Hoje li uma notícia que afirmava que a Prefeitura quer proibir "mega-empreendimentos" de 30.000 metros quadrados ou mais para evitar a construção de conjuntos de edifícios residenciais, de escritórios ou mesmo shopping centers e igrejas (vide Templo de Salomão), por que isso sobrecarrega a infra-estrutura existente nos bairros, fora que está cada vez mais gerando reclamações da população que mora em volta.
Ora, venho falando isso há anos (mas ninguém liga, pois não sou nenhum sujeito famoso. Talvez agora tenha atrapalhado a vida de alguém mais poderoso...) e nada é feito, muito pelo contrário, a situação somente piora.
Eu particularmente duvido que isso vá para a frente. Parece-me mais uma forma de agradar parte da população prejudicada, mentira eleitoral, essas coisas. Afinal de contas, o prefeito que temos em São Paulo é um incompetente de marca maior. Como poderia ele ter uma ideia dessas e ainda por cima, colocá-la como projeto de lei e no final ainda aprová-la? Parece um sonho. E deverá ser um sonho, mesmo.
Enquanto isso, mesmo com a crise na venda e aluguel de imóveis chegando cada vez mais perto, os imóveis mais antigos (e pequenos) continuam indo ao chão, para a construção de edifícios em tudo quanto é bairro, rico ou pobre... ou, principalmente, de classe média.
Foto de 1970: acervo Valeria Bonfim O prédio de 3 andares ao lado também foi demolido.
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O exemplo que pomos aqui não dará surgimento a um "mega-empreendimento", não tem área para tanto, mas já atrapalhará bastante quando estiver em construção e, principalmente, depois de pronto.
Atualmente o local, que demoliu cerca de seis imóveis na esquina da avenida Brigadeiro Luiz Antonio com a rua Caconde, está vazio, cercado por um tapume, aguardando ou um estacionamento provisório ou já o início das obras. Será um prédio e não será baixinho. E a área não é pequena, embora não chegue perto dos 30 mil citados acima.
A fotografia antiga mostra um dos prédio, de dois andares e de esquina, no início dos anos 1970. A outra, tirada por mim, há cerca de um mês, no início da demolição. Como costumo dizer, o prédio, que em 1970 abrigava um bar no andar de baixo, não é nenhuma maravilha arquitetônica, mas abrigava apenas um número reduzido de pessoas por ali.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2014
terça-feira, 30 de setembro de 2014
ONTEM E HOJE NO JARDIM PAULISTA (SÃO PAULO, 1966-2014)
A comparação em um mapa publicado na Folha de S. Paulo de 22 de dezembro de 1966 (reproduzido logo acima deste parágrafo) com um mapa extraído do Google Maps no dia de hoje mostra modificações entre a Brigadeiro Luiz Antonio e a 23 de Maio, no Jardim Paulista.
Apesar de estarem distantes apenas quarenta e oito anos, o mapa de 1966 - feito sem muita escala e preocupações com as ruas mais distantes dali, o que não invalida na comparação - mostra o porque do projeto de união das ruas Estados Unidos por uma rua que viria a ser a rua Stenio de Albuquerque Lima.
Quando o nome foi dado à rua aberta e quando ela foi efetivamente aberta ao tráfego, não sei. Nem consegui saber quem foi o Marechal (ele era marechal). Ele deve ter morrido nessa época, anos 1960-70. Encontrei breves referências a ele no Google, único lugar onde procurei. Sei que foi promovido a general em 1958, por exemplo. Portanto, já tinha alguma idade quando a rua foi aberta - ou já estava morto.
Olhando no texto sob o mapa de 1966, é interessante saber que a rua "passaria sobre" um boliche, divertimento bem popular na época. E ela é bem mais larga que a rua Estados Unidos. Vejam pelo mapa abaixo (do Google de hoje) que ela forma uma praça ao lado do Ginásio do Ibirapuera e depois se une à rua Curitiba, que manteve o nome.
Vejam que a 23 de Maio ainda não estava aberta naquele trecho entre o viaduto sob a av. Bernardino de Campos e o Parque Ibirapuera. Essa abertura arrasou vários quarteirões de ruas ali no bairro do Paraíso, na época. Eu me lembro vagamente disso - na verdade, eu passava pela rua Cubatão muitas vezes a caminho da casa de minha avó, mas ela mudou-se da Vila Mariana no início das obras, de forma que as obras da 23 de Maio naquele trecho estavam apenas começando então.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
VISÕES DE 40 ANOS ATRÁS
A fotografia acima foi reproduzida da revista VEJA, edição de 27 de janeiro de 1971. Quarenta e um anos atrás. São Paulo estava sofrendo uma de suas maiores modificações urbanas no século XX. Na foto, a avenida 23 de Maio.
Ela era relativamente nova. Foi terminada, entre a praça das Bandeiras e o Ibirapuera poucos anos antes. Creio que em 1969, não me lembro do ano exato, mas foi por aí. A chamada "Ferradura", construída já depois da avenida pronta, aparece ainda em obras. Ela hoje faz o retorno da pista que vai para a cidade para a pista do Ibirapuera, além de facilitar a passagem para a Radial Leste.
Ao fundo, no alto, a Praça da Bandeira. Uns dizem que é "o antigo Piques". Na verdade, o Piques era mais para a direita, próximo ao obelisco e do antigo chafariz da Memória. Notar também que a praça ainda não tinha o horroroso terminal de ônibus.
Difícil também saber quantos prédios surgiram no cenário, já com diversos edifícios, mas ainda com velhas casas em alguns pontos. Interessante também ver a avenida com abertura no canteiro central, em primeiro plano. Algo impensável hoje. O trânsito, ainda pequeno, antes do final daquela década já se tornaria bastante pesado.
Quanto aos dois viadutos, fora o da Ferradura, ainda estão lá com poucas mudanças: o da Brigadeiro e o dona Paulina. Entre eles, já havia sido demolido, poucos meses antes da foto, o famoso e chique edifício Columbus, construído em 1932.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
É CARNAVAL EM 1940
Folha da Manhã, 4/2/1940Bom, será... ele começa depois de amanhã, sábado de Carnaval. Lembremos então que o carnaval de 1940 em São Paulo, ainda na época do corso de automóveis, seguiria por todas essas ruas que se vêem acima. Avenida Paulista, Brigadeiro Luiz Antonio, Avenida São João, Avenda Angélica. Dava a volta na Praça Buenos Aires e retornava.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A VELHA ESTRADA DE SANTO AMARO
O "médico dos Fords", na estrada de Santo Amaro (Folha da Manhã, 2/12/1928)Primeiro era só estrada de Santo Amaro. Desde quando, não sei. A localidade era antiga - existia pelo menos desde o século XVII. Com o tempo, tornou-se um município - "villa", como se dizia à época para municípios abaixo de um certo padrão de desenvolvimento. Em 1832, quando se desmembrou de São Paulo, capital, a estrada que ligava as duas cidades começava no Piques e terminava na igreja do atual largo Treze de Maio.
Nessa época, "Estrada de Santo Amaro" era o seu nome em toda a extensão, que seguia pela atual rua Santo Amaro, pela Brigadeiro Luiz Antonio a partir do entroncamento das duas (o entroncamento não existia: aquele trecho da Brigadeiro que existe hoje entre a rua Riachuelo e o fim da rua Santo Amaro só foi construído no início do século XX), dali seguia até o Itaim, no córrego do Sapateiro, onde hoje começa a avenida Santo Amaro. Seguia por esta até onde hoje está a estátua do Borba Gato e subia pela hoje avenida Adolfo Pinheiro até o largo Treze. A divisa entre os dois municípios era o córrego da Traição, onde hoje está a avenida dos Bandeirantes.
No fim do século XX, aquele trecho inicial passou a se chamar rua de Santo Amaro, nome que conserva até hoje. O resto seguiu como era - na mesma época, o trecho final passou a se chamar rua (depois avenida) Adolfo Pinheiro, personalidade da distante vila de Santo Amaro.
O tempo passou e veio o nome Brigadeiro Luiz Antonio para o trecho entre a rua Santo Amaro e a avenida Paulista. Depois, esse nome seguiu até o Itaim, como é hoje. Nos anos 1950/60, a estrada virou avenida, enquanto a Adolfo Pinheiro já designava então todo o trecho desde a Traição até o Largo Treze. Em meados dos anos 1960, nova mudança: a Adolfo Pinheiro passou a nomear apenas o trecho Borba Gato-Largo Treze, enquanto a então avenida Santo Amaro era prolongada até a rua da Fonte, onde hoje se iniciam a avenida João Dias e a rua Antonio Bento. Só que a João Dias, com isso, encurtou: el, que tinha seu início no Borba Gato, cedeu o nome para a avenida Santo Amaro até a citada rua da Fonte.
Portanto, quando se fala da estrada de Santo Amaro, há de se saber qual época de que estamos referindo. Está bem. E como era essa estrada nos anos 1920 e início dos anos 1930?
Nessa época, esse nome se dava ao trecho Itaim/Córrego do Sapateiro (onde hoje está a av. Juscelino) e o Brooklin, digamos, perto do Córrego do Cordeiro. Ela ainda percorria dois municípios. Não era pavimentada, pelo menos no trecho que ficava em Santo Amaro (que deixou de ser município e foi anexado a São Paulo em 1935):
"As estradas de rodagem que ligam São Paulo às cidades vizinhas, com exceção do Caminho do Mar, estão quase que intransitáveis. A de Santo Amaro, por exemplo. Movimentadíssima, cortada a todo instante por automóveis, tal estrada já não se presta para excursões costumeiras das famílias paulistanas à represa da vizinha cidade. A Prefeitura de Santo Amaro não tem verba para o concerto (sic) dos numerosos buracos ali abertos pelas chuvas. Aliás, isso não admira, porquanto, embora próximo da capital, Santo Amaro mais parece uma villa do sertão, tal o estado de suas ruas. A parte próxima ao Brooklin Paulista, bem mais bonita que a sede do município, então, é uma lástima. Os autos encaixam ali até os eixos, padecendo os conductores toda sorte de contratempos para arrancar da lama os carros" (Folha da Manhã, 5/5/1926).
Realmente, o trânsito devia ser pesado por ali. Nada como é hoje, entupida por congestionamentos de dia e de noite e de ônibus que formam filas intermináveis numa avenida certamente mais larga do que era a estrada, mas a quantidade de acidentes reportados nos jornais nessa época era grande, praticamente um por mês, envolvendo caminhões, ônibus, automóveis e carroças. Como a quantidade de ruas que a cruzavam era muito menor e as construções eram raras - a avenida passava no meio de matagais e de campos com uma edificação ou outra - o local desses acidentes geralmente não era reportado, pois não havia muitas referências a dar, como numeração de casas, etc. Citava-se eventualmente o Brooklin, o córrego da Traição e a rua França Pinto (que tinha esse nome desde a rua Domingos de Moraes até sua chegada na estrada, chegada hoje que tem o nome de Afonso Braz no elegante bairro de Vila Nova Conceição - note nos mapas de hoje as ruas com nomes diferentes que formaram um dia a França Pinto, como IV Centenário e a própria Afonso Braz.
Uma das citações em 1926 fala de um curtume - São Luiz - na estrada, próximo à rua França Pinto. Teria esse curtume dado o nome ao atual Hospital São Luiz, também ali próximo hoje em dia? Uma propaganda de 1928 fala do "médico dos Fords", de G. Lazzaro, uma oficina automotiva que ficava em algum ponto da estrada... não citava o número nem a proximidade de qualquer rua, o que mostra que não seria difícil localizar o prédio numa rua que quase não os tinha. Era também constantemente usada como pista em competições de bicicletas e de motocicletas... até de automóveis.
Vale ressaltar que essa estrada, nos anos 1910 ganhou uma concorrente: a atual avenida Ibirapuera, que tinha a linha de bondes do Tramway de Santo Amaro e que, partindo do lado do atual Instituto Biológico na Vila Mariana, encontrava a Adolfo Pinheiro na rua da Fraternidade, no Alto da Boa Vista. No final dos anos 1920, surgiu a Auto-Estrada de Santo Amaro, que seguia de onde hoje é o lago do Ibirapuera pela atual República do Líbano, depois pela Indianópolis, entrava pela hoje Moreira Guimarães e depois pela Washington Luiz até a ponte do Socorro. Esta era pavimentada com concreto. Cheguei a ver placas azuais de rua com o nome "Auto-Estrada Washington Luiz" nos anos 1970 ainda afixadas nas esquinas dessa avenida.
Fora isso, o arqui-antigo Caminho do Carro para Santo Amaro, que era nada mais do que a rua Vergueiro, depois Domingos de Moraes, entrando pela atual avenida Senador Casemiro da Rocha, cruzando o córrego Paraguai e entrando pelos meandros do planalto paulista para chegar à velha vila. Quantas histórias esquecidas...
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
SEU AGAPITO NÃO QUER MAIS PRÉDIOS NA PAULISTA
Uma das demolições da Paulista. 1984, Av. Paulista com alameda Joaquim Eugênio de Lima. Essa casa, que passou por uma enorme reforma quando foi adquirida pelos Lotaif, pertenceu em sua arquitetura original a Henrique Schaumann (Época SP)Aquele sujeito que nasceu em 1876 e que tem hoje 135 anos de idade costuma dizer para seus amigos que nasceu ali mesmo, numa cabana de sapé na rua Real Grandeza. Sim, aqui mesmo, em São Paulo, Capital.
Para quem não sabe (embora alguns neguem sua existência, quem estará correto?), a rua Real Grandeza desapareceu em 1991, quando foi aberta a avenida Paulista, entre a Estrada de Santo Amaro (av. Brigadeiro Luiz Antonio) e a rua da Consolação. O resto veio depois.
Então, o tal sujeito, que nunca deixou de morar na Real Grandeza, quero dizer, Paulista, começou a trabalhar como jardineiro ali na avenida nova. Com 15 anos, já era hora de ganhar a vida sozinho. As casas foram brotando, os terrenos de matas, virando casas e jardins.
A casa dele foi arrasada logo na época do loteamento dos terrenos (não, ninguém perguntou nada para ele nem para os pais dele, que também usavam o barraco), mas ele passou a morar então nos fundos dos terrenos para os quais fazia trabalhos de capina. Uma das casas sempre lhe deixava passar a noite ali. Afinal, ninguém é de ferro.
Seu Agapito - esse era o seu nome - teve muito serviço. Com 35 anos de idade, as casas já ocupavam praticamente toda a avenida, que, nessa época, já ligava a Praça Osvaldo Cruz à rua Minas Gerais, lá no mirante no fim da Paulista. Os jardins eram bem cuidados, São Paulo era uma cidade cada vez maior e mais rica.
Com 60 anos de idade, em meados dos anos 1930, Seu Agapito viu chegarem aqueles prédios que já existiam em número razoável no centro da cidade chegando cada vez mais perto. Um belo dia, o primeiro se instalou na avenida, tendo que, para isso, derrubar um dsos casarões. Seu Agapito não gostou muito, mas, enfim... era um só.
Quando Seu Agapito completou 90 anos, em 1966, os prédios continuavam a brotar, fazendo uma mansão cair atrás da outra. Com 110 anos, em 1986, o velhinho já não conseguia mais achar facilmente uma casa. Quase todas caíram para prédios enormes nascerem em seu lugar. Ele não gostava. Era muita sombra na rua, havia pouquíssimos jardins para cuidar. Ele ainda vagava pela rua e dormia no parque "em frente ao tar do museu". Achava que os artomóvis faziam muito barulho". Sentia saudade dos bondes, que ele viu nascer e morrer.
Dez anos depois, com seus 120 anos, viu a casa dos Matarazzo ser derrubada. Até ela, meu Deus? Mas ali, não fizeram prédio. Encheram de carros. Ele às vezes pulava na piscina da mans"ao de madrugada, escondido, para ninguém ver. Hoje a piscina estava aterrada. Alguém o convidou por essa época para catar mato no palacete das Rosas, um dos poucos jardins e casas que sobreviveram.
Outro dia - por esses dias agora, neste mês de outubro do ano da graça de Nosso Senhor de 2011 - ele viu um movimento estranho naquela casa que ainda existe ali perto da rua Leôncio de Carvalho. Foi ver o que era. Soube então que vão derrubar para construir um prédio. De deiz andar. Não entendeu. Cumé qui pode, sô? Tanto prédio! Pricisa memo de maizum? Quem seria a anta que havia autorizado isso? Bem aqui, onde ele costumava jogar bola lá por 1901, 1902...
A anta, Seu Agapito, foi o prefeito, um tar de Kassab. Ele não enxerga o óbvio: a cidade não aguenta mais... ainda mais na Paulista, já com trânsito caótico e falta de verde, excesso de concreto... O velhinho ficou perplexo. Disse aos amigos que "tá na hora de eu morrê, num tá? A burrice invadiu o mundo, sô! Que fizeram da mata que me cercava quando nasci"?
Seu Agapito pode até ser uma lenda. Mas a demolição de mais um casarão da Paulista para a construção de mais um edifício não é. Inacreditável como se destrói uma cidade e não se percebe, e, quem percebe não toma nenhuma providência para impedir.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011
UM CASARÃO DESAPARECIDO
Casarão de J. MoreiraNa avenida Brigadeiro Luiz Antonio existiu, pelo menos até os anos 1960, talvez início dos 1970, um casarão raro na cidade de São Paulo. Ele ficava num terreno elevado em relação à rua e no seu ponto mais alto, deixando uma ampla área para um grande e bem tratado jardim. Ficava na esquina superior com a rua dos Ingleses.
A sua fotografia me foi enviada pelo Douglas, do São Paulo Antiga, que a recebeu de Eli Mendes de Moraes. O casarão pertencia a um empresário paulistano de nome J. Moreira. O ano da fotografia é 1914.
Hoje, no lugar desta bela casa e jardim existe um prédio de escritórios horroroso e ocupado pela Embratel. Deve ter sido construído nos anos 1970. É certo que, pelo menos até 1958, o casarão ainda estava ali.
Mapa Sara Brasil - 1930 - o casarão está ao centro do mapa. Mais à direita, para cima, o outro na esquina da Santa Madalena com a Alfredo Ellis.No mapa da Sara Brasil de 1930, a casa ainda está lá com o seu jardim. Ver nesta página. Dá para ver que havia outra casa com amplo jardim na esquina da Brigadeiro com a alameda Ribeirão Preto, mas, como ali não existe uma elevação, a casa não teria o mesmo aspecto, construída numa área mais alta do terreno. É esta característica da casa de J. Moreira que a torna rara.
Se olharmos o mesmo mapa, veremos que há uma casa que pode ter tido esta característica, na esquina das ruas Santa Madalena e Alfredo Ellis. O muro e o terreno estão lá até hoje, servindo como estacionamento, mas a casa foi demolida e nunca vi fotos dela. Como a entrada era pela esquina das duas ruas (vê-se pelo muro ainda existente) e o terreno sobe, esta característica pode ter sido a mesma.
São relíquias que não mais existem e que faziam São Paulo ser uma cidade muito mais bela do que o é hoje.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
SÃO PAULO BOMBARDEADA (E NÃO É 1924!)

A cidade de São Paulo viveu sob o bombardeio do "fogo amigo" em julho de 1924. Quem bombardeou não foram os revoltosos que a invadiram, mas sim as forças do Governo da República, que com isso pretendiam expulsar os rebeldes que tomaram conta de boa parte da cidade. Conseguiram. Em 28 de julho, todos pegaram o trem da Paulista na Luz e caíram fora. As consequências dessa fuga até hoje repercutem no Brasil.
Porém, as casas e fábricas destruídas em 1924 foram somente o começo. As fotografias da destruição de 1924 mostravam sempre ruínas com pessoas em volta olhando o estrago. Hoje, a cidade vive um bombardeio silencioso e as pessoas nem param mais para olhar.
Em poucas semanas, foram-se casarões na avenida Brigadeiro Luiz Antonio - pelo menos dois. Foram-se duas casas vizinhas na rua Carlos Sampaio. Foi-se uma casa na esquina da alameda Maracatins com a rua dos Chanés, a um quarteirão da avenida dos Bandeirantes. Olho para o céu e não vejo aeroplanos, não vejo obuzes nem bombas V-2. Também não há tropas da União em volta da cidade. Quem são esses destruidores de casas, tão ou mais rápidos do que o exército de Artur Bernardes?
Na verdade, esses agentes do mal estão bombardeando a cidade já há muito tempo. Em 1924 eles já existiam, mas ainda eram lentos. Com o tempo e a verdadeira admiração dos vilões (não, não pense nos vilões da DC ou da Marvel, pense nos vilões origens da plavra: os habitantes das vilas que enchiam o saco do nobre que era dono dela) pelos edifícios de apartamentos com nomes ingleses, franceses ou italianos, eles se tornaram mestres no assunto.
Eles nem precisam de aviões, obuses ou bombas V-2. Bastam guindastes, pás, picaretas e, de vez em quando, uma implosãozinha. Silenciosos e sorrateiros, eles vão derrubando o que encontram pela frente. Treinaram em Higienópolis, depois na Paulista, nos Jardins (na verdade, a velha Vila America, que nem esse nome tem mais), Moema, Itaim e dezenas de outros bairros, transformando a cidade numa selva de pedra (alô, Francisco Cuoco e Regina Duarte!).
Hoje, fotografei a casa da alameda dos Maracatins, da qual falei acima. A foto está no topo desta postagem. Também estive em três prédios em Moema, em andares altos. De lá, quase não dá para se ver os leitos das ruas estreitas do bairro. O que se vê são prédios e um ou outro telhado de telhas de barro, além das horríveis coberturas de zinco ou de cimento-amianto. De um deles, vi uma construção muito bonita que, por enquanto escapa da destruição: o prédio da Cruz Vermelha na avenida Moreira Guimarães com seu imenso jardim, cada vez mais cercado pela barreira de pedra 'a sua volta.
Córregos com o Uberaba e o Paraguai, que foram canalizados embaixo de prédios, também desapareceram há muito. As casinhas cada vez são em menor número e raramente abrigam moradores, mas apenas pequenas lojas e restaurantes. Na avenida dos Eucaliptos, uma fileira de casas - aliás, muito bonitas - estão cercadas por um muro com o símbolo do metrô. Vão para o chão. O metrô também é um dos bombardeadores da cidade.
domingo, 19 de setembro de 2010
CORRIDAS NA BRIGADEIRO EM 1926

Em sua edição de 15 de maio de 1926, a Revista da Semana publicou uma reportagem fotográfica sobre uma corrida de automóveis na avenida Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo.
Essa corrida foi promovida pelo jornal paulistano São Paulo Jornal (extinto há muito) e o que dá para se entender do pequeno texto que foi publicado juntamente com as fotografias é que foi mais de uma corrida, em benefício da "Assistência aos Lázaros", e que elas tiveram lugar na avenida citada.
A maior das fotos mostra a residência da família Cotrim, "cedida gentilmente para servir de pavilhão central" na avenida. A moça que aparece no estribo de seu Lincoln em outra foto é a srta. Dulce Barreiros, vencedora de uma das provas. Na foto 3, o Conde Eduardo Matarazzo, que venceu com a sua Bugatti a prova "Cidade de São Paulo". As outras duas fotografias mostram outros aspectos das provas.
Realmente, São Paulo era diferente.
domingo, 20 de junho de 2010
EDIFÍCIO COLUMBUS
Revista VEJA, 30/9/1970 - o Edifício em pé, à esquerda, e, em 1970, já demolido, vê-se a avenida 23 de Maio, não existente na primeira foto, à esquerda.Eu, realmente, jamais havia ouvido falar dele. Este edifício - o Columbus - foi construído e entregue no ano de 1932, projetado pelo arquiteto Rino Levi, para ser o primeiro edifício de luxo da Capital paulista. E cumpriu com o que havia se proposto.
Tanto cumpriu que, em 1970, foi demolido. Demolir um edifício de luxo, com nove andares, de apenas 38 anos? O motivo parece ter sido claro. Quando ele foi inaugurado, ficava a três quarteirões da Praça da Sé, na avenida Brigadeiro Luiz Antonio, na esquina com o viaduto Dona Paulina, local bem, na época. Em 1970, a avenida 23 de Maio, recém-aberta, já com trânsito pesado, passava nos seus fundos, encostando na sua parte traseira, enquanto o viaduto da Brigadeiro, agora à sua frente, descendo do largo de São Francisco, já apresentava grandes sinais de deterioração.
O curioso foi que a reportagem de sua demolição foi publicada na revista VEJA, edição de 30 de setembro de 1970. Eu tive acesso a essa reportagem há cerca de três semanas apenas, por coincidência. E hoje, domingo, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma nota sobre a existência do prédio (dizendo que a demolição foi em 1971, mas foi, na verdade, um ano antes). A VEJA dizia que ele foi demolido para dar origem a uma garagem. Na verdade, hoje, no local do prédio, existe apenas um local vazio, um barranco entre a Brigadeiro e a 23 de Maio.
Poucos prédios de apartamentos foram demolidos em São Paulo. Lembro-me de alguns: um na avenida Paulista, há uns 4-5 anos atrás e dois na construção da grande Praça da Sé durante o metrô: o Palacete Santa Helena e o Mendes Caldeira. Sim, houve outros... infinitamente poucos, se comparados com o número de habitações monofamiliares que foram postas abaixo nos últimos cem anos, para reconstrução de novas casas, estacionamentos, alargamento de avenidas ou edifícios de escritórios ou residenciais.
O fato é que o Columbus deve mesmo ter sido um excelente local para se morar: afinal, teve apenas trinta e oito anos de existência, foi demolido há quarenta anos e até hoje merece citações a seu nome.
terça-feira, 13 de abril de 2010
AVENIDA PAULISTA E SUAS REMINISCÊNCIAS
A boca do túnel da Nove de Julho nos anos 1940 e o Trianon em cima dele. No meio das árvores no topo, a avenida Paulista não pode ser vista. Como falo abaixo, construir as colunas do MASP onde?Andar de ônibus em qualquer lugar, desde que sentado e não espremido, tem afinal algumas vantagens. Na avenida Paulista, por exemplo, eu estava reparando, com o ônibus trafegando lentamente pela sempre congestionada avenida, que ao cruzar a Brigadeiro Luiz Antonio dá para ver que ela tem uma característica diferente das outras ruas que cruzam a Paulista.
Além de ser uma rua bem comercial, que no seu último quarteirão entre a São Carlos do Pinhal e a Paulista ainda conserva algumas casinhas antigas, ela é "torta": ou seja, ela não é paralela às outras ruas que cruzam o espigão que na verdade, em seus 800 metros de altitude, separa as bacias do Tietê e do Pinheiros.
Ela é a antiga estrada de Santo Amaro. Cento e vinte anos atrás, quando a Paulista e suas transversais ainda estavam em construção no meio da mata do Caaguaçu, ela era o ponto inicial da avenida e era a única rua que já existia ali, além da estrada de Pinheiros (rua da Consolação), que era o final da avenida. Sim, a Paulista original corria entre as estradas de Santo Amaro e a de Pinheiros.
Era a única rua, além da Consolação, que já tinha algumas construções. Torta, por que essas antigas estradas estradas dificilmente seguiam um caminho reto — embora a Brigadeiro, quando desça para a várzea do Pinheiros seja uma estrada quase que reta. Fiquei imaginando aquela rua que vinha desde o Piques e seguia para o largo 13 de Maio, no centro do extinto município de Santo Amaro, um caminho de terra com tráfego de carros rudimentares, substituídos pelos bondes dez anos depois e finalmente pelos automóveis e ônibus não muito tempo depois.
Por ela chegaram os trilhos para a avenida Paulista, que seguiam para a rua da Consolação e desciam para o centro velho. Mais tarde, a Paulista ganhou prolongamentos dos dois lados, um até a praça Osvaldo Cruz, seu atual "marco zero" no bairro do Paraíso e do outro lado até a barranca do vale do córrego Pacaembu, na atual rua Minas Gerais.
Seu prolongamento para as cabeceiras do córrego Pacaembu foi projetado nos anos 1920, descendo em curvas para onde hoje está o estádio do Pacaembu e seguindo pelo vale no que hoje é a avenida Pacaembu. Tal não aconteceu.
Do outro lado, a avenida se encontrava com a rua do Paraíso. Quem vinha por ela e por esta rua seguia até a rua Vergueiro — o antigo Caminho do Carro para Santo Amaro — e entrava à direita, seguindo pela rua Domingos de Moraes para dali ir para os limites da cidade, antes da Saúde.
Fico só imaginando. Não há fotos, há apenas dados e reminiscências. Por esses caminhos passaram figuras importantes da história do Brasil, para o bem ou para o mal. Os velhos casarões dos chamados barões do café (e não somente deles) foram construídos um atrás do outro a partir de 1892 até os anos 1930. Dali para a frente acabou seu ciclo, e um foi sendo demolido atrás do outro. Hoje em dia três são tombados e uma ou outra casa mais recente ainda sobra de pé com usos não residenciais.
Uma muralha de prédios de apartamentos e de escritórios margeia a avenida. Fora o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, construído sobre as ruínas do Palácio Trianon, demolido em 1951. Aquelas colunas vermelhas sustentam o maior vão em concreto armado do mundo (é isto mesmo?). Reparei nas colunas e penso que não havia outra forma de se o fazer - não sei se estou certo. Afinal, aquele ponto da Paulista foi aterrado durante a sua construção, Ali eram as nascentes do Saracura, mas a altitude era bem menor do que a do resto da avenida, daí a necessidade do aterro. Em 1940 sob ele se construiu o túnel da Nove de Julho. Fazer as colunas sobre o túnel? De jeito nenhum, a fundação tinha de ser funda, pois era aterro... então foram feitas duas de cada lado de cada túnel...
sexta-feira, 5 de março de 2010
VELHAS ESQUINAS DE SÃO PAULO
Houve um tempo em que as casas de esquina foram bonitas. De anos para cá, as esquinas são aproveitadas em casas ou prédios recuados em relação à rua, deixando que jardins - ou, mais provavelmente, estacionamentos - fiquem juntos à calçada.
Porém, como grande parte das casas e mesmo prédios mais altos de apartamentos ou de escritórios ficavam encostados às calçadas, propiciando aos moradores espiar pelas janelas, elas se tornavam mais bonitas com seus adornos, seus enfeites, inciais dos donos ou construtores, o ano de entrega da obra, as pequenas estátuas no topo, pequenas carrancas, calhas. Não havia pichadores, que tanto enfeiam as cidades, mesmo havendo hipócritas que dizem que pichação é arte.
Fotografei ontem duas esquinas na rua Domingos de Moraes, bem como uma hoje na avenida Brigadeiro Luiz Antonio. São casas com dois ou três andares — não exatamente casas, pois a parte de baixo foi projetada para serem lojas ou escritórios, enquanto geralmente seus donos moravam no andar ou dois andares acima. Hoje na maioria dos casos, as casas desse tipo que sobraram, construções dos anos 1910, 20 e 30, não têm mais funções residenciais.
Uma das que fotografei fica na esquina das ruas Domingos de Moraes e França Pinto. Quando eu era moleque, ali era o cinema Phenix, com a placa que nomeava o cinema bem no topo na curva da esquina. Hoje há pequenas lojas em baixo e sei lá o quê nos andares de cima. Se não se soubesse que era um cinema, dificilmente se perceberia. Mas era. E já era o chamado "pulgueiro" nos anos 1960. Parece que ele existia desde os anos 1920, e devia ser um cinema de bairro melhor àquele tempo.
Creio que até os anos 1980 ainda era cinema. De qualquer forma, o prédio nao está tão mal conservado externamente e ainda é bonito, tem sua imponência. A foto está acima, tirada por mim ontem. Nunca cheguei a frequentá-lo, haja vista sua fama já naquela época, anos 1960.
O passado de São Paulo continua sendo derrubado pela especulação imobiliária. Porém, a rua Domingos de Moraes não é uma rua em que os imóveis estejam tão valorizados, por causa de sua frequência, seu barulho, excesso de ônibus e carros. Os silenciosos bondes foram-se há muito tempo. O metrô passa por baixo dela, e mesmo assim somente no trecho com pista dupla, mais para a frente em relação ao cinema.
Ontem mesmo desabaram três casas em São Paulo. Duas no Bixiga e uma, parcialmente, na alameda Barão de Piracicaba, o Solar do Barão de Serra Negra, construído em 1883, em ruínas há anos e sem telhado há algum tempo. Com o excesso de chuvas, a queda de três imóveis não é coincidência. É fruto do descaso de seus donos e dos órgãos de preservação. Neste caso, foram-se sem ser pelas imobiliárias. O cine Phenix, por sua vez, deve aguentar ainda um bom tempo, já que está ocupado, apesar de suas pichações no andar superior e sua razoável conservação. Que assim continue, embelezando aquela esquina.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
O BAIRRO DE CERQUEIRA CÉSAR
Diário de São Paulo, 11/1/1948Este bairro hoje aparece em todos os mapas como sendo aquele que fica ali logo abaixo da Paulista, entre esta avenida e a rua Estados Unidos e entre a avenida Rebouças e a Brigadeiro Luiz Antonio. É cortado pela rua Augusta e pela avenida Nove de Julho, por exemplo.
Pouca gente o chama assim. O mais normal é chamá-lo de “Jardins”, ou mesmo “Paulista”, visto que ele fica logo abaixo dela e encosta na própria. Tem uma sequência enorme de edifícios de apartamentos e de escritórios, hotéis, etc. Tem até casas, que em sua enorme maioria tornaram-se lojas ou escritórios, bares ou restaurantes.
É um dos bairros totalmente “quadriculados” de São Paulo, que, numa cidade de muitos morros, subidas e descidas, é raro. Até o final do século XIX, era, pelo menos em sua parte ao redor da rua Augusta, parte da Chácara do Capão, onde não havia ruas, apenas caminhos internos, e tinha até um pomar de jabuticabeiras, mais ou menos onde hoje estão as alamedas Lorena e Rocha Azevedo e ruas Oscar Freire e Padre João Manuel. Eu cheguei a ver uma delas, no quintal dos fundos de um amigo meu que morou numa casa na Rocha Azevedo, entre a Lorena e a Oscar Freire até os anos 1970. A casa foi demolida e a jabuticabeira, cortada.
O que pouca gente sabe é que o bairro não era ali. Até pelo menos o início dos anos 1950, o nome do bairro era Vila América. Cerqueira César era o bairro que ficava entre as avenidas Rebouças e Sumaré – na época, esta não existia – e a avenida Doutor Arnaldo e a rua Henrique Schaumann. Este bairro, também quadriculado, era Cerqueira César. Basta ver os mapas dessa época e os anúncios de terrenos e casas na região, como o que está acima, na rua Lisboa, anuncio de 1948.
Curioso – quem terá mudado o nome? E por que? O bairro original de Cerqueira Cesar hoje é chamado de Sumarezinho, ou mesmo de Pinheiros, embora esteja longe de Pinheiros: nem a rua de Pinheiros passa por ali, ela começa depois da rua Henrique Schaumann.
O fato é que o bairro migrou por alguma razão. Aliás, quem foi Cerqueira César? Pelo que sei, foi um dos acionistas originais do jornal O Estado de São Paulo. Eram vários. Cerqueira César, pelo que vi, era de — ou morava em — Rio Claro.
Seu genro era Julio de Mesquita que, com a morte de seu sogro, tornou-se acionista, um dos principais, já que vários outros deixaram a sociedade no início do século XX.
Por que o seu nome estava no bairro citado, não sei. Ainda não pesquisei para obter a resposta certa. Talvez possuísse terras naquele bairro. Ou não, já que a enorme quantidade de logradouros públicos em São Paulo e no Brasil nada tem a ver com as pessoas que lhes dão nome.
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