que trouxe as linhas telefônicas (1909). Trabalhou também no cartório. Foi um dos autonomistas do município, criado em 1896 - as reuniões eram em sua casa.
Treze filhos e filhas. Com exceção de dois, que morreram cedo (uma, Madalena, com treze dias e o outro. Lollio, de pneumonia, com vinte e um anos), todos vieram para a capital para morar, em épocas diferentes. Muitos ficaram e morreram em São Paulo, como minha avó Maria, por exemplo, a que se casou com Sud Mennucci em Porto Ferreira e que com ele veio morar na Vila Mariana, em São Paulo, em 1925.
Os outros onze: Manuel foi para São Paulo, morou no Belém, teve um sítio no Embu e acabou voltando para Porto Ferreira, onde foi prefeito na segunda metade dos anos 1940. Depois, doente, parece que voltou para São Paulo. Morreu com Alzheimer, ou algo do tipo. Luiza foi infeliz com o marido, com quem se casou aos 14 anos. O marido acabou morrendo depois de lhe dar quatro filhos e ela ficou sem nada. Meus avós a ajudaram a vida toda; ela morou com eles, depois em outros locais, com filhos ou em Mogi das Cruzes. Morreu na Capital. Joaquim morreu jovem, mas casado e com três filhos. Morava em São Paulo. Angélica morou muito tempo em São Simão, pois seu marido era de lá. Mudou-se para São Paulo, onde morreu com 95 anos. Lollio morreu em Porto Ferreira. Era músico e professor. Como já disse, morreu de pneumonia. Não havia penicilina. Minha avó sempre contava que ela foi descoberta pouco tempo depois de sua morte. Madalena nem conheceu o mundo.
Olimpia nasceu na virada do século XIX para o XX. Casou-se com um Mussolini, alfaiate em São Paulo. Morreu perto dos noventa anos na Capital. Mario morreu perto dos sessenta. Casou-se e teve uma filha. Moravam na Vila Mariana. Urbano também veio para São Paulo. Casou-se e teve quatro filhas. Seu concunhado era Jean Villin, de quem sempre falo. Homero veio para São Paulo com a esposa, que era de uma familia (Sotero), do Vale do Paraíba. Tiveram dois filhos. Morreu perto de fazer setenta anos, em Piracicaba, onde foi morar depois de deixar a Capital. Esther nunca se casou. Era professora de musica. Sempre morou com minha avó, depois que minha bisavó faleceu, em 1932. Flavio, o mais novo de todos, também veio para São Paulo, morou com minha avó (que era irmã dele, mas também passou a ser mãe, depois que minha bisavó Constança morreu), depois se casou e ficou em São Paulo, também na Vila Mariana, onde teve dois filhos. Voltou para Porto Ferreira e foi vereador. Morreu em 1982, de infarto.
A influência que tive na vida foi sempre dos Silva Oliveira. Conheci todas as pessoas que citei acima, exceto meus dois bisavós, Madalena, Lollio e Joaquim. Sobram muito poucos deles hoje. Mamãe está viva, com 95 anos. Das famílias Mennucci, pequeníssima no Brasil, tive pouco contato, nem meu avô conheci, e Guesbrecht, que, apesar de grande, morava espalhada pelo Brasil. E tinha os Klein, de minha avó Rosina, casad com meu avô Giesbrecht, dos quais tive algum contato também.
Isso pode não interessar para ninguém que me lê, mas para mim, ajuda-me a não falar dos problemas que citei acima. Mas continuo a achar que nada como uma boa família. Todos com seus problemas, com seus defeitos, mas sempre fui muito bem tratado.
Hoje as famílias são bem menores, ninguém é louco de ter treze filhos mais. Porém, fico imaginando uma mesa com quinze pessoas, no almoço e no jantar, numa pequena cidade do interior paulista, com fogão a lenha, sem eletricidade, sem telefone, sem celulares, sem computador, i-pads e i-pods, há cem anos atrás, com as crianças pegando o trem para fazer a Escola Normal de Pirassununga todos os dias, indo e voltando sozinhas.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
MEMÓRIA DE PORTO FERREIRA, SP
Vista aérea da cidade - Sem data
.Do meu acervo particular, originalmente de Sud Mennucci, meu avô, e que morou na cidade entre 1914 e 1921. Minha avó Maria da Silva Oliveira era de lá, onde se casaram em 1917. Vale a pena dar uma olhada nas reproduções abaixo.
Jornal - 1916

Convite em forma de calendário. A convidada é minha mãe, Astrea, ainda "alive and kicking" - 1944 (verso)
Jornal satírico - 1915
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sud mennucci
sábado, 29 de novembro de 2014
A LÍNGUA PORTUGUESA SOBREVIVERÁ?
Em agosto de 1919, a linha-tronco da Sorocabana terminava na estação do Brejão, a oitocentos quilômetros de São Paulo e hoje chamada de Alvares Machado. Estava ela 14 quilômetros à frente da de Presidente Prudente e 42 de Indiana. Faltavam ainda 91 quilômetros para a linha chegar a Porto XV de Novembro, ou a estação de Presidente Epitácio, hoje.
Tudo o que está à frente de Indiana, hoje, ou seja, 133 quilômetros de linha, está abandonado. A concessionária ALL não a usa há anos. Mas em 1919, quase cem anos atrás, embora a linha estivesse funcionando até Brejão, parecia haver uma chefia do trecho de 42 quilômetros à frente da estação de Indiana nesta estação. Pelas notícias dos jornais da época, era em Indiana que se tomavam as decisões naquela terra ainda tomada pela selva e pelos índios... e eventuais fugitivos da justiça, além dos primeiros colonizadores que iam chegando.
Enquanto isto, em Porto Ferreira, no ramal de Descalvado da Companhia Paulista das Estradas de Ferro, a cerca de, sei lá, uns 600 quilômetros de Indiana em linha reta, um homem de 27 anos de idade chamado Sud Mennucci sustentava sua família - esposa e uma filha de um ano e meio de idade - vivendo como repórter autônomo e como professor primário no Grupo Escolar da cidade - escola que hoje leva seu nome.
Mas o que é que tem Sud Mennucci a ver com a estação de Indiana e com o assunto deste artigo que hoje escrevo?
Eu estava procurando dados sobre a estação de Indiana, inaugurada no ano anterior (1918) nos arquivos do jornal O Estado de S. Paulo e achei, na mesma página em que se publicou algo sobre a longínqua Indiana, um dos inúmeros artigos que Mennucci escrevia para diferentes jornais, inclusive o atual Estadão. O artigo versava sobre o descaso dos brasileiros com a língua portuguesa.
Li o artigo, achei interessante e notei que, enquanto a linha da Sorocabana foi degradada em grande parte nestes últimos noventa e cinco anos, o descaso com a língua portuguesa também piorou e muito. As relações são apenas estas.
O que dizia meu avô Sud neste artigo? Nada de muito diferente do que percebemos hoje. Ontem mesmo, recebi de um amigo, pela Internet (Sud não tinha esse recurso em 1919), as "pérolas do ENEM" desde ano. Já há alguns anos aparecem esses e-mails, coleções de frases escritas nesse exame nacional que serve como classificatório para a maioria das faculdades e que são frases que, de tão mal escritas, em muitas delas nem se consegue entender o que o sujeito quer dizer.
"Cei que gostaria que você passa-se o Natal em casa". Acabo de inventar a frase, mas há dois erros inacreditáveis nela e que foram extraídos das novas "pérolas do Enem". E se fossem duas pessoas? Eu "çaberia" que vocês "passa-sem" o Natal em casa? Olhem só o drama da língua portuguesa - ou brasileira, pois ela começa hoje a ser muito diferente já da original de Portugal.
Vale lembrar que, em 1919, o analfabetismo no Brasil era superior a 70%. O ensino era melhor do que hoje, mas havia falta de escolas públicas para um povo muito mais ponre, que não podia pagar por escolas particulares, que também não eram muitas. Hoje o analfabetismo é considerado oficialmente como sendo inferior a 10% (e é incrível que ainda exista), mas muitos especialistas falam que o número real pode chegar a 30%, se considerarmos as pessoas que sabem apenas assinar o próprio nome.
Esse analfabetismo de antes e de agora seriam uma das causas do nosso desapego à própria língua de nosso país? Pode ser. Porém, Sud escreveu sua opinião sem citar a altíssima taxa de então. O Brasil tinha então 25 milhões de habitantes - hoje tem 190. Na sua opinião, era a língua, apesar de tudo, a única coisa que mantinha o país coeso.
Quais seriam as outras caracteísticas que faziam com que um país fosse também uma nação e que pudesse manter a sua nacionalidade, mesmo quando ele havia eventualmente perdido sua liberdade? Sud mencionou três exemplos: a Polônia, a Boêmia (que passou, com o fim da guerra mundial, um ano antes, a se chamar Tcheco-Eslováquia ao se seprar do Império Austro-Húngaro) e a Finlândia. Todos países que não eram independentes até a eclosão da guerra de 1914-18, mas que já o haviam sido em tempos remotos e que conseguiram, duzentos, trezentos ou mais anos depois recuperar sua independência. E conseguiram-nas porque tinham em cada território uma só raça (hoje diríamos etnia), uma só língua e uma continuidade geográfica (sem separações territoriais).
Mas o Brasil não tem essa continuidade? Sud alegava que sim, mas que, como era (e ainda é) muito grande, não havia comunicações entre o Norte e o Sul (na época, somente se ia do norte para o sul por navios marítimos, fluviais, e cavalos, por péssimas estradas, quando as havia). E as etnias... bem, havia diversas etnias e raças, como as há até hoje. Era por causa disso que Sud achava que fortalecer a língua era fundamental.
Ele não falava da língua inglesa, que o brasileiro passou a adorar, principalmente a partir do estabelecimento dos Estados Unidos como modelo e como superpotência após a Primeira Guerra. Falava do francês, língua mais apreciada pelas ricas famílias da época, queiam passar férias na Europa e não em Nova York. Quanto ao inglês da Inglaterra, apesar da grande influência deles durante o século XIX, eles não tiveram por algum motivo a mesma força que os americanos tiveram no século XX.
Reparem: a grande maioria das lojas, empresas, estabelecimentos comerciais e escritórios que temos - têm nomes ingleses, por que é "chic". Por que isto não acontece nos países de língua espanhola da América Latina, que sofrem as mesmas influências que nós? Sud não explica isto.
Porém, Sud defende que um americano, de nome John C. Branner, então Presidente Emérito da Lelland Stanford University, alertou os brasileiros sobre o problema da língua, pois os americanos começavam, com a destruição da Europa e a ascendência de Tio Sam, a inundar o mercado brasileiro com seus produtos. E preservar a língua ajudaria a preservar ao país sem ameaçar sua integridade. E era o próprio Branner que falava que os americanos eram ignorantes em relação ao que se passava fora de seu território e que se começassem a pensar em aprender alguma língua para se comunicar com a América não-inglesa, escolheriam facilmente o espanhol, pois, para eles, era tudo igual - embora Branner soubesse que o Brasil era diferente.
Precisávamos tomar uma atitude, segundo Sud:
"Para ser-se capaz de tal gesto seria preciso ter-se o orgulho da propria lingua, o amor e o respeito pelo proprio falar. Eo brasileito não o tem. Será possivel?
Tanto o é que nós, ha muito tempo, não fizemos mais nada do que deturpar o nosso idioma. É um facto doloroso, que está ás vistas e á analyse de todo o mundo: estamos esphacelando o portuguez, com o desprezo de gente que se sente apodrecer por dentro (...)" e continuava, num texto não tão curto.
O português da transcrição é o da época. Aliás, muito mais fácil do que o de hoje, sem quase acentos, etc. As reformas ajudaram a deturpar nossa língua. Nestes cem anos houve pelo menos três. Pensem: se já havia gente que se preocupava com a deterioração de nossa língua há 95 anos, imaginem hoje...
terça-feira, 25 de novembro de 2014
VINTE E CINCO DE NOVEMBRO
Angélica, foto c. 1915 - sentados, meus bisavós, pais dela. Em Porto Ferreira
.
Eu já escrevi aqui que conhecia muito bem a árvore genealógica de minha família, principalmente dos Silva Oliveira (a família derivada de meus bisavós portugueses, Daniel de Oliveira Carvalho (1846-1928) e Constança da Silva Oliveira (1896-1932)), que se casaram em Porto Ferreira, SP, antes que se conhecessem um ao outro.
Por procuração, Daniel e Constança casaram-se em 1885, Daniel como noivo e um irmão de Constança como noiva por procuração. Constança chegou somente algum tempo depois, de navio, vinda de Portugal.
Já eram pais em 1886. Em 1916, tiveram seu décimo-terceiro e último filho (Flávio, 1916-1982). Um deles, ou melhor, uma delas, a quinta filha, foi Angélica Carvalho de Oliveira (a única que não tinha o sobrenome Silva Oliveira, sabe-se lá por que). Nascida em 1897, como todos os irmãos e irmãs em Porto Ferreira, formou-se (também como todos os outros irmãos, menos uma, que morreu bebê, a misteriosa Madalena) professora primária na Escola Normal de Pirassununga.
Madalena foi a sétima filha. Viveu dezessete dias, Nasceu em 1899 e morreu em 1900. Viveu em dois séculos (bom, a não ser que se considere a forma castiça de se designar o século, que começa sempre no final 1 (2001) e termina com final zero (2100)). Nada praticamente se sabe de Madalena, a não ser que morreu. De que? Por que? Por que o tabu nas histórias de família de se falar destes casos?
Casa da rua Vergueiro 2024, (a da esquerda, que não tinha garagem mas jardim e tinha uma escadaria do portão ao primeiro piso, que não aparece na foto). Pouco antes da demolição, em 1969. O casal sobre a garagem da casa vinha eram... os vizinhos
.
Enfim. Angélica casou-se em 1916 com Antonio Siqueira de Abreu, num casamento em Porto Ferreira duplo: no mesmo dia e local, mais um irmão, Joaquim da Silva Oliveira, casou-se com Deolinda Bergström Lourenço, gerando a família Lourenço de Oliveira. A festa deve ter sido grande. Considerando-se que, na época, a cidade não chegava a 3.000 habitantes de população, a foto da feta com todos os presente, tirada em alum quintal, seja lá urbano ou rural, é muito significativa.
Siqueira - era assim que todos os chamavam - também era filho de portugueses e era de São Simão, SP, não muito longe do "Porto". Era universitário, formado em Farmácia e em Odontologia. Angélica e Siqueira foram morar ali. Não tiveram filhos. Não conseguiram, segundo se contava. Tornaram-se os "tiozões", os célebres segundos pais de todos os sobrinhos.
Tio Siqueira (Que eu conheci muito bem) e tia Angélica (idem), moraram em São Simão até cerca de 1939, quando por problemas políticos - Siqueira foi prefeito lá em meados dos anos 1930 - resolveram deixar a cidade e vir para a Capital, onde estavam morando praticamente todos os irmãos de Angélica, sobrinhos etc. Angélica era diretora do Grupo Escolar de São Simão. Foi transferida para outro Grupo em São Paulo, mas não foi esse o motivo de terem se mudado.
Não sei se Siqueira continuou a ser dentista em São Paulo. Desde que me lembro deles, estavam aposentados já (meados de 1955). Havia três festas anuais para eles. Uma, a 11 de agosto, aniversári de Siqueira. Outra, a 25 de novembro, aniversário de Angélica. E outra, talvez esta a mais tradicional das três, o seu aniversário de casamento - 28 de setembro. Eu fui praticamente a todas elas. Era impossível não ir, salvo se estivesse viajando, ou doente. Numa dessas festas, a do casamento, Siqueira chegava à casa de Maria - esta festa era sempre feita na casa da irmã de Angélica, minha avó, e dizia, com as mãos para o alto: "O Sud está aqui!" Isto passou a ser dito na primeira festa dada depois da morte de meu avô Sud, marido de Maria, em julho de 1948.
Era fantástico. A família praticamente inteira comparecia. Imagine-se os descendentes de doze irmãos (fora Madalena a própria Angélica e Lollio, que morreu solteiro com vinte e poucos anos e era músico). Lollio era um retrato na parede. E uma ou outra história já muito antiga, já que ele morrera pelo menos trinta anos antes de meu nascimento.
Hoje é 25 de novembro, fez-me lembrar de uma dessas festas - a do aniversário de Angélica. Incrível como, depois de vinte e um anos de sua morte (em 1993 - Siqueira faleceu em 1977), ainda possa me bater na memória não somente essa data, quanto as outras duas. Eram realmente pessoas muito amadas.
Finalmente, para constar: depois de casados, moraram em São Simão em endereço para mim desconhecido - mas tenho foto da casa, sei que era de esquina e de fundo para o córrego do vale, hoje uma avenida. Em São Paulo, moraram na Vila Romana (rua Guaicurus, 77, casa que não conheci, mas que até uns trinta anos atrás ainda existia, tendo sido depois derrubada), depois na rua Vergueiro 2024 (esplêndida casa, demolida pelo metrô, ficava a meio quarteirão do largo Ana Rosa e se fosse hoje reconstruída no mesmo local, ficaria no meio da pista direita da rua - que na época era estreita, pista única, mão única sentido cidade, cheia de ônibus que faziam o segundo andar da casa balançar, pois o que separaca o primeiro do segundo piso eram travas de madeira com assoalho de tábuas). De lá mudaram-se em 1969, para a rua Nicolau de Souza Queiroz (o número não lembro, mas parece que a casa ainda existe), quase em frente à rua Apeninos. Nesta casa morreu tio Siqueira. Ou já teria sido na casa seguinte? Não consigo me lembrar exatamente.
Com isso, tia Angélica mudou-se para uma casa na rua Ambrosina de Macedo, 51, muito próxima à rua Cubatão. Ficando doente sem poder mais andar devido a uma queda em idade avançada, Angélica mudou-se para a casa de minha avó Maria, sua irmã, na rua Maracaju, 58 - a meio quarteirão da casa da Ambrosina. Morreu ali com 95 anos em 1993.
Saudades deles. Muitas.
.
Eu já escrevi aqui que conhecia muito bem a árvore genealógica de minha família, principalmente dos Silva Oliveira (a família derivada de meus bisavós portugueses, Daniel de Oliveira Carvalho (1846-1928) e Constança da Silva Oliveira (1896-1932)), que se casaram em Porto Ferreira, SP, antes que se conhecessem um ao outro.
Por procuração, Daniel e Constança casaram-se em 1885, Daniel como noivo e um irmão de Constança como noiva por procuração. Constança chegou somente algum tempo depois, de navio, vinda de Portugal.
Já eram pais em 1886. Em 1916, tiveram seu décimo-terceiro e último filho (Flávio, 1916-1982). Um deles, ou melhor, uma delas, a quinta filha, foi Angélica Carvalho de Oliveira (a única que não tinha o sobrenome Silva Oliveira, sabe-se lá por que). Nascida em 1897, como todos os irmãos e irmãs em Porto Ferreira, formou-se (também como todos os outros irmãos, menos uma, que morreu bebê, a misteriosa Madalena) professora primária na Escola Normal de Pirassununga.
Madalena foi a sétima filha. Viveu dezessete dias, Nasceu em 1899 e morreu em 1900. Viveu em dois séculos (bom, a não ser que se considere a forma castiça de se designar o século, que começa sempre no final 1 (2001) e termina com final zero (2100)). Nada praticamente se sabe de Madalena, a não ser que morreu. De que? Por que? Por que o tabu nas histórias de família de se falar destes casos?
Casa da rua Vergueiro 2024, (a da esquerda, que não tinha garagem mas jardim e tinha uma escadaria do portão ao primeiro piso, que não aparece na foto). Pouco antes da demolição, em 1969. O casal sobre a garagem da casa vinha eram... os vizinhos
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Enfim. Angélica casou-se em 1916 com Antonio Siqueira de Abreu, num casamento em Porto Ferreira duplo: no mesmo dia e local, mais um irmão, Joaquim da Silva Oliveira, casou-se com Deolinda Bergström Lourenço, gerando a família Lourenço de Oliveira. A festa deve ter sido grande. Considerando-se que, na época, a cidade não chegava a 3.000 habitantes de população, a foto da feta com todos os presente, tirada em alum quintal, seja lá urbano ou rural, é muito significativa.
Siqueira - era assim que todos os chamavam - também era filho de portugueses e era de São Simão, SP, não muito longe do "Porto". Era universitário, formado em Farmácia e em Odontologia. Angélica e Siqueira foram morar ali. Não tiveram filhos. Não conseguiram, segundo se contava. Tornaram-se os "tiozões", os célebres segundos pais de todos os sobrinhos.
Tio Siqueira (Que eu conheci muito bem) e tia Angélica (idem), moraram em São Simão até cerca de 1939, quando por problemas políticos - Siqueira foi prefeito lá em meados dos anos 1930 - resolveram deixar a cidade e vir para a Capital, onde estavam morando praticamente todos os irmãos de Angélica, sobrinhos etc. Angélica era diretora do Grupo Escolar de São Simão. Foi transferida para outro Grupo em São Paulo, mas não foi esse o motivo de terem se mudado.
Não sei se Siqueira continuou a ser dentista em São Paulo. Desde que me lembro deles, estavam aposentados já (meados de 1955). Havia três festas anuais para eles. Uma, a 11 de agosto, aniversári de Siqueira. Outra, a 25 de novembro, aniversário de Angélica. E outra, talvez esta a mais tradicional das três, o seu aniversário de casamento - 28 de setembro. Eu fui praticamente a todas elas. Era impossível não ir, salvo se estivesse viajando, ou doente. Numa dessas festas, a do casamento, Siqueira chegava à casa de Maria - esta festa era sempre feita na casa da irmã de Angélica, minha avó, e dizia, com as mãos para o alto: "O Sud está aqui!" Isto passou a ser dito na primeira festa dada depois da morte de meu avô Sud, marido de Maria, em julho de 1948.
Era fantástico. A família praticamente inteira comparecia. Imagine-se os descendentes de doze irmãos (fora Madalena a própria Angélica e Lollio, que morreu solteiro com vinte e poucos anos e era músico). Lollio era um retrato na parede. E uma ou outra história já muito antiga, já que ele morrera pelo menos trinta anos antes de meu nascimento.
Hoje é 25 de novembro, fez-me lembrar de uma dessas festas - a do aniversário de Angélica. Incrível como, depois de vinte e um anos de sua morte (em 1993 - Siqueira faleceu em 1977), ainda possa me bater na memória não somente essa data, quanto as outras duas. Eram realmente pessoas muito amadas.
Finalmente, para constar: depois de casados, moraram em São Simão em endereço para mim desconhecido - mas tenho foto da casa, sei que era de esquina e de fundo para o córrego do vale, hoje uma avenida. Em São Paulo, moraram na Vila Romana (rua Guaicurus, 77, casa que não conheci, mas que até uns trinta anos atrás ainda existia, tendo sido depois derrubada), depois na rua Vergueiro 2024 (esplêndida casa, demolida pelo metrô, ficava a meio quarteirão do largo Ana Rosa e se fosse hoje reconstruída no mesmo local, ficaria no meio da pista direita da rua - que na época era estreita, pista única, mão única sentido cidade, cheia de ônibus que faziam o segundo andar da casa balançar, pois o que separaca o primeiro do segundo piso eram travas de madeira com assoalho de tábuas). De lá mudaram-se em 1969, para a rua Nicolau de Souza Queiroz (o número não lembro, mas parece que a casa ainda existe), quase em frente à rua Apeninos. Nesta casa morreu tio Siqueira. Ou já teria sido na casa seguinte? Não consigo me lembrar exatamente.
Com isso, tia Angélica mudou-se para uma casa na rua Ambrosina de Macedo, 51, muito próxima à rua Cubatão. Ficando doente sem poder mais andar devido a uma queda em idade avançada, Angélica mudou-se para a casa de minha avó Maria, sua irmã, na rua Maracaju, 58 - a meio quarteirão da casa da Ambrosina. Morreu ali com 95 anos em 1993.
Saudades deles. Muitas.
sábado, 11 de outubro de 2014
TRENS E GATOS NA VELHA PORTO FERREIRA
A estação em 1916. Foto Filemon Peres
.
Minha avó Maria nasceu em Porto Ferreira no ano da graça de 1894. Treze anos e meio depois da chegada da Companhia Paulista à cidade e basicamente o mesmo tempo de sua fundação.
Contava ela para seus filhos, que nasceram todos em São Paulo (com exceção da primeira, que morreu com seis anos de idade), que, quando ela ia para a Escola Normal de Pirassununga, onde estudou por volta de 1912 a 1914, ia à noite.
Todos os finais de tarde, ela tomava o trem da Paulista na estação e descia na estação de Pirassununga, de onde caminhava por cerca de dez a quinze minutos até a escola.
E todas as noites, quando ela voltava da escola no trem, este apitava na curva que existe logo após a curva sobre o riacho Santa Rosa, antes de chegar à estação.
Seu gato ouvia o apito e chegava à estação para esperá-la e voltar ao seu lado até sua casa, que ficava a cerca de quatro quarteirões.
A estação em 2010. Foto Carlos R. Almeida
.
Histórias que não se ouvem mais, por motivos óbvios, pelo menos neste país que detesta o mais lindo e agradável de todos os transportes: o trem.
Vovó morreu em 1987. A estação fechou para passageiros em 1976. Esta ainda está de pé com funções que nada têm a ver com a ferrovia. Os trilhos foram arrancados em 1997.
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Minha avó Maria nasceu em Porto Ferreira no ano da graça de 1894. Treze anos e meio depois da chegada da Companhia Paulista à cidade e basicamente o mesmo tempo de sua fundação.
Contava ela para seus filhos, que nasceram todos em São Paulo (com exceção da primeira, que morreu com seis anos de idade), que, quando ela ia para a Escola Normal de Pirassununga, onde estudou por volta de 1912 a 1914, ia à noite.
Todos os finais de tarde, ela tomava o trem da Paulista na estação e descia na estação de Pirassununga, de onde caminhava por cerca de dez a quinze minutos até a escola.
E todas as noites, quando ela voltava da escola no trem, este apitava na curva que existe logo após a curva sobre o riacho Santa Rosa, antes de chegar à estação.
Seu gato ouvia o apito e chegava à estação para esperá-la e voltar ao seu lado até sua casa, que ficava a cerca de quatro quarteirões.
A estação em 2010. Foto Carlos R. Almeida
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Histórias que não se ouvem mais, por motivos óbvios, pelo menos neste país que detesta o mais lindo e agradável de todos os transportes: o trem.
Vovó morreu em 1987. A estação fechou para passageiros em 1976. Esta ainda está de pé com funções que nada têm a ver com a ferrovia. Os trilhos foram arrancados em 1997.
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domingo, 21 de setembro de 2014
FÉRIAS EM SÃO SIMÃO - ANOS 1930
A estação de São Simão nos velhos tempos. Aí descia minha mãe. O prédio ainda existe, os trilhos não e a estação obviamente não funciona mais com esta função
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Minha mãe, Astrea, hoje com novemta e um anos, conta-me que quando era criança, passava muitas de suas férias em São Simão.
Com nove anos, ela já ia para lá com sue irmão, Aécio, de trem. Meu avô, Sud, levava-os para a Estação da Luz e chamava o chefe do trem, mostrando os dois para ele e pedindo que tomasse conta deles de forma a que desembarcassem na estaçao ferroviária de São Simão.
E eles chegavam sempre sãos e salvos. Outros tempos. Sempre lembrando que, da Capital a São Simão, havia uma baldeação obrigatória em Campinas e a famosa troca de tripulação e locomotivas em Jundiaí: São Paulo Railway, Paulista e Mogiana, esta a partir de Campinas.
A diferença de conforto era nítida para minha mãe. Viagem tranquila na bitola larga da SPR e CP até Campinas e outra, scolejante, n bitola estreita da Mogiana, até Sõ Simão. Eram 359 quilômetros de distância ferroviária. Em 1932, um pouco mais, pois a modificação da via entre Carlos Gomes e Jaguariúna cortou alguns quilômetros da Mogiana em 1945 e a distância que cito é a de 1960.
Estação de Porto Ferreira em 1930. A estação ainda existe, não como estação, os trilhos já se foram
.
Houve pelo menos uma vez que mamãe foi de Porto Ferreira para São Simão. Vovô Sud ia também até a estação da cidade com ela, dava-lhe chocolates e dava as mesmas ordens ao chefe do trem, que saía da cidade, voltava a Pirassununga, fazendo mamãe baldear para o ramal de Santa Veridiana e depois outra vez trocar de trem para o da Mogiana na estação de Baldeação. Mamãe ainda se lembra da enorme estação, comprida, onde um lado recebia o trem da Paulista e on outro passava o da Mogiana. Acima da plataforma, uma grande cobertura metálica e na plataforma apenas duas pequeninas bilheterias. Tudo isso no meio do nada. De Baldeação seguia até São Simão.
Classe do Grupo Escolar de São Simão. À esquera, tia Angélica, diretora. À direita, a professore/ Anos 1930
.
Por que São Simão? Porque era lá que minha saudosa tia Angélica (1897-1993) era diretora do Grupo Escolar e seu marido, o tio Siqueira (1993-1977), era dentista, farmacêutico e, por uns anos, prefeito. Tia Angélica era a tia de todos nós. Ela não tinha filhos. Depois, no finalzinho dos anos 1930, mudaram-se para São Paulo.
E por que eu concluo que mamãe somente foi de Porto Ferreira a São Simão sozinha somente uma vez, em 1932? Por que nesse ano minha bisavó Constança faleceu em janeiro e, embora desde a morte de seu marido quatro anos antes, morasse em São Paulo, quando adoeceu gravemente no final de 1931, quis voltar a Porto Ferreira. Lá morreu em 20 de janeiro de 1932. E de lá, depois do enterro, a que minha mãe compareceu, foi para a casa da tia. E, depois disso, para que ir a Porto Ferreira, sem mais ninguém para visitar?
Estação de Baldeação, da qual sobra apenas hoje a plataforma coberta de mato
.
O matriarcado da família Silva Oliveira transferiu-se de minha bisavó para sua qarta filha, Maria, minh avó, em São Paulo, onde esta j'morava desde 1925. Tudo por causa de Sud, que a todos ajudava.
Com a exceção de minha mãe, todo o resto já virou saudade. As pessoas citadas aqui, as ferrovias, as esta'~oes, as viagens de trem.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
PIRACICABA, 3 DE JANEIRO DE 1916
Minha avó Maria, seis anos antes de receber a carta deste texto.Trecho de carta (abaixo) que meu avô mandou a minha avó em 1916. "Mariinha" era como às vezes ele chamava minha avó Maria. Eram noivos e se casariam um ano e meio mais tarde. Sud nessa época morava em Porto Ferreira, cidade de minha avó, onde era professor primário. Ele sempre passava parte das férias escolares com os pais, que moravam então em Piracicaba.
Sida, Asmara e Brazilina eram suas irmãs. Leo era Leo Vaz, grande amigo. Os cinemas de Piracicaba da época são retratados aqui. O trem era o da Paulista, que passava por Limeira e dali Sud pegava uma condução (provavelmente, nessa época, um tilburi) para Piracicaba. Ainda não existia o ramal de Piracicaba da Paulista.
Piracicaba, 3 de janeiro de 1916
Mariinha
(...) trem que passa em Limeira ás 10 e 15, porque é o único que serve ao Leo. (...) Entreguei a Sida e Asmara o bilhete em que lhes agradecias a remessa de photographias. Asmara e Brazilina não quizeram se photographar. Mas se fizeres muita questão mando-te a do velho! (...)
Queres vir commigo ao Ideal, amanhã, assistir ao Pequeno Rabequista? O cinema é quente como uma zona tórrida, as fitas que passam, em geral, não prestam e são velhas, não vai quase moça nenhuma, mas há uma orchestra tão boa, tão suave e tão afinada que eu deixo de ir ao Polytheama, que é o cinema chic e é do Jornal, para ir ouvir Dutra e o seu violino, Astolpho e o seu piano e Isotides e a sua flauta. Queres vir?
E por hoje é só. Lembranças a todo o pessoal, inclusive os aggregados, e um abraço do teu noivo que te beija humildemente as mãos – Sud
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
CASA BRANCA
A estação de Casa Branca - a "velha" - em 2008Outro dia, conversando com amigos, saiu o nome de Casa Branca. Cidade que conheço, embora estando lá não frequentemente. O suficiente, entretanto, para gostar muito dela. Simpática, pequena, agradável e calma, agradaram-me bastante as minhas sempre curtas estadas em Casa Branca.
Pelo que li sobre ela, já foi mais importante e movimentada no passado. Um dos principais centros da Mogiana, de lá saía o ramal de Mococa, que levava a São José do Rio Pardo, Mococa e Guaxupé. Grandes armazéns de café, que trouxeram anos de glória à cidade, até hoje estão lá, infelizmente abandonados. Mas houve tempos em que houve que se construir uma estação auxiliar na entrada da cidade, a qual chamaram de Papagaios, dado o enorme movimento de cargas que sufocava a estação principal. E esta ficava na parte mais alta da cidade, longe do centro, e para alcançá-la com mais facilidade, foi construída uma linha de bondes, puxados a burro, dois deles, que levavam pela rua principal os passageiros da praça central à estação. Na volta, o bonde descia sozinho, e os burricos eram soltos das rédeas para também sozinhos retornarem à estrebaria na rua de trás. Eram, realmente, outros tempos.
Mas o tempo passou, e os trens da Mogiana acabaram, a própria Mogiana acabou. Antes disso, porém, a estação foi transferida para fora da cidade, para o Desterro, para uma melhor facilidade de circulação dos trens. Depois acabou o ramal de Mococa, foram-se os trilhos; foi-se Papagaios, demolida; foram-se os trens de passageiros, a estação velha virou sede da Prefeitura e a estação chamada por muito tempo de estação nova ficou às moscas, foi incendiada e saqueada. Depois reformada.
Acabou-se o movimento de Casa Branca. Mesmo assim, uma amiga dizia que embora não conhecesse a cidade, gostava dela. “Acho que deve ser algo relativo ao nome da cidade - sonoridade, ou semântica - porque eu também sempre senti algo especial por Casa Branca... nunca estive lá, quer dizer, passei por ela uma vez, numa viagem de trem quando ainda era bebê, só que cresci ouvindo meu pai falar que estava escalado para levar um trem para Casa Branca, ou que tal composição estava partindo de lá, enfim... de tal modo que se entranhou na minha cabeça esta estação em particular, tanto que quando vi fotos dela há alguns meses, no estado de abandono, parecia que as imagens não batiam. Acho que acabei criando uma Casa Branca particular...”, Um grande amigo, o Rodrigo, por sua vez, comentava que tinha “um gosto especial por esta cidade. Quando tive meu primeiro contato com o trem, em Evangelina, creio que em 1978, lembro-me que o maquinista me disse que o trem em que eu estava ia para Casa Branca. Bem, durante anos e anos eu falava que queria morar em Casa Branca. Essa era a minha Canaã... engraçado... coisas de criança”.
E então eu me recordei do velho Jorge, já falecido, um senhor que embora nascido em Porto Ferreira, cresceu em Casa Branca. Foi enterrado lá. Na sua cidade. Casa Branca, da qual ele sempre falava quando eu conversava com ele e ele dizia que “isto me faz lembrar um caso que aconteceu comigo quando eu morava em Casa Branca...” e lá ia ele contando mais uma história, que eu ouvia e não anotava... uma pena. Aécio, seu genro, quando ouvia essas histórias e dizia que “eram conversa para fazer lagartixa cair da parede”... O velho Jorge ria e continuava contando.
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quinta-feira, 1 de março de 2012
AS FERROVIAS EXISTIRAM, SIM E NÃO SÃO LENDAS!
Uma coletânea de fotos (bem, não exatamente coletânea: são somente seis) ferroviárias tiradas ao acaso na minha coleção... deve desperta saudades em quem conheceu e tristeza em quem não conheceu. O carro acima, fabricado em 1897, pertenceu à Companhia Paulista e estava assim, há cerca de seis anos, num sítio em Tutoia, Araraquara, quando o fotografei. Mais tarde, foi vendido e um senhor o reformou, mantendo-o em um sítio em Santa Cruz das Palmeiras.
O virador acima, de bitola larga, está (ou estava) em Porto Ferreira, no pátio da estação ferroviária, quando o achei.
A placa de baldeação estava no chão da estação abandonada em Passagem, Pitangueiras, SP. Hoje, está em Jaboticabal.
A estação de Loreto serviu de cenário em 1947 para o filme "Luar do Sertão". Alguém assistiu: A foto foi tirada numa dessas filmagens nesse ano. A estação foi demolida há mais de quinze anos, hoje não sobra nem a plataforma.
Outra placa de baldeação, esta mantida em seu lugar, em Campos Salles, antiga bitola métrica da Paulista, ramal de Agudos. Nesta estação se baldeava para o ramal de Barra Bonita.
Esta velha bilheteria está na estação de Hammond, perdida no meio do mato em Guariba, SP. Há mais de quarenta anos que não se vende mais bilhete algum ali.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
OS GATOS DE VOVÓ
Minha avó Maria, em 1909. Já postei esta foto no blog anteriormente.Falo e falei muito aqui neste blog sobre meu avô Sud. Pouco falei de sua esposa, Maria. Porém, eu a conheci, enquanto a Sud, não - ele morreu três anos antes de eu nascer.
Vovó Maria - como eu a chamava - viveu durante 36 anos de minha vida. Eu gostava muito dela. Passei boa parte de minha vida em sua casa. Parte dela, a de que mais me recordo, na rua Capitão Cavalcanti. Quando eu tinha 15 anos, em 1966, ela se mudou de lá, tendo vendido a casa que meu avô construiu. A casa, reformada, ainda está lá, com o mesmo dono que a comprou.
Dali, vovó se mudou para a avenida Doutor Arnaldo, no Sumaré. Morou ali três anos. A casa foi desapropriada pela Prefeitura para a construção da avenida Paulo VI, sob ela (ligação Brasil-Sumaré) e vovó se mudou de volta para a Vila Mariana, na rua Azevedo Macedo, 112. Esta casa foi comprada pelo hospital Amico, que ficava em frente, e, em 1971, vovó se mudou para a rua Maracaju, muito próximo dali. Nessa casa faleceu, em 1987, com 93 anos de idade.
Vovó sempre morou com duas de suas três filhas - somente Astréa, minha mãe, se casou e deixou a casa. A quarta filha, na verdade a mais velha, morreu criança, em 1924. Vovó sempre falava dela, de sua boneca Agapito e de suas mechas loiras enroladas dentro de um envelope de papel-manteiga - que eu preservo até hoje. A verdadeira história de Astarté eu somente soube muito tempo depois, quando escrevi o livro sobre meu avô. Vovó chorava quando falava dela.
Interessante são as histórias que ela contava e que minha mãe hoje conta, algumas tão antigas que não são nem do tempo de minha mãe. Uma das que eu mais gostei foi a do gato que minha avó tinha quando era estudante em Porto Ferreira. Ela estudava na Escola Normal de Pirassununga, isso pelos anos de 1912, 1913. Tomava o trem da Paulista para ir e para voltar. Estudava à noite, pelo menos parte do período em que lá esteve.
Vovó sempre gostou de gatos. Nos anos 1950, quando eu tinha uns seis anos, eu via sempre em sua casa os dois gatos da época, o Cianeto e o Potássio. Os nomes foram dados pela minha tia solteira e química, Lélia Mennucci. Mas em Porto Ferreira, vovó também tinha um gato que, quando escutava todos os dias o apito do trem se aproximando da estação, corria da casa até lá - eram uns 3 quarteirões - para esperar e voltar com Maria para casa.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
CARTAS ESQUECIDAS
Os Silva Oliveira... Constança, Daniel e, em pé, Angélica, em 1916. Foto tomada em Porto Ferreira.Piracicaba, 12 de junho de 1916
Maria
Cheguei de viagem (1) não tão bom como suppunha, pois, á noite, arranjei a minha costumeira dor de cabeça que eu havia prophetizado, em virtude do pince-nez, do pó e talvez da saudade. (...)
Minha terra está morta. Com a vinda das férias os estudantes zarparam. Os meus collegas, casados quase todos, não se atrevem mais a apparecer por estas plagas. (...)
Fui hoje entregar ao snr. Julio Pedroso e família as encomendas de seu Daniel e d. Constancia (2). Moram na casa da Empresa Telephonica e pelo que me falaram nunca sahiram daqui, depois que vieram de Descalvado e Porto Ferreira. Receberam-me affavelmente e a senhora do snr. Julio me contou que já sabia que tu eras minha noiva. Falamos, durante mais de uma hora, de Porto Ferreira e do pessoal dahi, que para elles, como para mim, quasi que se resume na família de teu pai. Prometteu, o Julio, arranjar o miesophone, si fosse possível e a Lucy não resistiu ao desejo infantil de abrir o pacote e ver o que é que a madrinha lhe mandava. (...)
Dahi mandar-me-ás algumas, especialmente sobre o estado de saúde do Joaquim (3). Como foste de festa de Pirassununga? (4) Ficaste para o baile ou decidiste mesmo voltar a assistir fitas no Condor? (...) (5)
É possivel que na volta, si não for incommodo ahi, eu leve commigo Sida (6), que com a mudança de escola vai ter uns quinze dias de férias.
Sem mais recommenda-me a todo o pessoal que forma a família Oliveira, não te esquecendo do Siqueira, Affonso e Rodello (7), emquanto te beijo humildemente as mãos
O teu Sud
Carta transcrita no português original.
(1) De Porto Ferreira, onde Sud Mennucci morava e estava então ainda noivo de minha avó Maria.
(2) Pais de Maria e meus bisavós.
(3) Um dos irmãos de Maria, 2 anos mais velho do que ela.
(4) Pirassununga, onde Maria estudava na Escola Normal e distante 20 km de Porto Ferreira.
(5) Cinema de Porto Ferreira na época.
(6) Irmã de Sud, mais nova.
(7) Futuros cunhados de Sud, menos Affonso que não tenho ideia de quem tenha sido.
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terça-feira, 6 de julho de 2010
VÓ CONSTANÇA
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Vó Constança. Ontem eu achei essa foto aí em cima, tirada em 1929 numa sala de uma casa hoje demolida na rua Neto de Araújo, na Vila Mariana. É da minha bisavó, mais conhecida como "vó Constança", termo usado por uma de suas inúmeras netas: minha mãe Astrea.
Mamãe lembra-se pouco dela: quando Constança morreu, ela tinha apenas 8 anos. Mas ela se lembra, sim, de tê-la visto em São Paulo e em Porto Ferreira, "no Porto", onde ela morou até 1927, quando seu marido, Daniel, morreu, com 81 anos. Aí os filhos trouxeram-na para São Paulo, para a Vila Mariana, onde minha avó e boa parte de sua família moravam.
Foi para a rua Neto de Araújo, a cerca de 3-4 quarteirões da casa de meus avós, Sud e Maria.
Dava para ir a pé e, claro, sem problemas de atravessar a rua: eram tão pouco tráfego... A casa era mais alta do que o nível da rua, tinha uma escada para subir e entrar na varandinha na frente da casa. Muito bonitinha, telhado de duas águas, jardimzinho na frente. Garage, não tinha: para que? Ainda há três casas muito similares, uma do lado da outra, no final da rua, lado par, só que com algumas diferenças - fora as descaracterizações que sofreram, claro. Elas não têm duas águas somente no telhado frontel, mas quatro. Só isso já faz com que se veja que nenhuma delas é a casa que foi de minha bisavó.
Minha mãe ainda diz: "ela cosumava me dar remédios quando eu estava doente e ia para a casa dela: como eu recusava, ela tirava o chinelo e dizia: se não tomar por bem, toma por mal. E eu tomava. Ao contrário do que dizem os educadores de hoje, jamais tive nenhum trauma por isto".
Dois de seus filhos, os dois mais novos, Esther e Fávio, então com 20 e 12 anos, ainda moravam com Constança. Ester dava aulas de piano para minha mãe. As fotografias que tenho da casa, de 1929, mostram pessoas na janela da frente ou na varanda. Em uma delas, minha bisavó.
Cara de portuguesa escarrada (mas como se define uma cara de portuguesa?), ela tinha 59 anos quando tirou a foto acima, pensativa, olhando para o longe na sala de sua casa. Parecia bem mais velha do que a idade real, apesar de não ter quase cabelos brancos. Porém, treze filhos e a morte recente do companheiro de 41 anos deixaram sua marca.
Já se ia longe aquele ano de 1886, quando embarcou em Lisboa num navio que a trouxe para o Brasil, para ~"o Porto", para casar com um homem 23 anos mais velha que ele, também português e amigo de seu irmão. Deram-se bem, no entanto.
Menos de três anos depois da fotografia, no início de 1932, morreu, de volta "ao Porto", de aortite. Deixou uma lição de vida, possivelmente tendo em sua mente os dias em que levava a filharada para a grande aventura de lavar as roupas no Mogi-Guaçu.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
A CASA DOS TREZE IRMÃOS
Acervo Ralph Mennucci Giesbrecht / Sud MennucciTreze irmãos moraram nesta casa, a casa de Daniel de Oliveira Carvalho e de sua esposa Constança da Silva Oliveira, em Porto Ferreira. A casa não existe mais, infelizmente. Ficava na esquina das ruas Coronel Procópio Carvalho e Matias Cardoso e a cerca de 3 a 4 quarteiroes da estação ferroviária da cidade.Os treze filhos de Daniel moraram durante a infância e a adolescência ali; depois, com exceção dos dois que faleceram muito cedo, Madalena (1899-1900) e Lollio (1896-1921), todos eles saíram para São Paulo, alguns voltando para “o Porto” mais tarde, ou para outra cidade do interior paulista.
Doze deles foram meus tios-avôs. Uma foi minha avó, Maria, que, depois de deixar o Porto com seu marido Sud em 1920, foi para Campinas e Piracicaba, para terminar vivendo na Vila Mariana, em São Paulo, a partir de 1925. Morou também no Sumaré, entre 1966 e 1969, mas voltou para a Vila Mariana.
Os outros: Manoel (Maneco) casou-se e foi para São Paulo, onde morou na rua São Leopoldo, no Belém, depois na rua Margarida, na Barra Funda e tinha uma chácara onde passava as férias no Embu. Nos anos 1940 voltou para o Porto e foi Prefeito da cidade em 1948. Luisa, a segunda filha, viveu no Porto e em outras cidades, como Leme, pois seu marido era caixeiro-viajante. Abandonada por este, foi para São Paulo e viveu em diversas casas na Vila Mariana, além de ter morado também na chácara de Sud e Maria em Mogi das Cruzes.
Joaquim foi o terceiro dos irmãos, e o terceiro a falecer. Em São Paulo, morava nos Campos Elíseos e trabalhava na Praça da Sé. Maria foi a quarta filha. Lollio foi o quinto e Angélica a sexta. Esta casou-se com um dentista e farmacêutico de São Simão, Antonio Siqueira de Abreu, e foram morar por pelo menos 20 anos nessa cidade. De lá vieram, por volta de 1939, para a rua Guaicurus, na Lapa, na Capital, e dali mudaram-se para diversos endereços na Vila Mariana, entre os quais a casa da rua Vergueiro de número 2024, demolida pelo metrô.
Madalena morreu com dias de idade. Olímpia, a Lila, morou em São Paulo com seu marido em diversos locais, entre os quais a rua Sud Mennucci, na Vila Mariana. Mario morava na Vila Mariana também. Urbano, para dizer a verdade, não sei onde morava – mas não duvido que tenha sido na Vila Mariana também. Homero idem – mas mudou-se cedo para Piracicaba, onde faleceu. Esther, solteira, sempre morou com Maria ou com Angélica. Finalmente, Flávio, um dos historiadores de Porto Ferreira e trinta anos mais novo que seu irmão mais velho, era como se fosse um filho de Maria, com quem veio a morar depois da morte de seu pai em 1928 e de sua mãe em 1932. Morou um tempo na rua Senna Madureira... na Vila Mariana. Depois, voltou para o Porto, onde foi vereador.
São histórias que podem ser desenvolvidas muito mais. É interessante ter-se alguns dados das pessoas que conhecemos há tanto tempo – todas mortas hoje – para que elas tenham alguma vida, para que não se pareçam com fantasmas que jamais existiram. Alguns desses tios e tias eu conheci, incluindo maridos e esposas – outros não. Algumas das casas citadas eu visitei – outras tenho notícias apenas por cartas antigas.
Que descansem em paz.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Foto montagem de um trem da CPTM com sentido (fictício) a Descalvado. Montagem e foto Adriano MartinsO nome acima é de um livro de Saramago e de um filme feito sobre o livro, todos sabem, mas neste caso o nome ilustra a cegueira dos administradores das nossas ferrovias. Cegueira causada por outros interesses e pelo desinteresse total em se manter trens de passageiros que agravavam o prejuízo de suas linhas.
Este desinteresse por estes trens de longa distância começou a partir da hora em que as ferrovias entraram em decadência por uma série de razões. Essa "hora" eu, particularmente, depois de estudar ferrovias brasileiras por catorze anos a fundo, estimo como tendo sido o final da Segunda Guerra Mundial: o divisor de águas entre as ferrovias rentáveis e as mesmas ferrovias deficitárias.
No caso dos trens de passageiros, foi também nesta época que a classe mais abastada passou a deixar de usá-los, em um período muito curto. A industria automobilística voltava a produzir carros em profusão com o final da guerra e, dez anos depois, já construía automóveis mais baratos e acessíveis aos brasileiros aqui mesmo. Os trens começavam a ficar cada vez mais vazios e os passageiros que ainda os usavam tornaram-se pouco exigentes, aceitando qualquer coisa.
As ferrovias perceberam isso e foram relaxando na manutenção e compra de novos carros e locomotivas, além da conservação das estações e da via permanente. Os horários foram diminuindo e os percursos também. Linhas começaram a ser utilizadas somente por cargueiros e algumas nem por estes.
O perfil dos passageiros, portanto, começou a se alterar: eles ainda existiam, eram fiéis, mas já usavam cada vez menos as linhas de ponta a ponta. Exemplo: quem queria ir de Campinas a Araguari pela Mogiana ou de São Paulo a Barretos pela Paulista usava não estes trens, mas os ônibus, mais rápidos e com cada vez mais horários. Com isto, trens de percursos curtos tornavam-se pouco a pouco trens mistos, sem horários e demorados. Mesmo assim, com trens mistos ou trens mal conservados, mesmo que sendo de passageiros unicamente, passaram a ser utilizados como verdadeiros trens metropolitanos, ou seja, passageiros subiam numa estação e desciam duas ou três adiante. Eram locais em que as estradas ainda eram ruins. Isto aconteceu claramente na zona interiorana de todos os Estados. O movimento de passageiros era muito maior no interior do que nos trechos próximos às capitais, as maiores cidades.
Estas, por sua vez, tinham seus trens de subúrbio, tocados mal e porcamente por diversas empresas, mas, a partir dos anos 1960/70, por duas apenas: a FEPASA, em São Paulo, e a RFFSA no resto do Brasil (embora ela também atuasse em São Paulo). Aí, se criou, nos anos 1980 e 1990, a CBTU e a CPTM, como que para informar discretamente aos passageiros do interior que trens fora das grande cidades não interessavam mais, mas os na Capital sim, criando-se por isso novas empresas estatais próprias para isto.
Só que foram cegos em não perceber que houve uma mudança no interior. Tiraram os últimos mistinhos nos anos 1970 e 1980 e acabaram com tudo. Por que não investiram em novos equipamentos, transformando uma composição que já era na prática metropolitana, mas ligando cidades próximas, em verdadeiros trens de subúrbio, com trens unidades elétricas ou a diesel, com portas apropriadas, com aceleração e desaceleração para estações distantes de um a um e meio quilômetro entre elas? No interior de São Paulo, a média entre velhas estações no longo percurso era de uns 10 quilômetros.
No antigo e não mais existente ramal de Descalvado, um trem poderia ligar Araras a Descalvado com a tecnologia de metropolitanos e atender diversas cidades e bairros inclusive com a construção de novas estações ou paradas em Araras, Leme, Pirassununga, Porto Ferreira, Descalvado e Santa Cruz das Palmeiras. Os exemplos são muitos.
Abram os olhos, senhores!
Este desinteresse por estes trens de longa distância começou a partir da hora em que as ferrovias entraram em decadência por uma série de razões. Essa "hora" eu, particularmente, depois de estudar ferrovias brasileiras por catorze anos a fundo, estimo como tendo sido o final da Segunda Guerra Mundial: o divisor de águas entre as ferrovias rentáveis e as mesmas ferrovias deficitárias.
No caso dos trens de passageiros, foi também nesta época que a classe mais abastada passou a deixar de usá-los, em um período muito curto. A industria automobilística voltava a produzir carros em profusão com o final da guerra e, dez anos depois, já construía automóveis mais baratos e acessíveis aos brasileiros aqui mesmo. Os trens começavam a ficar cada vez mais vazios e os passageiros que ainda os usavam tornaram-se pouco exigentes, aceitando qualquer coisa.
As ferrovias perceberam isso e foram relaxando na manutenção e compra de novos carros e locomotivas, além da conservação das estações e da via permanente. Os horários foram diminuindo e os percursos também. Linhas começaram a ser utilizadas somente por cargueiros e algumas nem por estes.
O perfil dos passageiros, portanto, começou a se alterar: eles ainda existiam, eram fiéis, mas já usavam cada vez menos as linhas de ponta a ponta. Exemplo: quem queria ir de Campinas a Araguari pela Mogiana ou de São Paulo a Barretos pela Paulista usava não estes trens, mas os ônibus, mais rápidos e com cada vez mais horários. Com isto, trens de percursos curtos tornavam-se pouco a pouco trens mistos, sem horários e demorados. Mesmo assim, com trens mistos ou trens mal conservados, mesmo que sendo de passageiros unicamente, passaram a ser utilizados como verdadeiros trens metropolitanos, ou seja, passageiros subiam numa estação e desciam duas ou três adiante. Eram locais em que as estradas ainda eram ruins. Isto aconteceu claramente na zona interiorana de todos os Estados. O movimento de passageiros era muito maior no interior do que nos trechos próximos às capitais, as maiores cidades.
Estas, por sua vez, tinham seus trens de subúrbio, tocados mal e porcamente por diversas empresas, mas, a partir dos anos 1960/70, por duas apenas: a FEPASA, em São Paulo, e a RFFSA no resto do Brasil (embora ela também atuasse em São Paulo). Aí, se criou, nos anos 1980 e 1990, a CBTU e a CPTM, como que para informar discretamente aos passageiros do interior que trens fora das grande cidades não interessavam mais, mas os na Capital sim, criando-se por isso novas empresas estatais próprias para isto.
Só que foram cegos em não perceber que houve uma mudança no interior. Tiraram os últimos mistinhos nos anos 1970 e 1980 e acabaram com tudo. Por que não investiram em novos equipamentos, transformando uma composição que já era na prática metropolitana, mas ligando cidades próximas, em verdadeiros trens de subúrbio, com trens unidades elétricas ou a diesel, com portas apropriadas, com aceleração e desaceleração para estações distantes de um a um e meio quilômetro entre elas? No interior de São Paulo, a média entre velhas estações no longo percurso era de uns 10 quilômetros.
No antigo e não mais existente ramal de Descalvado, um trem poderia ligar Araras a Descalvado com a tecnologia de metropolitanos e atender diversas cidades e bairros inclusive com a construção de novas estações ou paradas em Araras, Leme, Pirassununga, Porto Ferreira, Descalvado e Santa Cruz das Palmeiras. Os exemplos são muitos.
Abram os olhos, senhores!
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