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sábado, 3 de setembro de 2011

TURISMO FERROVIÁRIO EM FERRAZ DE VASCONCELOS

A estação em seu último dia de atividade, ou seja, hoje
Com a notícia que circulou nesta semana sobre o fechamento da atual estação de Ferraz de Vasconcellos, no centro da cidade do mesmo nome da zona leste da Grande São Paulo, resolvi ir hoje (ela fecha amanhã) e verificar o real estado da mesma. Afinal, eu jamais havia ido à estação, com exceção de duas viagens por trem, ida e volta, na qual nela não prestei atenção.

O que vi me surpreendeu: eu diria que o prédio que está lá é o mesmo da sua abertura em 1926. À direita da linha, sentido São Paulo-Mogi, hoje com longas plataformas de embarque dos dois lados e muros dos dois lados dos trilhos, além de uma passarela de ferro, feia, velha e ehferrujada, que vai de uma plataforma a outra.

Para chegar lá, segui de trem desde a estação de Barueri, onde deixei o carro estacionado. São três trens da CPTM: o primeiro de Barueri à Julio Prestes, o segundo da Luz a Guaianases e o terceiro desta a Ferraz - ele segue até Estudantes, em Mogi das Cruzes.

As baldeações na Luz e em Guaianazes são obrigatórias; no caso, desci na Julio Prestes e segui a pé, pela calçada da rua Mauá, até a Luz (outra opção seria descer na estação da Barra Funda e tomar o metrô até a Luz, e dali subterrâneamente até a Luz da CPTM). Em Guaianazes, muda mesmo o trem, que para ali e volta; dali até Mogi, é outra composição.

Voltando à estação, ela será fechada e no seu lugar colocada uma provisória em local diferente, enquanto se constrói uma nova. Realmente, a atual é pequena e enfeia uma cidade que está longe ser mesmo razoável. Ela é de 1926 e foi aberta para auxiliar no transporte de uma fábrica de tecidos que ali estava se instalando. O nome, que também apareceu nessa época, nada tem a ver com a cidade: foi um "batismo" dado pela própria Central do Brasil, que o deu como homenagem a José Ferraz de Vasconcellos, chefe do 2º distrito de tráfego morto em outubro de 1924, "no exercício da função na ferrovia"... e bem longe dali. Típico da Central e sua politicagem. Será a estaçãozinha demolida?

Almocei numa lanchonete para mover um pouco a economia do município... em volta da estação, pequenas lojas, tanto na praça na sua entrada (direita da linha, origem da cidade) como do outro lado da linha. Atarativo turístico, absolutamente nenhum. Turistas mesmo, só eu, ali (afinal, fui à cidade somente para conhecer uma estação da qual não tinha fotografia recente alguma e portanto nem sabia como era a estação).

O município é totalmente conurbado com o de São Paulo. Não há como reconhecer qualquer tipo de divisa estando dentro do trem. Espremido entre a capital e Itaquaquecetuba, a visão de favelas a partir do trem é comum, sendo uma continuação do município de São Paulo, com as mazelas da extrema zona leste.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

CAMPANHA ELEITORAL - 1933


Mais uma postagem referente a 1933, depois da de ontem.

Meu avô Sud foi candidato a deputado estadual em 1933. Foi a única vez que ele foi candidato a um cargo público em toda a sua vida. Diz ele em suas anotações que só aceitou porque garantiram a ele que ele seria facilmente eleito e ele acreditou. Arrependeu-se depois e muito. Teve cerca de metade dos votos que disseram que ele certamente teria. Desiludiu-se muito.

Não era uma eleição qualquer: na verdade, ele seria eleito para uma assembleia constituinte, pois a função ali não era ser um deputado como os outros (aliás, desde 1930 não havia deputado algum, desde que Vargas venceu a revolução de outubro), mas sim escrever a nova Constituição do Estado de São Paulo, que, como a brasileira, tinha sido "rasgada" com a revolução.


A fotografia no topo mostra o lançamento da sua candidatura na sede do Centro do Professorado Paulista - CPP (do qual era Presidente) em abril de 1933. O panfleto mostra uma das propagandas a seu favor.

Uma de suas grandes desilusões foi sentir a mágoa de alguns professores - teoricamente, quem mais deveria votar nele - pelo fato de ele não ter apoiado a Revolução Constitucionalista. Recebeu algumas cartas anônimas sobre o assunto, o que o deixou muito magoado.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A CORRUPÇÃO DOS POLÍTICOS É QUE AUMENTA OU SOMOS NÓS QUE NOS TORNAMOS MENOS INGÊNUOS?

Foto RBS - Local: Florianópolis, SC, ontem

A primeira eleição da qual me lembro foi a de 1958. Foi por volta do dia 3 de outubro - se não me engano, as eleições eram sempre nesse dia ou ao redor dele - se não fosse num fim de semana, era decretado feriado. Não entendo por que o brasileiro precisa sempre votar em feriados. Não dá para votar em dia de serviço? Qual é o grande problema? Se o voto é obrigatório, o patrão não pode descontar esse tempo. O camarada acorda, vai votar e dali vai para o trabalho.

Se ele vota do outro lado do País, viaja e volta. Não é isso que ele faz hoje? Se não consegue por que não tem dinheiro, não tem tempo, ele justifica o voto. Ou vota em trânsito - num País que tem urnas eletrônicas como tem hoje, isso não deveria ser problema algum. O camarada se apresenta em qualquer lugar perto de sua casa, diz que vota na seção tal em outra cidade e que está votando ali. A conferência pode ser feita on-line. Não me digam que isso é um problema para ser feito hoje em dia.

Voltando a outubro de 1958, eu achava bonitinho ver o chão cheio de papeizinhos impressos. Alguns com fotos, outros sem. O fato é que esses "santinhos", na verdade, eram o que se depositava na urna. Não havia a tal cédula única. Lembram-se da cédula única? Ela foi introduzida nos anos 1960 e mostrava o nome de todos os candidatos. Desde que fossem poucos... ou seja, no caso de deputados e vereadores, havia uma linha onde v. escrevia o nome ou o número do sujeito. Ou ambos.

Nessa eleição, eu me lembro até hoje - embora vagamente - de um candidato a deputado. Ele tinha o nome parecido com aquele que traiu Tiradentes. Joaquim Silvério dos Reis, não era isso? O final era com certeza igual - dos Reis - e que o resto do nome não era igual ao do "traidor", mas próximo. Aliás, nessa época, eu ainda não havia ouvido falar em Tiradentes e sua turma, eu tinha apenas 6 anos; a associação veio depois.

Por que minha família tinha tantos santinhos desse sujeito? Isso eu somente descobri anos depois: ele era diretor do Centro do Professorado Paulista, que ainda tinha ligação com a família da minha avó, apesar de meu avô ter morrido havia já dez anos. Ele foi presidente por dezoito. Minhas tias - nesse dia da eleição, eu estava na casa da minha avó, na Vila Mariana - e elas votavam no Grupo Escolar Marechal Floriano. À medida que a gente subia a rua Capitão Cavalcânti, onde estava a casa, e se aproximava do grupo, na rua Dona Júlia, o volume de santinhos no chão aumentava. No grupo, era um tapete de papeizinhos.

Hoje, com urnas eletrônicas, sem papéis para se colocar nelas... colocar onde, as "urnas" são pequenos computadores, na verdade! Apenas apertam-se botões. Os santinhos continuam a existir, embora em número muito menor. As pessoas continuam porcas e jogando-os no chão à medida em que elas os ganham dos distribuidores, ilegais (boca-de-urna!!!), mas ainda existentes.

Só não mudam os políticos. Continuam fraquíssimos, a corrupção parece aumentar a cada dia. Ou talvez tenha sido sempre igual, nós é que nos tornamos menos ingênuos. Ingênuos a ponto de acharmos que não tem mais jeito. Que mesmo que um amigo nosso honestíssimo seja eleito, ele jamais deixará de se corromper em nome de "um bem maior"... se isso não ocorre, é porque ele renunciou. Ou ficou no ostracismo durante um mandato todo e, no fim, cai fora pelo resto da vida. Já vi isso acontecer.

sábado, 10 de abril de 2010

AMIGO E ADMIRADOR...


Meu avô Sud ocupou diversos cargos públicos e privados em sua vida. A presidência do Centro do Professorado Paulista ocupou-a por pelo menos 17 anos, entre 1931 e 1948, ano de sua morte. Embora tudo que ouvi e li sobre ele mostrem-no como um sujeito íntegro e patriota, ele, como todas as pessoas do mundo, deu suas escorregadelas. Algumas são fáceis de se notar: decisões e conclusões erradas relatadas em suas peripécias durante sua vida.

Outras, nem tanto: atitudes tomadas contra determinadas empresas e/ou pessoas que acabaram por gerar aborrecimentos a ele. Muitas dessas são até impossíveis de sabermos. Ele dava a impressão de ser uma pessoa arrogante, como o são várias pessoas que sabem muito e acham que todos deveriam ter o mesmo nível de sabedoria do que eles. É difícil se livrar da arrogância. Mas é claro também que determinadas decisões tomadas não podem agradar a todos ao mesmo tempo.

A pessoa da qual vou falar adiante não terá seu nome citado. Entretanto, é interessante ver, nas únicas duas cartas trocadas com meu avô das quais tenho conhecimento, como se apresentam as relações entre duas pessoas num momento e em outro. Em uma carta de novembro de 1939, o cidadão responde a uma carta de Sud - a qual nunca li - afirmando que "S. S. não tem o direito de insultar-me, aquilatando-se de embelecador, intrusão, impostor, embusteiro, etc. como se deduz de sua infeliz carta, na qual S. S. manifesta, de certo modo, sua desconfiança em minha pessoa, exigindo a devolução de um documento (...)".

Continua, mais à frente, insultando meu avô (filho de italianos): "Creio, no entanto, que S. S. para fazer tal juízo, deveria, primeiramente, verificar se o meu sangue caboclo contém mescla de sangue lazaroni, ou se o meu nome cheira a porão de navio de imigração". E escreve mais desaforos, para finalmente afirmar que se considera já um ex-sócio do Centro (do Professorado Paulista).

Não dá para saber se este Sr. teria alguma razão em sua ira. O fato é que a carta ficou guardada por quase seis anos. Finalmente, em setembro de 1945, o mesmo Sr. escreve a meu avô - não sei se houve alguma conversa entre eles nesse intervalo - começando a carta com a expressão "Saudações muito cordiais" e pedindo ao "prestigioso chefe" a sua remoção (ele era diretor de Grupo Escolar no interior de São Paulo) para "uma localidade que tenha colégio, de preferência Catanduva ou São Carlos (...)". E termina com "É o que lhe pede o amigo e admirador".

Chamava Sud de chefe, pois na época meu avô era Diretor do Departamento de Educação do Estado. Não sei o que aconteceu depois disso. Meu avô deve ter rido muito e sido muito ácido ao ler a carta.

Nada como um dia depois do outro.