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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PEQUENAS CIDADES

Fachada da estação ferroviária em Bernardino de Campos.

Para chegar a Bernardino de Campos a partir de Ipaussu, saí por volta de 11 horas e peguei a estrada. A um certo ponto existe a entrada para uma fazenda que visitei em 2004 com minha esposa quando estávamos a caminho de Londrina. É a Fazenda Palmeiras, que tinha ao lado uma bela estação de nome Luiz Pinto e que foi demolida ainda nos anos 1990. Muito interessante o local, mas desta vez não parei ali. Fica o relato para uma outra vez.
Plataforma da estação de Bernardino de Campos. Reparem na pintura.

Cheguei a Bernardino de Campos. A cidade está bem cuidada, mas não exatamente ao longo da linha férrea, exatamente onde nasceu em 1908, a parti da estação que então havia recebido o nome de um presidente do Estado no final do século XIX. As construções não são muito interessantes, mesmo a estação tem um prédio certamente não o original. Este, dizem os registros, foi entregue em 1939 e tem a mesma tipologia arquitetônica da estação de Lençóis Paulista, construída na mesma época.
Com o nome da estação em letras típicas dos anos 1930, bonitas, os desenhos infantis são uma agressão ao edifício da estação. Aliás, eu gostaria de saber quantos habitantes desta cidade sabem quem foi o seu patrono...

Ela fechou nos anos 1990; esteve semi-abandonada, estava bem mal cuidada quando ali estive em 1999, mas agora funciona abrigando órgãos da Prefeitura local. A pintura tem desemnhos infantis: isto tornou o prédio horroroso. Há ainda algumas casas em volta, inclusive o veho armazém. Como nas outras cidades na região da linha da velha Sorocabana, o tráfego de cargueiros é apenas eventual.
"Downtown" Batista Botelho. A vila não é muito mais do que isso.

Saí da cidade, passando então por um vilarejo de nome Batista Botelho, sede de um distrito do município de Óleo. Este foi constituído no final do século XIX, mas jamais se desenvolveu: sua permanência como município já por mais de cem anos é uma verdadeira aberração. Nem Batista cresceu, embora esta sim estivesse junto à linha: a vila não tem mais do que meia dúzia de quarteirões, com algumas casas antigas e de madeira. A Óleo, nunca fui, mas fica longe da linha. A estação de Batista Botelho foi demolida nos anos 1980, sobrando somente a plataforma.
Fachada da bonita estação ferroviária de Cerqueira César.

Continuei a viagem, passei direto pela saída para Piraju, por Manduri, pela saída para São Berto e cheguei a Cerqueira César, a antiga Três Ranchos. Esta estação, depois cidade, foi instalada em 1896 pela Sorocabana e permaneceu como terminal da linha-tronco por dez anos. Isto fez com que seu crescimento fosse grande nesse período, começando a decrescer quando à medida que a linha começou a avançar para os lados de Manduri, Piraju, Ourinhos e dali até o rio Paraná, onde chegou em 1922.
Câmara Municipal de Cerqueira César.

Com isso, Cerqueira César manteve muito de seus prédios mais antigos e não cresceu grande coisa. A estação, por seu estilo, aparenta ser a mesma dos tempos de sua fundação. Dois andares, janelas arqueadas... bonita. Hoje é sede, também, de órgãos da Prefeitura local.
Este pequeno rio - Ribeirão do Lajeado, segundo o mapa do IBGE - acompanhava a linha original da Sorocabana (arrancada por volta de 1960 por causa da abertura de uma variante do outro lado da cidade) por toda a passagem pela cidade. A linha estava à direita.

De lá fui a Avaré, cruzei a cidade e segui pela rodovia que a liga com a rodovia Castelo Branco. A intenção era seguir por uma outra estrada, que a liga com Itatinga e somente ali chegar à Castelo; mas a sinalização omissa de Avaré fez com que eu acabasse mesmo chegando à estrada que eu não queria.

Pela Castelo Branco, um estirão só até minha casa, onde cheguei perto das cinco da tarde. Fim de uma viagem de dois dias pelo interiorzão, nas antigas "terras desconhecidas e povoadas por índios" de cem anos atrás. Era o dia 29 de dezembro da semana passada.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TEMPOS PASSADOS


Bernardino de Campos, ex-Presidente da Província de São Paulo, morreu no início do ano de 1915. Naquela época, em que determinadas famílias quatrocentonas mandavam na política paulista e os imigrantes, a não ser que fossem muito ricos, eram desprezados e chamados de "italianinhos" (claro, se fossem italianos, que eram a maioria), a morte de um dos caciques era sempre notícia de revistas e jornais. As fotografias, que não eram muitas na época, eram publicadas às pencas na imprensa de então, retratando o enterro, a missa, o cortejo fúnebre etc.

As flores, o anjo de mármore, a cruz, as bandeiras com o "saudade", tudo era motivo para uma fotografia (republicada acima e relativa a Bernardino de Campos) que nos dias seguintes sairia na imprensa escrita (a única de então) e seria comparada com as revistas e jornais concorrentes.

Bernardino teve dois filhos famosos: Carlos de Campos, que foi Presidente da Província durante a revolução de 1924 e morreu três anos depois em pleno mandato, e Silvio de Campos, industrial que, entre várias outras coisas, foi um dos fundadores e acionista da E. F. Perus-Pirapora. A primeira locomotiva da ferrovia levava seu nome (e ainda existe, aguardando recuperação, depois de ser ninho de abelhas na pedreira de Cajamar).

Já Carlos de Campos virou nome de uma das estações da Central do Brasil e depois da CPTM, mas que foi fechada em 2000, quando se instalou o trem Expresso Leste que não parava mais ali. Ele também nomeou avenida Paulista entre os anos de 1927 e de 1930 - graças a Deus, reverteram para o velho nome.

A maioria desses paulistas quatrocentões, de uma linhagem que acabou sendo praticamente escorraçada do poder pelas Revoluções de 1930 e de 1932, têm seus nomes imortalizados nas ruas da Capital e do Interior do Estado.

Os interventores de Vargas e os governadores paulistas que vieram depois deste período já pertenciam a famílias bem diferentes que, na época da Velha República, não tinham expressão alguma.

A grande diferença entre os governantes paulistas de antes de 1930 e de depois era a cultura dos primeiros. Eles ligavam para a cultura. Ligavam para a educação. Embora não houvesse escola para todos - os menos favorecidos ficavam sem lugar nas escolas públicas - quem as frequentava tinha um bom ensino. Depois de Vargas, as escolas passaram a ter vagas para praticamente todas as crianças. Só que o nível do ensino decaiu assustadoramente. Hoje em dia quem quer uma boa qualidade de ensino estuda em escolas particulares. Uma pena que somente estas possam proporcionar isto.