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sábado, 8 de janeiro de 2011

UMA OPINIÃO SOBRE A FARRA DA CRIAÇÃO DE MUNICÍPIOS NO BRASIL

Segundo o censo de 2010, o município de Canitar tem 4.369 habitantes. Acabemos com ele ou não?

Muitas vezes questionei a existência de tantos municípios por todo o Brasil. Vejo por aí muitos deles com populações bastante reduzidas, que não deveriam, segundo a linha de raciocínio "econômica", de forma alguma, ser mantidos como tal. Nessa linha, eles teriam de ser reincorporados a outros municípios maiores, construindo-se, no entanto, uma rodovia necessariamente asfaltada ou até uma linha de barcos ou aviões regulares (neste último caso, estou falando dos Estados amazônicos) para ligá-los à sede para uma comunicação rápida e periódica.

Há municípios que não têm estrada asfaltada que os ligue a outros e, neste caso, não estou falando de sede ao distrito, mas sim de sede a sede! Exemplo? Há um aqui pertinho de São Paulo - pouco mais de cem quilômetros - já em Minas Gerais: Consolação, entre Cambuí e Paraisópolis. Como pode se manter viável como município?

Como pode um município de 2.000 habitantes ter o mesmo número de vereadores que um de, por exemplo, 40 mil? Somando-se estes vereadores aos prefeitos e inevitáveis secretários, por exemplo, teremos gastos incompatíveis e desnecessários com relação à população. É verdade que dois municípios podem ter a mesma baixa população e arrecadação muito diferentes - um ser rico e outro pobre - mas mesmo assim o número de pessoas na representação não justifica a sua existência.

No início dos anos 1930, Getúlio Vargas determinou aos interventores dos Estados brasileiros que revissem a divisão municipal e a refizessem em bases realistas e não políticas. São Paulo fez isso. Não sei como a coisa fluiu nos outros estados. Meu avô participou desta comissão. Em 1935, saiu o resultado: embora tenham se criado vários municípios, outros foram extintos. Vi diversas partes do estudo. Ele se baseou em critérios de população, renda e facilidade de comunicação com os outros e com os distritos. As ferrovias pesaram muito nesta redivisão, na época. O livro que fala sobre a teoria utilizada para este estudo é muito interessante e se chama Brasil Desunido. Raríssimo e interessantíssimo.

Porém, o mundo mudou. Hoje, e já há um bom tempo, o critério para a abertura de novos municípios no Brasil é basicamente político, embora os políticos que o promovam neguem isto. Sempre tentam basear-se - em suas explicações para a população - que a sua criação é necessária por causa de critérios econômicos, por causa do "patriotismo" ("a população exige a criação deste município para satisfazer seu anseio de anos", como se alguém hoje em dia ligasse para isto)... mas o que querem mesmo á a criação de novos cargos para se elegerem novos vereadores, prefeitos e indicar secretarias que redundarão em novos e muitas vezes desnecessários gastos para as populações. Como muitos destes municípios criados - uma série deles foi criada após a Constituição de 1988 - não se autossustentam, a União tem de dispender dinheiro para mantê-los, avançando, em teoria, em verbas que poderiam ter outras destinações.

Aqui, apenas um adendo com relação ao citado "patriotismo municipal", citado acima: principalmente nas cidades em volta de cidades muito populosas, como Campinas, Santos e São Paulo, os habitantes desses municípios lindeiros dificilmente dizem que moram "na cidade ou no município tal", mas sim em Campinas, Santos ou São Paulo... enfim, para uma pessoa menos culta e mais em recursos, não interessa onde ela more, o que importa é sobreviver.

O último censo de 2010 mostrou que dos 645 municípios paulistas, 67 têm menos de 2 mil habitantes. 157 têm menos de 5 mil e 279 têm menos de 10 mil habitantes. Ou seja, mais de 43% dos municípios paulistas têm menos de dez mil habitantes cada. A população do Estado é superior a 41 milhões de pessoas e quase 18 milhões delas moram em cidades com menos de 10 mil pessoas.

Voltando ao raciocínio econômico: por este, deveria ser decretada a extinção de todos esses quase 300 municípios. Teoricamente, isto economizaria uma boa quantia (impossível de se calcular rapidamente) para os cofres públicos. Num cálculo rápido, pelo menos 3.000 pessoas que ocupam cargos públicos seriam dispensadas de suas funções (incluo aqui prefeitos, vereadores e alguns secretários). Seriam mais, com certeza, incluindo outros cargos não eletivos.

Porém, é inevitável que, mesmo com boas comunicações por rodovias (hoje, não há mais trens de passageiros, como sabemos), esses municípios extintos não serão tão bem cuidados assim. Além disso, a perda de mais de 3 mil empregos oferecidos hoje por essas cidades fará com que muitas famílias migrem para a sede ou mesmo outras cidades. Isto fará com que outras cidades inchem a curto prazo, aumentando ainda mais o êxodo rural e aumentando a população e a superpopulação dos outros centros.

Diferentemente de 1930, quando 70% da população brasileira vivia na área rural, hoje, quanto mais pessoas vivem nela (e aqui estamos incluindo no termo "área rural" essas cidades pequenas, que, na verdade, são zonas urbanas incrustadas em área rural), melhor é para o que chamamos de "qualidade de vida", para ambos os lados: para a cidade pequena e para a cidade grande (ou maior).

Portanto, por mais absurdo que seja em termos econômicos e por mais que sejam mentirosos os motivos para a criação de novos municípios, parece-me melhor tê-los que não tê-los. Vem daí, no entanto, a questão: vale a pena continuar criando novos municípios em áreas mais afastadas dos grandes centros (com certeza, não adianta criar novos municípios ao redor de cidades muito grandes, já conurbados com estas)?

Não sei. Acho, no entanto, que vale, dependendo de cada caso. E estes deveriam ser muito bem estudados e nunca levando em conta somente a vontade de políticos espertos. Deveriam também, para municípios com baixa população, digamos, abaixo de 10 ou 5 mil habitantes, reestudar o critério de mínimo de 9 vereadores.

Enfim, não podemos cair na tentação de fundar municípios apenas por criá-los, sem analisar a fundo o impacto que isto terá em outros assuntos mais relevantes. Esta linha de pensamento desenvolvi depois de visitar diversos municípios e distritos no oeste paulista durante a semana anterior;

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DE OURINHOS A IPAUÇU

Chavantes - casas antigas não há muitas lá. Esta foi bonita um dia, mas muito terá de ser feito se quisermos recuperá-la

Cheguei em Ourinhos no final da tarde do último dia 28 de dezembro, uma terça-feira. Já a conhecia, de uns 6 anos atrás. É interessante - tem um grande pátio ferroviário, mas, quando a linha chega de São Paulo, entra pelo meio dos quarteirões do centro da cidade para chegar à estação. As porteiras estão abertas quase sempre, já que não há trens regulares (cargueiros, claro). Os carros aguardam os semáforos em cima da linha. Se surgir um trem buzinando ao longe, deve ser um escarcéu.
Rio Paranapanema visto no sentido foz, da ponte sobre ele entre os municípios de Ourinhos e de Jacarezinho, na BR-153.

Fiquei por lá mesmo nessa noite, num hotel novo e pequeno, bastante agradável, perto da saída para a ponte sobre o Paranapanema. Pela manhã do dia 29, peguei o carro e saí. Cheguei à rodovia e não havia sinalização indicando coisa alguma. Tomei a direita e segui. Não sabia qual estrada era nem aonde levava. Somente encontrei placas de retorno nos cerca de 2 quilômetros por onde dirigi. De repente cheguei à ponte sobre o Paranapanema. Ou seja, tive de entrar no Paraná, sem querer. Atravessei a ponte e do outro lado, já no estado vizinho, havia uma rotatória pequena. Em frente, dois pedágios: a rodovia se bifurcava ali, à direita para Londrina, à esquerda para Jacarezinho. Cada uma tinha suas cabines. É fogo! Atravessei de novo a ponte e fui no sentido contrário, onde acabei finalmente encontrando a saída para Ipauçu.

Em Canitar, uma das casas de madeira

No meio do caminho para essa cidade, encontrei Canitar, a antiga Fortuna, e entrei. É município, embora seja pequeníssima. Nasceu em 1923, com a estação. O censo recente registrou menos de 4.400 habitantes. Nem praça central tem. Casas velhas, poucas: a maioria são casas pequenas, algumas modernas, outras sem estilo algum e várias de madeira - estas, as mais antigas. A igreja fica numa esquina e a antiga estação da Sorocabana é a sede da Prefeitura. Entre esta e a rua principal, um campo mal cuidado e estreito. Realmente, o critério de se emancipar municípios no Brasil é estranho. Do outro lado da Prefeitura, a linha férrea, ainda com um desvio. Do outro lado dela, campo apenas. A cidade acaba ali. São poucos quarteirões urbanizados, realmente.

Esta casa, ao lado da estação ferroviária de Canitar, deve ter sido da ferrovia, possivelmente a acasa do agente da estação. Do outro lado, a cobertura do ginásio de esportes. Ou seja, a área ferroviária desapareceu...

Deixei Canitar e segui para Chavantes. A cidade é maior e cresceu para os dois lados da linha. Estava com muito movimento nas estreitas ruas centrais que correm ao longo da linha, como em Ourinhos, mas havia muitos carros estacionados. Com as passagens de nível, era tudo uma bagunça. Acho que proporcionalmente a cidade tem um dos piores trânsitos do Estado...
Armazéns ferroviários em Chavantes. Há outros prédios iguais e provavelmente a construção demolida ao lado deles (em primeiro plano) teria sido igual

Em Chavantes há uma porção de armazéns ferroviários ao longo das ruas. É possível que tenham existido vários desvios que as cruzassem... alguns depósitos parecem abandonados, outros estão ocupados por negócios vários. A conservação não é das melhores. Há algumas casas interessantes na cidade. A estação está ocupada por uma pequena loja de artesanato e tem o estilo neocolonial, como Assis, mas com apenas um andar. Certamente não é o prédio original.

Bela casa numa esquina da cidade antiga em Ipauçu

Parei o carro, tirei algumas fotografias e saí no sentido, agora sim, de Ipauçu. Esta, antiga Ilha Grande, tem o pátio ferroviário fora da zona urbana mais antiga. Para chegar nela, há de passar pelo centro da cidade e pelo lago que ali existe, com pelo menos um hotel para turistas, aparentemente tipo balneário. Aí chegamos ao pátio e vemos que a estação, enorme, construção dos anos 1960, está em ruínas. É do tipo da atual de Ourinhos, "modernosa", toda de concreto, mas em ruínas. O armazém ao lado e as diversas casas de ferroviários estão em mau estado, com exceção de uma ou outra.
Esta casa da ferrovia em Ipauçu parece bem, é bonita. Porém, não está tão bem cuidada assim e há diversas descaracterizações

A área ferroviária de Ipauçu parece um cemitério. Uma pena, mesmo. Eu já havia passado por lá cerca de 10 anos antes. Parece que muita coisa foi demolida desde então e outras coisas sofreram bastante a ação do tempo. Reformando e restaurando tudo aquilo daria um local muito agradável... até mesmo como um hotel ao ar livre, ao lado da linha hoje com pouco movimento. Era perto das onze da manhã quando deixei a cidade, seguindo para São Paulo. Porém, havia ainda uma ou outra parada por fazer.