sábado, 25 de abril de 2009

A CHÁCARA DA VILA MARIANA

Como sempre digo, descendo de alemães, espanhóis, poloneses, italianos e portugueses. Meu pai era descendente de alemães em grande parte, com uma bisavó polonesa e uma avó filha de espanhóis. Minha mãe é filha de um filho de italianos com uma filha de portugueses. Meu sobrenome é metade italiano e metade alemão. No entanto, justamente o nome que eu não tenho – o da família Silva Oliveira, de minha avó materna – foi quem mais me influenciou durante minha infância.

Minha avó Maria morava na Vila Mariana. Nasceu em Porto Ferreira, ali viveu até completar 4 anos de casada, quando foi para Campinas com seu marido Sud. Em seguida foram para Piracicaba, onde meu avô assumiu o cargo de Delegado Regional de Ensino. Em 1925, quatro anos depois, vieram para São Paulo, pois meu avô aceitou o convite que Júlio de Mesquita, pai e filho, lhe fizeram para trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo como redator. Eles, então, alugaram uma casa na Vila Mariana, na rua Thomas Carvalhal. Do bairro nunca mais saíram. No ano seguinte, já estavam morando numa casa na rua Domingos de Morais, que deve ter ficado, pela descrição de local, entre as ruas Joaquim Távora e França Pinto. Em 1929, mudaram-se para outra casa, na mesma rua, do outro lado, onde também funcionava um colégio particular onde Sud era sócio. Esta ficava entre as ruas França Pinto e a rua Araxans (que hoje leva o nome de meu avô). Porém, enquanto isso, estavam construindo uma casa na rua Capitão Cavalcanti, 16, a um quarteirão desta última casa.

No final de outubro a casa, que parecia uma casa de chácara na época, estava pronta: varanda aberta na frente, terrenos vazios do outro lado da rua na frente, num larguinho que existe até hoje nessa rua. A rua não tinha pavimentação e quando chovia virava um lamaçal, agravado pelo fato de ela ali descer para um córrego que cruzava a rua mais para a frente – ainda cruza, mas está canalizado. Atrás da casa existia uma verdadeira chácara. Nesse enorme terreno – separado da casa de meus avós por um muro alto em relação a eles (pelo visto, meu avô teve de aterrar seu terreno para fazer a casa em nível) – e que dava frente para a rua Domingos de Morais, havia, no fundo de uma casa que podia ser chamada de mansão, um enorme jardim entremeado por ruas em curva, com pequenas construções de grutas e pequeninos castelos de pedra, com pequenas pontes e fontes. Lembrava um pouco a praça da República, embora fosse menor e, no caso, inclinada.

Eu não tive contato com esse pessoal até meus 10, 11 anos de idade, isto em 1962. A partir daí, fiz amizade com os netos do casal que moravam na casa ao lado da de minha avó – meu avô já havia falecido em 1948, 3 anos antes de eu nascer – e como eu estava quase todos os fins de semana na casa de vovó, passei a ir para a chácara para brincar. Esse pessoal era o dono da chácara e do casarão “lá em cima”. Só entrei nesse casarão uma vez, e pelo lado de trás, não pela entrada da frente, que era, como falei, na Domingos de Morais. Parecia, na época, meio abandonado – razoavelmente cuidado, mas como aparentemente ninguém mais morava ali, só o caseiro, que, pelo que me lembro (posso estar enganado agora), cuidava dela vivendo, entretanto, na casa mais nova, aquela ao lado da casa de vovó.

A foto acima é do Geoportal, que tem fotografias aéreas da cidade datadas de 1958. A rua Capitão Cavalcanti está embaixo na foto, dá para ver o “larguinho” e a casa de vovó é a que (mal) aparece ao lado (direito) de uma linha branca que dá fundos para uma área redonda dentro do parque (um quiosque). A “mansão” está na frente da rua Domingos de Morais, tendo do outro lado da rua o prédio do Grupo Escolar Marechal Floriano, ainda existente.

O parque – era assim que nós os chamávamos – durou até os anos 1970, com certeza. Dava para ter uma visão muito boa da chácara quando subíamos por uma escada para os quartos que ficavam em cima da garagem da casa da vovó, onde ficavam as empregadas. Embora tivéssemos essa visão privilegiada, jamais tiramos uma fotografia dali – e tudo ficou apenas na minha memória. Tudo isso desapareceu. A mansão foi derrubada e em seu lugar se fizeram alguns prédios. A parte do parque ficou em parte como área de lazer e em parte como um loteamento de casas, mais abaixo: o terreno ia até o tal córrego lá embaixo, que também cruzava a rua Capitão Cavalcanti. A casa de minha avó foi vendida em 1966, apesar da choradeira (literal) dos seus netos. Isto fez com que o contato com os donos do parque acabasse pouco a pouco desaparecendo. Vovó faleceu em 1987, na Vila Mariana, claro, mas numa casa a alguns quarteirões dali, na pequena rua Maracaju. A casa da Capitão Cavalcanti ainda existe, bastante descaracterizada em relação a seu aspecto original, mas está lá. Mas esta casa fica para outra hora.

E a velha e (muito) mais agradável cidade de São Paulo vai se desmantelando.

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