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quinta-feira, 12 de julho de 2012

LUGARES ESQUECIDOS: CARDOSO DE ALMEIDA EM RELATOS

O casarão em dezembro de 2010. Fotos minhas.

Os lugares esquecidos: esquecidos pela história, pelo tempo, pela vida.

Nas minhas peregrinações pelo interior do Estado de São Paulo, à procura de material para minha pesquisa sobre ferrovias, encontrei vilas ferroviárias e fazendas em situações de todos os tipos: cidades-fantasma, colônias de fazenda prestes a serem demolidas para se plantar cana, como se fossem salgar as edificações em ruínas tal quel se fez em Cartago mais de dois mil anos atrás. Não é fácil entender o motivo do abandono de pequenas construções que, com arquitetura na maioria das vezes muito simples, continuam a ser belas em suas ruínas, quando numa época em que várias pessoas não têm casa para morar ou terras para cuidar.

Um dos maiores crimes contra a humanidade cometidos no século XX é pouco percebido e comentado: o êxodo rural. Em 1930, 70% da população brasileira vivia nas áreas rurais. Hoje, 2012, esse número caiu para cerca de 20% ou até menos. Ninguém ganhou com isso, Pobreza e violência extrema nos centros urbanos são uma consequência desse êxodo que incha as cidades. Mesmo cidades pequenas, com menos de 10 mil habitantes estão sofrendo hoje com esses tristes fenômenos. Os governos, tanto o federal, como os estaduais e municipais fazem questão de fingir que isso não existe e em alguns casos até incentivam a migração para centros com maior densidade populacional.

Nos lugares esquecidos, locais que um dia já tiveram muito mais vida e esperança, a história se confunde. Vilas misturam-se com fazendas, fazendas com outras fazendas por divisões por motivos de herança ou venda de propriedades. Sua história é passível de inúmeros erros e de situações que se mesclam com outras, tornando tudo às vezes muito nebuloso.
A parte traseira do casarão em dezembro de 2010.

Um exemplo é Cardoso de Almeida, em Paraguaçu Paulista. A vila nasceu em 1915 com o nome de Caramuru, sendo no início apenas uma estação de trem da Sorocabana num lugar em que não havia nada. O nome foi logo alterado para Cardoso de Almeida. Em 2002, a estação foi demolida, sobrando o armazém e uma casa de turma. O lugar todo está abandonado. Não se vê ou ouve alma viva ou voz alguma. No local existe um enorme casarão, totalmente abandonado.

Paulo Leuzzi, neto de José Giorgi, construtor da Sorocabana e do casarão por volta de 1908, lembra que ela era a sede da Fazenda Pouso Alegre, dos Giorgi. Em 1924, o casarão foi tomado e incendiado pelos homens da Coluna Prestes que se retiravam de São Paulo após a expulsão pelas tropas governistas. A partir de Botucatu, roubaram e saquearam diversas estações e cidades até chegarem a Porto Epitácio, no rio Paraná. Desde então, José Giorgi, desiludido, abandonou a casa. Ainda pertence à família. No final de 2010, quando lá estive, uma parede estava no chão.

Fábio Vasconcelos ficou tão impressionado com o casarão que seu primeiro impulso foi se aventurar dentro dele. O casarão estava totalmente abandonado e até um velho Karmann-Ghia estava lá dentro. Pela sua imponência, imaginou que o local já havia sido bem movimentado. Somente depois de quase uma hora surgiu um senhor meio desconfiado, dizendo ser o dono do local. Ele confirmou a demolição da estação, disse que o casarão havia pertencido a seu avô e que havia sido atacado na Revolução de 24, tendo ficado abandonado desde então.

Douglas Razaboni soube que na casa de turma nascera um seu tio, Pedro Figueiredo, já falecido. Seu pai, João Figueiredo, fora ferroviário e outro tio viera a ser telegrafista da ferrovia. Um pouco antes da morte do tio, seus primos o levaram para Cardoso de Almeida, e ele te-lo-ia reconhecido como a casa de sua família.

José David de Castro afirma que Cardoso de Almeida pertencia à família de José Giorgi. Seu avô, David Ferreira de Castro, fora gerente (capataz) de 1924 até se aposentar em 1969, tendo ali um pequeno pedaço de terra. "Vivi aí todas as minhas férias de infância até meus 15 anos, em 1965. Residiam na fazenda, que ficava cerca de 500 metros atrás da estação: meu avô e avó, quatro de meus seis tios (muitos deles aí nascidos), além de primos e primas. Somente um morava em Assis nessa época, uma tia em Registro e meu pai que desde os 13 anos trabalhava na EFS, começando como telegrafista em Mairinque, depois São Roque e também algum tempo na Mairinque Santos, vindo depois para a ex-Ytuana onde se aposentou como chefe de movimento. Claro que evoco essa época com muitas saudades: caçadas, pescarias - existia aí um manancial que formava um lago bem pertinho de um pontilhão da linha da EFS, por onde os bois transitavam pelos pastos e muitas brincadeira de por pedras nas linhas para ver o trem passar por cima.

"Também era fantástico o embarque do gado. A boiada vinha para o piquete e o trem encostava de costas no travessão, onde o gado era embarcado nas gaiolas pela porta traseira delas. E eram muitas ou assim me parecia. Como o travessão era relativamente curto, algumas gaiolas ficavam na linha 2 e conforme as gaiolas iam lotando, havia um remanejamento entre as lotadas e vazias. E isso tomava bastante tempo. Quanto ao casarão, ele era a sede da fazenda mas realmente ninguém morava lá e já na época de minha infância, o aspecto era sombrio, meio cinza ou avermelhado sujo escuro, em quase que total abandono, pelo menos a mim assim o parecia. A parte de baixo (era um sobrado) era utilizada pelo meu avô como depósito de materiais da fazenda (enxadas, etc...).

"Curiosamente, nunca subi aqueles degraus nem nunca vi a casa por dentro. Mas recordo-me das grades de ferro fundido e todo trabalhado que cercava a escada e a varanda na parte de cima. A explicação para não conhecê-la é simples: meu avô era extremamente rígido e não permitia brincadeiras de criança naquele espaço.
A igreja e o coreto em dezembro de 2010

"Em algum momento ouvi comentários que a fazenda ia de Cardoso a Santa Lina, o que, se for confirmado, dá uma certa importância a ela. Somente meu avô e um tio moravam em Cardoso em casas de alvenaria (lado a lado, no final da única rua de terra, também a rua da sede da fazenda). As poucas outras casas da rua eram todas de madeira, cedidas pela EFS mediante pagamento. Eram todas iguais. Entre as primeiras casas de madeira e a sede da fazenda havia um bebedouro para os tropeiros que constantemente por lá passavam dessedentarem seus animais.

"Não sei se isso ainda existe ou se ficou algum vestígio disso. Sei que a igreja do local que não tinha padre fixo no local, nem um caminho definido, estava constantemente aberta e ficava mais ou menos 500 metros atrás da casa de meu avô cujo quintal não era pequeno. Lembro-me da criação de suínos e patos/gansos (estes tinham uma área alagada especial e também uma fonte, só para eles), do pomar (limite posterior da casa), da horta e do paiol, onde era armazenado o milho. As casas de meu tio e de meu avô eram separadas em parte por uma cerca de madeira em ripas e em parte por uma sebe, onde frutificavam carambolas e outras frutas silvestres - amoras e uvaias. No meio disso, um portão de madeira, que abrigava constantemente sob o arco, aquelas abelhas que pegam nos cabelos - as irapuás. Eu fui vítima delas algumas vezes, mesmo tomando as precauções necessárias.

"Meu avô, apesar de rígido, bronco e muitas vezes estúpido, nunca permitiu que derrubássemos aquela colméia. Ele tinha já nessa época um cuidado especial com a natureza. Em nossas caçadas, que eram permitidas, a recomendação era: não matem mais do podemos comer. As caçadas normalmente eram feitas em 5 pessoas: dois tios, meu pai, eu e um primo. Lembro-me da espingarda que era destinada para mim: uma Pipper Bayard. Não sei o calibre, mas era de cartucho. A caçada normal que eu podia acompanhar era de pássaros (normalmente nhambú e codorna) e sempre diurnas. As noturnas ou mais perigosas (capivara etc...) eu e o primo não tomávamos parte. Só ficávamos na expectativa.

"Os meses de férias eram de festa, já que todos apareciam por lá: meu pai, o tio de Assis com a família e a tia de Registro, também com a família. Também apareciam durante as noites as famílias das namoradas dos outros tios e ficava-se jogando truco até tarde da noite. Apesar de casas de alvenaria, existiam apensos de madeira. Na casa de minha avó, a cozinha era interna, mas com fogão de lenha. O pão era feito uma vez por semana na cozinha de fora de madeira que tinha além do fogão de lenha, um forno de barro e que tornava o pão delicioso. O bule de café de ágata verde era mantido o dia inteiro no fogão, para quem chegasse, não importando se fosse ou não da família. O café era torrado e moído na fazenda.

"O arroz era separado em peneiras de palha, onde com o atrito de jogá-lo constantemente para cima, perdia a casca, que era constantemente assoprada, idem para o amendoim. E isso (assoprar) também era uma de nossas (netos) atribuições. Outras atribuições: salgar (sal grosso) o couro do porco abatido e pendurá-los em trapézios que ficavam em cima do fogão do apenso de fora. Além de salgados eram defumados.

"Mais outras: ajudar na confecção do sabão (soda cáustica - isso não era exatamente nossa, gordura de porco e cinzas do fogão), desempalhar o milho e aguar no final da tarde a horta. O restante do dia era ocupado com brincadeiras, caçadas ou pescarias, ou até mesmo colheita de guabiroba. Para quem não conhece, muito semelhante à jaboticaba, porém verde e sabor peculiar. Quando gelada, era ótima. Isso em memórias. Hoje não saberia dizer que gosto tem. Só que os dias naqueles tempos eram compridos. Fazíamos tudo, felizes e divertidos, sem imaginar o quanto a vida mudaria. O quanto hoje esses dias passam rápidos, sem termos a sensação de termos feito algo produtivo. A vida acelerou por demais."

terça-feira, 15 de novembro de 2011

WASHINGTON LUIZ

Washington Luiz, Secretário do Estado em 1908

Não estou aqui para contar a história da vida de Washington Luiz Pereira de Souza (1869-1957), o "paulista de Macaé" e Presidente da República entre 1926 e 1930. Apenas para pensar que a enorme maioria dos presidentes da República têm uma cidade com seus nomes. Washington Luiz não a tem.

Nasceu em Macaé, RJ, mas fez toda a sua vida política no estado de São Paulo. Nos anos 1890, começou como advogado e vereador em Batatais, depois de se formar em direito pela Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, na capital paulista.

Ele ocupou praticamente todos os cargos políticos no estado paulista. Chegou a Presidente da República em 1926 praticamente sem oposição. Foi conhecido pelo seu lema "governar é abrir estradas": foi o primeiro presidente brasileiro que deu prioridade à construção de estradas de rodagem, continuando o que já havia realizado no mesmo sentido como governador (na época, cargo chamado de presidente) de São Paulo. Uma de suas obras foi a construção da Rio-Petrópolis.
A paradinha de Presidente Washington em 1986 - xerox de xerox de um diapositivo foi tudo que consegui em 15 anos de pesquisas

Teve um governo relativamente calmo politicamente, porém a crise da Bolsa de Nova York no final de 1929 começou a agitação do mundo todo, inclusive aqui. Sua pressão para indicar como candidato à sua sucessão o também ex-presidente paulista Julio Prestes levou a uma eleição em que a situação foi acusada pelo oposicionista perdedor - Getúlio Vargas, que havia sido seu ministro da Fazenda até 1928 - de fraude eleitoral.

A política brasileira agitou-se; a morte do presidente paraibano e também oposicionista a Julio Prestes, João Pessoa, em 1930 - na verdade, por motivos pessoais e não políticos - foi usada como estopim para uma revolução que acabou por derrubar Wasington Luiz em 24 de outubro, 22 dias antes da passagem do mandato para Julio Prestes.

Em relação a homenagens, claramente ele não as recebeu nos anos 1930 por causa do governo de Vargas, que possivelmente pressionou direta ou indiretamente para evitá-las. A cidade de Paraguaçu, hoje Paraguaçu Paulista, teve o nome trocado para Presidente Washington em 1930. Tal fato deu-se antes de sua deposição. Em março de 1931, o nome voltou a ser Paraguaçu. Após sua morte, em 1957, a Sorocabana estava construindo o ramal de Dourados (Presidente Prudente-Eucludes da Cunha) e decidiu-se pela construção em 1961 de uma estação ferroviária numa região rural e deserta do município paulista de Mirante do Paranapanema, com o seu noe: Presidente Washington. Não seria somente uma estação, mas também uma nova cidade, com planejamento rodoviário e tudo.
Projeto para a cidade de Presidente Washington: nunca saiu do papel

Washington Luiz teve uma triste sina: a estação jamais passou de uma paradinha de madeira, apenas uma plataforma com cobertura e alguns prediozinhos em volta. O projeto jamais foi levado adiante. As fotografias disso, se as há, jamais as vi. Em 1984, seis anos após o fim do trem de passageiros e já sem trens de cargas no hoje desaparecido ramal, o jornal O Estado de S. Paulo descrevia que "em Presidente Washington, os montes de tijolos, telhas, vigas, pedaços de ferro e buracos onde antes funcionavam as instalações sanitárias, a impressão é que os prédios sofreram um ataque". O local desapareceu. Jamais se ouviu falar dele novamente.

O fato é que houve homenagens a presidentes muito piores do que ele, que foi esquecido, não somente como presidente, mas também como historiador que foi, tendo publicado inúmeras obras sobre a história de São Paulo e do Brasil. Ele, o pai do rodoviarismo brasileiro, que, se hoje se tornou um quase monopólio dentre os diversos modais de transporte, não o foi por culpa dele e sim por causa de seus sucessores que resolveram fazer com que somente automóveis, ônibus e caminhões trafeguem hoje transportando pessoas e cargas e, por isso, causando in úmeros problemas à infraestrutura nacional.

Todos os modais devem coexistir em doses iguais. Nao deve um prevalecer como quase-monopólio. Estamos todos sofrendo hoje as consequências disso. Vejam o que ocorreu com o ramal ferroviário de Dourados, que funcionou apenas por cinte anos e foi totalmente sucateado.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CARDOSO DE ALMEIDA, QUASE 90 ANOS DE ABANDONO

No meio do canavial, a ferrovia encosta na rodovia, de onde tirei a fotografia, e segue para Ourinhos. Notar os postes de eletrificação, hoje inúteis.
Ao sair de Paraguaçu Paulista na tarde do último dia 28 de dezembro, segui para Cardoso de Almeida. Próxima à rodovia, à esquerda dela, cruzamos a linha e chegamos ao vilarejo. O que impressiona ali é um velho casarão, que estaria abandonado desde a revolução de 1924. Isto mesmo, não é engano. Os revoltosos que fugiram da Capital pelos trens da Paulista chegaram a Bauru e dali tomaram os da Sorocabana no sentido de Botucatu e do rio Paraná.

O casarão de Cardoso de Almeida desmoronou atrás...
Assaltaram inúmeros caixas de estações ferroviárias - o que significa que ordenaram que o trem parasse em cada uma delas - e, em Cardoso de Almeida, num episódio pouco explicado, foram até a sede da fazenda Pouso Alegre, muito próxima à estação e ali a unvadiram, destruindo por vandalismo muita coisa no seu interior. Desiludidos, José Giorgi e sua família jamais recuperaram o que sobrou. Para saber mais sobre o casarão, veja Lugares Esquecidos-Cardoso de Almeida.

...mas a frente ainda se mantém.
O casarão ficou em pé - mas recentemente, quase 90 anos depois, parte da sua traseira desmoronou. Será recuperado? Havia alguma indicação à sua volta de que alguma obra estaria começando, mas não havia absolutamente ninguém no local quando ali estive.

A bela igreja do local. Fechada.
Próximo a ele, uma casinha, à sua frente a vila ferroviária e o armazém (a estação já foi demolida há muito tempo) , mais para trás, uma bela igreja e um coreto. Mais ao longe, pequenas casas de fazendas mais novas. E ninguém no horizonte.

O coreto, ao lado da igreja.
Dali para Assis foi um pulinho. A estação seguinte seria Cervinho, mas eu já sabia que nada mais resta dela há décadas. Depois, a cidade e a estação de Assis, surgidas praticamente juntas, em 1914. Assis é maior do que Paraguaçu. Em termos ferroviários, teve muita importância. Ali se encerrava a eletrificação da linha da Sorocabana, e se trocavam as locomotivas elétricas pelas diesels. Também foi até ali que chegou a retificação da linha original da estrada. Dali para a frente, praticamente não se mexeu. A linha eletrificada da ferrovia abriu seu primeiro trecho em 1944, até Santo Antonio (Iperó) e levou 22 anos para chegar a Assis. É portanto, algo não tão antigo assim. Em 1999, a eletrificação foi desativada e os fios retirados. Sobraram vários postes, tanto de concreto quanto de ferro.

A vila ferroviária, bastante modificada e mal cuidada.
Apesar do tamanho e do crescimento, a cidade tem ainda uma ou outra casa de madeira. Até fotografei duas delas, pequenas e simpáticas, não muito distantes da linha. Entrei depois no prédio da estação e vi o museu que existe ali dentro. Como tudo que é museu no Brasil, com pouquíssimas exceções, há pouca coisa, mas é interessante. O interior da construção está bem conservado. O prédio é de 1926, uma construção em estilo neocolonial, mas a anterior era aquele prédiozinho típico da Sorocabana de então. As escadarias internas são muito bonitas. Não são muitas as estações dessa ferrovia que tiveram dois andares.

O armazém ficou de pé, a estação não. A linha está do outro lado dele.
De Assis segui para Ourinhos. O trecho entre essas duas cidades foi contruído entre 1908 e 1914 e passa mais afastado, ao sul da rodovia que liga as duas. Não entrei em nenhuma das cidades nesse intervalo: Cândido Mota, Palmital, Ibirarema, Salto Grande e algumas pequenas estações de "meio de caminho", estas todas já demolidas, sem exceção. A única foto que tirei ali foi no ponto em que, entre Ibirarema e Salto Grande, mais ou menos, a ferrovia encosta na rodovia - ali a Raposo Tavares - e se afasta no meio de um canavial, nesta época do ano ainda bastante baixo. A foto abre esta postagem.

Em seguida, cheguei a Ourinhos, onde pernoitei.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CIDADES FANTASMAS

O vilarejo de Sapezal sofreu barbaramente com a decadência.
Pouco depois de sair de Quatá sete dias atrás no sentido de Assis pela SP-284, entrei à esquerda no bairro de Sapezal.

Na verdade, chamar Sapezal de bairro é elogiar demais a localidade. O que existe ali realmente é praticamente uma cidade fantasma. Pouquíssimas casas antigas de alvenaria ou de madeira em más condições e uma estação ferroviária que é a única construção em bom estado - pelo menos externamente. Os trens cargueiros ainda passam muito de vez em quando, já que não há cargas regulares para lá - ou a ALL nada faz para consegui-las. O que existe é em alguns finais de semana um trenzinho a vapor com uma locomotiva e dois carros que vem de Paraguaçu Paulista, sede do município. A estação foi reformada justamente por causa deste trem.

A estação de Sapezal, recentemente reformada.
Porém, fora a casa atrás desta, que está supostamente em reforma, nada mais está em bom estado. Até as vacas estão magrelas. As ruas sem asfalto mostram um presente que não condiz com um passado longínquo: nos anos 1930, por dois anos, Sapezal foi sede do município do mesmo nome. Por diversos motivos, a decisão foi revertida e a cidade reduziu-se ao que é hoje. Existe até um livro sobre a história de Sapezal.

O rio Capivara, fotografado para o sul, no ponto em que cruza sob uma ponte a SP-284.
Saí de lá e voltei à rodovia, de onde segui para Paraguaçu. Porém, antes, entrei num pequenino bairro rural - digo rural, pois é separado da sede por campos - de nome Conceição de Monte Alegre. Eu tinha curiosidade em conhecer este local, que foi o embrião de diversos municípios na Alta Sorocabana, inclusive Paraguaçu e Sapezal. Constituído no final do século XIX, foi fundado, segundo a história, pelo lendário José Teodoro, natural de Pouso Alegre, MG e chamado de "bandeirante do século XIX" por ter sido um dos pouquíssimos desbravadores das matas inexploradas do oeste da Província.

A fachada da insípida estação de Paraguaçu Paulista: uma estação como a de Quatá, porém maior.
Era de se esperar que Conceição mantivesse ainda alguma reminiscência de seus tempos mais gloriosos. Foi extinto na mesma época de Sapezal, mas, de antigo nos pouquíssimos quarteirões em volta da igreja, somente uma ou outra casa de madeira. O resto é uma praça e meia dúzia de ruas asfaltadas e bem cuidadas e casas de alvenaria que não têm muitos anos de existência. Eu arriscaria dizer que nenhuma destas existia na época em que era município.

Plataforma da estação de Paraguaçu.
Ao contrário de Conceição, que perdeu sua condição por estar longe da linha da Sorocabana (e não tão longe - não deve haver mais do que cinco quilômetros de lá até a estação ferroviária de Paraguaçu, que, por algum tempo, na sua inauguração em 1914, foi chamada pelo povo de estação de Conceição de Monte Alegre), Sapezal tinha linha e definhou muito mais. É sempre difícil de se prever o futuro de vilarejos. Conceição é um local bastante tranquilo e agradável, além de bem cuidado. Mas é pequeníssimo, também. Aliás, justamente por possuir quase somente casas novas, não me interessei em tirar a câmara do estojo e fotografar.

Virador na estação de Sapezal, instalado apenas para que a locomotiva que vem de Paraguaçu possa fazer o retorno de frente
Conceição de Monte Alegre não pode ser chamada, claro, de cidade fantasma. Mas foi um município que desapareceu, como desapareceu outro contemporâneo, Campos Novos, não muito longe dali (embora tenha recobrado a autonomia anos depois). E como foi Espírito Santo da Fortaleza, núcleo de Bauru que perdeu a autonomia em 1896 com a mudança da sede do município justamente para a outra cidade e que logo depois passou a ser distrito de outro município (São Paulo dos Agudos) e finalmente desapareceu - mesmo com uma estação ferroviária ali plantada em 1903 com o nome de Piatã. Hoje, sumiram a estação, a linha (ramal de Agudos) e o vilarejo. Nada sobrou.

Depois, segui para Paraguaçu Paulista. Em uma das maiores cidades da região, segui direto para a estação, em mau estado, mas sendo reformada. De lá parte o tal trenzinho turístico do qual falei mais acima.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

VARPA E QUATÁ, A DECADÊNCIA DE UMA REGIÃO

Casas de madeira vazias na fazenda Palma
Há muitos anos atrás li sobre a colônia leta de Varpa, que hoje fica em Tupã. Li também sobre a saga dos imigrantes da Letônia que chegaram ao local em 1921 e desceram na estação de Sapezal, próxima à de Paraguaçu Paulista, e irem de uma forma ou de outra pelo meio da mata de então até chegarem ao local que denominaram com o nome de "espiga", mas em leto, naturalmente.

Sede da fazenda Palma
Em 1960, Varpa já estava semi-abandonada. Os descendentes dos imigrantes começavam a se dispersar e a colônia, com casas de madeira e de alvenaria em estilo leto, foi se esvaziando. Na verdade, são duas Varpas: a mais próxima da estrada Tupã-Quatá, que é um bairro, mesmo, com ruas asfaltadas e algum comércio, e a que fica na fazenda Palmas, particular e cujo dono cuida das casas, estas todas de madeira, que lá ficam, muitas ainda vazias, mas bem cuidadas externamente. Ou seja: alguma coisa mudou em Varpa desde que eu soube de sua existência, numa reportagem de jornal de cerca de 10 anos atrás.

Casa de alvenaria em Varpa
Hoje,Varpa é considerada um ponto turístico. Sempre quis ir ao local. Porém, me decepcionei bastante quando estive lá anteontem. Não que não seja um local agradável e bonito, mas, para algo que se chama de "ponto turístico", falta muito, mesmo. Se v. não vai lá para pescar no rio do Peixe - muito próximo à vila - ou para se banhar na tal cachoeira da fazenda da Palma, não há nada para fazer e pouca coisa para almoçar, por exemplo. Em dez minutos você vê tudo. Ou seja: coisa de turismo brasileiro, sem estrutura alguma. Mas valeu pela revigoração do bairro, que, desde 1921, passou pela administração de diferentes municípios e hoje é subordinada a Tupã, como distrito.

A antiga estação de Quatá: construída nos anos 1950 em lugar da anterior, é muito feia e hoje está totalmente "lacrada" para evitar invasões
Pior mesmo é Quatá: cidade seguinte a Varpa, é bem pequena e acaba na linha da ex-Sorocabana, tem uma estação tipo "caixotinho", feia, construída num dia de pouca inspiração para substituir a velha, menor mas muito mais bonita. Está abandonada, enquanto os armazéns foram restaurados. A cidade é árida e com poucas ruas. Como sede de município, jamais deveria sê-lo. É a farra dos municípios do Brasil. A cidade é claramente estagnada. Poucas construções antigas e razoavelmente bonita: o mais são casas antigas muito descaracterizadas, com o que é muito comum na região: a substituição de janelas de madeira originais e bonitas por janelas de ferro menores, feias e que em nada combinam com a arquitetura original. O resto são casas mais novas sem estilo algum, como em qualquer lugar o é hoje.

Casa em Quatá, uma das poucas que ainda mantém seu aspecto original
Enfim, em Quatá, não foi nada fácil achar alguma coisa para fotografar. De lá peguei de novo a estrada e fui em frente, numa tarde quente deste final de dezembro (mais especificamente, anteontem).

Estádio de futebol de Quatá.

Rio do Peixe, no ponto em que divide os municípios de Quatá e de Tupã