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terça-feira, 31 de outubro de 2017

1924: A VILLA KOSTKA NA VILLA MARIANA


Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 29/6/1924

Eu sempre fui muito ligado à Vila Mariana, onde moravam minha avó e mais um bocado de parentes. Nos anos 1950 e 1960, eu ia pelo menos uma vez por semana à casa de vovó ou da tia Angélica com meus pais. Por algumas vezes, passava a semana no meio das férias na casa de vó Maria. Bastava subir a rua Capitão Cavalcanti a pé, para o lado da Domingos de Moraes, que já achava por ali um verdadeiro shopping center de lojas, andando pela calçada.

Perigoso para uma criança? Não naquela época. Ao contrário do bairro do Sumaré, onde eu morava, que de perigoso também não tinha nada, onde eu precisava andar muito para chegar de casa até achar alguma loja, banca de jornais ou padaria, e só lá pelas bandas da Cardoso de Almeida, depois das ruas Professor João Arruda, Wanderley e Caiuby.

Voltando à tranquilidade da Vila Mariana, existia, um pouco mais longe da casa de vovó, mas muito próximo à casa de tia Angélica, o largo Ana Rosa, que tinha era maior do que é hoje, visto que o alargamento da rua Vergueiro, por volta de 1970, tirou-lhe pelo menos um terço do tamanho e fez desaparecer a fonte luminosa que ali existia.

Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 18/10/1924


Na esquina da Domingos de Moraes com a avenida Conselheiro Rodrigues Alves existia ali, tanto numa rua como na outra, uma série de pequenas construções, que serviam de residências ou lojas. Hoje, no mesmo local, não existe qualquer residência, mas lojas e bancos em imóveis que não devem ser os originais, ou, então, em prédios bastante reformados.

Em 1924, e sabe-se lá desde quando, existia nessa esquina um enorme terreno que seguia até a atual rua Fabrício Vampré, com uma construção bastante grande, que havia servido a um seminário da Sociedade Brasileira de Educação. O terreno e o imóvel pode ser visto no desenho acima, publicado nos jornais em 29 de junho desse ano. Jamais vi alguma fotografia desse edifício. O local era chamado de Villa Kotska, cujo nome homenageava o Santo Estanislau Kostka, um polonês que viveu no século XVI. (Nota: existe hoje uma Villa Kotska em Itaici, Indaiatuba, SP, mas que, segundo a história por eles contada, não tem nada a ver com a vila do mesmo nome que existiu na Vila Mariana até 1924).

Anúncio do jornal O Estado de S. Paulo - 16/1/1925


Os donos tentaram vender o imóvel para outros usos. Porém, não devem ter dado sorte, pois, em 18 de outubro do mesmo ano, já estavam vendendo um loteamento no terreno, chamado de Villa das Jaboticabeiras. Pelo que se viu nos mapas deste loteamento, eram 47 lotes. Em janeiro de 1925, restavam apenas 19 a serem vendidos.

O bairro nos dias de hoje - Google Maps


No anúncio, há indícios que no local onde surgiu a atual rua Fabricio Vampré existia outra chácara, das Jabuticabeiras, que deu nome ao loteamento. Prometia-se que por todo o bairro havia jabuticabeiras. Estarão estas árvores ainda lá?

Vejam também que a imobiliária FV foi a responsável pelas vendas dos lotes. Seria também ela a dona do imóvel original, ou do da chácara das Jabuticabeiras, já que a rua principal recebeu depois esse nome - Fabrício Vampré?

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SEGUIR OS TRILHOS, O CAMINHO DAS CARROÇAS OU O VELHO BONDE?

Bonde na rua Domingos de Moraes.

Hoje, como já fiz diversas vezes, fui ao bairro da Saúde de metrô. Para quem não sabe, esse bairro fica para lá da Vila Mariana, no sentido de quem vai para o Jabaquara. Aliás, a avenida se chama Jabaquara naquele ponto.

Quando tomei o metrô ao lado do largo de Pinheiros, segui a linha 4 até a estação Paulista. Dali, fui pelo túne subterrâneo a pé para tomar o metrô da linha 2 para a estação Saúde. Quando já estava dentro do carro, tendo saído da estação de embarque, lembrei-me do que já estava cansado de saber, mas que, na minha mente, se confundia. Eu teria de mudar de novo de carro na estação Paraíso, para tomar a linha 1, no sentido Jabaquara. Esta é a linha norte-sul. Se eu permanecesse na linha 2, iria sair no Ipiranga, Sacomã, Vila Prudente, muito longe do meu objetivo.

É certo que ando meio distraído, mas neste caso, a distração tem uma explicação, por mais incongruente que possa parecer a alguns leitores.

Eu nasci no Sumaré, nos anos 1950. Morei lá até 1974. Como sempre ia à casa de minha avó, na Vila Mariana, eu o fazia ou de carro com meus pais, ou de bonde (até 1966), ou de ônibus (o antigo 55, que tomava na Doutor Arnaldo e que me deixava na esquina da rua Domingos de Moraes com a rua Capitão Cavalcanti).

Eu acompanhava o fluxo de trânsito dos automóveis, mas também a linha de bonde, que seguia, ininterrupta, desde a Doutor Arnaldo até a Domingos de Moraes, continuando depois da minha descida do bonde ou do ônibus rumo ao Jabaquara. Eu gostava de bondes. Ainda gosto, e muito... pena que eles foram extirpados da face da Terra... não, das ruas de São Paulo mesmo. Na Terra, eles ainda existem e não são poucos. Já no Brasil...

Porém, para um paulistano mais velho do que eu, ou melhor, muito mais velho, a ponto de ter vivido no século XIX e morrido, por exemplo, no século XX, lá por 1920, este percurso não seria tão lógico quanto me parece hoje.
Estação Saúde do Metrô (Wikipedia)
Embora a parte mais alta da hoje enorme área urbana seja realmente o espigão da avenida Paulista, que vem desde o Alto do Sumaré, no eixo da avenida Doutor Arnaldo, seguindo pelo eixo das avenidas Paulista, Bernardino de Campos, rua Domingos de Moraes e avenida Jabaquara até a Igreja de São Judas,para um paulistano do século XIX, esse espigão ficava fora da cidade. O centro da cidade era então bem definido na Praça da Sé, que tinha, como hoje, a praça João Mendes junto a ela. Dali saía a rua da Liberdade, que subia lentamente no sentido da Estrada do Vergueiro, continuando a pelo leve aclive até a rua do Paraíso.

Ali, a estrada do Vergueiro seguia para o lado do vale do rio Ipiranga, não sem antes jogar seu "trânsito" (entre aspas porque, nessa época, mesmo as carroças e cavalos eram poucos por ali) para um caminho que se bifurcava nesse ponto e que em 1896 viria a ser chamado de rua Domingos de Moraes. No século XIX, no entanto, essa rua se chamava Caminho do Carro para Santo Amaro e seguia pelo topo do espigão (como hoje) até onde hoje é a rua Luiz Goes, desviando nesse ponto para a direita e descendo o vale do córrego Paraguai, na atual avenida Senador Casemiro da Rocha até Santo Amaro, passando por um caminho hoje meio indefinido no meio do atual Planalto Paulista e do aeroporto de Congonhas.

Por causa dessa saída para a direita, em algum momento, construiu-se a atual avenida Jabaquara, que hoje é a continuação natural do fluxo de tráfego da Domingos e era também a continuação da linha do bonde, no início, para Santo Amaro (por outro trajeto), depois, para o córrego Jabaquara, que é o outro nome do Córrego das Águas Espraiadas. Ali, no alto do espigão da avenida, fica a Saúde e a estação Saúde do metrõ,,, e no final do século XX também tinha a estação da Saúde, que, no entanto, ficava bem antes do atual bairro e da atual estação, ou seja, na altura da rua Santa Cruz.

Para sedimentar mais ainda o raciocínio que o eixo do Caminho do Carro, seguido pela avenida Jabaquara, era o caminho principal para o sul da cidade, vale ressaltar que o Tramway de Santo Amaro, de Alberto Kuhlmann (depois comprado e miodificado pela Light em 1900) também seguiu esse trajeto: saía da rua São Joaquim (onde acabava, e ainda acaba, a rua da Liberdade e começava a Vergueiro), prosseguia pelo eixo do espigão sem dobrar no vale do Paraguai, seguindo pela Jabaquara até próximo ao aeroporto de Congonhas, dali seguindo para o largo Treze de Maio, em Santo Amaro, por dentro dos bairros atuais de Campo Belo, Brooklyn e Alto da Boa Vista.

Notar que hoje em dia a Liberdade e a rua Vergueiro são vias decadentes. Já o Sumaré e a avenida Paulista estão na área mais rica da cidade, ou seja, a Zona Oeste.

Portanto, voltando para a minha "lógica" de pensamento, a linha do atual metrô deveria seguir sempre pelo espigão da Paulista. Para o paulistano mais antigo, pela linha Liberdade-Vergueiro até encontrar esse espigão no bairro do Paraíso. Só que, no século XIX, os bairros do Sumaré e a avenida Paulista eram somente mata atlântica.

Confuso? Sim, para quem conhece pouco São Paulo, certamente o será. Mas, para quem gosta do assunto, algo a pensar. Enfim, duas diferentes linhas do metrô fazem todo o trajeto do espigão da Paulista, e não uma só. A troca de linhas se dá na Vila Mariana, ou na estação Paraíso, ou na Ana Rosa. Você escolhe.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

SÃO PAULO - A BELEZA E A FEIURA - 1927-2014

1927 - Acervo Ubirajara Martins
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Esta postagem é bem curta e mostra o que aos poucos vai acontecendo cada vez mais na cidade de São Paulo: a troca da beleza pela feiura.

Basta ver a foto no topo da página e comparar com a que está logo abaixo.
2014 - Google maps
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Local: Rua Domingos de Moraes, esquina com avenida Lins de Vasconcelos. A foto mais antiga é de 1927. A recente, do Google Maps, extraída há poucos minutos.

Em tempo, na foto mais antiga, o nome da travessa da Domingos de Moraes não era o atual, mas rua São Jorge. E não era pavimentada.

sábado, 20 de setembro de 2014

UM DESASTRE NA RUA RIO GRANDE, SP (1966)


Uma batida entre dois carros no cruzamento entre as ruas Joaquim Távora e Rio Grande, na Vila Mariana paulistana, teve uma fotografia publicada na Folha de S. Paulo da edição de 21/11/1966.

Fui tentar identificar o local no Google Maps (não é preguiça, é que moro longe da Vila Mariana, mesmo).

Aparentemente achei. Os carros batidos estão na rua rio Grande, em frente a sobrados que ainda existem. Um deles tem o número 234. Trata-se do quarteirão que fica entre a Joaquim Távora e a França Pinto. A casa mais da esquerda faz esquina com a rua Joaquim Távora (notem que há duas fachadas, uma, maior, para a Rio Grande, e outra a 45 graus com o cruzamento).

(Um pequeno histórico: a rua Joaquim Távora chamava-se rua Doutor Fontes em 1924. O nome em 1930 já era Joaquim Távora. A França Pinto, paralela a ela, era a rua que desde pelo menos o século XIX ligava a Vila Mariana com a estrada de Santo Amaro, atual avenida do mesmo nome, seguindo pelas atuais IV Centenário e Afonso Braz. Não é a toa que existe um marco de légua de pedra no início da França Pinto, junto à Domingos de Moraes)

Em 1930, de acordo com o Sara Brasil (visto logo aqui acima), o local dessas casas, se confiarmos na fidelidade desse famoso mapa, apresentava na esquina uma casa mais longa e depois, terrenos vazios. Portanto, a conclusão a que chego é que os sobrados que aparecem nas fotos de 1966 e de hoje foram construídos após 1930 e a casa de esquina que existia foi demolida.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A ERA DE OURO DOS CINEMAS EM SÃO PAULO

O primeiro dia do Cine Cruzeiro, na Vila Mariana - 28 de julho de 1943

Nos primeiros anos da década de 1940, em plena Guerra Mundial, diversos cinemas foram inaugurados em São Paulo. Cinemas "de rua", que hoje praticamente não existem mais. 90% ou mais dos cinemas estão hoje confinados dentro de shopping centers.

Vejamos o ano de 1943, em reportagens ou fotos de qualidade ruinzinha tomadas nos arquivos do jornal Folha da Manhã (hoje Folha de S. Paulo). Todos os que estão mostrados nesta postagem foram inaugurados nesse ano.

Para mim, o mais representativo foi o Cine Cruzeiro. Localizado na rua Domingos de Moraes, em frente ao Largo Ana Rosa, seu prédio ainda existe e hoje é totalmente ocupado por uma loja dos supermercados Pão de Açúcar. Eu jamais assisti a um filme nesse cinema, mas era um marco de "onde eu estava", na minha infância. Quando meus pais iam de carro para a casa de minha avó na Vila Mariana pela avenida Paulista, a passagem pelo Cruzeiro queria dizer que estávamos muito perto do destino.
O anúncio da inauguração do Cine Cruzeiro

No final dos anos 1960, no entanto, ele já era considerado um "pulgueiro". Deve ter fechado nos anos 1980, não sei bem. Havia um pulgueiro pior, mas era mais antigo: o Phenix, na esquina da Joaquim Távora com a Domingos de Moraes, prédio que não existe mais.

Outros cinemas inaugurados nesse ano foram: o Cine Piratininga, no Braz...
Abertura do Cine Piratininga

...o cine Ipiranga, na (já) avenida do mesmo nome, na cidade - o prédio ainda existe, mas está fechado.
Inauguração do Cine Ipiranga

Na rua Voluntários da Pátria, foi aberto o Cine Hollywood, um prédio que já desapareceu (segundo me disseram)...
Inauguração do Cine Hollywood, em Santana

...e o Cine Carlos Gomes (onde?).
Inauguração do Cine Carlos Gomes... não descobri onde era.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ARQUITETURA INVISÍVEL

A casa atrás das lojas. Ao lado direito, um telhado em quatro águas de outra casa.
Como já escrevi há algum tempo neste blog, o professor Máximo de Moura Santos, amigo de meu avô Sud, possuía um colégio na rua Domingos de Moraes em fins da década de 1920. Quando meu avô estava construindo sua casa na rua Capitão Cavalcânti, a dois quarteirões dali, mudou-se com a família para uma dependência da escola.
O mapa da Sara Brasil de 1930 mostra o quarteirão citado. Todas essas casas já existiam. Ainda parecem existir três delas: da rua França Pinto para o norte, lado par da Domingos de Moraes, a segunda (um armazém já descaracterizado), a terceira (que pode ser vista acima das lojas) e a quarta (apenas se vê o telhado).
O número da casa era 148. Lado par, portanto. Entretanto, a numeração da época não era a métrica - que somente veio a ser implantada em São Paulo em 1938. Então, onde ficava a casa? Tenho uma fotografia dessa casa, tirada por meu avô. O número da casa estava escrito no verso da foto. Quando eu escrevi a biografia dele, perguntei a minha mãe - que havia morado ali e teria seis anos de idade - onde deveria ficar a casa. Ela não se lembrava muito bem. Achava que ficava entre as ruas França Pinto e Araxans (atual Sud Mennucci).

Quase quinze anos depois, descobri que não era ali, mas sim no quarteirão anterior (para quem vem da cidade), o que fica entre as ruas Joaquim Távora e França Pinto. Isto ocorreu porque, por acaso, folheando um velho livro de 1916, consegui identificar boa parte dos locais com numeração antiga da rua Domingos de Moraes. Ali estava escrito que "a rua França Pinto começava junto ao número 161 da rua Domingos de Moraes". Está certo, 161 era ímpar, mas isto implicava que o número 148 seria,então, no quarteirão citado acima.

Para ter um pouco mais de certeza, perguntei à minha mãe se ela se lembrava de onde ficava a casa. Ela disse que da casa ela se lembrava de ver, bem próxima, a caixa d'água da rua Vergueiro. Bingo. O quarteirão devia ser esse mesmo. Seria em que ponto, exatamente? Difícil de dizer. Esse quarteirão, em seu lado par, ostentou o prédio da antiga "fábrica de phosphoros" da Vila Mariana em toda a sua extensão até 1922. Portanto, as casas que ali existissem deveriam ser mais novas do que isso.
A mesma casa, vista de frente. Porém, quem passa na calçada do outro lado da rua dificilmente notará a velha casa. Reparem que à esquerda da loja "Basico", está a entrada lateral para os fundos, onde a casa ainda está - possivelmente alguém mora nela ainda
A mim, parece que o estilo da casa, cuja fotografia reproduzo aqui, condiz com essa afirmação. Da mesma forma, pelo menos uma casa que "descobri" recentemente no mesmo quarteirão, escondida atrás da fachada de três lojas à beira da calçada, parece ser dos anos 1920 ou até 1930. Ao lado, outra casa, da qual somente se vê um telhado de quatro águas, que possivelmente seja da mesma época, também escondida por três lojas.
A casa onde ficava o Colégio Moura Santos, antigo 148 da rua Domingos de Moraes. Na época da foto, era tanto escola quanto moradia de meu avô (final dos anos 1920).
Nenhuma delas parece ser a antiga escola. Ela talvez fosse ao lado direito da última, de quem olha da rua. Ali não há casa antiga. Ela deve ter sido demolida. Quando, não se sabe.
Nela nasceu minha tia Lélia, irmã de minha mãe, quatro meses antes de Sud e sua família se mudarem para a sua nova casa na Capitão Cavalcânti.

Enfim, há muita coisa antiga e bonita escondida em São Paulo, ainda.

domingo, 24 de outubro de 2010

E QUE SE DERRUBEM AS CASAS PAULISTANAS!

Este simpático chalezinho, na época já meio mal cuidado, ainda estava de pé em 1988, quando eu parei meu carro em frente a ele, na rua Domingos de Moraes, e o fotografei. Não muito tempo depois, foi demolido. Em seu lugar, hoje, existe uma agência do banco Bradesco. A foto foi reproduzida hoje no jornal O Estado de S. Paulo.

Neste domingo, o caderno Metrópole do O Estado de S. Paulo publica uma reportagem sobre o que se demole de casas no município de São Paulo e o que isso representa para todos os seus habitantes.

Depois, na página 3, como um complemento a isso, os reporteres Rodrigo Burgarelli e Rodrigo Brancatelli escrevem sobre a Vila Mariana e algumas casas que foram demolidas nas ruas Domingos de Moraes e Vergueiro.

Os exemplos dados - por fotos com o local anterior e o atual - são: na Vergueiro, o Instituto Ana Rosa (onde hoje está o conjunto de prédios do Lar Brasileiro) e duas casas geminadas no número 2024 da mesma rua (demolidas pelo metrô, sobrando somente os terrenos dos fundos, onde foram construídas duas lojinhas).

Na rua Domingos de Moraes, são mostradas a Villa Kyrial (no número 300), a garagem de bondes da Light/CMTC (onde hoje há um muro com o símbolo do metrô, junto à praça Teodoro de Carvalho), a chácara Conceição (em frente à rua dona Júlia), um chalet típico do início do século XX (am frente à antiga garage de bondes) e um quarteirão de casas entre as ruas dona Júlia e Lins de Vasconcellos. Todos esses imóveis foram demolidos e substituídos por ouras construções, com exceção do da garage de bondes.

Em termos de qualidade de vida, de estilo arquitetônico e de história, essas derrubadas - que ocorreram de 1950 a 1990 - foram desastrosas. A mais significativa delas foi a da Chácara Conceição, que teve não somente a casa demolida, mas também seus jardins imensos atrás dela, que ocupavam a área desde os fundos da casa até o córrego do Sapateiro, entre as ruas Sud Mennucci e Capitão Cavalcânti.

Para contar a história dessas construções antigas, o que elas representaram para São Paulo e o que se perdeu com isso, seria necessário mais do que um livro. Mesmo porque uma delas - a Villa Kyrial - já teve dois livros escritos somente sobre ela. Já sobre a Chácara Conceição, já escrevi em pelo menos duas postagens neste blog.

E vamos tocando a vida. Que venham mais edifícios horrorosos de apartamentos, parece que de forma alguma nossos governantes e muito menos as construtoras se importam mais com isso. Enquanto isso, os congestionamentos no trânsito e o excesso de passageiros nas vias férreas aumentam dia a dia.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

REVISTA DO SESC PUBLICA MATÉRIA COM ERROS ABSURDOS

Esta foi a fotografia publicada na reportagem do SESC. Foi tirada da página da rua Domingos de Moraes, esta feita por mim. A fotografia é do acervo de Ubirajara Ribeiro Martinsde Souza e foi digitalizada por Douglas Nascimento. Nenhum dos nomes foi colocado nos créditos da reportagem.

A última revista do SESC mostra na seção "Almanaque Paulistano" a história da Chácara Flora - supostamente, o antigo bairro, hoje murado, que fica em Santo Amaro, no Alto da Boa Vista.

Não posso contestar os números que eles colocam ali, datas, etc. Posso, no entanto, dizer que o ano em que o município de Santo Amaro foi incorporado ao da Capital foi em 1935, não em 1932 (não é muito difícil de se comprovar isso, para quem duvidar do que escrevi).

E posso, também, que a fotografia antiga que eles utilizaram é a da Chácara Conceição, talvez a casa mais bela que o bairro de Vila Mariana já teve, e não a da Chácara Flora. Por que eles devem ter feito essa confusão? Ora, por pesquisarem mal. A fotografia, à direita, mostra o portão da Chácara Flora... de Vila Mariana, na rua Domingos de Morais. Esta nada tinha a ver com o bairro de Santo Amaro; era uma chácara, apenas, vizinha à Chácara Conceição.

Sei disso, pois eu e o Douglas resgatamos as fotos e memórias da Chácara Conceição, no início deste ano, junto aos descendentes de seus moradores entre 1927 e 1991, quando esta foi destruída; a outra chácara, a Flora, já se tinha ido muito tempo antes, nos anos 1950.

Enfim, um desserviço à história paulistana pelas informações (muito) erradas.

sábado, 7 de agosto de 2010

NOMES SEM NADA A VER

Planta do loteamento do Bosque da Saúde em janeiro de 1921, publicado no Diário Popular. Os nomes das ruas referiam-se todos à Guerra do Paraguai. Quase todos, no entanto, mudaram depois.

As denominações de logradouros no Brasil não seguem, realmente, nenhuma regra de coerência. Cidades, ruas, estações ferroviárias, bairros e outras localidades são e foram batizados em um grande número de vezes de forma a não manterem relação nenhuma com fatos, locais ou pessoas com as quais são denominadas. As que menos sofrem com isso parecem ser as cidades, mas, mesmo assim, parecem existir inúmeros casos desse tipo.

Ruas, então, pelamordedeus. Alguns exemplos em São Paulo: alguém sabe que relação o sr. Roberto Marinho tem a ver com a antiga avenida das Águas Espraiadas (que tinha esse nome por causa do córrego que ela acompanha)? Ou os Bandeirantes com a avenida que lhe leva o nome (antiga avenida da Traição, por causa de um fato perdido no tempo de um assassinato às margens do córrego que ela acompanha)?

Ou o Capitão Cavalcanti com a rua que tem seu nome na Vila Mariana - ele era um herói da guerra do Paraguai, mas que não tinha nenhuma relação com o bairro. Especialmente na Vila Mariana, que é um bairro formado no final do século XIX e cujas primeiras ruas levaram o nome de moradores ou dono de chácaras por ali: Carlos Petit, Dona Avelina, Dona Júlia, Dona Ana Rosa. Por outro lado, o próprio nome da rua principal dali, Domingos de Moraes, recebe o nome de um político batataense que talvez jamais tenha passado por ali. O nome original desta rua era Caminho do Carro (para Santo Amaro).

Há, no entanto, diversos bairros que receberam nomes temáticos, ou seja, quando se abriu o loteamento, como eram muitas ruas, decidiu-se dar os nomes baseados em algum fato histórico ou geográfico. O Jardim Europa leva o nome de países da Europa. O Jardim América, da América. O Sumaré, de cidades do Brasil. A antiga Vila América, de cidades do Estado (Santos, Jaú, Itu... embora a Iguape tenha virado Oscar Freire no final dos anos 1920... por que?). Em Moema, as ruas têm nomes de pássaros a oeste e de índios a leste da avenida Ibirapuera, mas nos anos 1980 uma delas recebeu o nome de um ministro (Gabriel de Rezende Passos). Mesmo que ele tivesse terras ali ou houvesse ali morado, mudar o esquema e a sintonia dos nomes temáticos por que motivo?

Em estações ferroviárias brasileiras, o nome de funcionários das companhias em que trabalhavam foram dados a inúmeras estações, sendo que muitos deles a pontos que não tinham relação alguma com as pessoas. Pessoas falecidas em acidentes na ferrovia foram homenageadas às vezes a 500 km dali. Muitos - não todos - os nomes - substituíam nomes antigos e tradicionais. Por que? O que ganham as pessoas com isso? A recente briga pelo nome do túnel da avenida Nove de Julho pelo nome de um médico mostra bem isso. Ou das pontes das Marginais. Em ambos os casos agora elas têm dois nomes. Para que, meu Deus?

São muitos os exemplos. Inúmeros, para dizer a verdade. Não se entende por que os políticos brasileiros insistem em alterar nomes de logradouros ou mesmo de darem nomes sem relação com os locais. Está mais do que na hora de parar com isso - e, se fosse mesmo viável, retroagir muitos dos nomes atuais aos antigos. Mas é, realmente, sonhar acordado.

segunda-feira, 22 de março de 2010

DO ALTO DESTA ESQUINA, 38 ANOS NOS SEPARAM

No centro da fotografia acima, em branco e preto, a foto que tirei há quase 38 anos. Na foto colorida, o mesmo local (rua Botucatu com Sena Madureira) na semana passada, em foto de Valéria Rodrigues (O Estado de S. Paulo, 21/3/2010).

Num sábado do mês de novembro de 1972, saímos eu e meu amigo Roberto de carro lá da casa do Sumaré, onde eu morava e minha mãe ainda mora, para fotografar alguns pontos de São Paulo escolhidos a esmo. A ideia era que anos depois essas fotografias pudessem servir de comparação para alguns locais na cidade. Eu tinha, então, 21 anos.

Eu não me lembro exatamente do porquê de ter fotografado a maioria dos lugares onde estive. O fato é que parávamos o carro e eu descia e tirava a fotografia. Já alguns lugares foram escolhidos por estarem em obras do metrô, como a rua Vergueiro e a Domingos de Moraes. Outros, por serem avenidas e viadutos novos, como pontos na avenida dos Bandeirantes, que tinha o nome recém-alterado do antigo, avenida da Traição, e no viaduto Antártica.

O ponto da rua Botucatu na esquina da rua Sena Madureira foi achado no caminho. Como não podíamos seguir pela rua Domingos de Moraes, que estava interrompida pela construção do metrô, descíamos e seguíamos por algumas ruas abaixo. Nesse dia, foi a Botucatu. Dali fomos para a rua Loefgren, de onde fotografei a avenida Domingos de Moraes no sentido do Arquidiocesano e da Igreja da Saúde. Era um buraco só.

Lembro-me que o Roberto não entendia por que eu estava fazendo tudo isso. Eu lhe disse exatamente o que citei acima: para efeito de comparação depois de alguns anos. Trinta e sete anos e meio se passaram. Ontem, num dia de março de 2010, a fotografia da rua Botucatu (acima) foi aproveitada pelo jornal O Estado de S. Paulo para uma das fotos publicadas na edição deste domingo 21.

As outras fotografias publicadas são do acervo do Douglas, que me indicou ao repórter Rodrigo. Na verdade, o Rodrigo já me conhecia, pois há alguns meses ele me entrevistou para uma reportagem sobre estações abandonadas que também foi publicada em um domingo. Um belo trabalho. Daria um livro. Um livro para se refletir sobre o que estamos fazendo com nossa cidade.

Pena que naquela época fotografia ainda era a papel. Ou seja, compra filme, tira a foto, revela, espera para ver se ficou boa ou se você perdeu tudo... hoje teria fotografado muito mais, claro. É mais fácil... Por outro lado, fotos demais banalizam os locais. A maioria das fotografias que tiro e que vejo hoje está no computador. Muitas nem têm o tamanho mínimo para uma boa impressão; por outro lado, eu imprimo pouquíssimas fotografias, porque, se imprimisse todas que tiro ou recebo, não há hoje local para guardar tudo. Se antes fotos eram não tão comuns de ser tomadas, hoje são em número grande demais.

sexta-feira, 5 de março de 2010

VELHAS ESQUINAS DE SÃO PAULO


Houve um tempo em que as casas de esquina foram bonitas. De anos para cá, as esquinas são aproveitadas em casas ou prédios recuados em relação à rua, deixando que jardins - ou, mais provavelmente, estacionamentos - fiquem juntos à calçada.

Porém, como grande parte das casas e mesmo prédios mais altos de apartamentos ou de escritórios ficavam encostados às calçadas, propiciando aos moradores espiar pelas janelas, elas se tornavam mais bonitas com seus adornos, seus enfeites, inciais dos donos ou construtores, o ano de entrega da obra, as pequenas estátuas no topo, pequenas carrancas, calhas. Não havia pichadores, que tanto enfeiam as cidades, mesmo havendo hipócritas que dizem que pichação é arte.

Fotografei ontem duas esquinas na rua Domingos de Moraes, bem como uma hoje na avenida Brigadeiro Luiz Antonio. São casas com dois ou três andares — não exatamente casas, pois a parte de baixo foi projetada para serem lojas ou escritórios, enquanto geralmente seus donos moravam no andar ou dois andares acima. Hoje na maioria dos casos, as casas desse tipo que sobraram, construções dos anos 1910, 20 e 30, não têm mais funções residenciais.

Uma das que fotografei fica na esquina das ruas Domingos de Moraes e França Pinto. Quando eu era moleque, ali era o cinema Phenix, com a placa que nomeava o cinema bem no topo na curva da esquina. Hoje há pequenas lojas em baixo e sei lá o quê nos andares de cima. Se não se soubesse que era um cinema, dificilmente se perceberia. Mas era. E já era o chamado "pulgueiro" nos anos 1960. Parece que ele existia desde os anos 1920, e devia ser um cinema de bairro melhor àquele tempo.

Creio que até os anos 1980 ainda era cinema. De qualquer forma, o prédio nao está tão mal conservado externamente e ainda é bonito, tem sua imponência. A foto está acima, tirada por mim ontem. Nunca cheguei a frequentá-lo, haja vista sua fama já naquela época, anos 1960.

O passado de São Paulo continua sendo derrubado pela especulação imobiliária. Porém, a rua Domingos de Moraes não é uma rua em que os imóveis estejam tão valorizados, por causa de sua frequência, seu barulho, excesso de ônibus e carros. Os silenciosos bondes foram-se há muito tempo. O metrô passa por baixo dela, e mesmo assim somente no trecho com pista dupla, mais para a frente em relação ao cinema.

Ontem mesmo desabaram três casas em São Paulo. Duas no Bixiga e uma, parcialmente, na alameda Barão de Piracicaba, o Solar do Barão de Serra Negra, construído em 1883, em ruínas há anos e sem telhado há algum tempo. Com o excesso de chuvas, a queda de três imóveis não é coincidência. É fruto do descaso de seus donos e dos órgãos de preservação. Neste caso, foram-se sem ser pelas imobiliárias. O cine Phenix, por sua vez, deve aguentar ainda um bom tempo, já que está ocupado, apesar de suas pichações no andar superior e sua razoável conservação. Que assim continue, embelezando aquela esquina.

quinta-feira, 4 de março de 2010

TRAMWAY DE SANTO AMARO

Estação do Encontro, próximo à atual igreja de São Judas, na então divisa dos municípios de São Paulo e de Santo Amaro. Não encontrei referência alguma à desaivação ou desmonte deste pátio nos relatórios da Light até agora.

No ano de 1886, quando Santo Amaro era um município separado de São Paulo, o Engenheiro Kühlmann inaugurou uma linha de tramways a vapor que ligava a estação de São Joaquim (na esquina da rua São Joaquim com a rua da Liberdade, hoje avenida, no bairro do mesmo nome e no local onde hoje está a estação São Joaquim do metrô) à estação de Santo Amaro, muito próxima do centro dessa então cidade.

A história é contada em muitos livros e sites de Internet. A via permanente desse trem seguia pela rua da Liberdade, entrava pela Vergueiro e depois pela rua Domingos de Morais, já na Vila Mariana e daí prosseguia mais ou menos onde hoje é o leito da avenida Jabaquara até onde atualmente fica a igreja de São Judas, descia por dentro do Aeroporto de Congonhas e pelos bairros do Campo Belo e Brooklyh Paulista, estes últimos já em Santo Amaro, para finalmente entrar pelas atuais avenidas Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro, chegando à estação terminal.

Em 1913, a Light, que havia instalado e assumido a distribuição de energia elétrica e de bondes elétricos em São Paulo e em Santo Amaro, depois de comprar o tramway em 1900, completou sua eletrificação. A linha, então, passou a correr desde a Praça João Mendes, passando pelas ruas da Liberdade, Vergueiro e Domingos de Morais para aí mudar o seu caminho, entrando pela rua Jabaquara - hoje Conselheiro Rodrigues Alves - e dobrando ao lado do Instituto Biológico para numa grande reta alcançar o largo Treze de Maio, ao lado da praça central (Jardim Público) de Santo Amaro.

A linha que seguia pelas ruas Domingos de Morais depois do largo Ana Rosa e avenida Jabaquara foi mantida, também eletrificada. Ela hoje não existe mais, foi desativada em 1966, dando caminho para a passagem do metrô, linha Norte-Sul. A linha de Santo Amaro, por sua vez, foi a última linha de bondes a ser cancelada em São Paulo, tendo-o sido em março de 1968.

Essa é a história que consta. Não está errada, mas também não está totalmente correta. Por exemplo, a eletrificação da linha do antigo tramway já estava eletrificada antes de 1913 entre a praça João Mendes e a estação da Vila Mariana, na praça Teodoro de Carvalho. Somente depois desse ponto é que a linha continuava a vapor.

Esta foi uma das coisas que descobri nos relatórios da Light que pesquisei hoje, na verdade, as edições entre 1910 e 1916. Antes, não pesquisei, ainda, e tenho muitas dúvidas acerca do período entre a compra do tramway em 1900 e o ano de 1910. A estação da Vila Mariana, do tramway, por exemplo, foi demolida em 1911. Isto também não consta em nenhum livro que li. Acredito que alguém jamais tenha se importado com isto. Eu, como sou chato, fui pesquisar e achei isto hoje.

O curioso é que os relatórios da Light and Power são muito confusos, afirmando num ponto algo que parece diferente do que eles afirmam em outro local do mesmo ou do relatório seguinte. Por exemplo, a história diz que o ramal do Matadouro e a linha para São Judas também foram eletrificadas em 1913. Os relatórios não citam absolutamente nada sobre isto. Há muito ainda que se pesquisar.

Enfim, estou apenas transmitindo algumas coisas que consegui saber hoje depois de uma tarde lendo esses relatórios. Ainda faltam outros para ler.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

MEMÓRIA DAS RUAS

Colégio Arquidiocesano em 1954. No canto superior doreito, a rua Domingos de Moraes, ainda com os trilhos do bonde no seu canteiro central

Este final de semana comecei um novo site, que, pelo menos provisoriamente, ficará dentro das páginas do estaçõesferroviárias. Ele versará sobre memórias das ruas da cidade de São Paulo. Não contará exatamente a história delas, pois há muitos dados e incertezas a serem levantados neste campo. Mas falará sobre isso também, e das casas, cinemas, parques, chácaras, escolas e tudo o mais que possam ter existido ou que ainda existem nessas ruas.

Também levará um bom tempo para que o número de páginas aumente. Há muito material sobre algumas, e a própria confecção das páginas é demorada. Portanto, quem quiser checar hoje, apenas poderá ler sobre a rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana.

É uma forma de aproveitar e divulgar todo o conhecimento e todas as fotografias e mapas que juntei em pesquisas, livros e jornais durante pelo menos quarenta anos. No caso da Domingos de Moraes, ela fez parte da minha infância, teve bondes, teve o quase esquecido Tramway de Santo Amaro, cinemas, chácaras... inclusive a chácara da Vila Mariana à qual já me referi pelo menos duas vezes neste blog.

Portanto, se alguém quiser saber algo sobre a principal rua da Vila Mariana, baste clicar no link que já pus acima.

E espero que tenha um pouco de tempo para escrever também sobre diversas outras ruas.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

MEMÓRIA DESAPARECE À FORÇA

Palacete Lotaif, demolido em 1982 (Foto Irmo Celso, revista Veja, 30/6/1982) na avenida Paulista, na esquina com a alameda Joaquim Eugenio de Lima

É sabido que diversas construções, principalmente casas, são colocadas abaixo e o terreno vendido ou transformado em estacionamento não somente porque vale muito, mas também porque alguns proprietários não têm dinheiro para arcar com as despesas de manutenção e/ou de impostos altos do imóvel. O tombamento de um bem pelo IPHAN, CONDEPHAAT ou pelo município, isso em São Paulo – sempre lembrando que existem outros órgãos da União – não leva necessariamente à sua preservação.

Vemos em São Paulo diversos casos, como a casa do Itaim-Bibi, cujas ruínas estão tombadas (neste caso as ruínas são praticamente somente as fundações) e uma capela no Barro Branco, tombada, mas posta abaixo mesmo assim há alguns anos. O tombamento de um imóvel deveria no mínimo prover incentivos de impostos e para manutenção do imóvel para que este possa ser conservado de uma forma mínima que seja. Diversos imóveis tombados estão se deteriorando pelo Brasil afora.

Lembro-me das demolições da avenida Paulista, nos anos 1980, que eram feitas durante a noite, para impedir protestos da população. Os donos não queriam continuar arcando com impostos altíssimos e ainda por cima com construtoras acenando com quantias “indecentes” para comprar o terreno e nele levantar mais um edifício com “n” andares. Quem pode condenar um proprietário de deixar de lucrar com um imóvel mesmo que o valor sentimental dele seja grande para os donos?

Uma das soluções seria que a Prefeitura transferisse para os proprietários de imóveis tombados terrenos em outras regiões que tivessem a mesma valia. Não é fácil, mas já houve casos onde o acordo aconteceu. Outra forma seria permitir a demolição de imóveis que não fossem considerados de valor arquitetônico (um caso simplesmente de opinião, pois mesmo arquitetos discordam entre si), mas com a ordem de serem mantidas algumas partes, como a fachada ou outras partes (como foi feita no caso da casa das caldeiras e a chaminé da Matarazzo) ou mesmo o imóvel inteiro, liberando o amplo terreno atrás dele – quando isto for possível, é claro. Não é solução ideal, mas algo se preserva.

Há meses, postei neste blog uma história que poucos sabem, sobre a “chácara da Vila Mariana”, que foi desmanchada em suas construções do grande jardim que tinha uma miniatura de castelo, uma piscina, fontes, pontes e outros artefatos em pedra e cimento. Disse que isso ocorrera nos anos 1970. Não foi. Foi no início dos anos 1990. Também fiquei sabendo que o jardim foi obra de um arquiteto italiano no início do século e que o local originalmente foi chamado de Chácara Flora – nada a ver com o bairro de Santo Amaro. E fiquei sabendo também da triste notícia: como a casa que dava frente para a rua Domingos de Moraes foi vendida sem os jardins, para a construção de um conjunto de prédios no final dos anos 1960, estes ficaram ali, sendo cuidados por pessoas da família que moravam em casas atrás dele. A Prefeita Luiza Erundina, num relance de total desconhecimento das consequências que isso traria (ou de pouco se importar), taxou o imenso terreno como se fosse um terreno baldio, triplicando o valor de seu imposto territorial. Resultado: a família vendeu-o para uma construtora. Esta derrubou tudo e construiu edifícios de apartamentos.

A memória dum lugar único em São Paulo se foi, em nome da impermeabilização do solo, do adensamento populacional, tudo de ruim, enfim. Mais uma das tristes histórias de uma cidade que está se tornando inviável.