Mostrando postagens com marcador rua vergueiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador rua vergueiro. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SEGUIR OS TRILHOS, O CAMINHO DAS CARROÇAS OU O VELHO BONDE?

Bonde na rua Domingos de Moraes.

Hoje, como já fiz diversas vezes, fui ao bairro da Saúde de metrô. Para quem não sabe, esse bairro fica para lá da Vila Mariana, no sentido de quem vai para o Jabaquara. Aliás, a avenida se chama Jabaquara naquele ponto.

Quando tomei o metrô ao lado do largo de Pinheiros, segui a linha 4 até a estação Paulista. Dali, fui pelo túne subterrâneo a pé para tomar o metrô da linha 2 para a estação Saúde. Quando já estava dentro do carro, tendo saído da estação de embarque, lembrei-me do que já estava cansado de saber, mas que, na minha mente, se confundia. Eu teria de mudar de novo de carro na estação Paraíso, para tomar a linha 1, no sentido Jabaquara. Esta é a linha norte-sul. Se eu permanecesse na linha 2, iria sair no Ipiranga, Sacomã, Vila Prudente, muito longe do meu objetivo.

É certo que ando meio distraído, mas neste caso, a distração tem uma explicação, por mais incongruente que possa parecer a alguns leitores.

Eu nasci no Sumaré, nos anos 1950. Morei lá até 1974. Como sempre ia à casa de minha avó, na Vila Mariana, eu o fazia ou de carro com meus pais, ou de bonde (até 1966), ou de ônibus (o antigo 55, que tomava na Doutor Arnaldo e que me deixava na esquina da rua Domingos de Moraes com a rua Capitão Cavalcanti).

Eu acompanhava o fluxo de trânsito dos automóveis, mas também a linha de bonde, que seguia, ininterrupta, desde a Doutor Arnaldo até a Domingos de Moraes, continuando depois da minha descida do bonde ou do ônibus rumo ao Jabaquara. Eu gostava de bondes. Ainda gosto, e muito... pena que eles foram extirpados da face da Terra... não, das ruas de São Paulo mesmo. Na Terra, eles ainda existem e não são poucos. Já no Brasil...

Porém, para um paulistano mais velho do que eu, ou melhor, muito mais velho, a ponto de ter vivido no século XIX e morrido, por exemplo, no século XX, lá por 1920, este percurso não seria tão lógico quanto me parece hoje.
Estação Saúde do Metrô (Wikipedia)
Embora a parte mais alta da hoje enorme área urbana seja realmente o espigão da avenida Paulista, que vem desde o Alto do Sumaré, no eixo da avenida Doutor Arnaldo, seguindo pelo eixo das avenidas Paulista, Bernardino de Campos, rua Domingos de Moraes e avenida Jabaquara até a Igreja de São Judas,para um paulistano do século XIX, esse espigão ficava fora da cidade. O centro da cidade era então bem definido na Praça da Sé, que tinha, como hoje, a praça João Mendes junto a ela. Dali saía a rua da Liberdade, que subia lentamente no sentido da Estrada do Vergueiro, continuando a pelo leve aclive até a rua do Paraíso.

Ali, a estrada do Vergueiro seguia para o lado do vale do rio Ipiranga, não sem antes jogar seu "trânsito" (entre aspas porque, nessa época, mesmo as carroças e cavalos eram poucos por ali) para um caminho que se bifurcava nesse ponto e que em 1896 viria a ser chamado de rua Domingos de Moraes. No século XIX, no entanto, essa rua se chamava Caminho do Carro para Santo Amaro e seguia pelo topo do espigão (como hoje) até onde hoje é a rua Luiz Goes, desviando nesse ponto para a direita e descendo o vale do córrego Paraguai, na atual avenida Senador Casemiro da Rocha até Santo Amaro, passando por um caminho hoje meio indefinido no meio do atual Planalto Paulista e do aeroporto de Congonhas.

Por causa dessa saída para a direita, em algum momento, construiu-se a atual avenida Jabaquara, que hoje é a continuação natural do fluxo de tráfego da Domingos e era também a continuação da linha do bonde, no início, para Santo Amaro (por outro trajeto), depois, para o córrego Jabaquara, que é o outro nome do Córrego das Águas Espraiadas. Ali, no alto do espigão da avenida, fica a Saúde e a estação Saúde do metrõ,,, e no final do século XX também tinha a estação da Saúde, que, no entanto, ficava bem antes do atual bairro e da atual estação, ou seja, na altura da rua Santa Cruz.

Para sedimentar mais ainda o raciocínio que o eixo do Caminho do Carro, seguido pela avenida Jabaquara, era o caminho principal para o sul da cidade, vale ressaltar que o Tramway de Santo Amaro, de Alberto Kuhlmann (depois comprado e miodificado pela Light em 1900) também seguiu esse trajeto: saía da rua São Joaquim (onde acabava, e ainda acaba, a rua da Liberdade e começava a Vergueiro), prosseguia pelo eixo do espigão sem dobrar no vale do Paraguai, seguindo pela Jabaquara até próximo ao aeroporto de Congonhas, dali seguindo para o largo Treze de Maio, em Santo Amaro, por dentro dos bairros atuais de Campo Belo, Brooklyn e Alto da Boa Vista.

Notar que hoje em dia a Liberdade e a rua Vergueiro são vias decadentes. Já o Sumaré e a avenida Paulista estão na área mais rica da cidade, ou seja, a Zona Oeste.

Portanto, voltando para a minha "lógica" de pensamento, a linha do atual metrô deveria seguir sempre pelo espigão da Paulista. Para o paulistano mais antigo, pela linha Liberdade-Vergueiro até encontrar esse espigão no bairro do Paraíso. Só que, no século XIX, os bairros do Sumaré e a avenida Paulista eram somente mata atlântica.

Confuso? Sim, para quem conhece pouco São Paulo, certamente o será. Mas, para quem gosta do assunto, algo a pensar. Enfim, duas diferentes linhas do metrô fazem todo o trajeto do espigão da Paulista, e não uma só. A troca de linhas se dá na Vila Mariana, ou na estação Paraíso, ou na Ana Rosa. Você escolhe.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

VINTE E CINCO DE NOVEMBRO

Angélica, foto c. 1915 - sentados, meus bisavós, pais dela. Em Porto Ferreira
.

Eu já escrevi aqui que conhecia muito bem a árvore genealógica de minha família, principalmente dos Silva Oliveira (a família derivada de meus bisavós portugueses, Daniel de Oliveira Carvalho (1846-1928) e Constança da Silva Oliveira (1896-1932)), que se casaram em Porto Ferreira, SP, antes que se conhecessem um ao outro.

Por procuração, Daniel e Constança casaram-se em 1885, Daniel como noivo e um irmão de Constança como noiva por procuração. Constança chegou somente algum tempo depois, de navio, vinda de Portugal.

Já eram pais em 1886. Em 1916, tiveram seu décimo-terceiro e último filho (Flávio, 1916-1982). Um deles, ou melhor, uma delas, a quinta filha, foi Angélica Carvalho de Oliveira (a única que não tinha o sobrenome Silva Oliveira, sabe-se lá por que). Nascida em 1897, como todos os irmãos e irmãs em Porto Ferreira, formou-se (também como todos os outros irmãos, menos uma, que morreu bebê, a misteriosa Madalena) professora primária na Escola Normal de Pirassununga.

Madalena foi a sétima filha. Viveu dezessete dias, Nasceu em 1899 e morreu em 1900. Viveu em dois séculos (bom, a não ser que se considere a forma castiça de se designar o século, que começa sempre no final 1 (2001) e termina com final zero (2100)). Nada praticamente se sabe de Madalena, a não ser que morreu. De que? Por que? Por que o tabu nas histórias de família de se falar destes casos?
Casa da rua Vergueiro 2024, (a da esquerda, que não tinha garagem mas jardim e tinha uma escadaria do portão ao primeiro piso, que não aparece na foto). Pouco antes da demolição, em 1969. O casal sobre a garagem da casa vinha eram... os vizinhos
.

Enfim. Angélica casou-se em 1916 com Antonio Siqueira de Abreu, num casamento em Porto Ferreira duplo: no mesmo dia e local, mais um irmão, Joaquim da Silva Oliveira, casou-se com Deolinda Bergström Lourenço, gerando a família Lourenço de Oliveira. A festa deve ter sido grande. Considerando-se que, na época, a cidade não chegava a 3.000 habitantes de população, a foto da feta com todos os presente, tirada em alum quintal, seja lá urbano ou rural, é muito significativa.

Siqueira - era assim que todos os chamavam - também era filho de portugueses e era de São Simão, SP, não muito longe do "Porto". Era universitário, formado em Farmácia e em Odontologia. Angélica e Siqueira foram morar ali. Não tiveram filhos. Não conseguiram, segundo se contava. Tornaram-se os "tiozões", os célebres segundos pais de todos os sobrinhos.

Tio Siqueira (Que eu conheci muito bem) e tia Angélica (idem), moraram em São Simão até cerca de 1939, quando por problemas políticos - Siqueira foi prefeito lá em meados dos anos 1930 - resolveram deixar a cidade e vir para a Capital, onde estavam morando praticamente todos os irmãos de Angélica, sobrinhos etc. Angélica era diretora do Grupo Escolar de São Simão. Foi transferida para outro Grupo em São Paulo, mas não foi esse o motivo de terem se mudado.

Não sei se Siqueira continuou a ser dentista em São Paulo. Desde que me lembro deles, estavam aposentados já (meados de 1955). Havia três festas anuais para eles. Uma, a 11 de agosto, aniversári de Siqueira. Outra, a 25 de novembro, aniversário de Angélica. E outra, talvez esta a mais tradicional das três, o seu aniversário de casamento - 28 de setembro. Eu fui praticamente a todas elas. Era impossível não ir, salvo se estivesse viajando, ou doente. Numa dessas festas, a do casamento, Siqueira chegava à casa de Maria - esta festa era sempre feita na casa da irmã de Angélica, minha avó, e dizia, com as mãos para o alto: "O Sud está aqui!" Isto passou a ser dito na primeira festa dada depois da morte de meu avô Sud, marido de Maria, em julho de 1948.

Era fantástico. A família praticamente inteira comparecia. Imagine-se os descendentes de doze irmãos (fora Madalena a própria Angélica e Lollio, que morreu solteiro com vinte e poucos anos e era músico). Lollio era um retrato na parede. E uma ou outra história já muito antiga, já que ele morrera pelo menos trinta anos antes de meu nascimento.

Hoje é 25 de novembro, fez-me lembrar de uma dessas festas - a do aniversário de Angélica. Incrível como, depois de vinte e um anos de sua morte (em 1993 - Siqueira faleceu em 1977), ainda possa me bater na memória não somente essa data, quanto as outras duas. Eram realmente pessoas muito amadas.

Finalmente, para constar: depois de casados, moraram em São Simão em endereço para mim desconhecido - mas tenho foto da casa, sei que era de esquina e de fundo para o córrego do vale, hoje uma avenida. Em São Paulo, moraram na Vila Romana (rua Guaicurus, 77, casa que não conheci, mas que até uns trinta anos atrás ainda existia, tendo sido depois derrubada), depois na rua Vergueiro 2024 (esplêndida casa, demolida pelo metrô, ficava a meio quarteirão do largo Ana Rosa e se fosse hoje reconstruída no mesmo local, ficaria no meio da pista direita da rua - que na época era estreita, pista única, mão única sentido cidade, cheia de ônibus que faziam o segundo andar da casa balançar, pois o que separaca o primeiro do segundo piso eram travas de madeira com assoalho de tábuas). De lá mudaram-se em 1969, para a rua Nicolau de Souza Queiroz (o número não lembro, mas parece que a casa ainda existe), quase em frente à rua Apeninos. Nesta casa morreu tio Siqueira. Ou já teria sido na casa seguinte? Não consigo me lembrar exatamente.

Com isso, tia Angélica mudou-se para uma casa na rua Ambrosina de Macedo, 51, muito próxima à rua Cubatão. Ficando doente sem poder mais andar devido a uma queda em idade avançada, Angélica mudou-se para a casa de minha avó Maria, sua irmã, na rua Maracaju, 58 - a meio quarteirão da casa da Ambrosina. Morreu ali com 95 anos em 1993.

Saudades deles. Muitas.


terça-feira, 19 de junho de 2012

POESIA PERDIDA

Placa ainda existente até uns seis anos atrás. Foto minha. O mourão branco ainda existe. A mata de araucárias virou um terreno baldio. O número 1809 era do terreno, não uma data.

Passei outro dia pela rua Vergueiro. Sempre me lembro de minha tia, que morava lá no 2024 - entre a pequena rua Tamoio e o Largo Ana Rosa e que teve a casa demolida em 1969 para o alargamento da rua e construção do buraco do metrô, num tempo sem tatuzões.

Lembro-me da casa onde eu fui dormir várias vezes, cujos quartos tremiam - eram no segundo andar e não havia laje, era tudo madeira - quando passavam os ônibus na rua estreita de paralelepípedos, em alta velocidade no sentido centro. A rua tinha mão única.

O alargamento da rua foi feito somente até onde hoje se inicia a avenida Noé de Azevedo, que não existia e foi cavada entre as casas por causa do buraco do metrô que se fez embaixo do seu atual leito. Ela une a Vergueiro e a Domingos de Moraes. Depois disso, a rua segue estreita como era no 2024 e como sempre foi.

Assim ia até a rua Conde de Irajá, alguns quarteirões mais à frente. A partir daí, era Estrada do Vergueiro. Até São Bernardo e depois. No início dos anos 1970 o nome da rua passou a ser rua Vergueiro para toda sua extensão - pelo menos dentro do município de São Paulo. Sumiu a poética Estrada do Vergueiro, como sumiram diversos nomes "estrada" no município. Os que ainda existem são poucos, como a Estrada do M´Boy Mirim, por exemplo.

Como a rua Itapaiuna, no Morumbi, ali onde hoje existe uma das duas sedes do Colégio Visconde de Porto Seguro e o enorme condomínio "chic" Villaggio Panamby. Essa rua se chamou até não tanto tempo assim, Estrada do Morumbi. Nada a ver com a atual avenida Morumbi. Ou talvez sim, pode ter sido um antigo curso, mas em tempos bastante remotos. Esta estrada começava junto à ponte da João Dias, na antiga Estrada de Itapecerica. Em mapas mais antigos encontra-se, para a mesma rua, o nome Estrada da Penhinha. Para quem conhece, havia também a Parada da Penhinha no trem da Sorocabana (hoje linha 9 da CPTM), do outro lado do rio.

Por que esses nomes tão cheios de poesia desapareceram do mapa? Para que o nome Itapaiuna? "Estrada" leva a histórias. Itapaiuna leva a que? Seja qual for o significado do nome indígena, se a rua tinha um nome, para que mudar? E - podem apostar - a rua um dia vai ter o nome de algum político, principalmente porque boa parte dela está sendo alargada.

Aliás, falaram-me um dia que os nomes "estrada" mudaram para "avenida" ou "rua" por causa da Prefeitura, que teria uma norma onde "avenida" pode cobrar mais IPTU do que "rua", que pode cobrar mais do que "estrada". Será, ou terá sido, verdade? Se não, por que trocar "estrada" para "rua" ou "avenida"?

Nomes tradicionais de estradas e bairros foram mudados para outros, muitos para "nomes de gente" que, geralmente, não merecem ter seus nomes nelas. Para que? Um dos nomes mais bonitos da velha São Paulo era a "estrada do Chora Menino". Lá em Santana. Hoje o nome é outro. Por que? O próprio bairro do Chora Menino não é mais chamado assim.

Por onde anda o largo do Piques (praça das Bandeiras), o largo do Zunega (largo do Paisandu), a rua da Palha (7 de Abril), a rua do Paredão (Xavier de Toledo), Estrada Velha de Santo Amaro (Avenida Santo Amaro e av. Adolfo Pinheiro), avenida da Traição (Bandeirantes)... e muitos afora.

Chora, menino! Perdeu-se a poesia de São Paulo!

domingo, 24 de outubro de 2010

E QUE SE DERRUBEM AS CASAS PAULISTANAS!

Este simpático chalezinho, na época já meio mal cuidado, ainda estava de pé em 1988, quando eu parei meu carro em frente a ele, na rua Domingos de Moraes, e o fotografei. Não muito tempo depois, foi demolido. Em seu lugar, hoje, existe uma agência do banco Bradesco. A foto foi reproduzida hoje no jornal O Estado de S. Paulo.

Neste domingo, o caderno Metrópole do O Estado de S. Paulo publica uma reportagem sobre o que se demole de casas no município de São Paulo e o que isso representa para todos os seus habitantes.

Depois, na página 3, como um complemento a isso, os reporteres Rodrigo Burgarelli e Rodrigo Brancatelli escrevem sobre a Vila Mariana e algumas casas que foram demolidas nas ruas Domingos de Moraes e Vergueiro.

Os exemplos dados - por fotos com o local anterior e o atual - são: na Vergueiro, o Instituto Ana Rosa (onde hoje está o conjunto de prédios do Lar Brasileiro) e duas casas geminadas no número 2024 da mesma rua (demolidas pelo metrô, sobrando somente os terrenos dos fundos, onde foram construídas duas lojinhas).

Na rua Domingos de Moraes, são mostradas a Villa Kyrial (no número 300), a garagem de bondes da Light/CMTC (onde hoje há um muro com o símbolo do metrô, junto à praça Teodoro de Carvalho), a chácara Conceição (em frente à rua dona Júlia), um chalet típico do início do século XX (am frente à antiga garage de bondes) e um quarteirão de casas entre as ruas dona Júlia e Lins de Vasconcellos. Todos esses imóveis foram demolidos e substituídos por ouras construções, com exceção do da garage de bondes.

Em termos de qualidade de vida, de estilo arquitetônico e de história, essas derrubadas - que ocorreram de 1950 a 1990 - foram desastrosas. A mais significativa delas foi a da Chácara Conceição, que teve não somente a casa demolida, mas também seus jardins imensos atrás dela, que ocupavam a área desde os fundos da casa até o córrego do Sapateiro, entre as ruas Sud Mennucci e Capitão Cavalcânti.

Para contar a história dessas construções antigas, o que elas representaram para São Paulo e o que se perdeu com isso, seria necessário mais do que um livro. Mesmo porque uma delas - a Villa Kyrial - já teve dois livros escritos somente sobre ela. Já sobre a Chácara Conceição, já escrevi em pelo menos duas postagens neste blog.

E vamos tocando a vida. Que venham mais edifícios horrorosos de apartamentos, parece que de forma alguma nossos governantes e muito menos as construtoras se importam mais com isso. Enquanto isso, os congestionamentos no trânsito e o excesso de passageiros nas vias férreas aumentam dia a dia.

segunda-feira, 22 de março de 2010

DO ALTO DESTA ESQUINA, 38 ANOS NOS SEPARAM

No centro da fotografia acima, em branco e preto, a foto que tirei há quase 38 anos. Na foto colorida, o mesmo local (rua Botucatu com Sena Madureira) na semana passada, em foto de Valéria Rodrigues (O Estado de S. Paulo, 21/3/2010).

Num sábado do mês de novembro de 1972, saímos eu e meu amigo Roberto de carro lá da casa do Sumaré, onde eu morava e minha mãe ainda mora, para fotografar alguns pontos de São Paulo escolhidos a esmo. A ideia era que anos depois essas fotografias pudessem servir de comparação para alguns locais na cidade. Eu tinha, então, 21 anos.

Eu não me lembro exatamente do porquê de ter fotografado a maioria dos lugares onde estive. O fato é que parávamos o carro e eu descia e tirava a fotografia. Já alguns lugares foram escolhidos por estarem em obras do metrô, como a rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Outros, por serem avenidas e viadutos novos, como pontos na avenida dos Bandeirantes, que tinha o nome recém-alterado do antigo, avenida da Traição, e no viaduto Antártica.

O ponto da rua Botucatu na esquina da rua Sena Madureira foi achado no caminho. Como não podíamos seguir pela rua Domingos de Moraes, que estava interrompida pela construção do metrô, descíamos e seguíamos por algumas ruas abaixo. Nesse dia, foi a Botucatu. Dali fomos para a rua Loefgren, de onde fotografei a avenida Domingos de Moraes no sentido do Arquidiocesano e da Igreja da Saúde. Era um buraco só.

Lembro-me que o Roberto não entendia por que eu estava fazendo tudo isso. Eu lhe disse exatamente o que citei acima: para efeito de comparação depois de alguns anos. Trinta e sete anos e meio se passaram. Ontem, num dia de março de 2010, a fotografia da rua Botucatu (acima) foi aproveitada pelo jornal O Estado de S. Paulo para uma das fotos publicadas na edição deste domingo 21.

As outras fotografias publicadas são do acervo do Douglas, que me indicou ao repórter Rodrigo. Na verdade, o Rodrigo já me conhecia, pois há alguns meses ele me entrevistou para uma reportagem sobre estações abandonadas que também foi publicada em um domingo. Um belo trabalho. Daria um livro. Um livro para se refletir sobre o que estamos fazendo com nossa cidade.

Pena que naquela época fotografia ainda era a papel. Ou seja, compra filme, tira a foto, revela, espera para ver se ficou boa ou se você perdeu tudo... hoje teria fotografado muito mais, claro. É mais fácil... Por outro lado, fotos demais banalizam os locais. A maioria das fotografias que tiro e que vejo hoje está no computador. Muitas nem têm o tamanho mínimo para uma boa impressão; por outro lado, eu imprimo pouquíssimas fotografias, porque, se imprimisse todas que tiro ou recebo, não há hoje local para guardar tudo. Se antes fotos eram não tão comuns de ser tomadas, hoje são em número grande demais.