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terça-feira, 31 de outubro de 2017

1924: A VILLA KOSTKA NA VILLA MARIANA


Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 29/6/1924

Eu sempre fui muito ligado à Vila Mariana, onde moravam minha avó e mais um bocado de parentes. Nos anos 1950 e 1960, eu ia pelo menos uma vez por semana à casa de vovó ou da tia Angélica com meus pais. Por algumas vezes, passava a semana no meio das férias na casa de vó Maria. Bastava subir a rua Capitão Cavalcanti a pé, para o lado da Domingos de Moraes, que já achava por ali um verdadeiro shopping center de lojas, andando pela calçada.

Perigoso para uma criança? Não naquela época. Ao contrário do bairro do Sumaré, onde eu morava, que de perigoso também não tinha nada, onde eu precisava andar muito para chegar de casa até achar alguma loja, banca de jornais ou padaria, e só lá pelas bandas da Cardoso de Almeida, depois das ruas Professor João Arruda, Wanderley e Caiuby.

Voltando à tranquilidade da Vila Mariana, existia, um pouco mais longe da casa de vovó, mas muito próximo à casa de tia Angélica, o largo Ana Rosa, que tinha era maior do que é hoje, visto que o alargamento da rua Vergueiro, por volta de 1970, tirou-lhe pelo menos um terço do tamanho e fez desaparecer a fonte luminosa que ali existia.

Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 18/10/1924


Na esquina da Domingos de Moraes com a avenida Conselheiro Rodrigues Alves existia ali, tanto numa rua como na outra, uma série de pequenas construções, que serviam de residências ou lojas. Hoje, no mesmo local, não existe qualquer residência, mas lojas e bancos em imóveis que não devem ser os originais, ou, então, em prédios bastante reformados.

Em 1924, e sabe-se lá desde quando, existia nessa esquina um enorme terreno que seguia até a atual rua Fabrício Vampré, com uma construção bastante grande, que havia servido a um seminário da Sociedade Brasileira de Educação. O terreno e o imóvel pode ser visto no desenho acima, publicado nos jornais em 29 de junho desse ano. Jamais vi alguma fotografia desse edifício. O local era chamado de Villa Kotska, cujo nome homenageava o Santo Estanislau Kostka, um polonês que viveu no século XVI. (Nota: existe hoje uma Villa Kotska em Itaici, Indaiatuba, SP, mas que, segundo a história por eles contada, não tem nada a ver com a vila do mesmo nome que existiu na Vila Mariana até 1924).

Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 16/1/1925


Os donos tentaram vender o imóvel para outros usos. Porém, não devem ter dado sorte, pois, em 18 de outubro do mesmo ano, já estavam vendendo um loteamento no terreno, chamado de Villa das Jaboticabeiras. Pelo que se viu nos mapas deste loteamento, eram 47 lotes. Em janeiro de 1925, restavam apenas 19 a serem vendidos.

O bairro nos dias de hoje - Google Maps


No anúncio, há indícios que no local onde surgiu a atual rua Fabricio Vampré existia outra chácara, das Jabuticabeiras, que deu nome ao loteamento. Prometia-se que por todo o bairro havia jabuticabeiras. Estarão estas árvores ainda lá?

Vejam também que a imobiliária FV foi a responsável pelas vendas dos lotes. Seria também ela a dona do imóvel original, ou do da chácara das Jabuticabeiras, já que a rua principal recebeu depois esse nome - Fabrício Vampré?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

SÃO PAULO: ESTE PONTILHÃO NÃO DUROU VINTE ANOS

Foto recebida como tendo sido tomada em 1952. Autor desconhecido.

Deparei-me outro dia com o anúncio da inauguração, no dia 15 de novembro de 1952, de um pontilhão sobre "a passagem de Moema". Sobre esta passagem, passavam os trilhos do saudoso bonde de Santo Amaro.
"O Estado de S. Paulo", 15/11/1952

Mas, afinal, qual seria esta "passagem de Moema"? Onde estaria localizada? Eu conheci a chamada "linha do bonde" que seguia pelo retão das hoje avenidas Ibirapuera e Vereador José Diniz, ligando a Vila Mariana a Santo Amaro, e, além dos pontilhões sobre alguns córregos, entre eles o da Traição e o das Águas Espraiadas, o único pontilhão sobre uma via transitável que existia era justamente o que estava próximo à antiga junção da avenida Ibirapuera e rua França Pinto e que é mostrado nesta bela foto, cuja data citada por quem a postou era 1952 - exatamente o ano da inauguração da tal passagem.

Seria esta da fotografia acima?

Por um lado, só pode ser, porque é a única - por outro lado, ela era, sem dúvida, uma passagem para Moema, mas a rua que foi feita sobre ela, que, na época, era a Professor Ascendino Reis (antiga rua Nova), não era a avenida Indianópolis, citada pelo jornal (veja a reportagem mais acima). Sem querer aqui ser o "dono da verdade", o jornal errou o nome da rua, realmente.

Situação hoje das ruas no local do pontilhão - que não existe mais. Lembrar que a av. Quarto Centenário era uma continuação da rua França Pinto e que tinha o nome desta rua antes de 1954. (Google Maps, 2017)
Curiosamente, porém, a avenida Ascendino Reis era, na época, segundo mapas dos anos 1940, uma espécie de continuação da avenida Indianópolis, sim - se for considerado que ela começava (hoje não é mais assim), pelo mapa, exatamente onde a avenida Indianópolis fazia (e ainda faz) uma curva para a direita, logo depois de cruzar a alameda dos Anapurus, sentido Ibirapuera-Jabaquara.

Enfim, se alguém quiser contradizer o que escrevi, que se sinta à vontade para tal.

O tal pontilhão, sob o qual lembro-me de ter passado de carro inúmeras vezes, foi demolido no final dos anos 1960, quando da modificação daquele sistema viário causado, em parte, pela retirada dos trilhos do bonde, que encerrou suas atividades no mês de março de 1968. Não durou nem vinte anos a pontezinha.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

E MAIS UM FELIZ ANO NOVO

Emprestado do Banco Itaú..
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E já será o 64o reveillon que passarei em minha vida.

Dos 63 que já se passaram, posso garantir que do 1o (1951/2) ao 5o (1955/6) não me lembro de absolutamente nada. Só sei que foram na rua Capitão Cavalcanti 116, na Vila Mariana, casa de minha saudosa avó Maria.

Dos 58 restantes, o de 1956/7 foi em Urbana, Illinois, com meus pais, onde ficamos por um ano. De 1957/8 a 1970/1 posso garantir que foram novamente na casa de minha avó, sendo que os de 1966/7, 1967/8 e 1968/9 foram na avenida Doutor Arnaldo, 1388, onde hoje é um vazio, ao lado do viaduto sobre a avenida Paulo VI. Minha avó mudou-se para lá e ficou apenas três anos. Depois disso, até 1972/3, foram na nova casa onde ela ficou também 3-4 anos, rua Azevedo Macedo 112, novamente na Vila Mariana, uma casa antiga que depois de vendida foi unidade do Hospital Amico e depois demolida. A partir de 1973/4, vovó mudou-se para a rua Maracaju, 58, a cerca de um quarteirão dali. Como eu já namorava a Ana Maria, a partir de então, as festas de Ano Novo passaram a ser na casa dos pais dela, às vezes, na rua Maracaju - sem poder precisar quantas.

Casamo-nos em 1974. Passávamos a virada do ano em casa com amigos, ou ainda na casa de vocó na Maracaju, ou na casa dos pais da Ana Maria.

Em 1989/1990, resolvemos inovar e passar o reveillon em Assunção, Paraguai. Dali para a frente, os locais mudavam, mas vários foram passados em casa no Alphaville ou na casa do Jacobus Smit, grande amigo. Também começamos a passar na casa da Daisy. Em 1999/2000, na casa do Jacobus. Em 2006/7, em Franca. Em uns dois anos seguintes, na fazenda de meu cunhado em Brotas.

Não dá para lembrar de todos. Mas dá para ver que quase todos foram em São Paulo, as viagens sempre foram raríssimas no Ano Novo.

Para 2015, espero apenas que sejamos felizes. Eu, Ana Maria, meus filhos, minha mãe com seus 91 anos e saúde relativamente boa considerando a idade. E nossos amigos e parentes. A vida continua.

Feliz Ano Novo a todos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SÃO PAULO - A BELEZA E A FEIURA - 1927-2014

1927 - Acervo Ubirajara Martins
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Esta postagem é bem curta e mostra o que aos poucos vai acontecendo cada vez mais na cidade de São Paulo: a troca da beleza pela feiura.

Basta ver a foto no topo da página e comparar com a que está logo abaixo.
2014 - Google maps
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Local: Rua Domingos de Moraes, esquina com avenida Lins de Vasconcelos. A foto mais antiga é de 1927. A recente, do Google Maps, extraída há poucos minutos.

Em tempo, na foto mais antiga, o nome da travessa da Domingos de Moraes não era o atual, mas rua São Jorge. E não era pavimentada.

sábado, 20 de setembro de 2014

UM DESASTRE NA RUA RIO GRANDE, SP (1966)


Uma batida entre dois carros no cruzamento entre as ruas Joaquim Távora e Rio Grande, na Vila Mariana paulistana, teve uma fotografia publicada na Folha de S. Paulo da edição de 21/11/1966.

Fui tentar identificar o local no Google Maps (não é preguiça, é que moro longe da Vila Mariana, mesmo).

Aparentemente achei. Os carros batidos estão na rua rio Grande, em frente a sobrados que ainda existem. Um deles tem o número 234. Trata-se do quarteirão que fica entre a Joaquim Távora e a França Pinto. A casa mais da esquerda faz esquina com a rua Joaquim Távora (notem que há duas fachadas, uma, maior, para a Rio Grande, e outra a 45 graus com o cruzamento).

(Um pequeno histórico: a rua Joaquim Távora chamava-se rua Doutor Fontes em 1924. O nome em 1930 já era Joaquim Távora. A França Pinto, paralela a ela, era a rua que desde pelo menos o século XIX ligava a Vila Mariana com a estrada de Santo Amaro, atual avenida do mesmo nome, seguindo pelas atuais IV Centenário e Afonso Braz. Não é a toa que existe um marco de légua de pedra no início da França Pinto, junto à Domingos de Moraes)

Em 1930, de acordo com o Sara Brasil (visto logo aqui acima), o local dessas casas, se confiarmos na fidelidade desse famoso mapa, apresentava na esquina uma casa mais longa e depois, terrenos vazios. Portanto, a conclusão a que chego é que os sobrados que aparecem nas fotos de 1966 e de hoje foram construídos após 1930 e a casa de esquina que existia foi demolida.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

OSASCO, SP

Ao fundo, a estação (à direita - não é a de agora) e o largo de Osasco (à esquerda). A construção grande era o cine Glamour (o prédio ainda existe). A Sorocabana segue para o interior (fundo da fotografia).

Ontem, domingo, houve numa lista de discussão de ferrovias - em que rola muita coisa além delas - um bate-papo entre velhos moradores e ex-moradores de Osasco. Como se sabe, Osasco era um subúrbio da cidade de São Paulo, localizado a cerca de 15 quilômetros da praça da Sé, que se tornou município em 1961.

Eu pouco pude participar. Conheci Osasco somente nos anos 1970, quando já não era tão diferente de agora... cresceu rápido. Antes, ouvia apenas falar dele por uma empregada doméstica que minha avó tinha e que todo final de semana ia da Vila Mariana para lá. Segundo ela, uma aventura.Não sei em que ponto da cidade ela morava.

Era relativamente novo em termos de povoado, vila, cidade, chamem-no como quiser. Até 1892, não existia praticamenta nada ali, nem o nome. Aí, um imigrante e sua família, Antonio Agu, resolveu comprar algumas terras do lado sul da ferrovia - a Sorocabana - e construir ali uma olaria. Deu o nome ao vilarejo de Osasco, nome da cidadezinha em que havia nascido, na Itália. Pediu uma estação à Sorocabana para escoar sua produção para o centro do município (São Paulo), que já crescia em velocidade espantosa.

A cidade foi crescendo lentamente entre a linha férrea e a estrada de Itu - a atual avenida dos Autonomistas. Atravessou também a linha férrea, onde se instalaram algumas indústrias. O rio Tietê estava ali próximo, ainda em seu leito original cheio de curvas.

Em 1961, com a autonomia, passou a ser dona de seu próprio nariz, E cresceu bastante, como foi a regra para praticamente todas as cidades do interior paulista e brasileiro: com o advento do automóvel mais barato a partir do final dos anos 1950, expandiu-se por toda a sua área.

O curioso, porém, é que, como bairro de subúrbio e não como município, seu aspecto no final dessa década, no seu centro de fato - a estação, em volta da qual se formara - era lastimável: uma praça, ou um campo, enlameado com pouquíssimas construções (o atual largo de Osasco) e curiosamente com uma enorme construção próxima à estação: um enorme cinema para 2.000 lugares. Da praça partiam algumas kombis para os bairros afastados - não havia nem ônibus nem jardineiras, então.

Hoje, Osasco tem mais de um milhão de habitantes e é um município com tráfego caótico com o mesmo problema de São Paulo, em escala menor: se as construções continuarem a ser liberadas, a cidade explode. Mas como nunca aprendem mesmo tendo o mau exemplo bem ao lado...

A cidade tem cinco estações: Presidente Altino, Osasco, Comandante Sampaio, Quitaúna e General Miguel Costa (a antiga Kilometro 21).

sábado, 18 de junho de 2011

NOMES DESAPARECIDOS

Às vezes não é tão fácil assim ler algum livro ou jornal histórico. Ou seja, que foram escritos há, por exemplo, cem anos atrás.

Aparecem nomes que hoje não são utilizados... como localizá-los no espaço da época? Falando especificamente sobre o município de São Paulo (embora isto aconteça no Brasil inteiro), hoje descobri um nome que nunca tinha lido ou ouvido: alguém sabe onde era o Morro Vermelho? O cruzamento da rua Apeninos com a Pires da Mota ficava nesse bairro.

E o Itararé, que ficava onde hoje é o bairro do Ferreira, na Francisco Morato? Os Campos da Escolástica, onde hoje fica a praça Irmãos Karmann, na avenida Sumaré? O bairro do Cerqueira César, que hoje é aquele que fica no quadrilátero Paulista/Nove de Julho/Estados Unidos/Rebouças, mas que até 50 anos atrás era onde hoje é o quadrilátero Rebouças/Henrique Schaumann/Cardeal Arcoverde/Doutor Arnaldo?

O Botequim, na esquina das avenidas Francisco Morato com a rua Puréus? O Marco, que ficava onde hoje é o Belenzinho? Da Coroa, onde hoje está o Shopping Center Norte?

Enfim, os nomes e referências em São Paulo e em outros lugares mudaram muito. Ninguém sabe mais nomes de córregos, que, até 50 anos atrás, eram referências de localização e de divisas de bairros. Boa parte desses córregos está hoje canalizado e entubado, invisível para nós. O Sapateiro (que ia da Vila Mariana até próximo à ponte da Cidade Jardim), do Verde (da Doutor Arnaldo até o Clube Pinheiros), do córrego da Várzea (que passa sob a Nove de Julho desde a alameda Jaú e sob a Cidade Jardim, desaguando junto à estação Cidade Jardim da CPTM), do Uberaba (que cortava Moema e Vila Olimpia), da Traição (sob a avenida dos Bandeirantes e que um dia foi o limite dos municípios de São Paulo e de Santo Amaro)...

Enfim, é sempre bom conhecer esses nomes quando olhamos para o passado.

domingo, 15 de maio de 2011

MUDANÇAS NA CIDADE

Rua Major Maragliano em 1927. DO fotógrafo estava junto ao córrego do Sapateiro, entre a rua e a Domingos de Moraes.
Olhando uma velha fotografia que mostra uma rua do bairro paulistano da Vila Mariana, é possível perceber como as ruas e suas edificações mudaram em relativamente tão pouco tempo.

A fotografia antiga é de 1927. A vista foi tomada de uma chácara no vale do córrego do Sapateiro, entre as atuais ruas Capitão Cavalcânti e Sud Mennucci.

As casas que aparecem em primeiro plano são as que ficam no lado ímpar da rua Major Maragliano, ou seja, são as que dão frente para quem tirou a fotografia. Estas casas somente são visíveis porque existia nessa época um descampado no que seria o lado par, ou seja, o que dava fundos para o vale do córrego citado.

É impossível tirar uma fotografia na mesma posição hoje, tal a quantidade de casas que se interpôs nesse intervalo. O próprio córrego foi entubado, ou seja, está hoje debaixo da terra em leito fechado próprio, como uma galeria de águas pluviais.
Mapa da SARA BRASIL em 1930. No retângulo colocado sobre a rua Major Maragliano, a área que pode ser vista na fotografia. A linha axul no centro do mapa é o córrego do Sapateiro.
Porém, investigando o mesmo local, na rua Major Maragliano, notei que nenhuma das casas que ali aparecem existem mais. Ou então, as reformas externas foram tantas que se perderam as características iniciais. Porém, esta última hipótese não é provável, dada a mudança dos telhados e sacadas.

Somente no lado direito da fotografia, podem-se ver casas no lado par, que davam fundos para curva da rua Sud Mennucci (ver mapa de 1930). No lado esquerdo, podem-se ver telhados e frontões de casas na rua Thomas Alves. Um pouco à direita, outro telhado pode ser visto na mesma rua, que fica atrás da rua Major Maragliano.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

70 ANOS DE DIFERENÇA

Em dias com excesso de trabalho, postagens no blog mais curtas. Gosto muito de escrever, mas em alguns períodos fica difícil de se concentrar e criar algo que preste.

Hoje, porém, tive a oportunidade de ter de realizar um serviço na Vila Clementino. Na volta pra Pinheiros, passei pelo local da foto que postei aqui dois dias atrás. Aquela do bonde fazendo a curva ao lado do Instituto Biológico. O local fica praticamente na divisa dos bairros da Vila Mariana e Vila Clementino.

Tirei então uma foto, com o celular - não fico andando com minha máquina fotográfica digital com muita frequência.

Notem os 70 anos de diferença no mesmo local.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

UNIVERSO PARALELO

O bonde no canteiro central (1943). Mas aqui, na Domingos de Moraes.
Este é um texto para quem conhece São Paulo. Resolvi escrevê-lo, pois na manhã de hoje o trânsito estava inacreditável. Parecia que eu estava dirigindo na cidade na década de 1980. Fluía que era uma maravilha. Que terá ocorrido? Nenhum acidente? Pelas leis da probabilidade, fato quase impossível, com o número de carros e de barbeiros na cidade. Teria eu cruzado as barreiras de algum universo paralelo? Não creio.

Vejam o percurso: Marginal do Tietê-av. Bandeirantes-Santo Amaro-Eucaliptos-Ibirapuera-av. Jamaris. Parei onde precisava ir (em frente!!!), peguei o que precisava e segui.

Depois, Maracatins-av. Indianópolis-av. Jabaquara. Parei próximo à estação da Saúde do metrô (aqui foi em estacionamento). Dali segui para a rua Padre Machado, parei (na rua!!!!), depois continuei pela Onze de Junho-Dr. Bacelar-Rubem Berta (retorno), Maracatins, av. Indianópolis-República do Líbano, João Lourenço.

Daí, Bandeira Paulista até a Faria Lima por dentro do Jardim Europa. Inacreditável. Tudo isso em pouquíssimo tempo. Horário (contando os três lugares onde parei para resolver assuntos): entre 8:30 e 10:10. Tempo total fora do automóvel: 1h10. Realmente, inacreditável.

Andar pela avenida Indianópolis entre a Moreira Guimarães e a Jabaquara era algo que eu não fazia havia anos. Nem me lembrava direito dali. Vi, no entanto, que não há prédios. No máximo, construções, uma ou outra, de 3 andares. A avenida é muito bonita, pois v. vê o céu, não aquela muralha de edifícios. Sem dúvida, hoje é uma das avenidas mais bonitas de São Paulo.

Já a Jabaquara, também não recebeu aquela enxurrada de prédios. Tornou-se uma avenida com lojas de serviços, um outro edifício de apartamentos e ainda uma ou outra construção mais antiga, como um colégio cujo prédio é uma mansão antiga, provavelmente dos anos 1920, e um ou outro asilo e um internato, vizinhos entre si em construções dos anos 1940/50.

Sempre que passo ali me lembro das recordações de minha mãe: "eu ia visitar uma amiga que morava lá em São Judas. Tomava o bonde nos anos 1930, tinha de pagar segunda seção... não havia quase nada depois da Luiz Gois, a avenida Jabaquara passava no meio de um imenso descampado onde havia uma ou outra casa, e o bonde passando no canteiro central de uma rua com duas pistas estreitas de paralelepípedos". Da parte do bonde eu ainda me lembro. Mas nos anos 1960 que eu conheci a avenida de descampado não tinha mais nada.

quinta-feira, 24 de março de 2011

FESTA EM SÃO SIMÃO - ANOS 1930

Convite do festival - anos 1930
Em benefício da caixa escolar, o Grupo Escolar da cidade de São Simão organizou uma festa para as crianças. Segundo minha mãe, isto teria ocorrido em 1932, quando elas foram mandadas por minha avó para lá para fugirem à revolução. Se foi verdade, mal sabia minha avó que o perigo maior estava ali mesmo, muito próximo à fronteira mineira. A Vila Mariana, em São Paulo, esteve mais tranquila durante a crise.

Vale a pena ler o convite do festival, reproduzido acima. Quem é da cidade deve se lembrar de vários desses nomes ali citados.

Por isso, creio que isto pode ter sido um ano antes ou um ano depois. Enfim - nessa época. Pelo menos minha mãe Astrea e seu irmão Aécio participaram da festa e não eram da cidade. Iam sempre para lá pois minha tia-avó, Angelica de Carvalho Siqueira, era a diretora do grupo de lá - e o foi por muitos anos, antes de vir para São Paulo, em 1939. Tio Siqueira, dentista e farmacêutico, era de lá e eles viviam na cidade desde que se casaram em 1916. Ele foi prefeito em 1935.

Meu tio já se foi, há mais de vinte anos. Formou-se advogado e foi procurador geral do Estado até sua morte. Minha mãe está firme, com oitenta e sete anos, vivendo no bairro do Sumaré, em São Paulo.
Na casa de minha tia
Nas duas fotografias, minha mãe aparece, vestida de odalisca (deve ser o tal "sonho oriental", item 9 do festival), à esquerda, mas, segundo ela, a foto teria sido tirada na casa de sua tia Angélica. A casa com a amurada branca. Essa casa em que minha tia morava dava fundos para o córrego no vale - onde eu sei que hoje há uma avenida. Não sei se a casa ainda estaria de pé. Ela parece mais velha que na foto citada abaixo. Não deve ser 1932, nem mesmo 1933. A festa deve ter sido mais tarde.
No grupo escolar
A outra foto mostra minha mãe à direita, sentada, sem fantasia. Teria sido tirada no grupo. Seria no mesmo ano. Aliás, pela aparência de mamãe, ela teria no máximo dez anos aí.

Resta saber se as fotos estão citadas como sendo nos locais corretos. São em São Simão. E nos anos 1930. Alguém se habilita a confirmar ou a me desmentir?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ARQUITETURA INVISÍVEL

A casa atrás das lojas. Ao lado direito, um telhado em quatro águas de outra casa.
Como já escrevi há algum tempo neste blog, o professor Máximo de Moura Santos, amigo de meu avô Sud, possuía um colégio na rua Domingos de Moraes em fins da década de 1920. Quando meu avô estava construindo sua casa na rua Capitão Cavalcânti, a dois quarteirões dali, mudou-se com a família para uma dependência da escola.
O mapa da Sara Brasil de 1930 mostra o quarteirão citado. Todas essas casas já existiam. Ainda parecem existir três delas: da rua França Pinto para o norte, lado par da Domingos de Moraes, a segunda (um armazém já descaracterizado), a terceira (que pode ser vista acima das lojas) e a quarta (apenas se vê o telhado).
O número da casa era 148. Lado par, portanto. Entretanto, a numeração da época não era a métrica - que somente veio a ser implantada em São Paulo em 1938. Então, onde ficava a casa? Tenho uma fotografia dessa casa, tirada por meu avô. O número da casa estava escrito no verso da foto. Quando eu escrevi a biografia dele, perguntei a minha mãe - que havia morado ali e teria seis anos de idade - onde deveria ficar a casa. Ela não se lembrava muito bem. Achava que ficava entre as ruas França Pinto e Araxans (atual Sud Mennucci).

Quase quinze anos depois, descobri que não era ali, mas sim no quarteirão anterior (para quem vem da cidade), o que fica entre as ruas Joaquim Távora e França Pinto. Isto ocorreu porque, por acaso, folheando um velho livro de 1916, consegui identificar boa parte dos locais com numeração antiga da rua Domingos de Moraes. Ali estava escrito que "a rua França Pinto começava junto ao número 161 da rua Domingos de Moraes". Está certo, 161 era ímpar, mas isto implicava que o número 148 seria,então, no quarteirão citado acima.

Para ter um pouco mais de certeza, perguntei à minha mãe se ela se lembrava de onde ficava a casa. Ela disse que da casa ela se lembrava de ver, bem próxima, a caixa d'água da rua Vergueiro. Bingo. O quarteirão devia ser esse mesmo. Seria em que ponto, exatamente? Difícil de dizer. Esse quarteirão, em seu lado par, ostentou o prédio da antiga "fábrica de phosphoros" da Vila Mariana em toda a sua extensão até 1922. Portanto, as casas que ali existissem deveriam ser mais novas do que isso.
A mesma casa, vista de frente. Porém, quem passa na calçada do outro lado da rua dificilmente notará a velha casa. Reparem que à esquerda da loja "Basico", está a entrada lateral para os fundos, onde a casa ainda está - possivelmente alguém mora nela ainda
A mim, parece que o estilo da casa, cuja fotografia reproduzo aqui, condiz com essa afirmação. Da mesma forma, pelo menos uma casa que "descobri" recentemente no mesmo quarteirão, escondida atrás da fachada de três lojas à beira da calçada, parece ser dos anos 1920 ou até 1930. Ao lado, outra casa, da qual somente se vê um telhado de quatro águas, que possivelmente seja da mesma época, também escondida por três lojas.
A casa onde ficava o Colégio Moura Santos, antigo 148 da rua Domingos de Moraes. Na época da foto, era tanto escola quanto moradia de meu avô (final dos anos 1920).
Nenhuma delas parece ser a antiga escola. Ela talvez fosse ao lado direito da última, de quem olha da rua. Ali não há casa antiga. Ela deve ter sido demolida. Quando, não se sabe.
Nela nasceu minha tia Lélia, irmã de minha mãe, quatro meses antes de Sud e sua família se mudarem para a sua nova casa na Capitão Cavalcânti.

Enfim, há muita coisa antiga e bonita escondida em São Paulo, ainda.

domingo, 24 de outubro de 2010

E QUE SE DERRUBEM AS CASAS PAULISTANAS!

Este simpático chalezinho, na época já meio mal cuidado, ainda estava de pé em 1988, quando eu parei meu carro em frente a ele, na rua Domingos de Moraes, e o fotografei. Não muito tempo depois, foi demolido. Em seu lugar, hoje, existe uma agência do banco Bradesco. A foto foi reproduzida hoje no jornal O Estado de S. Paulo.

Neste domingo, o caderno Metrópole do O Estado de S. Paulo publica uma reportagem sobre o que se demole de casas no município de São Paulo e o que isso representa para todos os seus habitantes.

Depois, na página 3, como um complemento a isso, os reporteres Rodrigo Burgarelli e Rodrigo Brancatelli escrevem sobre a Vila Mariana e algumas casas que foram demolidas nas ruas Domingos de Moraes e Vergueiro.

Os exemplos dados - por fotos com o local anterior e o atual - são: na Vergueiro, o Instituto Ana Rosa (onde hoje está o conjunto de prédios do Lar Brasileiro) e duas casas geminadas no número 2024 da mesma rua (demolidas pelo metrô, sobrando somente os terrenos dos fundos, onde foram construídas duas lojinhas).

Na rua Domingos de Moraes, são mostradas a Villa Kyrial (no número 300), a garagem de bondes da Light/CMTC (onde hoje há um muro com o símbolo do metrô, junto à praça Teodoro de Carvalho), a chácara Conceição (em frente à rua dona Júlia), um chalet típico do início do século XX (am frente à antiga garage de bondes) e um quarteirão de casas entre as ruas dona Júlia e Lins de Vasconcellos. Todos esses imóveis foram demolidos e substituídos por ouras construções, com exceção do da garage de bondes.

Em termos de qualidade de vida, de estilo arquitetônico e de história, essas derrubadas - que ocorreram de 1950 a 1990 - foram desastrosas. A mais significativa delas foi a da Chácara Conceição, que teve não somente a casa demolida, mas também seus jardins imensos atrás dela, que ocupavam a área desde os fundos da casa até o córrego do Sapateiro, entre as ruas Sud Mennucci e Capitão Cavalcânti.

Para contar a história dessas construções antigas, o que elas representaram para São Paulo e o que se perdeu com isso, seria necessário mais do que um livro. Mesmo porque uma delas - a Villa Kyrial - já teve dois livros escritos somente sobre ela. Já sobre a Chácara Conceição, já escrevi em pelo menos duas postagens neste blog.

E vamos tocando a vida. Que venham mais edifícios horrorosos de apartamentos, parece que de forma alguma nossos governantes e muito menos as construtoras se importam mais com isso. Enquanto isso, os congestionamentos no trânsito e o excesso de passageiros nas vias férreas aumentam dia a dia.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

REVISTA DO SESC PUBLICA MATÉRIA COM ERROS ABSURDOS

Esta foi a fotografia publicada na reportagem do SESC. Foi tirada da página da rua Domingos de Moraes, esta feita por mim. A fotografia é do acervo de Ubirajara Ribeiro Martinsde Souza e foi digitalizada por Douglas Nascimento. Nenhum dos nomes foi colocado nos créditos da reportagem.

A última revista do SESC mostra na seção "Almanaque Paulistano" a história da Chácara Flora - supostamente, o antigo bairro, hoje murado, que fica em Santo Amaro, no Alto da Boa Vista.

Não posso contestar os números que eles colocam ali, datas, etc. Posso, no entanto, dizer que o ano em que o município de Santo Amaro foi incorporado ao da Capital foi em 1935, não em 1932 (não é muito difícil de se comprovar isso, para quem duvidar do que escrevi).

E posso, também, que a fotografia antiga que eles utilizaram é a da Chácara Conceição, talvez a casa mais bela que o bairro de Vila Mariana já teve, e não a da Chácara Flora. Por que eles devem ter feito essa confusão? Ora, por pesquisarem mal. A fotografia, à direita, mostra o portão da Chácara Flora... de Vila Mariana, na rua Domingos de Morais. Esta nada tinha a ver com o bairro de Santo Amaro; era uma chácara, apenas, vizinha à Chácara Conceição.

Sei disso, pois eu e o Douglas resgatamos as fotos e memórias da Chácara Conceição, no início deste ano, junto aos descendentes de seus moradores entre 1927 e 1991, quando esta foi destruída; a outra chácara, a Flora, já se tinha ido muito tempo antes, nos anos 1950.

Enfim, um desserviço à história paulistana pelas informações (muito) erradas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OS GATOS DE VOVÓ

Minha avó Maria, em 1909. Já postei esta foto no blog anteriormente.

Falo e falei muito aqui neste blog sobre meu avô Sud. Pouco falei de sua esposa, Maria. Porém, eu a conheci, enquanto a Sud, não - ele morreu três anos antes de eu nascer.

Vovó Maria - como eu a chamava - viveu durante 36 anos de minha vida. Eu gostava muito dela. Passei boa parte de minha vida em sua casa. Parte dela, a de que mais me recordo, na rua Capitão Cavalcanti. Quando eu tinha 15 anos, em 1966, ela se mudou de lá, tendo vendido a casa que meu avô construiu. A casa, reformada, ainda está lá, com o mesmo dono que a comprou.

Dali, vovó se mudou para a avenida Doutor Arnaldo, no Sumaré. Morou ali três anos. A casa foi desapropriada pela Prefeitura para a construção da avenida Paulo VI, sob ela (ligação Brasil-Sumaré) e vovó se mudou de volta para a Vila Mariana, na rua Azevedo Macedo, 112. Esta casa foi comprada pelo hospital Amico, que ficava em frente, e, em 1971, vovó se mudou para a rua Maracaju, muito próximo dali. Nessa casa faleceu, em 1987, com 93 anos de idade.

Vovó sempre morou com duas de suas três filhas - somente Astréa, minha mãe, se casou e deixou a casa. A quarta filha, na verdade a mais velha, morreu criança, em 1924. Vovó sempre falava dela, de sua boneca Agapito e de suas mechas loiras enroladas dentro de um envelope de papel-manteiga - que eu preservo até hoje. A verdadeira história de Astarté eu somente soube muito tempo depois, quando escrevi o livro sobre meu avô. Vovó chorava quando falava dela.

Interessante são as histórias que ela contava e que minha mãe hoje conta, algumas tão antigas que não são nem do tempo de minha mãe. Uma das que eu mais gostei foi a do gato que minha avó tinha quando era estudante em Porto Ferreira. Ela estudava na Escola Normal de Pirassununga, isso pelos anos de 1912, 1913. Tomava o trem da Paulista para ir e para voltar. Estudava à noite, pelo menos parte do período em que lá esteve.

Vovó sempre gostou de gatos. Nos anos 1950, quando eu tinha uns seis anos, eu via sempre em sua casa os dois gatos da época, o Cianeto e o Potássio. Os nomes foram dados pela minha tia solteira e química, Lélia Mennucci. Mas em Porto Ferreira, vovó também tinha um gato que, quando escutava todos os dias o apito do trem se aproximando da estação, corria da casa até lá - eram uns 3 quarteirões - para esperar e voltar com Maria para casa.

sábado, 7 de agosto de 2010

NOMES SEM NADA A VER

Planta do loteamento do Bosque da Saúde em janeiro de 1921, publicado no Diário Popular. Os nomes das ruas referiam-se todos à Guerra do Paraguai. Quase todos, no entanto, mudaram depois.

As denominações de logradouros no Brasil não seguem, realmente, nenhuma regra de coerência. Cidades, ruas, estações ferroviárias, bairros e outras localidades são e foram batizados em um grande número de vezes de forma a não manterem relação nenhuma com fatos, locais ou pessoas com as quais são denominadas. As que menos sofrem com isso parecem ser as cidades, mas, mesmo assim, parecem existir inúmeros casos desse tipo.

Ruas, então, pelamordedeus. Alguns exemplos em São Paulo: alguém sabe que relação o sr. Roberto Marinho tem a ver com a antiga avenida das Águas Espraiadas (que tinha esse nome por causa do córrego que ela acompanha)? Ou os Bandeirantes com a avenida que lhe leva o nome (antiga avenida da Traição, por causa de um fato perdido no tempo de um assassinato às margens do córrego que ela acompanha)?

Ou o Capitão Cavalcanti com a rua que tem seu nome na Vila Mariana - ele era um herói da guerra do Paraguai, mas que não tinha nenhuma relação com o bairro. Especialmente na Vila Mariana, que é um bairro formado no final do século XIX e cujas primeiras ruas levaram o nome de moradores ou dono de chácaras por ali: Carlos Petit, Dona Avelina, Dona Júlia, Dona Ana Rosa. Por outro lado, o próprio nome da rua principal dali, Domingos de Moraes, recebe o nome de um político batataense que talvez jamais tenha passado por ali. O nome original desta rua era Caminho do Carro (para Santo Amaro).

Há, no entanto, diversos bairros que receberam nomes temáticos, ou seja, quando se abriu o loteamento, como eram muitas ruas, decidiu-se dar os nomes baseados em algum fato histórico ou geográfico. O Jardim Europa leva o nome de países da Europa. O Jardim América, da América. O Sumaré, de cidades do Brasil. A antiga Vila América, de cidades do Estado (Santos, Jaú, Itu... embora a Iguape tenha virado Oscar Freire no final dos anos 1920... por que?). Em Moema, as ruas têm nomes de pássaros a oeste e de índios a leste da avenida Ibirapuera, mas nos anos 1980 uma delas recebeu o nome de um ministro (Gabriel de Rezende Passos). Mesmo que ele tivesse terras ali ou houvesse ali morado, mudar o esquema e a sintonia dos nomes temáticos por que motivo?

Em estações ferroviárias brasileiras, o nome de funcionários das companhias em que trabalhavam foram dados a inúmeras estações, sendo que muitos deles a pontos que não tinham relação alguma com as pessoas. Pessoas falecidas em acidentes na ferrovia foram homenageadas às vezes a 500 km dali. Muitos - não todos - os nomes - substituíam nomes antigos e tradicionais. Por que? O que ganham as pessoas com isso? A recente briga pelo nome do túnel da avenida Nove de Julho pelo nome de um médico mostra bem isso. Ou das pontes das Marginais. Em ambos os casos agora elas têm dois nomes. Para que, meu Deus?

São muitos os exemplos. Inúmeros, para dizer a verdade. Não se entende por que os políticos brasileiros insistem em alterar nomes de logradouros ou mesmo de darem nomes sem relação com os locais. Está mais do que na hora de parar com isso - e, se fosse mesmo viável, retroagir muitos dos nomes atuais aos antigos. Mas é, realmente, sonhar acordado.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A VILA MARIANA QUE NÃO EXISTE MAIS

Casa onde viveu o empresário suíço Roberto Mange, na rua Vergueiro, em foto de 1915.

Ainda em uma localização provisória e sem link no site Estações Ferroviárias, algo que tem quase nada a ver com ferrovias numa nova página: a memória do bairro paulistano da Vila Mariana, onde vivi parte de minha infância.

Vejam clicando aqui. Ainda há muita coisa a adicionar nessa página, que mostra locais da Vila Mariana que não existem mais.

terça-feira, 6 de julho de 2010

VÓ CONSTANÇA


Vó Constança. Ontem eu achei essa foto aí em cima, tirada em 1929 numa sala de uma casa hoje demolida na rua Neto de Araújo, na Vila Mariana. É da minha bisavó, mais conhecida como "vó Constança", termo usado por uma de suas inúmeras netas: minha mãe Astrea.
Mamãe lembra-se pouco dela: quando Constança morreu, ela tinha apenas 8 anos. Mas ela se lembra, sim, de tê-la visto em São Paulo e em Porto Ferreira, "no Porto", onde ela morou até 1927, quando seu marido, Daniel, morreu, com 81 anos. Aí os filhos trouxeram-na para São Paulo, para a Vila Mariana, onde minha avó e boa parte de sua família moravam.
Foi para a rua Neto de Araújo, a cerca de 3-4 quarteirões da casa de meus avós, Sud e Maria.
Dava para ir a pé e, claro, sem problemas de atravessar a rua: eram tão pouco tráfego... A casa era mais alta do que o nível da rua, tinha uma escada para subir e entrar na varandinha na frente da casa. Muito bonitinha, telhado de duas águas, jardimzinho na frente. Garage, não tinha: para que? Ainda há três casas muito similares, uma do lado da outra, no final da rua, lado par, só que com algumas diferenças - fora as descaracterizações que sofreram, claro. Elas não têm duas águas somente no telhado frontel, mas quatro. Só isso já faz com que se veja que nenhuma delas é a casa que foi de minha bisavó.
Minha mãe ainda diz: "ela cosumava me dar remédios quando eu estava doente e ia para a casa dela: como eu recusava, ela tirava o chinelo e dizia: se não tomar por bem, toma por mal. E eu tomava. Ao contrário do que dizem os educadores de hoje, jamais tive nenhum trauma por isto".
Dois de seus filhos, os dois mais novos, Esther e Fávio, então com 20 e 12 anos, ainda moravam com Constança. Ester dava aulas de piano para minha mãe. As fotografias que tenho da casa, de 1929, mostram pessoas na janela da frente ou na varanda. Em uma delas, minha bisavó.
Cara de portuguesa escarrada (mas como se define uma cara de portuguesa?), ela tinha 59 anos quando tirou a foto acima, pensativa, olhando para o longe na sala de sua casa. Parecia bem mais velha do que a idade real, apesar de não ter quase cabelos brancos. Porém, treze filhos e a morte recente do companheiro de 41 anos deixaram sua marca.
Já se ia longe aquele ano de 1886, quando embarcou em Lisboa num navio que a trouxe para o Brasil, para ~"o Porto", para casar com um homem 23 anos mais velha que ele, também português e amigo de seu irmão. Deram-se bem, no entanto.
Menos de três anos depois da fotografia, no início de 1932, morreu, de volta "ao Porto", de aortite. Deixou uma lição de vida, possivelmente tendo em sua mente os dias em que levava a filharada para a grande aventura de lavar as roupas no Mogi-Guaçu.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

MEMÓRIAS DE MINHA MÃE

"Olhos Grandes" - 1926

Meu avô Sud chegava em casa todos os dias e encontrava as três filhas juntas esperando junto à porta. Apontava para cada uma delas e dizia: "Olhos grandes!" (para minha mãe, Astrea, a mais velha). "Olhos azuis!" (para Lélia). "Olhos doces!" (para Mévia, a mais nova).

Na época em que ele foi Diretor Geral do Ensino, de 1943 a 1945, a casa vivia cheia de gente à noite: eram, principalmente, professores e professoras. Minha avó Maria ficava nervosa e corria para a cozinha para fazer bolinhos e preparar ponche - ponche quente, que não era comum, mas que todos apreciavam. Depois, guardava os licores coloridos em garrafas que punha num armário baixinho de madeira (conheço esse armarinho: muito bonito) e guardava os salgadinhos e doces numa gaveta trancada no bufê da sala.

Anos mais tarde, surpreendeu-se ao saber que meu tio Flávio (irmão temporão de vovó, não muito mais velho que Astrea) descobriu que retirando a gaveta de cima, que não tinha chave, ganhava acesso aos acepipes e pegava-os, distribuindo à Astrea e irmãs, para que elas não o caguetassem. "Por que não me contaram?", perguntou à minha mãe, então já casada. Resposta: "ah, o Flávio é que chegava com os doces e não nos dava, nós não sabíamos onde ele os arranjava". Era mentira. Vovó ficou brava por saber.

Mamãe brigava com meu tio Aécio, seu irmão, nem três anos mais novo do que ela. Para se vingar, ele ia à garagem, onde Astrea guardava suas panelinhas de barro trazidas de Minas com que brincava, atirando-as ao chão na frente dela. Aí era uma gritaria. Vó Maria batia nos dois, pois nenhum admitia culpa alguma. Batia mais na mamãe e nem tanto no Aécio. Anos depois, vovó disse que fazia isso porque a mamãe não chorava, ficava com cara de durona, aguentando o tranco. Já Aécio morria de medo de apanhar, chorava e gritava e vovó ficava com pena.

Astrea já estava maior e saía com a prima Meire para passear. Lélia, seis anos mais nova e criança ainda, chorava no portão da rua Capitão Cavalcânti, na Vila Mariana: "eu também quero ir". Chegava a Baia (a empregada) e perguntava à mamãe o que ela tinha feito. Resposta: "nada, só vou sair e não vou levar a Lélia". Baia, então, levava Lélia, distraindo-a com uns docinhos.

Vovô resolveu comprar uma casa "no interior" para descansar durante os finais de semana e achou uma chácara em Mogi das Cruzes (já falei sobre ela por aqui). Disse a Maria que precisava pedir um empréstimo e se Maria concordava. Vó Maria respondeu: "não precisa, eu tenho o dinheiro. Economizei do que você me dava para as compras". Sud achou o máximo. Pegaram o dinheiro (incrível, não?) e comprou a casa.

Mamãe contou-me tudo isso hoje à tarde, em sua casa no Sumaré, onde nasci e onde ela mora há sessenta anos. Lélia morreu em 2002, no caminho para São Lourenço. Aécio faleceu em 1988. Mévia está infelizmente doente há anos. E Astarté, a primeira filha, que morreu às vésperas de completar seis anos de idade em 1924, tem sua história também.

Uma tarde, uma amiga de vovô e de vovó foi visitá-los e queria conhecer os filhos. Vovó chamou-os para a sala (depois de dizer "não pensem que vão ficar lá: é só para cumprimentar, dizer o nome e sair de fininho" - criança não tinha vez nos anos 1930) e depois de conhecer os quatro, perguntou a Sud: "quem é aquela menina de olhos azuis?", ao que Sud respondeu: "é a Lélia". Ela falou: "essa, não, aquela, menorzinha, ali atrás" e apontou para um quadro com a fotografia de Astarté.

Todos gelaram. A moça pediu desculpas e disse que era vidente, que não queria assustá-los. A cena foi presenciada por minha mãe.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O HOMEM QUE NÃO DEVIA MORRER

Rua da Consolação sendo duplicada, em 1967. Foto Diário de S. Paulo

Um de meus amigos de infância tinha um sogro que se chamava Irineu. Era um grande sujeito: conheci-o há uns 35 anos e ele faleceu há uns quatro, infelizmente. Era um excelente marceneiro, além de empresário. Nasceu na rua Conde de Irajá, na Vila Mariana. Esta era a rua que, pelo menos quando ele era menino, dividia a rua Vergueiro da Estrada do Vergueiro. Hoje é tudo rua Vergueiro.

Quando se casou foi morar numa casa com sua esposa, na avenida Nove de Julho. Uma casa de estilo normando, telhado alto e "pontudo", para que, se caísse neve, escorreria tudo para o chão sem fazer peso — como se aqui nevasse, mas era o estilo, fazer o quê? Não me lembro direito, mas creio que a casa era da família da esposa dele e esta, sim, passou a infância lá. Ele — ou ela — contava que a rua era estreita (era a Salvador Pires), depois foi alargada (em 1942) para se fazer a avenida que saía do túnel alcançar a Brasil. Ela andava de bicicleta na rua.

Quando eu os conheci, já era difícil entrar com o carro na garagem, com os ônibus subindo a avenida e encostando na traseira do seu carro, que tinha de quase parar para fazer uma curva de noventa graus para entrar na garagem. Quando outras pessoas iam lá e entravam na garagem para estacionar o carro, havia que se telefonar antes para que eles abrissem os portões enormes de madeira e a gente pudesse entrar rápido com o carro antes de levar uma bordoada por trás.

Durou anos, mas por volta do ano 2000 eles conseguiram vender a casa e se mudar para São José dos Campos, onde estavam morando a filha e o genro já havia uns dez anos. No lugar da casa e de mais uma vizinha pelo menos, foi construído o hotel Formule 1 entre a Lorena e a rua Estados Unidos, lado ímpar da Nove de Julho.

São estes relatos comparativos de tempos em tempos de um mesmo local que me fascinam. Como seria se os homens vivessem mais e pudessem acompanhar determinados locais durante os últimos duzentos anos? A rua da Consolação, por exemplo. Até onde me lembro neste momento, ela foi aberta em 1808 (posso estar enganado, mas creio que é isto).

Admitindo que um homem que tivesse uns 220-230 anos de idade hoje e conseguisse manter a lucidez, ele teria visto uma picada no meio da mata tornar-se uma rua mais larga para a passagem de um ou outro carro de bois ou de burros (essa rua, antiga estrada de Pinheiros ou de Sorocaba, existe desde tempos imemoriais como a trilha Tupiniquim, parte do "complexo viário" indígena do Peabiru) para depois ser prolongada até o topo do Caaguassu, junto à então futura avenida Paulista. Depois, no final do século XX, receberia seus primeiros trilhos para bondes a burros, substituídos no início do XX para trilhos mais robustos para os bonde elétricos.

Em meados dos anos 1960 seria duplicda e receberia um canteiro central. Enquanto isso, os bondes acabaram e os ônibus a invadiam cada vez mais, juntamente com automóveis e motocicletas. Se alguém pudesse ter acompanhado isto e contar histórias comparativas hoje para nós, imagine o que não seria!

É o que as fotografias tentam fazer. Porém, a fotografia mais antiga que já vi da rua da Consolação não é nem do início do século XX. É mais recente. O que posso contar sobre a rua é que eu a conheci bem mais estreita — largura equivalente a uma das pistas que tem hoje — com paralelepípedos e duas linhas de bonde, uma subindo e outra descendo, no centro da rua. Eu a vi tendo as casas de um dos lados sendo demolidas desde a Biblioteca Municipal até a avenida Paulista. Vi-a em obras de duplicação — outro dia vi fotografias destas obras e da avenida recém-aberta, em 1967/8.

Tenho, assim como muitas outras pessoas, diversas memórias de pontos de São Paulo. Só que o homem que não morreu — aquele, sim, morreu, mas não deveria — não existe e não pode contar duzentos anos de história nem ter fotografias de 200 anos, porque esta tecnologia nem existiu por todo esse tempo. Agora é fuçar as gavetas e impedir que memórias fotográficas sejam atiradas ao lixo por descaso ou qualquer outro motivo.