A fotografia acima foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo hoje e mostra uma avenida - não consegui identificar exatamenta qual é, mas é na zona azul e nem tem uma concentração de prédios tão grande assim em termos de São Paulo. Mas vejam, por exemplo, ao fundo, uma floresta de edifícios e notem em três prédios em primeiro plano no canto direito da foto três heliportos sobre eles - consequência de uma cidade onde as vias terrestres e eo transporte público já não dão conta do recado.Dizem que o orador grego Catão terminava seus discursos com a frase "delenda Cartago", ou seja, "que se destrua Cartago", cidade fenícia localizada na antiga Fenícia; hoje a cidade estaria na Tunísia. Cartago foi de fato destruída ao fim de quase 120 anos de guerra. Na verdade, foram três guerras interrompidas por longos intervalos entre elas. Porém, no final da última, em 146 a.C., Cartago foi, efetivamente, destruída - ao ponto de ser arrasada para que jamais se tornasse uma ameaça para Roma - ameaça comercial, no final das contas.
Grande parte das pessoas que vivem na atualidade acham que o Brasil - e, no centro disso, a maior cidade brasileira, São Paulo - deve ser destruído para que possa crescer. Mas como é mesmo isso? Como poderá ele crescer se for destruído? Como São Paulo poderá realizar essa façanha? Por que escrevi essa frase que antagoniza com ela mesmo? Porque construção gera empregos e dinamiza a economia - por outro lado, o excesso de construções que não são realmente necessárias acaba a médio prazo com o ambiente modificado à força.
Bem, a verdade é que São Paulo vem sendo destruída há décadas. Até os anos 1960, a cidade era habitável. Porém, crescia cada vez mais rápido - em número de habitantes e de área densamente habitada. No início dos anos 1950, havia ultrapassado a cidade do Rio de Janeiro em população, tornando-se a maior cidade do país.
Demolição do Palacete Prates em 1953Nos anos 1950, construções do início dos anos 1910 estavam indo para o chão, como o belíssimo Palacete Prates, na esquina do viaduto do Chá com o Parque Anahngabaú, dando frente para a rua Líbero Badaró. No seu lugar foi logo construído um prédio de escritórios de mais de vinte andares. A construção de edifícios de apartamentos e de escritórios ainda se dava na esmagadora maioria das vezes na área central da cidade, mas a partir dos anos 1960, a deterioração da área, causada em parte pelo excesso de prédios, começou a fazer com que essas construções se espalhassem com muita força sobre os bairros em volta do centro.
Nos anos 1970, prédios já eram comuns em Higienópolis, Jardins e outros bairros. Hoje, não existe bairro sem prédios, sejam de que natureza for. E, aqui, falo de construções com mais de oito, dez andares, não daqueles pequenos prédios de 3, 4 ou 5 andares. Chegam hoje a 30, 40 andares. É a destruição de uma cidade através da construção de "arranha-céus", depois chamados de "espigões" e hoje de "torres". A cidade, claro, não comporta isso. Nem em infra-estrutura nem em fluxo de tráfego. Nem em transporte público.
Plataforma lotada na estação Paraíso - Foto Alexandre GiesbrechtO transporte público que está aí não aguenta mais do que já faz. Se 30% da população que usa automóvel largar seus carros em casa e passar a usar metrô, trens e ônibus, não vai haver carros suficientes nos três modais. A Prefeitura autoriza "torres" muitas vezes contra a promessa das construtoras de fazer obras de infraestrutura no local, inclusive, em alguns casos, na remodelação das ruas e avenidas - mas isso não é suficiente; nunca é.
Não é preciso ser engenheiro, arquiteto, administrador ou prefeito para ver que isso não funciona e que a cidade está saturada; os investidores em construção civil, no entanto, não se preocupam com isso e continuam lançando suas "oportunidades de investimento".
O que li hoje no Caderno de Imóveis do jornal O Estado de S. Paulo é simplesmente aterrador: é a proposta (mais uma) de destruição de bairros inteiros da cidade, vista unicamente pelos olhos das construtoras e do SECOVI. Falam da "orla ferroviária", que engloba muitos bairros ao longo das linhas férreas, fala do Bom Retiro... prega a derrubada do que existe lá hoje - em grande parte, galpões antigos, alguns tombados - para a construção de enormes edifícios, "enormes" em qualquer parâmetro que o leitor quiser interpretar.
Daniel Teixeira/O Estado de S. Paulo, 14/11/2010Veja a fotografia acima, tomada, quase que certamente, na rua Borges de Figueiredo, na Mooca. Esta rua tem uma série de galpões antigos que eram utilizados para a estocagem de bens que seguiam desses armazéns para o porto de Santos ou para o interior pela via férrea. O que impede de eles serem hoje transformados em lofts residenciais ou de escritórios sem terem sua aparência externa alterada e sem que sejam derrubados para a construção de prédios que, de certa forma, não têm necessidade de estar ali? A função de sua construção é apenas a de "revitalizar" a área (só prédios revitalizam? A médio prazo, acabam com a área), de fazer dinheiro (pelas construtoras e incorporadoras) através de uma mídia que não reflete a realidade. E a maioria das pessoas acredita... e compra.
Vale a pena destruir casas como estas,no Bom Retiro, para construir edifícios? - Foto: Daniel Teixeira/O Estado de S. Paulo, 14/11/2010Estava na hora de algum político "de peito" acabar com essa farra. Não estou aqui falando apenas de tombamento de imóveis, de se manter a memória da cidade, ou "coisas desse tipo". Estou falando da própria sobrevivência da cidade. Essas maravilhosas construções de hoje são, com certeza, o estopim da deterioração num futuro não muito distante. Acredito que todos saibam disso, mas... agem como cegos, pois o dinheiro manda em tudo. O futuro que se dane.
Falta um Catão moderno em São Paulo, para terminar seus discursos (ou em seus e-mails, hoje em dia) com uma fease do tipo "Salvemos Cartago, desculpem, São Paulo, da destruição"!




















