segunda-feira, 18 de maio de 2009

O HORTO DE GUARANI

Na fotografia, restos da estação de Guarani em novembro de 1998, foto que tirei quando lá estive.

Pouca gente deve saber onde está localizado Guarani. O local é uma antiga estação ferroviária ao norte do pequeno município de Guatapará, na margem direita do rio Mogi-Guaçu, na região de Ribeirão Preto. Ela foi inaugurada em 1901, substituída por outra no final dos anos 1920, mas sempre teve como objetivo, além do abastecimento de água e lenha às locomotivas a vapor, o ponto de ligação com o horto florestal que a Companhia Paulista de Estradas de Ferro mantinha no local. Era este um dos muitos hortos da Paulista no Estado. Estes tinham como objetivo o suprimento de lenha, dormentes e madeira em geral para combustível de trens e manutenção das linhas e edifícios da empresa.

Hoje nem horto nem estação existem mais. A única vez que estive no local foi há onze anos. A estação, demolida um armazém tipicamente “Companhia Paulista” ainda em pé ao lado, e mais nada: não vi vila alguma em volta, apenas uma ou outra casinha afastada. Para chegar lá, em Guatapará me recomendaram seguir o “calipar” (eucaliptal), que era o resto do que havia sobrado no horto. E, apesar disso, é quase inacreditável como esses lugares permanecem na memória das pessoas que os conheceram.

Cássio Ruas de Moraes é uma dessas pessoas. Ele escreve: “(O horto) era o paraíso das minhas férias escolares. Na varanda da frente da casa esperava com impaciência que a chuva passasse. Descia alguns degraus e parava no caminho de terra arenosa, observando os curiosos desenhos da enxurrada no chão. Traçados sinuosos que se encontravam e divergiam na areia fina, alisada pelas águas, com pequenas poças a permanecer nas depressões. Divertia-me a afundar os pés na terra, desmanchando os caprichosos desenhos da natureza. Deleitava-me com a carícia macia e fresca que me subia dos pés. Sementes de eucaliptos parecidas com pequenos piões espalhavam-se pelo chão. Distraía-me sem noção do tempo. Este só era marcado quando me chamavam para o lanche, para o banho e para dormir. No entanto, não me distraía do horário dos trens. Da varanda descortinava-se um pasto, sempre com animais que forneciam o leite para a colônia e que alimentávamos com espigas de milho por diversão. Além do pasto, estava a estrada de ferro. Havia eucaliptais e grandes extensões ocupadas por vegetação do tipo cerrado de árvores baixas e de fácil penetração para o gado ou para as crianças que iam em busca de frutos silvestres. Havia seriemas, lagoa com jacarés e o rio Mogi, mas estes proibidos aos menores, permanecendo para nós uma bruma de mistério. A cavalo, ajudava na tarefa de reunir o gado no fim do dia e trazê-lo para a segurança dos estábulos. Havia muitas outras coisas de causar deslumbramento. Sem embargo, o foco das minhas atenções era a estrada de ferro que cruzava o domínio, com a estação e o armazém. Era só começar a ouvir um ruído ao longe, procurava um ponto de observação, geralmente a própria varanda com sua mureta bem apropriada para isso. Firmava a vista no fim do pasto e aparecia o topo da locomotiva, seguido dos vagões que iam crescendo até se descobrirem a ponto de ver-lhes as rodas, sumindo à direita onde ficava a estação. Dava para notar-lhes as características, o tipo de locomotiva, o tipo de comboio e contar de quantos vagões se compunha. Aqueles momentos eu desejava prolongar, como hoje desejaria revivê-los, pedindo papel e lápis, ou lousa e giz. Desenhava. Se achava que faltava algum pormenor, procurava esclarecê-lo quando aparecia a oportunidade de ver o trem de perto. O ponto alto do dia era ir à estação ver passar os trens de passageiros. Às duas da tarde vinha o primeiro que saíra de São Paulo muitas horas antes e se dirigia a Barretos. Amarrava o cavalo no pára-choque do desvio e lá ficava a esperar. Pontualmente chegavam a grande locomotiva e os carros de aço, fazendo-me transbordar de satisfação e orgulho. Parava pouco e partia. Eu só tinha que esperar meia hora por ali, pois, da direção oposta, às duas e meia, vinha o outro, com o mesmo tipo de locomotiva, os mesmos carros. Outra parada rápida e ia embora para São Paulo, deixando-me o silêncio do campo. Madrugada era frio, era aroma de eucalipto, era cheiro de leite a ferver no fogão a lenha. Copo na mão com açúcar no fundo, íamos habitualmente aonde ordenhavam as vacas para tomar de seu leite espumoso e morno. Algumas madrugadas eram especiais. Saltava contente, vestia a melhor roupa que minha mãe separava, engolia a xícara de leite e café, e dali a pouco sacolejava na camionete a caminho da estação, em companhia do meu tio, engenheiro agrônomo da Paulista, que fazia viagens de inspeção dos hortos florestais e, para minha alegria, levava-me. A silhueta da estação recortava-se contra o céu cuja escuridão esmaecia num tom avermelhado. Sob a cobertura da plataforma, duas lâmpadas amarelas emitiam seu brilho fraco. As poucas pessoas, vultos de feições indefinidas, cumprimentavam-se. Nas linhas do desvio, algum vagão esquecido parecia ainda dormir, ignorando o dia que se aproximava. O poste do sinal mostrava o braço abaixado, indicando que o trem que esperávamos estava próximo. Concentrava-me nas paralelas que refletiam o clarão do alvorecer. Logo aparecia o farol da máquina esforçando-se para vencer o aclive que chegava à estação. A terra tremia e a máquina passava qual um pequeno furacão, com seu estrondo de ferros em movimento. Mãos protetoras puxavam-me, afastando-me daquele turbilhão, temendo que eu fosse sugado por ele. As janelas iluminadas sucediam-se até parar por completo. Vinha súbito silêncio somente quebrado pelo chiado do vapor liberado pela locomotiva. O momento, porém, era de ação e eu era conduzido quase a correr e ajudado a subir os altos degraus, adentrando o carro de passageiros com as pessoas sonolentas. Sentado na poltrona de palhinha trançada, meus pés mal tocavam o chão. Atentava para a sequência de apitos e o comboio se movia com quase imperceptíveis solavancos. Testa contra a vidraça, agora via desfilar lá fora a frente da estação, o armazém, o pasto e, entre flamboyants e eucaliptos, além do pasto, a casa com a varanda de onde costumava observar os trens. Até que tudo fosse encoberto pela vegetação a passar rapidamente, tirando-me a vista. Tinha doze anos quando pela última vez desvendou-se diante de mim esse panorama. Naqueles anos vi entristecido a substituição das belas locomotivas a vapor pelas diesel-elétricas sem personalidade ou traços individuais. Também os trens melhoravam com a chegada do Trem Azul, que substituiu os de aço nos horários principais. Davam a impressão de progresso. Entretanto, tudo acabou no prazo de uma geração. Ficou a memória rica e sempre cultivada, ainda que dolorosa, daquelas férias de menino.

Epílogo: O Horto Florestal do Guarani, da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, no município de Pradópolis, ainda conservando extensos eucaliptais, foi negligenciado pela FEPASA depois da estatização durante trinta anos. Foi invadido por integrantes do Movimento dos Sem-Terra, que lhe saquearam a madeira e queimaram suas inúmeras habitações e benfeitorias. Posteriormente, o Governo do Estado de São Paulo dividiu-o em glebas e distribuiu-as aos invasores. Então, já não passava de terra arrasada
”.

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