sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

UMA SEQUÊNCIA DE ERROS EM IGUATU, CEARÁ

A demolição em foto de 28/11/2009 - Diario do Nordeste

Por acaso li um artigo na Internet sobre a construção de nova Universidade estatal na cidade de Iguatu, CE. O que me chamou a atenção neste artigo datado de 28 de novembro (quase um mês atrás) foi o fato de que a indústria desativada que está sendo demolida para dar lugar às instalações da faculdade tinha desvios ferroviários (talvez uma pequena ferrovia própria) e que, na demolição, acharam-se vagões (não dá para saber se são carros ou vagões, provavelmente sejam vagões, cargueiros mesmo) dentro de um dos prédios e que foram imediatamente cedidos para industriais cortarem-no (leia-se sucateiros). Iguatu é uma cidade ferroviária, por ali passa a antiga linha Sul da Rede de Viação Cearense – RVC.

Telhado, madeira, trilhos e ferro da antiga usina de algodão foram doados para a Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Bairro Prado. Esses materiais serão utilizados em obras sociais da Igreja. Até mesmo três vagões de trem que estavam há dezenas de anos abandonados sobre trilhos na antiga unidade são cortados com uso de maçarico. Empresários locais adquiriram esses materiais” (http://diariodonordeste.globo.com).

Outra coisa que me chama a atenção é a eterna falta de um mínimo de respeito ao meio ambiente e à preservação. Pela foto dos prédios, a CIDAO — Cia. Industrial de Algodão e Óleos, também chamada às vezes de “Cidão”, estava desativada e abandonada, mas não a ponto de que seus prédios não servissem para ser externamente restaurados e internamente servissem de salas de aula. A quantidade de material demolido (entulho) já era gigantesca nesse dia, pelas fotografias que pude ver. E ainda havia prédios a demolir.

Para onde vai todo esse entulho? Em termos ecológicos, é um desastre. Vai impermeabilizar algum local próximo da cidade, pois não tem utilidade. Muita coisa é concreto, mesmo — também pelas fotografias da para se perceber que alguns galpões foram construídos com esse material, portanto esses não são tão antigos assim.

Para que demoli-los, se eles mesmos podiam constituir a universidade? E para que retirar todo o maquinário e mesmo os vagões, se eles poderiam fazer parte de um museu ali mesmo, visto que o ensino ali também será técnico (englobará a Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu — Fecli, uma unidade descentralizada da Universidade Estadual do Ceará — Uece; a Universidade Regional do Cariri — Urca; e a Faculdade de Tecnologia — Fatec)? Para que retirar os trilhos? Eu fui verificar em postagens mais antigas sobre a faculdade mais detalhes e li que, no início, a ideia era manter os trilhos, os vagões e mesmo as máquinas exatamente para isso. Depois, tudo isso foi esquecido e foi recentemente retirado para o sucateamento.

Nem sei se algum dos galpões será mantido ou se todos serão demolidos. Não são um primor de arquitetura, mas o local é histórico e importante para a cidade — até o bairro em volta tem o nome da antiga indústria — e a tipologia de grande parte dos galpões é dos anos 1920 ou 1930, se não anterior, bem típicos daquela época.

A área parece bem grande. Mesmo que se precisasse de mais prédios, sem que se derrubasse nenhum, haveria espaço para construções que harmonizassem com o estilo já existente. Nota-se, realmente, que em nenhuma parte do Brasil, seja São Paulo, seja Ceará, as pessoas nem param para pensar em conservação, ecologia ou preservação de memória. Construindo uma escola “moderna”, Iguatu vai ser empurrada para perder suas características próprias e vai se parecer com a maioria das cidades do País, que não têm identidade e que vão se tornando em grande parte e poucas exceções, umas iguais às outras.

Nada contra a escola. Ensino nunca faz mal, muito pelo contrário, e principalmente no fato de que evita que os futuros estudantes tenham de migrar para outras cidades maiores, inchando-as e não voltando jamais para ajudar a sua própria cidade natal. Mas já estava mais do que na hora de pensarmos em outras coisas também. No caso, todos os itens aqui citados — conservação, memória, meio ambiente e educação — poderiam seguir juntos. Parece que somente o último vai prevalecer — e isso se contratarem gente competente para ensinar.

E, antes que pergunte: não, não conheço Iguatu. Porém, não preciso necessariamente conhecer uma cidade para notar esse tipo de erro.

6 comentários:

  1. Esta matéria foi um achado do Google Reader?

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  2. A primeira delas, de 26 de novembro, se não me engano, sim. O resto eu fui atrás para saber do histórico.

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  3. O detalhe é que Iguatu, fica no cariri, a lado do novo metrô do cariri. por que não transferir o material rodante para lá.

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  4. Não serviria para nada, os trilhos são antigos e os vagões são cargueiros. Deveriam era ficar em Iguatu mesmo, como museu dentro da própria faculdade.

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  5. Ralph, esses referidos três vagões são na realidade tanques e de propriedade da extinta Cidao, que aqui no Ceará somente existiam em Iguatu (Lh. Sul) e Sobral (Lh.Nte.), nesta, localizava-se distante da estç. aprox. uns dois kms, ao lado do triangulo de mudanças, ligando a Camocim., antiga Est.Ferro de Sobral. Lá as instalações ainda existem... preservam ainda, mesmo não sabendo de seu uso.
    Um amigo aqui em Fortaleza, ainda tencionou cortar e adaptar um desses carros ao Museu do Trem (sem apóio financeiro Ele dasatiovou há pouco o existente aqui na capital do Ceará), lá no Iguatu.
    neyrobinson@gmail.com

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  6. Em um comentário aí, alguem falou que Iguatu faz parte da região do cariri. ERRADO. É CENTRO SUL, e fica a 140km da cidade de Crato. Sobre o que foi retirado de lá, o Governador(a obra é inteiramente do governo do estado) foi quem doou os materias para a Igreja, mas houve desvio e muitos materias foram parar em mãos de parentes e amigos de politicos que trabalham para o Governo do Ceará

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