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sábado, 7 de fevereiro de 2015

IMAGENS DA VELHA DESCALVADO


Descalvado, antiga Nossa Senhora de Belem do Descalvado, já teve dias melhores. Com as plantações de café, seu ápice deu-se entre os anos 1881 e 1916, quando, além de ter muito café para exportar em suas terras, ainda era o ponto final da linha-tronco da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. "Boca de sertão", como se dizia.
Salto do Pantano
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É bem verdade que havia ainda dois bairros rurais mais para a frente, Pantano e Aurora, com estações para recolher café, mas a linha era diferente - 60 cm de bitola contra os 1,60 m da tronco.

Em 1881 a Paulista chegou à cidade. Todo o café da região do rio Mogi-Guaçu que a ferrovia podia carregar entrava por Descalvado. Em 1916, porém, a linha-tronco passou a correr por Rio Claro, São Carlos e Araraquara, o que deixou a cidade como uma mera ponta de ramal. Enquanto em 1921 a linha principal começou a receber trens puxados por locomotivas elétricas, o ramal jamais as teve (embora se cogitasse da eletrificação dele até Pirassununga, também do ramal, em 1946).

Ainda se somaram alguns anos de glória até o início real da decadência nos anos 1930. Foi justamente nesta época (maio de 1929) que a revista Eu Sei Tudo publicou uma reportagem da cidade, publicando seis fotografias de muito boa qualidade em suas páginas e com texto de Escragnole Doria, famoso na época por seu método sempre poético de descrever as cidades que visitava.
Nossa Senhora de Belem do Descalvado, imagem que estava na cidade em 1929
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Nos finais de semana, era comum a população ou visitantes da cidade tomarem o trem da bitolinha para descer na estação do mesmo nome (do rio) e visitar a cachoeira do rio do Pântano, onde se faziam lautos pique-niques. Hoje em dia essa cachoeira está em terras particulares e poucos a visitam. E certamente não de trem, este desaparecido há mais de cinquenta anos.

Descalvado é uma das cidades que nunca se recuperaram do baque do final do café. E é por isso que segue sendo um local ainda muito agradável de se visitar, com boa parte do seu casario ter parado no tempo.

Como estarão as construções e a imagem da santa que reproduzo aqui, eu sinceramente não sei. Não vou a Descalvado há pelo menos quatro anos e não tive tempo, infelizmente, de conferir tudo isto. Talvez algum leitor o queira fazer.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CARTAS ESQUECIDAS

Os Silva Oliveira... Constança, Daniel e, em pé, Angélica, em 1916. Foto tomada em Porto Ferreira.

Piracicaba, 12 de junho de 1916

Maria

Cheguei de viagem (1) não tão bom como suppunha, pois, á noite, arranjei a minha costumeira dor de cabeça que eu havia prophetizado, em virtude do pince-nez, do pó e talvez da saudade. (...)

Minha terra está morta. Com a vinda das férias os estudantes zarparam. Os meus collegas, casados quase todos, não se atrevem mais a apparecer por estas plagas. (...)

Fui hoje entregar ao snr. Julio Pedroso e família as encomendas de seu Daniel e d. Constancia (2). Moram na casa da Empresa Telephonica e pelo que me falaram nunca sahiram daqui, depois que vieram de Descalvado e Porto Ferreira. Receberam-me affavelmente e a senhora do snr. Julio me contou que já sabia que tu eras minha noiva. Falamos, durante mais de uma hora, de Porto Ferreira e do pessoal dahi, que para elles, como para mim, quasi que se resume na família de teu pai. Prometteu, o Julio, arranjar o miesophone, si fosse possível e a Lucy não resistiu ao desejo infantil de abrir o pacote e ver o que é que a madrinha lhe mandava. (...)
Dahi mandar-me-ás algumas, especialmente sobre o estado de saúde do Joaquim (3). Como foste de festa de Pirassununga? (4) Ficaste para o baile ou decidiste mesmo voltar a assistir fitas no Condor? (...) (5)

É possivel que na volta, si não for incommodo ahi, eu leve commigo Sida (6), que com a mudança de escola vai ter uns quinze dias de férias.

Sem mais recommenda-me a todo o pessoal que forma a família Oliveira, não te esquecendo do Siqueira, Affonso e Rodello (7), emquanto te beijo humildemente as mãos

O teu Sud

Carta transcrita no português original.

(1) De Porto Ferreira, onde Sud Mennucci morava e estava então ainda noivo de minha avó Maria.
(2) Pais de Maria e meus bisavós.
(3) Um dos irmãos de Maria, 2 anos mais velho do que ela.
(4) Pirassununga, onde Maria estudava na Escola Normal e distante 20 km de Porto Ferreira.
(5) Cinema de Porto Ferreira na época.
(6) Irmã de Sud, mais nova.
(7) Futuros cunhados de Sud, menos Affonso que não tenho ideia de quem tenha sido.