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segunda-feira, 19 de junho de 2017

OS TRILHOS DA REVOLUÇÃO DE 1930 NO PARANÁ

Aqui, o General Rondon posa meio triste por ter sido capturado em seu próprio trem em Marcelino Ramos pelas tropas de Vargas. 

A revolução de outubro de 1930 marcou o Brasil por muito tempo. A vitória de Getulio Vargas, depondo o presidente Washington Luiz, levou o primeiro a estar à frente de um governo que duraria por 15 anos (1930-45), tendo ainda um "puxadinho" de mais três anos e meio (1951-54), que somente acabou quando Vargas enfiou uma bala no próprio peito.

Aqui, a artilharia dos revoltosos partem de Sengés para um combate em Morungava, do qual sairiam vencedores. Usariam transporte animal e carroças nesta empreitada. Reparem que a linha férrea da São Paulo-Rio Grande passa pela ponte.

Sem discutir aqui a política e as consequências de tudo isto, achei interessante colocar alguns dados da parte ferroviária da revolução de 30, encontradas numa revista especial emitida na época, da qual não tenho capa nem o próprio nome.

Aqui, Assis Chateaubriand posa ao lado da locomotiva. Ele apoiava os revolucionários.

Trata-se aqui do movimento feito pelo trem que conduziu Vargas ao Rio de Janeiro, passando pelas linhas da Viação Ferrea do Rio Grande do Sul, da E. F. São Paulo-Rio Grande e da Sorocabana - para, em São Paulo, seguir para o Rio de Janeiro pela Central do Brasil, o que obrigou Vargas a descer numa estação e seguir para outra, por causa da diferença de bitolas.


Acima, as tropas e seus animais embarcavam em Itararé. Abaixo, um mapa de combates ao longo do ramal do Paranapanema e do rio Itararé, no Paraná.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

A FALSA MORTE DE MIGUEL COSTA EM SENGÉS, PR (1930)


Em 14 de outubro de 1930, o jornal paulistano Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo) publicou na primeira página a notícia reproduzida acima, reportando a morte do então ex-Major Miguel Costa, da Força Publica de São Paulo.

Era falsa. Não se sabe de onde a Folha tirou a notícia, mas, como aliado de Getulio Vargas, a sua "morte" foi bem recebida por defensores das forças legalistas de Washington Luiz, então Presidente da República. Ele seria deposto dez dias depois.

Não fui atrás de desmentidos do jornal. O fato é que ele não estava morto e, talvez, nem estivesse em Sengés - que é a cidade paranaense que faz divisa com a cidade de Itararé, esta em São Paulo.

Três semanas mais tarde, ele estaria no mesmo trem que trouxe o triunfante Getulio Vargas do sul do país para São Paulo.

Se não houve nenhum desmentido do jornal até o dia 24 de outubro, depois ficou difícil: com seus escritórios e oficinas invadidos e destruídos ("empastelado", como se dizia então) pelo povo nesse mesmo dia, o jornal somente voltaria a circular no Natal.

E Miguel Costa assumiria como comandante das milícias de Vargas em São Paulo, ficando no cargo até pouco antes da Revolução de 1932.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

QUANDO O GOVERNADOR ANDAVA DE TREM

Fevereiro de 1943. Por algum motivo, o interventor no Estado de São Paulo (na época, regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, não havia governadores, mas interventores federais nomeados pessoalmente pelo Presidente da República) resolveu visitar algumas cidades da Alta Sorocabana.

Ele foi de trem. Não era, realmente, surpresa: as estradas de rodagem nessa região eram péssimas - quando existiam. Mas a vantagem de se viajar de trem (no caso, a Sorocabana) era descer nas estações em bom estado e ser festejado pelo povo que nela se espremia, deixnado à sua frente os puxa-sacos políticos de cada cidade.

As cidades escolhidas para suas visitas foram, além de Sorocaba (logo no início da viagem), as que ficavam realmente na Alta Sorocabana, que na época não tinham nem quarenta anos de idade: Salto Grande, Pau D'Alho (hoje Ibirarema), Palmital e Ipauçu.

Pequenas, com população que rondava os 5 a 10 mil habitantes no máximo naquele tempo, verdadeiras usinas de poeira sem pavimentação de qualquer espécie, Fernando Costa pode ter sido o primeiro governador a visitar esses locais. A festa se dava principalmente pela curiosidade da população e dos próprios políticos em receber tão alta autoridade em suas minúsculas cidades.

E, também, numa região isoladíssima dos grande centros, era motivo de se ter algo diferente para fazer, não interessando aos populares se gostavam ou não do interventor. Já os prefeitos - vereadores não haviam no Estado Novo - eram sempre obrigados ao "beija-mão", pois eram nomeados também pessoalmente pelo interventor. Tudo era motivo para festa numa região de total tédio.

E a Sorocabana, de propriedade do Estado, era o meio de transporte para aquelas paragens, o único meio decente então, com todos os defeitos que pudesse então ter. No entanto, comparando-se com o que viria a se tornar setenta anos depois - ou seja, hoje - uma verdadeira maravilha, com trens de passageiros, hoje apenas uma saudade, e cargueiros indo e vindo para transportar praticamente toda a riqueza daquelas paragens e levar-lhes praticamente toda a subsistência.

Tal quase-monopólio já teria desaparecido vinte anos mais tarde, vitimados pelos automóveis, ônibus, caminhões e até aviões, que competiriam facilmente como abandono cada vez maior dos governos em relação às "velhas" e "obsoletas" ferrovias.

Da reportagem que trazemos (parte) no cabeçalho desta postagem, acima, publicada no jornal Folha da Manhã de 20 de fevereiro de 1943, extraímos pequenas frases, como: "...em Pau D'Alho o sr. interventor federal e os componentes de sua comitiva foram alvo de expressiva homenagem, sendo s. exa. cumprimentado na estação pelo sub-prefeito (...) Deixando a composição especial em que viaja, o sr. Fernando Costa"; "Às 21h 30, o trem especial deixava Sorocaba, prosseguindo o sr. interventor federal e sua comitiva sua viagem com destino à Alta Sorocabana"; "Palmital foi a cidade seguinte, visitada pelo sr. Fernando Costa e sua comitiva, às 10 h 35 o trem especial dava entrada na estação, onde já se encontravam os srs. (...)". "(Em Salto Grande) a chegada do trem especial que conduz o chefe do governo paulista se deu precisamente às 8 h 40, em meio das manifestações de júbilo da enorme massa popular que se comprimia na estação ferroviária local".

E por aí vai. Trem especial, estações ferroviárias cheias, chegas e partidas com horários... há quanto tempo não vemos isto nos jornais? Aliás, provavelmente a maior parte das pessoas vivas de hoje jamais tenham lido isto, pois trens metropolitanos não têm este tipo de coisa: a recepção de uma ou mais pessoas, importantes ou não. Nas estações da CPTM e do metrô, pessoas esperam pelos trens para embarcar; pessoas não esperam mais por pessoas para recepcionar; pessoas não estão lá para acenar para quem deixa a plataforma depois de embarcar...

segunda-feira, 11 de junho de 2012

MARAVILHAS D'ANTANHO


Belmonte: Prestes Maia em 1942 (Folha da Manhã)

A vida era uma maravilha no Brasil durante a Segunda Grande Guerra. Dá para acreditar nisso? Bem, eu não era nascido nessa época. Porém, se eu hoje fosse um alienado e de repente caísse-me às mãos exemplares dos jornais do Brasil dessa época em minhas mãos, era isso que seus textos e reportagens levar-me-iam a crer.

A guerra pipocava "lá fora". Incrível como, quando a arruaça está feita - Hitler e seus amiguinhos tentavam mudar a história do mundo a seu favor - os outros países tratam de aproveitar e fazer suas arruaças também. Na Europa, com exceção de Portugal, Espanha e Suíça (esta no meio da briga e salva pelas suas contas bancárias, de todos os beligerantes), todos os outros países brigavam e de uma forma violentíssima, de selvageria tão brutal - ou pior - que durante a Primeira Guerra Mundial.

Na Ásia, o conflito se desenvolvia, patrocinado pelo Japão. Os países árabes, detentores de petróleo, assistiam. Longe da sanha das forças, barradas pela União Soviética a partir da Europa, torciam para que ninguém frquajasse e os atacasse. Na América, o Peru e o Equador resolveram tentar sua guerrinha particular, segura a tempo de fazer maiores estragos.

E aqui na terrinha, tudo era uma maravilha. Nos jornais, os correspondentes do interior (por onde eles andam hoje?) enviavam para os jornais da Capital interessantes notícias: chovia muito, seca, inundação, fulano estava na cidade, beltrano viajou para fora, pequenos assaltos, desastres ferroviários e rodoviários, políticos inaugurando escolas, agências do Banco do Estado.

Todo político era um amor, pensava no povo, era homenageado de tudo quanto era forma, os jornais despejavam elogios a eles e suas esposas. Não havia políticos desonestos. Quando um não agradava ao seu padrinho - ninguém era eleito nessa época - ele simplesmente o sacava e colocava outro. A notícia geralmente era: o prefeito de tal lugar foi empossado. Nunca "o prefeito de tal lugar foi sacado".

Adhemar de Barros foi puxassaqueado pelos jornais de 1938 a 1941, quando por algum motivo Vargas o pôs para fora, colocando ali Fernando Costa. As notícias que relatam a mudança chegam a ser hilariantes de tão ingênuas. Pouco se falava de por que Ademar saiu. Era por "ter pedido afastamento".

O nome de tudo isso era censura. Censura brava.

Aqui na Capital era que havia muita notícia: inaugurações em penca de bobagens, mas a curiosidade: o centro da cidade, especialmente o hoje chamado de "Centro Velho", era posto abaixo para o alargamento de praças e ruas. Nessa época, já era possível de se prever o aumento brutal de população nos anos seguintes - e de carros e contruções, é evidente. Mais do que isso, era evidente que isso se espalharia para fora do centro velho - mas as obras eram concentradas praticamente só no centro velho e um pouco no centro novo (avenida Ipiranga, por exemplo).

Se Prestes Maia realmente visse isso, esqueceria as derrubadas no centro novo para construir avenidas concêntricas - mini rodo-anéis. O primeiro somente saiu mesmo nos anos 1960 com Fontenelle. Se avenidas concêntricas tivessem sido projetadas nos anos 1940, certamente a cidade estaria melhor servida hoje - se bem que, hoje, não há Cristo que resolva nada.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

WILSON E O DIA EM QUE VARGAS MORREU

A antiga estação de Porto Alegre - o "Castelinho", demolida para dar lugar a um viaduto em 1970

O pai de Wilson vendia anilinas pela Duperial, a antiga empresa que, no Brasil, congregava a DuPont e a Cia. Imperial, duas empresas químicas americanas. Nascido em Sorocaba, ele havia começado a trabalhar por ali mesmo e foi parar em São Paulo, onde entrou na empresa e se deu tão bem no serviço que foi convencido pelo chefe, um americano, a ser transferido para Porto Alegre para desenvolver esse mercado por lá. Minha mãe não queria ir, mas o americano foi até sua casa para convencê-la de que essa mudança seria boa para todos. E foram Wilson, com dois anos de idade, e seus pais, em 1944, para o sul.

Wilson, amigo meu de anos, continuou contando: “Em Porto Alegre, meu pai ficou feliz até que a DuPont e a Imperial resolveram se separar, ficando meu pai na DuPont, encarregado de montar o primeiro escritório da empresa naquela cidade. Era ele, uma escrivaninha e um telefone. Mas as anilinas ficaram com a Imperial – depois, ICI do Brasil e hoje desaparecida, engolida por outras multinacionais – e ele gostava mesmo era de vender anilinas e não os outros produtos que lhe sobraram nas mãos. Aí, ele convenceu os chefes a voltar para São Paulo, deixando outra pessoa no lugar, e, numa manhã de 1954, já tinha tudo embalado para voltar para a sua Sorocaba, onde moraria provisoriamente até arranjar um local em São Paulo. Mesmo assim, eu ainda fui nessa última manhã a pé para a escola, nos meus doze anos, como sempre fazia. No caminho, no centro da cidade, uma multidão de gente atacava com pedras e incendiava lojas e escritórios, dos americanos, vim a saber depois. Voltei assustado para casa, e ali descobri que Getulio Vargas acabara de se suicidar.

“Meu pai, que resolvera despachar tudo para Sorocaba no trem, inclusive o piano, lembro-me bem disso, resolveu que, já que toda a bagagem e mudança iria no trem, nós iríamos também. Só que na cidade reinava uma grande confusão, com os gaúchos inconformados com a morte do seu líder. Ele telefonou para a estação, no Castelinho, e os funcionários da Viação Férrea do Rio Grande do Sul lhe disseram que o trem sairia assim mesmo, no dia seguinte, dia 25 de agosto, pois a situação era calma nos demais Estados.

“Na manhã seguinte, a família formou um comboio de automóveis, e seguimos assim até o Castelinho, onde embarcaríamos. Passamos pelo Centro e os policiais nos pararam várias vezes para perguntar aonde íamos e o que queríamos. Chegamos à estação, despedimo-nos dos tios e tias, que nos deram bolos, tortas e cuscuz para a viagem, longa, que tomaria três dias e três noites até Sorocaba, com baldeações etc. Minha mãe achou aquilo desnecessário e enfiou tudo num saco, para não deixar ninguém ofendido. Fiquei maravilhado quando entrei no carro: era um carro-dormitório, com cabines, cama e tudo o mais, tudo novidade para mim.

“O trem partiu e parava em cada parada, cada estação, cada caixa d’água. Pouco depois da partida, o chefe do trem avisou que devido à situação confusa da cidade, o carro-restaurante não seguiu na composição; não havia comida nem água no trem. Os bolos das tias passaram a ser a nossa salvação. Nós olhávamos pela janela e víamos que em cada parada, os passageiros desciam como loucos buscando comprar tudo o que os meninos ofereciam nas bandejas – desde doces até água, sucos, tudo. Nunca venderam tanto. E assim fomos até Santa Maria, onde no caminho, em varias paradas havia também fiscalização da Policia ou do Exército. Em Santa Maria, lembro-me vagamente que a composição foi dividida em duas e o nosso carro engatado numa locomotiva que seguiria agora para Marcelino Ramos – lembro-me bem desse nome. No segundo dia, a nossa comida acabou, e o povo continuava comprando tudo o que via nas paradas. Meu pai, então, tomou a decisão de se postar entre dois carros, de forma que, agora, ele podia pular primeiro na frente dos outros e comprar comida. Na primeira parada, conseguiu comprar um frango assado, e assim comemo-lo dividido por três como pudemos, depois de montar a mesinha disponível na cabina.

“A partir de Santa Catarina, as coisas foram se normalizando, e, depois de algumas paradas mais longas, trocas de locomotivas, etc – provavelmente, pelo que aprendi depois, em Marcelino Ramos, Porto União, Ponta Grossa e Itararé – chegamos em Sorocaba, sem grandes atrasos, onde começamos vida nova. Mais tarde, mudamo-nos para São Paulo, meu pai deixou a DuPont, andou por outras firmas até terminar se aposentando pela BASF em meados dos anos 1960. Eu, por minha vez, acabei entrando na DuPont, nos anos 1970, e fiquei nela até me aposentar, mas mudando-me para a velha Sorocaba no início dos anos 1980. A mesma Sorocaba que eu visitava constantemente, tomando o trem da Sorocabana em Imperatriz Leopoldina ou em Domingos de Morais, fatos dos quais me lembro com saudade.

“Da estação de Porto Alegre, o “Castelinho”, nada sobrou. Os trens de passageiros pararam em fevereiro de 1996 no Rio Grande do Sul. Já os trens que nos levavam de São Paulo para Porto Alegre, esses acabaram em 1976.”

sábado, 10 de dezembro de 2011

VAMOS DIVIDIR O PARÁ? POR QUE NÃO O RESTO TAMBÉM?

Publicado em 7/12/1930

Estou plagiando a mim mesmo...

Estou com esta curta postagem, com dois mapas muito imaginativos da década de 1930 publicados em jornais da época, homenageando os espertalhões do Pará que querem dividir o estado para dividir a miséria, com amplas vantagens para eles, os políticos.

No dia 4 de abril de 2009, numa das primeiras postagens deste seleto (!!!) blog, escrevi sobre as propostas de redivisão do Brasil que surgem de tempos em tempos. No caso, houve inúmeras propostas durante o governo de Vargas no Governo Provisório (1930-1934).
Publicado em 27/2/1931

Graças aos arquivos de meu avô, tenho diversas dessas propostas insanas em meu acervo.

Na tal postagem, coloquei apenas duas delas, que reproduzo aqui. Por que não ponho hoje as outras? Por que meu scanner deu pau! Mas... divirtam-se novamente.

Se quiserem ver a postagem anterior, cliquem aqui.

sábado, 3 de dezembro de 2011

FESTA NO PACAEMBU

Folha da Manhã, 26/4/1940

Neste domingo, teremos uma decisão do mais importante campeonato de futebol da América e um dos mais importantes do mundo no romântico Estádio Municipal do Pacaembu.
Folha da Manhã, 26/4/1940

Estádio que já foi pequeno em tempos não tão remotos - hoje cabem cerca de 40 mil torcedores, se tanto -, mesmo assim somente estará sendo utilizado para um jogo que por acaso decide o campeonato de 2011 simplesmente por causa de uma briga política imbecil entre dois presidentes de clubes que, pelo tipo de atitudes que têm tomado, jamais deveriam ter ocupado esses postos em seus clubes. Utilizar o Estádio do Morumbi, em termos financeiros, teria sido muito melhor negócio para o mandante do jogo.

O Pacaembu, por sua história e beleza, é, sem dúvida, o mais bonito estádio paulista e, pelos projetos que vejo nos dois estádios que estão sendo construídos hoje, Parque Antártica e Itaquera, continuará sendo-o.
Folha da Manhã, 27/4/1940

Foi inaugurado em 27 de abril de 1940. Nesta postagem, algumas das homenagens e anúncios que foram publicados na sua inauguração nesse ano. Algumas, bem ufanistas, colocando donos de empresas da época como grandes heróis. Típicos da época do Estado Novo de Vargas.

Enfim, uma boa homenagem para o velho e charmoso estádio.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

WASHINGTON LUIZ

Washington Luiz, Secretário do Estado em 1908

Não estou aqui para contar a história da vida de Washington Luiz Pereira de Souza (1869-1957), o "paulista de Macaé" e Presidente da República entre 1926 e 1930. Apenas para pensar que a enorme maioria dos presidentes da República têm uma cidade com seus nomes. Washington Luiz não a tem.

Nasceu em Macaé, RJ, mas fez toda a sua vida política no estado de São Paulo. Nos anos 1890, começou como advogado e vereador em Batatais, depois de se formar em direito pela Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, na capital paulista.

Ele ocupou praticamente todos os cargos políticos no estado paulista. Chegou a Presidente da República em 1926 praticamente sem oposição. Foi conhecido pelo seu lema "governar é abrir estradas": foi o primeiro presidente brasileiro que deu prioridade à construção de estradas de rodagem, continuando o que já havia realizado no mesmo sentido como governador (na época, cargo chamado de presidente) de São Paulo. Uma de suas obras foi a construção da Rio-Petrópolis.
A paradinha de Presidente Washington em 1986 - xerox de xerox de um diapositivo foi tudo que consegui em 15 anos de pesquisas

Teve um governo relativamente calmo politicamente, porém a crise da Bolsa de Nova York no final de 1929 começou a agitação do mundo todo, inclusive aqui. Sua pressão para indicar como candidato à sua sucessão o também ex-presidente paulista Julio Prestes levou a uma eleição em que a situação foi acusada pelo oposicionista perdedor - Getúlio Vargas, que havia sido seu ministro da Fazenda até 1928 - de fraude eleitoral.

A política brasileira agitou-se; a morte do presidente paraibano e também oposicionista a Julio Prestes, João Pessoa, em 1930 - na verdade, por motivos pessoais e não políticos - foi usada como estopim para uma revolução que acabou por derrubar Wasington Luiz em 24 de outubro, 22 dias antes da passagem do mandato para Julio Prestes.

Em relação a homenagens, claramente ele não as recebeu nos anos 1930 por causa do governo de Vargas, que possivelmente pressionou direta ou indiretamente para evitá-las. A cidade de Paraguaçu, hoje Paraguaçu Paulista, teve o nome trocado para Presidente Washington em 1930. Tal fato deu-se antes de sua deposição. Em março de 1931, o nome voltou a ser Paraguaçu. Após sua morte, em 1957, a Sorocabana estava construindo o ramal de Dourados (Presidente Prudente-Eucludes da Cunha) e decidiu-se pela construção em 1961 de uma estação ferroviária numa região rural e deserta do município paulista de Mirante do Paranapanema, com o seu noe: Presidente Washington. Não seria somente uma estação, mas também uma nova cidade, com planejamento rodoviário e tudo.
Projeto para a cidade de Presidente Washington: nunca saiu do papel

Washington Luiz teve uma triste sina: a estação jamais passou de uma paradinha de madeira, apenas uma plataforma com cobertura e alguns prediozinhos em volta. O projeto jamais foi levado adiante. As fotografias disso, se as há, jamais as vi. Em 1984, seis anos após o fim do trem de passageiros e já sem trens de cargas no hoje desaparecido ramal, o jornal O Estado de S. Paulo descrevia que "em Presidente Washington, os montes de tijolos, telhas, vigas, pedaços de ferro e buracos onde antes funcionavam as instalações sanitárias, a impressão é que os prédios sofreram um ataque". O local desapareceu. Jamais se ouviu falar dele novamente.

O fato é que houve homenagens a presidentes muito piores do que ele, que foi esquecido, não somente como presidente, mas também como historiador que foi, tendo publicado inúmeras obras sobre a história de São Paulo e do Brasil. Ele, o pai do rodoviarismo brasileiro, que, se hoje se tornou um quase monopólio dentre os diversos modais de transporte, não o foi por culpa dele e sim por causa de seus sucessores que resolveram fazer com que somente automóveis, ônibus e caminhões trafeguem hoje transportando pessoas e cargas e, por isso, causando in úmeros problemas à infraestrutura nacional.

Todos os modais devem coexistir em doses iguais. Nao deve um prevalecer como quase-monopólio. Estamos todos sofrendo hoje as consequências disso. Vejam o que ocorreu com o ramal ferroviário de Dourados, que funcionou apenas por cinte anos e foi totalmente sucateado.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

SUD MENNUCCI E O ANO DE 1932

1932: Página 1 de 2
As anotações de meu avô Sud Mennucci feitas a lápis na época em que aconteceram. O ano é 1932. Até maio, ele era o Diretor Geral do Ensino (hoje é o equivalente a ser Secretário Estadual da Educação). Em 24 de maio, deixou o cargo, desgostoso com os rumos tomados pelo PPP, a quem pertencia (o dia anterior foi o MMDC).
1932: Página 2 de 2
Mesmo assim, ele, sabendo das dificuldades e da real situação do Estado, quando estourou a revolução em 9 de julho, ele não aderiu - mas também não aderiu a Vargas. Ficou em casa. Ou melhor, tentou ficar. As anotações mostram que ele teve muitos problemas até o mês de outubro.

Leiam por vocês mesmos os dois manuscritos. Dá para entender. Eu, pelo menos, consegui ler tudo. Um grande documento histórico.

sábado, 8 de janeiro de 2011

UMA OPINIÃO SOBRE A FARRA DA CRIAÇÃO DE MUNICÍPIOS NO BRASIL

Segundo o censo de 2010, o município de Canitar tem 4.369 habitantes. Acabemos com ele ou não?

Muitas vezes questionei a existência de tantos municípios por todo o Brasil. Vejo por aí muitos deles com populações bastante reduzidas, que não deveriam, segundo a linha de raciocínio "econômica", de forma alguma, ser mantidos como tal. Nessa linha, eles teriam de ser reincorporados a outros municípios maiores, construindo-se, no entanto, uma rodovia necessariamente asfaltada ou até uma linha de barcos ou aviões regulares (neste último caso, estou falando dos Estados amazônicos) para ligá-los à sede para uma comunicação rápida e periódica.

Há municípios que não têm estrada asfaltada que os ligue a outros e, neste caso, não estou falando de sede ao distrito, mas sim de sede a sede! Exemplo? Há um aqui pertinho de São Paulo - pouco mais de cem quilômetros - já em Minas Gerais: Consolação, entre Cambuí e Paraisópolis. Como pode se manter viável como município?

Como pode um município de 2.000 habitantes ter o mesmo número de vereadores que um de, por exemplo, 40 mil? Somando-se estes vereadores aos prefeitos e inevitáveis secretários, por exemplo, teremos gastos incompatíveis e desnecessários com relação à população. É verdade que dois municípios podem ter a mesma baixa população e arrecadação muito diferentes - um ser rico e outro pobre - mas mesmo assim o número de pessoas na representação não justifica a sua existência.

No início dos anos 1930, Getúlio Vargas determinou aos interventores dos Estados brasileiros que revissem a divisão municipal e a refizessem em bases realistas e não políticas. São Paulo fez isso. Não sei como a coisa fluiu nos outros estados. Meu avô participou desta comissão. Em 1935, saiu o resultado: embora tenham se criado vários municípios, outros foram extintos. Vi diversas partes do estudo. Ele se baseou em critérios de população, renda e facilidade de comunicação com os outros e com os distritos. As ferrovias pesaram muito nesta redivisão, na época. O livro que fala sobre a teoria utilizada para este estudo é muito interessante e se chama Brasil Desunido. Raríssimo e interessantíssimo.

Porém, o mundo mudou. Hoje, e já há um bom tempo, o critério para a abertura de novos municípios no Brasil é basicamente político, embora os políticos que o promovam neguem isto. Sempre tentam basear-se - em suas explicações para a população - que a sua criação é necessária por causa de critérios econômicos, por causa do "patriotismo" ("a população exige a criação deste município para satisfazer seu anseio de anos", como se alguém hoje em dia ligasse para isto)... mas o que querem mesmo á a criação de novos cargos para se elegerem novos vereadores, prefeitos e indicar secretarias que redundarão em novos e muitas vezes desnecessários gastos para as populações. Como muitos destes municípios criados - uma série deles foi criada após a Constituição de 1988 - não se autossustentam, a União tem de dispender dinheiro para mantê-los, avançando, em teoria, em verbas que poderiam ter outras destinações.

Aqui, apenas um adendo com relação ao citado "patriotismo municipal", citado acima: principalmente nas cidades em volta de cidades muito populosas, como Campinas, Santos e São Paulo, os habitantes desses municípios lindeiros dificilmente dizem que moram "na cidade ou no município tal", mas sim em Campinas, Santos ou São Paulo... enfim, para uma pessoa menos culta e mais em recursos, não interessa onde ela more, o que importa é sobreviver.

O último censo de 2010 mostrou que dos 645 municípios paulistas, 67 têm menos de 2 mil habitantes. 157 têm menos de 5 mil e 279 têm menos de 10 mil habitantes. Ou seja, mais de 43% dos municípios paulistas têm menos de dez mil habitantes cada. A população do Estado é superior a 41 milhões de pessoas e quase 18 milhões delas moram em cidades com menos de 10 mil pessoas.

Voltando ao raciocínio econômico: por este, deveria ser decretada a extinção de todos esses quase 300 municípios. Teoricamente, isto economizaria uma boa quantia (impossível de se calcular rapidamente) para os cofres públicos. Num cálculo rápido, pelo menos 3.000 pessoas que ocupam cargos públicos seriam dispensadas de suas funções (incluo aqui prefeitos, vereadores e alguns secretários). Seriam mais, com certeza, incluindo outros cargos não eletivos.

Porém, é inevitável que, mesmo com boas comunicações por rodovias (hoje, não há mais trens de passageiros, como sabemos), esses municípios extintos não serão tão bem cuidados assim. Além disso, a perda de mais de 3 mil empregos oferecidos hoje por essas cidades fará com que muitas famílias migrem para a sede ou mesmo outras cidades. Isto fará com que outras cidades inchem a curto prazo, aumentando ainda mais o êxodo rural e aumentando a população e a superpopulação dos outros centros.

Diferentemente de 1930, quando 70% da população brasileira vivia na área rural, hoje, quanto mais pessoas vivem nela (e aqui estamos incluindo no termo "área rural" essas cidades pequenas, que, na verdade, são zonas urbanas incrustadas em área rural), melhor é para o que chamamos de "qualidade de vida", para ambos os lados: para a cidade pequena e para a cidade grande (ou maior).

Portanto, por mais absurdo que seja em termos econômicos e por mais que sejam mentirosos os motivos para a criação de novos municípios, parece-me melhor tê-los que não tê-los. Vem daí, no entanto, a questão: vale a pena continuar criando novos municípios em áreas mais afastadas dos grandes centros (com certeza, não adianta criar novos municípios ao redor de cidades muito grandes, já conurbados com estas)?

Não sei. Acho, no entanto, que vale, dependendo de cada caso. E estes deveriam ser muito bem estudados e nunca levando em conta somente a vontade de políticos espertos. Deveriam também, para municípios com baixa população, digamos, abaixo de 10 ou 5 mil habitantes, reestudar o critério de mínimo de 9 vereadores.

Enfim, não podemos cair na tentação de fundar municípios apenas por criá-los, sem analisar a fundo o impacto que isto terá em outros assuntos mais relevantes. Esta linha de pensamento desenvolvi depois de visitar diversos municípios e distritos no oeste paulista durante a semana anterior;

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CAMPANHA ELEITORAL - 1933


Mais uma postagem referente a 1933, depois da de ontem.

Meu avô Sud foi candidato a deputado estadual em 1933. Foi a única vez que ele foi candidato a um cargo público em toda a sua vida. Diz ele em suas anotações que só aceitou porque garantiram a ele que ele seria facilmente eleito e ele acreditou. Arrependeu-se depois e muito. Teve cerca de metade dos votos que disseram que ele certamente teria. Desiludiu-se muito.

Não era uma eleição qualquer: na verdade, ele seria eleito para uma assembleia constituinte, pois a função ali não era ser um deputado como os outros (aliás, desde 1930 não havia deputado algum, desde que Vargas venceu a revolução de outubro), mas sim escrever a nova Constituição do Estado de São Paulo, que, como a brasileira, tinha sido "rasgada" com a revolução.


A fotografia no topo mostra o lançamento da sua candidatura na sede do Centro do Professorado Paulista - CPP (do qual era Presidente) em abril de 1933. O panfleto mostra uma das propagandas a seu favor.

Uma de suas grandes desilusões foi sentir a mágoa de alguns professores - teoricamente, quem mais deveria votar nele - pelo fato de ele não ter apoiado a Revolução Constitucionalista. Recebeu algumas cartas anônimas sobre o assunto, o que o deixou muito magoado.

domingo, 28 de novembro de 2010

A DEVOLUÇÃO DO ESTADÃO AOS MESQUITA EM 1945

O jornal do grupo Folha de 29/11/45 mostra otimismo com a devolução do jornal concorrente

No final de novembro do ano de 1945, o Presidente Getúlio Vargas foi deposto, mesmo tendo prometido eleições presidenciais para 1946 e com isso ele mesmo decretar o fim do Estado Novo, este implantado por ele mesmo em novembro de 1937.

O Estado de S. Paulo de 29 de novembro noticia o pedido de demissão de meu avô e de outros dois diretores do jornal

Uma das diversas consequências desta deposição foi a imediata discussão sobre o tema da devolução do jornal paulista O Estado de S. Paulo aos seus donos originais, no caso, a família Mesquita. A intervenção havia sido decretada em 1940 por ordem de Adhemar de Barros, então interventor federal no estado. Não muito tempo depois, Adhemar foi "deposto" por Vargas, mas a intervenção no jornal seguiu em frente.

Um jornal de Belém do Pará mostra a luta dos jornais independentes em favor do jornal paulista

Em 1943, meu avô Sud Mennucci, que havia trabalhado como redator no jornal de 1925 a 1931 a convite dos Julio de Mesquita pai e filho, foi convidado para ser diretor do jornal sob intervenção e aceitou. Ficou no cargo até o dia 29 de novembro de 1945, quando, diante das circunstâncias, pediu demissão.

Em 4 de dezembro, o próprio "O Estado" publica argumentação contra a devolução do jornal aos Mesquita - a segunda parte está mais abaixo

Infelizmente, este cargo aceito deu origem a uma briga entre ele e os Mesquita. Pode até ter sido não pelo fato de ter aceitado ser diretor (há uma frase dita por minha mãe, filha dele, que diz que Julio de Mesquita Filho teria dito a ele em certa ocasião, "melhor o jornal nas mãos dele - meu avô - que de outro"), mas porque Sud teria (teria mesmo?) defendido a manutenção do jornal nas mãos do estado paulista.

A segunda parte da reportagem de 4 de dezembro

Durante os dias entre a deposição de Vargas e a retomada do jornal pelos Mesquita, um mês e pouco (29 de outubro a 6 de dezembro de 1945), houve uma batalha nos jornais de todo o país acerca de ser correta ou não a devolução do jornal. O próprio jornal O Estado de S. Paulo chegou a publicar opiniões contrárias à devolução para a família Mesquita, e isto apenas dois dias antes da efetiva devolução.

A última parte da reportagem de 4 de dezembro

Algumas notícias sobre esta discussão são publicadas aqui. Num país ainda sob censura, notícias de jornais não são, isoladamente, motivos para conclusões. Mas algumas delas são mostradas acima.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SUD MENNUCCI E O RECENSEAMENTO DE 1940


Quem deu a chefia do Estado de São Paulo para o Recenseamento Geral de 1940 para meu avô Sud Mennucci sabia o que estava fazendo. Ele provavelmente sorriu como um bebê quando vê um doce ao receber a notícia.

Depois de vinte anos sem se fazer o recenseamento, Getúlio Vargas tomou esta nova contagem como algo muito sério para o Brasil. Ele não estava errado. E, pelo menos em São Paulo, entregou o serviço para quem entendia do assunto e, não somente isso, gostava de viajar e, antes de viajar, conhecia com a palma da mão o que ia ver. Sud viajou para boa parte das cidades-sede do censo e promoveu-o como se fosse a sua vida em jogo. Não é esta uma afirmação vazia. As notícias da época e seus relatos e entrevistas a jornais, as fotos que ele e seus colegas tiraram dessas viagens, muitas delas guardadas no seu belo arquivo, provam tudo isto.

A cada viagem sua, os jornais promoviam a epopéia. Afinal, viajar por um Estado onde metade dele não tinha ainda nem trinta anos de povoamento era realmente algo desafiador. Não acredito que meu avô conhecesse todos esses locais, apesar de viajar muito. No papel, sabia muito sobre eles. Conhecia a geografia e a hidrografia de cidades próximas e das muito afastadas como se as tivesse conhecido in loco. Era sopa no mel.


Para muitas delas ele foi de trem, meio de transporte ainda principal e mais confortável, confiável e rápido da época. A fotografia acima foi tomada da frente da antiga estação ferroviária da cidade de Ourinhos - Sud, seus amigos, colaboradores, curiosos e puxa-sacos aparecem nela.


Para uma ou outra, de avião - mais veloz que o trem, é verdade, mas caríssimo e ainda não tão confiável. As fotografias tomadas na pista do aeroporto de Araçatuba mostram um desembarque de meu avô saindo do avião, cercado de curiosos (acima) e descendo a escada de acesso à pista passando no meio de um túnel de gente. Avião se esperava na pista mesmo. Bem diferente de hoje em dia, quando na maioria dos aeroportos a gente não tem vista para a pista por questão de segurança dos passageiros... leia-se terrorismo (mesmo assim, é bom lembrar que viajei de Ponta Grossa a São Paulo em 1993, portanto somente 17 anos atrás, e esperei o avião na pista. O prédio estava abandonado!!!).


Muitas fotografias foram tiradas também dos escritórios locais. Nesta, acima, o carro do recenseamento aparece estacionado em frente ao escritório da cidade de Rio Claro.

Sem computadores, os resultados levaram anos para serem publicados. Porém, em 1941, já se tinha uma ideia do que havia sido contado e catalogado. Sud adorava dar explicações e entrevistas para os jornais, falar do crescimento das cidades paulistas, etc. Não conheço a organização do censo de hoje, mas não duvido que a empolgação por fazê-lo seja muito menor do que naqueles tempos de - ainda - grandes descobertas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

PÃO E CIRCO


Em fevereiro de 1912 faleceu o Barão do Rio Branco. O homem era bom de diplomacia. Conseguiu inúmeras vitórias em questões de limites para o país.

O que me surpreendeu (em princípio) foi ver a comoção em torno de sua morte. Inúmeras reportagens em jornais e revistas - e até em comentários em cartas trocadas por meu avô na época - falam de um verdadeiro choro do povo por causa disso, muita gente triste.

Terá mesmo sido assim? É verdade que fotos como a que é vista acima, do cortejo fúnebre do Barão, no Rio de Janeiro, mostram um afluxo anormal do povo. Mas terá sido espontâneo? Ou será que o povo foi "chamado" a participar, meio que na marra? Não... acho que não. Considerando-se que, na época, não havia grandes coisas divertidas para fazer, principalmente numa grande cidade como o Rio, ainda bem maior do que São Paulo, esse era o pão-e-circo do dia.

Imagine se hoje algum político que morra atrai tudo isso. Talvez um presidente da República... o atual, com certeza, pois é um grande demagogo. Mas não há dúvida que tem muito carisma. Acho que uma boa parte da população vai até deixar de ver a novela das oito para ver o morto passar...

Bom, fizeram isso com Getúlio - este era outro carismático - e com Tancredo. Já com Mário Covas... Pão-e-circo, hoje, é televisão, "viradas culturais", shows de conjuntos (seja qual for). Comício de político? Nem a pau. Só em cidade pequena e pobre - e olhe lá. Político só atrai grande quantidade de gente hoje se falar muito bem e se tiver música ao redor - os famosos "showmícios".

Realmente, era outro Brasil, esse de 1912. Rio Branco não teve, em toda a sua carreira, nenhum cargo de governo. Era um ministro, basicamente. Portanto, não aparecia para o povo. Porém, naquele tempo, e até a época de Getúlio, políticos eram endeusados, em geral. Inclusive secretários, por exemplo. Basta ler os jornais da época.

Hoje, ninguém quer saber o que o secretário da educação visitou ontem. Nem ponha isso no jornal, pois ninguém está interessado. Já há 70, 80 anos atrás... era o que os jornais mostravam.

terça-feira, 15 de junho de 2010

SUD, INTERVENTOR DE SÃO PAULO?


Em 1932, quando Getúlio Vargas ainda era o Presidente da Junta Governativa e governava por decretos federais, a troca de interventores nos Estados era uma constante. Em São Paulo, então, "terra non-grata", a troca era mais corriqueira. Havia de ser alguém altamente confiável. Em março desse ano, foi nomeado Pedro de Toledo, velho diplomata, mais por pressão da ala paulista de Miguel Costa do que por desejo de Getúlio. Antes, porém, vinha a escolha.

A charge acima mostra a capa da revista "O Malho", desenhada pelo famoso caricaturista Luiz Sá, também desenhista das histórias em quadrinhos de Reco-Reco, Bolão e Azeitona, na revista infantil "O Tico-Tico". Não sei, realmente, quem são as pessoas retratadas no alvo, com exceção de uma. Esta pessoa é também a razão de esta capa ter sobrevivido nos arquivos de meu avô. Pois era ele mesmo. Ele está retratado no sujeito de óculos do lado esquerdo, ao alto.

Acabei não indo, por falta de tempo, atrás de mais literatura sobre esta época - cito como "esta época" justamente os dias em que Sud foi cotado para ser interventor paulista. Não sei como terá ele reagido a isto, se queria realmente o cargo ou se preferia ficar fora da linha de tiro - mas o fato é que ele era o braço direito do General Miguel Costa, comandante das milícias na época e o "governador militar" de São Paulo. Não faltava, porém, muito tempo para ele se indispor com Getúlio Vargas, o que ocorreria pouco antes da revolução de julho de 1932.

A revista, infelizmente, não tem a data na capa - mas é 1932, pela assinatura de Luiz Sá, em baixo na capa, à direita. E antes da revolução. Eu é que deduzo, talvez erradamente, que tenha sido na época em que finalmente foi escolhido Pedro de Toledo.

Em todos os escritos de Sud, jamais li uma linha dele referindo-se a ele ter sido um dos selecionáveis para o cargo. Porém, não foi somente nesta capa de O Malho que li sobre sua possível nomeação.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

ALGUÉM CONHECE POCINHOS...

Pelo Google, Pocinhos do Rio Verde seria a cidade no canto esquerdo inferior. Caldas, sede do município, é a cidade no canto direito superior.

O Paulo leu a postagem de ontem sobre Pocinhos do Rio Verde e me escreveu. Ele conhece o local. Os comentários dele sobre o local e o hotel seguem transcritos:

"Caro Ralph, tudo bem?
O hotel de Pocinhos ainda existe, é o mesmo ao qual você se referiu hoje em seu blog. Estive lá no começo do ano, conserva a mesma arquitetura, embora tenha um padrão bem simples.
Getúlio Vargas esteve lá, o quarto onde ele ficava está lá, com um brasão da república na porta.
O hotel não tem luxo algum, embora a comida servida seja excelente. É muito bom para uns dias de descanso. Os quartos acomodam até 6 pessoas (fiquei num duplo, eu, a esposa e dois filhos). Os banheiros tem aquecimento central e banheira, mas os registros e a banheira são "daquele tempo".
As águas minerais continuam lá, todas elas. Na entrada do hotel há uma fonte da água radioativa. No balneário, uns 200 m do hotel, estão as demais fontes (outras três), cada uma com uma indicação. Como hoje em dia ninguém mais faz tratamento crenoterápico (cura baseada no tratamento com águas minerais, ingestão ou imersão), que requeria 21 dias de estada e tratamento, o objetivo do hotel atualmente não é mais a cura de moléstias, como está enfatizado no papel da carta. Mas conheci várias pessoas que vão lá pra passar duas semanas.
Pocinhos é um nada, uma rua principal, duas laterais, um balneário, um pequeno comércio e muitas cachoeiras, videiras e passeios em volta. O hotel tem uma piscina, uma sauna, comida boa, cavalos para passeios e é barato. Nada mais que o necessário..."

Enfim, nada muito diferente do que eu imaginava. Só me surpreendi com o hotel ainda mantendo pelo menos algumas instalações da época da carta - 1932. Segundo o site do próprio hotel (o Grande Hotel de Pocinhos do Rio Verde) ele é o hotel mais antigo do Brasil ainda em funcionamento.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TEMPOS PASSADOS


Bernardino de Campos, ex-Presidente da Província de São Paulo, morreu no início do ano de 1915. Naquela época, em que determinadas famílias quatrocentonas mandavam na política paulista e os imigrantes, a não ser que fossem muito ricos, eram desprezados e chamados de "italianinhos" (claro, se fossem italianos, que eram a maioria), a morte de um dos caciques era sempre notícia de revistas e jornais. As fotografias, que não eram muitas na época, eram publicadas às pencas na imprensa de então, retratando o enterro, a missa, o cortejo fúnebre etc.

As flores, o anjo de mármore, a cruz, as bandeiras com o "saudade", tudo era motivo para uma fotografia (republicada acima e relativa a Bernardino de Campos) que nos dias seguintes sairia na imprensa escrita (a única de então) e seria comparada com as revistas e jornais concorrentes.

Bernardino teve dois filhos famosos: Carlos de Campos, que foi Presidente da Província durante a revolução de 1924 e morreu três anos depois em pleno mandato, e Silvio de Campos, industrial que, entre várias outras coisas, foi um dos fundadores e acionista da E. F. Perus-Pirapora. A primeira locomotiva da ferrovia levava seu nome (e ainda existe, aguardando recuperação, depois de ser ninho de abelhas na pedreira de Cajamar).

Já Carlos de Campos virou nome de uma das estações da Central do Brasil e depois da CPTM, mas que foi fechada em 2000, quando se instalou o trem Expresso Leste que não parava mais ali. Ele também nomeou avenida Paulista entre os anos de 1927 e de 1930 - graças a Deus, reverteram para o velho nome.

A maioria desses paulistas quatrocentões, de uma linhagem que acabou sendo praticamente escorraçada do poder pelas Revoluções de 1930 e de 1932, têm seus nomes imortalizados nas ruas da Capital e do Interior do Estado.

Os interventores de Vargas e os governadores paulistas que vieram depois deste período já pertenciam a famílias bem diferentes que, na época da Velha República, não tinham expressão alguma.

A grande diferença entre os governantes paulistas de antes de 1930 e de depois era a cultura dos primeiros. Eles ligavam para a cultura. Ligavam para a educação. Embora não houvesse escola para todos - os menos favorecidos ficavam sem lugar nas escolas públicas - quem as frequentava tinha um bom ensino. Depois de Vargas, as escolas passaram a ter vagas para praticamente todas as crianças. Só que o nível do ensino decaiu assustadoramente. Hoje em dia quem quer uma boa qualidade de ensino estuda em escolas particulares. Uma pena que somente estas possam proporcionar isto.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

VARGAS E SÃO PAULO

Vargas no Estado Novo, como aparece na enciclopédia "Nosso Século".

Continuando a falar sobre a segregação de São Paulo pelo Governo Federal, fato que vem se arrastando há muitíssimos anos, gostaria de acrescentar também que eu, particularmente, não acho que Getúlio Vargas tenha sido um mau presidente. Muito pelo contrário, sob certos aspectos, ele foi um dos melhores que este País já teve.

Porém, ele, sem dúvida, isolou São Paulo, o Estado, durante seu governo. Vargas era vingativo. Muita gente caiu em desgraça com ele e foi duramente “castigado”. Miguel Costa foi um deles. Houve outros. Por outro lado, São Paulo, antes da Revolução de 1930, era chamado de “a locomotiva do Brasil – o trem que puxava 19 vagões vazios”. Eram vinte os Estados na época. Portanto, certamente Getúlio achou que outros Estados precisariam mais de ajuda que São Paulo. Entretanto, não era somente isso que ele achava.

Durante a Revolução Constitucionalista, por exemplo, todas as indicações são de que São Paulo não queria se separar do resto do Brasil. O que queria era a volta da ordem, ou, melhor ainda, queria depor Vargas para conseguir voltar à liderança perdida desde 1930. Vargas, espertamente, espalhou aos quatro ventos que o Estado queria a separação. É claro que em revoluções como esta há sempre quem pense dessa forma. Mas não era o pensamento dos líderes.

Para retomar a confiança perdida dos paulistas após a derrota destes, os homens de Vargas criaram a figura do “bandeirante herói”, com seus trajes com jalecos e botas pelos quais eles são conhecidos popularmente hoje em dia. Esses trajes eram uma farsa, mas a verdade é que os paulistas gostaram da história e também o adotaram – vide a estátua do “Borba Gato”, em Santo Amaro, construída depois disto.

Meu avô, Sud, tantas vezes citado em meus artigos, era um dos seguidores de Vargas no Estado. Sud pensava no Brasil como um todo, embora fosse um paulista de coração. É fácil sentir isto em seu material guardado pela minha família, suas cartas, seus livros. Ele não era um traidor, mas foi perseguido como tal durante a revolução (teve de se esconder, pois não via sentido em lutar a favor ou contra) e mesmo depois dela. Foi-o, simplesmente porque tinha sua opinião e não aceitava mudá-la somente porque alguns paulistas assim o exigiam.

Tanto que ele continuou morando na Capital até sua morte prematura, em 1948. E acabou, no final de sua vida, se desiludindo com o Estado Novo, que ele efetivamente apoiou. Seus artigos publicados já no final desse período e depois da queda de Vargas mostram claramente esta desilusão. Meu sogro, infelizmente já falecido, também prematuramente, em 1984 (basta trocar os números de 1948, ano da morte de Sud), uma pessoa extremamente inteligente, culta e esclarecida, com uma visão ampla dos fatos, considerava Getúlio um verdadeiro estadista, um dos únicos que, na opinião dele, o Brasil teve.

Geraldo Linhares Azevedo era seu nome: nasceu em Campos dos Goitacazes, viveu em Niterói, Barbacena e Rio de Janeiro até 1968, quando tinha 42 anos, e aí veio para São Paulo como transferido pela empresa para a qual trabalhava — a Shell. Quando terminou seu tempo em São Paulo, recusou-se a voltar. Afirmando que “gostava do Rio, mas em São Paulo podia-se realmente trabalhar”. Morreu por aqui mesmo, deixando sua belíssima filha aos meus cuidados de marido.

Enfim: Getúlio prejudicou São Paulo, mesmo, por vingança e/ou por achar que assim deveria ser. Porém, isso acabou por isolar o Estado dos outros. Basta ver a enorme diferença de desenvolvimento de São Paulo em relação aos outros Estados. Não é mais a locomotiva do Brasil, sem dúvida. Mas é muito forte.

Que os meus leitores que não são daqui me contestem, pois está na hora de me “acalmar”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

PAULISTAS SEGREGADOS



É notória em alguns aspectos a segregação contra os paulistas. Calma, não-paulistas, não fiquem irados ou exaltados contra este que vos escreve. Estou apenas refletindo sobre a revista História da Biblioteca Nacional, que compro desde o seu primeiro número.

Para quem não conhece, não se trata da “História da Biblioteca Nacional”, mas sim de uma revista sobre História brasileira que é produzida pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A revista é muito boa sobre vários aspectos, assim como o acervo da Biblioteca em si, que conheço parcialmente.

O problema é que os artigos que ela escreve bem raramente versam sobre a história paulista. A preferência é, de longe, para o Rio de Janeiro e para quem está ao norte em relação a esse Estado. Dirão vocês que, afinal, a revista é produzida por uma entidade carioca, ou fluminense — na verdade, a Biblioteca é supostamente nacional (daí o nome): é apenas sediada na capital do Estado do Rio de Janeiro.

Ela já publicou artigos sobre São Paulo, sim. Poucos, mas publicou. Muito poucos em relação a outros artigos: estou contando todas as matérias, grandes e pequenas, publicadas na revista até agora. Na edição deste mês de fevereiro, onde foi publicado um artigo sobre ferrovias brasileiras, falaram até da Central do Piauí, uma das piores ferrovias que já operaram no País. Escreveram bastante sobre a Leopoldina e a Central do Brasil. Falaram da Curitiba-Paranaguá. Mas não citaram uma palavra sequer sobre a Paulista, a Sorocabana e a Mogiana, as três maiores ferrovias de São Paulo em extensão, pertencentes a particulares ou ao governo paulista (dependendo da época). A Paulista foi considerada uma das cinco melhores ferrovias do mundo em sua época áurea. Não foi a mais lucrativa do País, pois foi superada pela São Paulo Railway dos ingleses, que, com seus meros 140 quilômetros de extensão, pelo fato de ser a única ferrovia que descia a serra para alcançar o porto de Santos, o maior do Brasil, tinha um lucro astronômico.

Para piorar mais ainda as coisas, publicou uma fotografia de um trem da CPTM em São Paulo com portas abertas e passageiros pendurados do lado de fora – fato que não acontece em São Paulo desde o final dos anos 1990. A foto deve ter sido tirada recentemente, quando devido à inundação da cidade, alguns trens tiveram de trafegar por alguns quilômetros a baixíssima velocidade e transportar, contra as regras de segurança, mas sem alternativa no momento, quem pulou da linha para os carros. Ou seja, uma imagem irreal e atípica classificando de ruins os trens da segunda melhor empresa de transporte metropolitano sobre trilhos do Brasil — a melhor é a Cia. do Metrô de São Paulo. Ao lado da foto (mostrada acima), escrito: "o calvário cotidiano dos trens metropolitanos como os de São Paulo". Mentira. O cotidiano é muito diferente.

Esse tipo de “boicote” a São Paulo, premeditado ou não, aumentou significativamente desde a época de Getúlio Vargas. Paulistas em geral têm Vargas atravessado na garganta. Outro dia comentei na lista de discussão sobre trens na Internet que os paulistas devem ter ficado contentíssimos com o alagamento da estação Presidente Vargas, da E. F. Araraquara, no início dos anos 1970, devido à represa ali construída — ao que um colega ainda adicionou que “deve ter havido gente que transportou água em baldes para jogar no lago para ver se a estação alagava mais depressa”. Realmente, há pouquíssimos locais com o nome do Presidente Vargas no Estado, ao contrário do resto do Brasil.

A Revista Brasileira de Geografia, publicada pelo IBGE desde 1938, época em que Vargas era o ditador do Estado Novo, era também uma excelente publicação (foi publicada até pelo menos os anos 1960, li recentemente todas que saíram desde o início até essa época), mas matérias sobre São Paulo eram extremamente raras. Havia inúmeras matérias sobre o Rio de Janeiro e sobre a “fronteira do desenvolvimento”, na época, Amazônia e Centro-Oeste. Portanto, o “problema” vem de longe.

Não quero com este artigo criar polêmica, somente relatar um fato da forma como eu o vejo e interpreto. Vou voltar ao tema no futuro.