segunda-feira, 27 de abril de 2009

MEU VIZINHO É BISNETO DE JOAQUIM FIRMINO



A estação ferroviária de Joaquim Firmino, em Ribeirão Preto, foi aberta em 1912 e atendia à Fazenda Santa Rita, ainda existente. Seu nome homenageava o dono da fazenda. Ficava no chamado Ramal de Jataí, da Mogiana. Já nos anos 1960, o tráfego ferroviário por ali era muito pequeno e a estação foi fechada e transformada em simples parada, em 1968. Com a supressão dos trens de passageiros e do ramal em 1976, o prédio foi aos poucos sendo abandonado de vez. Em 1979, a retirada dos trilhos do ramal encontra um prédio já vazio. Trinta anos depois, a antiga estação está em ruínas, embora seja uma das únicas três que sobraram das onze no ramal: só suas paredes estão de pé, a “carcaça”, como poderíamos falar e, embora hoje já em terras de outra fazenda, a Maria Amália, pode ser vista da colônia da Santa Rita, no alto de um morro, totalmente isolada. É um milagre que tenha resistido à plantação de cana na área. Alguém não quer vê-la derrubada. É muito difícil fotografá-la, pois, no meio do canavial, não é fácil chegar até ela. Uma antiga freqüentadora da estação enviou-me um e-mail em janeiro de 2003, Maria Christina Monteiro de Barros Alfano, relatando memórias não dela, mas de seu pai: "Lá pelos idos de 1957/1959, quando ainda estudante de Direito em São Paulo, ele costumava apanhar o trem de aço ou o trem azul da Paulista com destino a Ribeirão Preto, onde seu avô Gabriel era Juiz de Direito na ocasião, para as festas de fim de ano ou feriados de carnaval. Essas composições, pelo menos em termos de Brasil, eram um primor de comodidade, luxo (Pullman) e eficiência (horário). Algumas vezes, como minha mãe estava na fazenda, ele achava mais conveniente pegar o noturno da Paulista e fazer a baldeação em Guatapará, já na Mogiana, para descer em Joaquim Firmino de manhã e chegar até a sede. Claro que a estação não dispunha de táxis ou condução própria e minha mãe, como boa amazona e por esporte, entendia ser mais interessante cavalgar e levar junto um cavalo arreado para apanhá-lo. Assim era feito e você pode imaginar que, além do lado romântico, também havia o inusitado, senão exótico. Meu pai saía da faculdade todo engravatado e encoletado naqueles tempos (bons!), trabalhava à tarde e à noite, com essa indumentária mais os indefectíveis apetrechos de viagem e aí pegava o trem noturno. Depois, no destino, montava com a mesma roupa e bagagem. Realmente, nem para a época era muito comum essa excursão. Outras vezes, mas aí já era chique, minha mãe Lúcia comparecia com uma confortável charrete puxada pelo famoso e saudoso Poker, se não me engano. Uma pena que tudo tenha realmente terminado nesse trajeto. Talvez não por culpa da São Martinho, só, mas também pelos 'espíritos abertos' dos governantes de então, estatizando caminhos de ferro de grande utilidade, cujos vagões viraram cabides de empregos públicos. O café, inspirador das curvas e meandros da ferrovia, também perdeu bastante, ou quase tudo, de seu esplendor em plena terra roxa. Com a divisão amigável da fazenda Santa Rita, a sede e suas benfeitorias, além das terras, ficaram com o avô, Bibi Junqueira, enquanto a estação permaneceu na parte de terreno que coube ao Paulo Uchoa. A estação continua por lá, como um marco e arruinada, quase tomada (ou tombada) pela cana. O importante é que, do terraço da Santa Rita, dá ainda pelo menos para se imaginar o vulto da antiga estação, perdida no horizonte. É o que eu sinto e dela guardo saudades." Maria Cristina é uma das bisnetas de Joaquim Firmino, o homem que deu nome à estação. Oito meses mais tarde, ela ficou finalmente cara a cara com o velho prédio em ruínas. As fotos foram tiradas e mostravam então ruínas ainda bonitas mas cheias de saudades.

Mais curioso ainda foi saber que meu vizinho Guilherme, aqui em Santana de Parnaíba, também é um dos bisnetos de Joaquim. Mundo pequeno.

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