Mostrando postagens com marcador CONDEPHAAT. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONDEPHAAT. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de abril de 2012

O QUE OS OLHOS VÊEM NEM SEMPRE FAZEM O CORAÇÃO SENTIR


Existe um grupo na Internet (existem vários, este é um deles) que se preocupa com a história no Estado do Rio de Janeiro. Recebo mensagens deles e, embora não conheça muitos desses locais, são, sem dúvida, todos sobre os quais leio dignos de preservação pelo contexto e importância histórica que possuem.

Você conhece Nova Iguaçu? Pelo menos de nome, tenho certeza que sim. Pois é, ela se chama "nova" porque existiu uma "velha" Iguaçu - aliás, ainda existe. A "nova" se chamava Maxambomba e se desenvolveu a partir de meados do século XIX, quando a E. F. D. Pedro II (depois Central do Brasil) estabeleceu ali, então parte do município de Iguaçu, em 1858, uma estação ferroviária, grande novidade na época. Por causa disto, a cidade começou a crescer e, ajudada por um surto de cólera em Iguaçu "velha", teve para ela transferida a sede do município.

Maxambomba virou a Nova Iguaçu e Iguaçu ficou às moscas. Embora a E. F. Rio d'Ouro tenha construído ali uma estação em 1886, o estrago já estava feito. A cidade foi pouco a pouco sendo abandonada e as ruínas substituíram a velha cidade. Porém, é como sempre digo: construções antigas são muito bonitas, e continuam bonitas mesmo em ruínas. E, talvez por isso, muita gente concorda comigo e tenta preservá-las. Não estão, infelizmente, tendo grande sucesso, como se pode ver pela carta de um lutador, o Clarindo, enviada para a Diretora Geral do INEPAC, que equivale ao CONDEPHAAT em São Paulo:

"Servimo-nos da presente para comunicar V. S. a respeito de alguns fatos que estão ocorrendo no sítio histórico denominado “Iguaçu Velha” (antiga Vila de Iguassu), tombado pelo Estado. Recentemente, um pesquisador do nosso grupo esteve em visita ao local mencionado e presenciou a movimentação de uma retro-escavadeira trabalhando junto à torre sineira da antiga Igreja de N. S. da Piedade de Iguassu. Ao que parece, o proprietário (invasor) de um pequeno “sítio” estaria ampliando sua propriedade para bem perto da referida torre sineira. É importante lembrar que esse mesmo proprietário (invasor) se instalou por ali há algum tempo e já havia ampliado os limites de suas terras, o que já é considerado ato ilegal, uma vez que aquele sítio histórico é tombado e, moralmente, o seu verdadeiro proprietário deveria ser a Cúria Diocesana de Nova Iguaçu ou o Poder Público Municipal. Assim sendo, muito respeitosamente, solicitamos os préstimos desse conceituado instituto no sentido de vistoriar o sítio histórico de Iguaçu Velha (antiga Vila de Iguassu) e interceder junto à Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu para que tome as providências cabíveis ante à ameaça de por em risco a integridade física de tão importante bem cultural iguaçuano."

O fato citado por Clarindo é um apenas dos que acontecem em um local como Iguaçu. Outro frequentador e filho de ex-morador cita:

"Estive em Iguaçu Velho em 09/2010, visitando a fazenda e o túmulo de papai, no cemitério dos escravos, e o estado de tudo aquilo me deixou muito abalado. A gente que conheceu aquela área no passado, sofre com o abandono e a depredação de tão rico acervo histórico. Meu coração se constrange diante desse descaso, e até agradeço (por absurdo que possa parecer) que o velho Waldick não esteja mais vivo para sofrer, vendo que aquilo por que tanto lutou encontra-se nesse estado."

Embora este tipo de fato seja corriqueiro em nosso País, ele não deixa de ser grave e ameaçador. Os órgãos oficiais de preservação não tomam conhecimento nem se preocupam da forma que deviam em manter todos esses bens de forma adequada. Iguaçu velha é somente uma entre muitas cidades e vilas abandonadas sem que devessem sê-lo.

Infelizmente, é sabido que a maioria da população brasileira pouco se importa (e, dentro desse universo, existe gente que prefere que tudo isso vire pó, pois não passariam de "velharias inúteis") e em alguns casos ainda faz questão de desturie o que pode, com pichações, movimentos de terras, depredações, etc. Alguns alegam até que "não conheci o local antes, por que vou me importar com ele"?

É, realmente, nenhum de nós estávamos vivos quando Iguaçu era sede de município, ou quando Cabral descobriu o Brasil, ou quando São Vicente foi fundada por Martim Afonso de Souza, ou quando Mauá inaugurou a primeira ferrovia do Brasil com o Imperador Pedro II ao seu lado. Não devemos, então, conservar nada? Não devemos ter memória? E o INEPAC, não deveria fazer o que dele se espera?

O INEPAC não deve ter todos os recursos que desejaria e também, provavelmente, está, como outros órgãos governamentais estaduais, municipais e federais, cheio de gente não preparada para o serviço. Esses que não estão prejudicam demais os que estão, e por aí vai, fora o fato de estarem subordinados a mudanças políticas de última hora. Afinal, todos sabemos, cultura no Brasil é prioridade Z. Nem A, nem B. É Z, mesmo.

Outro fato é que vilas desse tipo, expostas a céu aberto e às intempéries, necessitariam de conservação constante. Isoladas dos núcleos urbanos, como as estações ferroviárias no meio do nada que tantas existem pelo Brasil, não têm pessoas próximas a elas para delas cuidarem. Isto é um problema, mesmo. Se as comunidades que moram próximas não se importam, quem se importará? Quem vive longe vive por inúmeros motivos. Talvez até quisessem estar por ali sempre para tomar conta. Se não o fazem, é porque ninguém é mágico. Tudo custa dinheiro. Milionários não vão doar parte de sua renda para salvar algo com que, ao contrário de países europeus, ninguém vai se importar. Triste.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O FIM DA ESTAÇÃO DE BOTUCATU?

Foto André Godinho

A noticia foi-me enviada na última sexta-feira. Nossa cuidadosa concessionária ALL mais uma vez danifica uma estação. Desta vez, foi-se a cobertura da gare de embarque de Botucatu (bom, de embarque, não, pois faz pelo menos 13 anos que ninguém - ou nada - embarca lá!).

É lamentável que isso continue ocorrendo. Já aconteceu em Campinas, há cerca de 5 anos. Não foi a ALL naquela vez. Mas isto não poderia deixar de fazer parte do currículo de nossa cuidadosa concessionária, numa época em que não se treina ninguém - muito menos maquinistas.

Transcrevo a notícia, do Do G1 Bauru e Marília:

"Composição de trem derruba teto de estação ferroviária em Botucatu, SP
Ninguém se feriu.
Os vagões estavam carregados de trilhos e dormentes.

Uma composição de trem com oito vagões atingiu dois pilares da antiga estação ferroviária de Botucatu, interior de São Paulo (nota deste blogueiro: da estação, não, da cobertura de ferro, datada dos anos 1930). O acidente aconteceu na tarde desta quinta-feira (23). Os vagões estavam carregados com trilhos e dormentes que seriam usados para o reparo da ferrovia. O trem vinha Bauru e seguia rumo a Mairinque.

Alguns pedaços de ferro cortados foram colocados nas laterais dos vagões como proteção, mas não suportaram o peso e ficaram pendurados. Ao chegar na estação, os pedaços colidiram com os pilares, um deles foi arrancado e o outro entortou. Ninguém se feriu.

Há poucos dias, o prédio da antiga estação foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado (Condephaat). As obras referentes à revitalização irão custar R$ 600 mil e pretendem recuperar a cúpula, o antigo bar e estruturas de madeira.

A Prefeitura de Botucatu irá cobrar os danos causados pelo acidente à América Latina Logística (ALL). Em nota, a ALL informou que foi aberta uma sindicância para apurar o que aconteceu."

Para a prefeitura de Botucatu, foi como sopa no mel: há treze anos que a estação está abandonada e os prefeitos não fizeram coisa alguma, agora podem cobrar uma recuperação da ALL. Duro vai ser fazer o pessoal pagar. Se o CONDEPHAAT não cobrar esse conserto com firmeza, a estação vai acabar se deteriorando mais rápido ainda.

Mais um pedaço da memória de São Paulo está ameaçada de se esvair. Para o pessoal que não se importa (a maioria) e para os que acham que aquilo é uma velharia inútil (que não são poucos), o que ocorreu deve ser motivo de alegria.

Porém, para quem se importa com a memória e as tradições, dois dos fatores mais importantes para a formação de um povo e de sua nacionalidade, a destruição de mais um bem é um fato desgastante.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

COMO AS PREFEITURAS CUIDAM DE SEU PATRIMÔNIO HISTÓRICO NESTE PAÍS


Bem, as notícias recebidas hoje não são nada boas. Servem, no entanto, para mostrar como as prefeituras brasileiras cuidam de seus bens históricos. São três exemplos. Dirão os leitores: "ah, mas são mais de cinco mil e quinhentas prefeituras no Brasil, então, mostrar somente três casos e três municípios diferentes não prova nada". Bem, isto vai da opinião de cada um . Para mim, por tudo que tenho visto por aí em anos e anos de pesquisas, a situação é grave.

Gazeta Regional - Passos, MG

O primeiro caso: Passos, Minas Gerais. Sua foto, recente, está acima, recebi hoje. Há quase quatro anos, eu e minha esposa estivemos nessa simpática cidade, não muito distante da fronteira paulista/mineira e até 20 anos atrás ponta de linha do ramal que levava o nome da cidade. A estação havia sido construída no início dos anos 1920 pela Mogiana. Com a eliminação do ramal nos anos 1980, os trilhos foram retirados da cidade e a estação tomou outros rumos. Primeiro, o prédio foi abandonado; depois, foi restaurado pela prefeitura. Em 2006, era a sede do centro de memória da cidade. Visitamo-lo e lá encontramos pessoal trabalhando e que nos recebeu muito bem.

Bem, hoje chegou a notícia de que a construção (muito bonita, por sinal: quem quiser ler mais sobre sua arquitetura, clique aqui) está de novo abandonada. Ora, que diabos! Para que restaurar, gastar uma "grana preta", para depois largar tudo à própria sorte? Terá sido vingança política? Ou o tradicional sistema de administração "cultura prioridade zero"?

Cedoc/RAC/Agência Anhanguera

Soube hoje que o tradicional bonde do Taquaral (foto acima), na cidade de Campinas, está quebrado há um ano e meio. A Prefeitura não o consertou até hoje. Essa linha de bondes circunda o parque do Taquaral há décadas e é a última remanescente das linhas de bondes que existiram na cidade até cerca de 1966. Esta linha foi colocada nesse parque depois da extinção das outras, com o bonde que sobrou. Tem uma grande procura e é conhecida internacionalmente. Pois aí está, largada às traças, porque a Prefeitura não o conserta. Típico.


Finalmente, para completar as más notícias, o palacete Saraceni (ou Sarraceni), último bem histórico decente da provinciana, suburbana e cidade-dormitório de Guarulhos, Grande São Paulo, foi demolido às três horas da manhã de hoje. Tratores invadiram o local e puseram abaixo a simpática e histórica casa, transformando-a num monte de entulho (foto acima e no topo da página). Quem tirou estas fotografias foi ameaçado por seguranças do local, mesmo tendo-as tomado de área pública - a calçada (a casa estava no terreno do shopping center de Guarulhos).

Quem a demoliu teve o aval da prefeitura, que, como sabemos (postagem de 21 de outubro último) havia destombado o prédio (de novo: !!!!) depois de um parecer do arquiteto Faggin, conselheiro do CONDEPHAAT. Neste parecer, este senhor afirma, entre outras alegações, que "...nada justifica a permanência desta obra. Podemos passar sem ela na perspectiva de que ela será sucedida por usos mais contemporâneos e o que se espera, projetos arquitetônico e urbanísticos mais expressivos...".

Quem a demoliu fê-lo na calada da noite, às três horas da manhã, por... medo? Bem, como o proprietário é o shopping center de Guarulhos, foi ele; e a ele, posso dizer que jamais pisarei nesse território cujos donos ignoram a memória de uma cidade que já não tem mais seu passado. Claro, quem sou eu? Estes senhores pouco se importarão com minha decisão. Eu, pelo menos, jamais deixarei um centavo em suas caixas registradoras. Aliás, não gastarei mais um centavo em qualquer estabelecimento comercial nessa cidade.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

DE PINHEIROS A RIBEIRÃO PIRES DE TREM

O "quiosque" de Ribeirão Pires em construção (hoje, vi-o quase pronto) e, atrás, a bela passarela e a velha estação (só dá para ver uma pontinha dela, à esquerda da foto). O quiosque está na frente da visão de quem olha da rua do Comercio. Foto Arnaldo Boaventura há alguns dias.

Bom, hoje à tarde fui de Pinheiros a Ribeirão Pires de trem, ou seja, Metrô + CPTM. Linha 4 tomada na estação Faria Lima (que fica no cruzamento da rua Teodoro Sampaio com a rua dos Pinheiros), a seguir desci na estação Paulista, fui a pé (com auxílio da esteira rolante) por baixo da terra até a estação Consolação, onde peguei a linha 2 até a estação Paraíso, dali pela linha 1 até a estação Luz do metrô, desta fui a pé (também por baixo da terra) até a velha estação da Luz, onde tomei o trem da CPTM para a estação de Ribeirão Pires. Tempo gasto: 90 minutos.

Desci em Ribeirão Pires com um fog londrino: a velha garoa que não mais existe na Capital sobrevive ali. Garoa fininha, fria, dia nublado. A viagem para lá de trem foi inédita para mim: pela CPTM, jamais havia ido. A última vez tinha sido em 1980, pela Santos-Jundiaí, então já incorporada pela Rede Ferroviária.

Fiquei reparando nos detalhes: muitos viadutos, pontes sobre córregos, duas travessias sobre o rio Tamanduateí (uma no Pari e outra próxima à avenida das Juntas Provisórias), o metrô da linha 2 passando sobre a linha na estação Tamanduateí - trecho ainda a ser inaugurado - algumas (pouquíssimas) casas velhas da ferrovia ao longo da linha, e, no Ipiranga, postes de ferro já sem fiação mas que mantêm os isoladores brancos de cerâmica.

Durante boa parte do trecho o que mais se vê são armazéns dando fundos para a linha. Todos antigos, muitos abandonados. Nenhum deles com desvios ativos. Aliás, havia desvios sendo retirados na região entre as estações de Santo André e de Capuava. Aparência de zona rural mesmo, só um trecho curto próximo a Ribeirão Pires.

Na cidade, uma estação bem antiga, mais que centenária e funcionando. Recém tombada pelo CONDEPHAAT, que se vê agora com um problema: a luta de várias entidades da cidade contra obras da Prefeitura que descaracterizam o velho pátio ferroviário. O prefeito teve a cara-de-pau e o mau gosto de construir um prédio térreo, com diversas entradas de lojas (as pessoas o chamam de "quiosques"), entre a estação e a boca da rua do Comércio, a rua mais velha da cidade e pela qual se chegava à estação. Ou seja, quem vem com ela hoje perdeu a visão da estação. Pior: ali deve ser instalado um Habib´s. Para piorar somente mais um pouco, ali existia um jardim público, utilizado para uma construção que deve ser comercial.

Têm ampla razão as entidades em reclamarem. O CONDEPHAAT está sendo chamado a intervir, mas não vai ser fácil consertar o estrago. Fora isso, uma estação rodoviária imensa, também próxima à estação e quase sobre o antigo armazém da ferrovia (que hoje é ocupado pela Guarda Civil), contribui para enfeiar o ambiente.

Ribeirão Pires tem, ainda, uma particularidade: praticamente não tem prédios de apartamentos ou escritórios: a lei dos mananciais proibia essas cosntruções. Ou melhor, proibia - as entidades preservacionistas estão em polvorosa, pois ela acaba de ser abrandada - parece que vai ser possível a construção de prédios de até 8 andares.

Realmente, é muito fácil acabar com uma cidade. O difícil é arrumá-la. Deus salve o Brasil.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

FERROVIAS E TOMBAMENTOS

A bela estação de Caieiras em 2006. Foto Adriano Martins

Hoje, duas notícias sobre estações ferroviárias saíram nos jornais brasileiros.

Uma, na Folha de São Paulo, mostra o tombamento de nove estações ferroviárias da antiga São Paulo-Railway - ou E. F. Santos a Jundiaí, como passou a ser chamada depois da estatização de 1946. Hoje, não tem nome algum.

As estações de Santos, Jundiaí, Várzea Paulista, Franco da Rocha, Caieiras, Perus, Jaraguá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra foram tombadas pelo CONDEPHAAT recentemente. As sete últimas, por pedido aberto por mim em 2006. Na reportagem, onde consta meu nome (incompleto, o Giesbrecht não foi mencionado), apenas cita que eu pedi o tombamento e uma declaração resumida minha, de que "elas representam a expansão da ferrovia pelo Estado e a explosão de crescimento da cidade de São Paulo". Não faz muito sentido: o que eu declarei realmente é que essas estações foram todas construídas ou totalmente reformadas na década de 1890, como consequência do crescimento do tráfego ferroviário no Estado e também pelo crescimento da cidade de São Paulo e da região metropolitana de então, que pedia pelo aumento da capacidade de embarque e de desembarque de passageiros na linha.

O outro jornal foi a Gazeta do Povo, de Curitiba, mostrando o lado ruim das estações paranaenses, muitas abandonadas pela ferrovia e pelo poder público, dando como exemplo a bela estação de Jacarezinho, no norte do Estado. Cita também outras em diversas regiões. Nessa, também fui entrevistado, tendo meu nome registrado juntamente com meu site de estações ferroviárias.

É sempre bom saber que contribuo de alguma forma para a memória da ferrovia no País. Gostaria de contribuir muito mais, mas aí, eu realmente necessitaria ser um ricaço que conservaria as estações, trilhos e material rodante por hobby. Acho que vai demorar um pouco para chegar a isso...

Para completar, mais notícias sobre o trem-bala Rio-SP-Campinas, sempre fazendo comparações do tipo "com esses bilhões seria possível se instalar tantas ferrovias pelo País", ou "poder-se-ia fazer tantos quilômetros de metrô" nas capitais. Sim, sem dúvida é verdade: porém, por que não sermos realistas e admitirmos que, se o TAV não sair do papel, esses "bilhões" de reais não vão ser desviados para outras ferrovias. Isso nunca acontece.

Apesar de discordar de vários amigos e conhecidos, eu acho que o Brasil, sim, precisa desse trem. Chega de depender de empresas de aviões incompetentes. Vamos dar a chance para uma empresa ferroviária ter sua própria incompetência. De repente, ela até acerta...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

BOBAGENS DEMAIS

Futebol, jogo de pobre?

Hoje fui com minha esposa, Ana Maria, para São Paulo de carro. Marginal Pinheiros congestionada, como sempre, e engata o assunto: Ana perguntou quem foi Alexandre Mackenzie, nome de uma avenida que desemboca na Marginal ali no Jaguaré. Respondi: foi diretor da Light no início do século 20. Aí engatei: só não sei quem foi o Kenzie, pois "Mackenzie" é "filho de Kenzie. E tem também o MacChicken, filho da galinha". Ana falou do MacDonald, filho do Pato. Respondi que o Pato Donald não tem filhos, tem sobrinhos. É mais conveniente ele ter sobrinhos, pois assim pode ter uma namorada, a Margarida. "História mal contada".

Ana respondeu que ele podia ser viúvo, mas eu retruquei que não, isso daria margem a suspeitas, ele poderia ser acusado de ter matado a esposa. Ana começou a dizer que era muita bobagem. O trânsito, porém, parou de novo, e eu lhe disse que li que a indústria automobilística está estudando um sensor para que os carros partam todos ao mesmo tempo quando os carros começam a andar num semáforo. Isso economiza tempo. Ana falou que isso não daria certo, pois basta um sensor falhar que imediatamente causaria um acidente enorme, com os carros entrando uns atrás dos outros. E que uma Brasilinha velha não poderia ter sensor, como faria?

Eu disse que poderia ser um aparelhinho que se poria em qualquer carro, mas ela disse que e se o cara vem do interior e não puser, nem souber que isso existe? Não ia dar certo. Demos muitas risadas e o tempo foi passando. Bobagens se falam para distrair.

Melhor do que falar bobagens pensando estar sério, como, por exemplo, o prefeito de Ribeirão Pires, que, querendo derrubar a estação ferroviária para fazer um terminal de ônibus, disse, fulo da vida, ao CONDEPHAAT: "Se Santo André e Mauá tinham estações iguais e derrubaram, por que eu não posso derrubar a minha, que é igual à deles?"

É muito para minha cabeça. A estação foi tombada anteontem e ele não vai poder derrubá-la, graças a Deus às vezes a história vence a ignorância. Mais besteira estão falando os americanos republicanos, políticos e não-políticos, que dizem que os Estados Unidos não podem gostar de futebol, é um jogo besta, jogo de pobres, coisa de democratas socialistas. Incrível. No país da ampla liberdade, segundo eles, você não pode gostar de futebol - não pode!

E os Estados Unidos, hoje à tarde, classificaram-se para as oitavas-de-final da Copa do Mundo. E agora? A republiqueta de bananas deles vai sabotá-los? Se não são, estão parecendo ser.

Meu Deus, como se fala besteira, e nem se precisa de um congestionamento na Marginal para isso. Há exemplos demais, não dá para escrever em uma postagem, teriam de ser pelo ano inteiro. Para finalizar, lembram-se dos prefeitos de Sorocaba e de São Roque, que, há menos de um mês, cismaram que não querem ter trens de passageiros de volta, pois a cidade deles iria se transformar em cidades-dormitório? Pois é, eles já podem concorrer depois a um cargo em Ribeirão Pires ou até nos Estados Unidos. Desde que não gostem de futebol.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

PRESERVAR TUDO???

O que sobrou preservado em Ibitiúva: alguém guardou a placa de concreto da plataforma, pintou de amarelo e preto e colocou no jardim público (Foto Aureliano Justo em 2007).

Na minha postagem de anteontem, Preservação – quem quer, afinal?, não fui nada claro no que quis dizer com preservação, pelo menos naqueles casos citados. Tanto que um leitor, em um dos comentários, afirmou, com toda a razão, que “devemos preservar a memória ferroviária, mas de maneira seletiva. Afinal, nem tudo o que temos por aí é passível de ser preservado, nem mesmo justifica-se preservar tudo sob pena de não avançarmos.As estações em geral valem preservar quando representam marcos arquitetônicos, ou então quando o local virou parte importante da história”.

Se considerarmos, por exemplo, preservação como tombamento, existem três graus: o federal (IPHAN), o estadual (CONDEPHAAT) e o municipal (muitos municípios, nem todos, têm seu próprio conselho). Os motivos para o tombamento de qualquer coisa (inclusive imaterial) variam dependendo do grau. Por exemplo, a estação de Ibitiúva deveria ter sido tombada em nível municipal, a meu modo de ver, pelo fato de ela ter gerado aquele povoado, hoje um distrito do município de Pitangueiras – apesar de a estação original, da qual jamais consegui uma foto, ter sido derrubada quando da construção da mais recente, por volta de 1928 (a data não é fixa, pois a troca se deu quando a Companhia Paulista comprou a E. F. São Paulo-Goiaz e refez a via férrea entre as estações de Passagem e de Bebedouro, situação que começou em 1926 com a compra e terminou em 1930, com a abertura do trecho de linha já com bitola larga).

Entretanto, é fato que a estação de Ibitiúva tem ao menos uma outra estação de mesma tipologia, e construída na mesma época: Passagem, ali perto e também em Pitangueiras. Isto significa que, se o Estado tencionasse tombar estações de diferentes tipologias, agiria mais certamente tombando apenas uma delas (o que não significa que necessariamente a outra deva ser abandonada). A nível federal, o único motivo a meu ver para se tombar uma estação como Ibitiúva seria o fato de ali ser algum local histórico por alguma razão e a nível nacional – ou se fosse ela a única estação da Companhia Paulista a ser tombada no Estado de São Paulo, o que seria um tanto , digamos, inesperado.

A meu ver, esse exemplo se estende às ferrovias em geral, e no caso dessa estação, seu tombamento seria justificado a nível municipal, apenas. Discussão já um tanto estranha, visto que o imóvel já foi literalmente “tombado” – demolido – há pelo menos oito anos.

Preservação, para mim, não significa necessariamente um tombamento oficial – seria um absurdo, realmente, tombar as aproximadamente 800 estações ferroviárias do Estado simplesmente por serem elas estações. E então, como justificar o não tombamento de outros imóveis ferroviários, como armazéns, depósitos, casas de turma, casas do agente da estação, casa do telegrafista, o leito da ferrovia, enfim, todo o patrimônio ferroviário do Estado ou brasileiro, nesse caso? Realmente, não faz sentido.

Acho, sim, que cada um deve lutar pela preservação do patrimônio mais significativo de cada cidade deste País e isso não significa tombamentos em massa a partir de agora, mas sim, educar o povo para se importar um pouco mais – no caso, acho que muito mais – com a nossa história.

Há alguns (poucos) exemplos de preservação de fachadas de casas antigas, com um trabalho de arte significativo que as torna bonitas, em conjunto com a construção que se faz por trás delas. Há a conservação de casas sem interferência do poder estatal, simplesmente porque alguém cuida delas. Enfim, como já citei em uma postagem mais antiga, trata-se do Instituto de Preservação do Povo – ou “Caboclo”, com a nossa população pelo menos um pouco mais instruída a conservar o que é antigo, histórico, representativo e belo. Claro que cada um desses adjetivos (com exceção do “antigo”) é discutível. Mas que cada um defende o que pensa, sem pensar somente em derrubar algo para construir um edifício de apartamentos em cima ou transformar o terreno em estacionamento, ou derrubar algo somente porque, abandonado, enche de vagabundos. Ou seja, pensar um pouco menos em dinheiro e ser um pouquinho mais idealista.

Afinal, quem preserva a história ajuda a construir uma nação.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

MEMÓRIA DESAPARECE À FORÇA

Palacete Lotaif, demolido em 1982 (Foto Irmo Celso, revista Veja, 30/6/1982) na avenida Paulista, na esquina com a alameda Joaquim Eugenio de Lima

É sabido que diversas construções, principalmente casas, são colocadas abaixo e o terreno vendido ou transformado em estacionamento não somente porque vale muito, mas também porque alguns proprietários não têm dinheiro para arcar com as despesas de manutenção e/ou de impostos altos do imóvel. O tombamento de um bem pelo IPHAN, CONDEPHAAT ou pelo município, isso em São Paulo – sempre lembrando que existem outros órgãos da União – não leva necessariamente à sua preservação.

Vemos em São Paulo diversos casos, como a casa do Itaim-Bibi, cujas ruínas estão tombadas (neste caso as ruínas são praticamente somente as fundações) e uma capela no Barro Branco, tombada, mas posta abaixo mesmo assim há alguns anos. O tombamento de um imóvel deveria no mínimo prover incentivos de impostos e para manutenção do imóvel para que este possa ser conservado de uma forma mínima que seja. Diversos imóveis tombados estão se deteriorando pelo Brasil afora.

Lembro-me das demolições da avenida Paulista, nos anos 1980, que eram feitas durante a noite, para impedir protestos da população. Os donos não queriam continuar arcando com impostos altíssimos e ainda por cima com construtoras acenando com quantias “indecentes” para comprar o terreno e nele levantar mais um edifício com “n” andares. Quem pode condenar um proprietário de deixar de lucrar com um imóvel mesmo que o valor sentimental dele seja grande para os donos?

Uma das soluções seria que a Prefeitura transferisse para os proprietários de imóveis tombados terrenos em outras regiões que tivessem a mesma valia. Não é fácil, mas já houve casos onde o acordo aconteceu. Outra forma seria permitir a demolição de imóveis que não fossem considerados de valor arquitetônico (um caso simplesmente de opinião, pois mesmo arquitetos discordam entre si), mas com a ordem de serem mantidas algumas partes, como a fachada ou outras partes (como foi feita no caso da casa das caldeiras e a chaminé da Matarazzo) ou mesmo o imóvel inteiro, liberando o amplo terreno atrás dele – quando isto for possível, é claro. Não é solução ideal, mas algo se preserva.

Há meses, postei neste blog uma história que poucos sabem, sobre a “chácara da Vila Mariana”, que foi desmanchada em suas construções do grande jardim que tinha uma miniatura de castelo, uma piscina, fontes, pontes e outros artefatos em pedra e cimento. Disse que isso ocorrera nos anos 1970. Não foi. Foi no início dos anos 1990. Também fiquei sabendo que o jardim foi obra de um arquiteto italiano no início do século e que o local originalmente foi chamado de Chácara Flora – nada a ver com o bairro de Santo Amaro. E fiquei sabendo também da triste notícia: como a casa que dava frente para a rua Domingos de Moraes foi vendida sem os jardins, para a construção de um conjunto de prédios no final dos anos 1960, estes ficaram ali, sendo cuidados por pessoas da família que moravam em casas atrás dele. A Prefeita Luiza Erundina, num relance de total desconhecimento das consequências que isso traria (ou de pouco se importar), taxou o imenso terreno como se fosse um terreno baldio, triplicando o valor de seu imposto territorial. Resultado: a família vendeu-o para uma construtora. Esta derrubou tudo e construiu edifícios de apartamentos.

A memória dum lugar único em São Paulo se foi, em nome da impermeabilização do solo, do adensamento populacional, tudo de ruim, enfim. Mais uma das tristes histórias de uma cidade que está se tornando inviável.