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sexta-feira, 8 de junho de 2012

DINHEIRO DO POVO NÃO É MESMO DE NINGUÉM

Estação de Independência, no Ceará. Sem trilhos, virou residência (Thiago O. Assis)

Isto sempre valeu aqui na terrinha, infelizmente. Como se gasta dinheiro em bobagens, ou como não se cuida dos valores que já foram investidos.

Em conversas hoje, foi-me lembrado de obras que foram feitas e duraram pouco, não porque tenham sido malfeitas, mas sim por terem sido demolidas ou abandonadas logo em seguida. As que vou citar agora são em grande parte ferroviárias, pois são as que mais me vêm à memória.

No início de 1966, em São Paulo, caiu o pontilhão da linha de bondes de Santo Amaro sobre o córrego Águas Espraiadas. É curioso que ele foi reparado, para ser abandonado menos de dois anos depois, quando a linha foi finalmente extinta. Algo similar ocorreu com o pontilhão da antiga linha-tronco da CP sobre a rodovia Bauru-Garça. O pontilhão levou anos para ser construído, sendo abandonado poucos anos depois quando a nova variante Garça-Bauru foi inaugurada (1976).

Em 1966, foi construída a estação nova de Cambuquira, da RMV, em Minas. No final do mesmo ano, o ramal foi extinto. Nos anos 1970 foi construída a rodovia Rio-Santos, que foi abandonada antes dos anos 1980. Hoje diversos viadutos estão em pé no meio da Serra do Mar, na região de São Sebastião, servindo para absolutamente nada. Mais viadutos e túneis podem ser encontrados totalmente abandonados entre Jaguariaíva e Sengés, no Paraná. Abertos em 1964, a variante desse trecho já era pouquíssimo utilizada nos anos 1980. Em 1993 foi extinta. Ficaram só as obras de arte.

A linha que deveria ligar Crateús e Senador Pompeu, no Ceará, encurtando o trajeto entre Recife e São Luiz para cargueiros, começou a ser construída nos anos 1960, depois de projetada pelo menos desde os anos 1930; foi contruída em metade do trecho, com duas estações, tráfego provisório... e logo depois foi fechada e desmontada. Também aconteceu isso com a linha Cruz das Almas-Conceição do Almeida, na Bahia, e com o ramal de Pelotas a Cangussu, no RS. Houve outros casos.

Os exemplos são muitos, e isso no setor ferroviário. Eu precisaria parar e remoer a memória de meu conhecimento, escrevendo muito mais aqui. Imaginem o resto. Há casos que eu certamente nem sei que ocorreram.

Ninguém, que eu saiba, jamais foi questionado ou responsabilizado por esses erros. Dinheiro foi jogado fora por todas as janelas e ralos possíveis. A fiscalização é mínima e, quando há, não pune ninguém. É por isso que não há imposto que chegue neste País.

Imaginem, por exemplo, quando não se gastou com o pagamento de projetos para linhas de trens e de metrôs neste país, inclusive na cidade de São Paulo. Onde foi parar o ramal de Moema, previsto para estar pronto em 1975 e jamais executado? E as diversas versões de linhas e estações do Metrô paulistano? E na desativação de estações da linha Auxiliar no Rio de Janeiro? Vai longe a coisa.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

UM TÚNEL ABSOLUTAMENTE INÚTIL

Um quadro da situação hoje às 9:25 da manhã, hora sem muito tráfego no cruzamento da Rebouças (seguindo para o centro no alto da foto) com a Faria Lima (à esquerda seguindo para Pinheiros, à direita, para o Itaim). Vê-se a saída do túnel em cima à, direita, sentido centro) e táxis cruzando a Faria Lima no corredor de ônibus. Vê-se também um ponto de ônibus.

Cada vez que eu estou em meu escritório na Faria Lima (todos os dias, na verdade), ao lado do túnel da Rebouças/Eusébio Matoso sob a avenida Faria Lima, eu me convenço mais ainda de que ele é totalmente inútil. Dona Marta e seus assessores avaliaram a situação muito mal.

Um dos maiores problemas é o fato de que o túnel foi feito, mas não eliminou o cruzamento sobre ele: o sinal continua existindo. Além do mais, a Rebouças é muito estreita e não comporta o volume de tráfego que passa por ela, ainda mais quando já há um bom tempo, antes de existir o túnel inclusive, há um corredor de ônibus ocupando uma das três faixas existentes.

Sou (muito) a favor desse corredor, que funciona bem. O volume de automóveis e caminhões na avenida, no entanto, não há como ser reduzido, a não ser oferecendo alternativas de tráfego em ruas paralelas. A única que existe - e mesmo assim, só durante parte do percurso da pista bairro-centro - tem mão inversa e tráfego quase nulo. E é uma rua residencial. Do outro lado (centro-bairro) é a rua de Pinheiros, mas que também tem a mão invertida e também chega somente à avenida Brasil.

Além do mais, o semáforo no cruzamento da Rebouças com a Pedroso de Morais, na saída do túnel para quem vem do Butantan, segura todo o trânsito que sai do túnel. Ou seja: fizeram um túnel com um semáforo numa das bocas. Isso não funciona.

Voltando ao cruzamento que não foi eliminado, ele existe por dois motivos: um , para que os ônibus do corredor o cruzem. Ora, se há um cruzamento para ônibus, por que não para o resto do tráfego? O semáforo está ali, mesmo... além do mais, os carros que vêm do lado da ponte sobre o Pinheiros são obrigados a entrar à direita na Faria Lima, fazer um retorno no meio desta poucos metros à frente e voltar para a Rebouças, caso queiram entrar nela. Mas que ideia de jerico!!!

Soluções? Uma, seria eliminar o túnel inútil, mas, se ele já está ali, que o deixe, agora. Vamos gastar mais dinheiro para voltar ao que era - mas o que era, era a mesma coisa... Outra solução seria eliminar o semáforo da Pedroso de Morais. Porém, neste caso, o que fazer com quem vem por ela e quer subir para a cidade? Fazer outro túnel sob a Rebouças (ou um viaduto sobre) para eliminar o cruzamento? Pelamordedeus... A terceira sugestão seria acabar com o túnel existente para fazer outro mais longo e mais largo que o atual, de forma a que ele passasse também debaixo do cruzamento da Pedroso e tivesse a boca mais à frente. E também faria com que o corredor passasse por dentro dele (pontos de ônibus subterrânesos? Por que não?). E, claro, permitir tráfego livre para a Faria Lima sobre ele, acabando com o cruzamento de vez. Mas e os pedestres? Um sinal para eles faria outra vez "ressurgir" o cruzamento. Passarelas e passagens subterrâneas têm os problemas que conhecemos.

Análise lógica: fazer o túnel foi um enorme desperdício de dinheiro. Ele não serviu para nada. Só que já está aí. Agora fica sem resolver nada. Senhores governantes: esqueçam túneis e viadutos. Melhorem urgente o transporte público. Urgente. Ontem. Anteontem. Sem isso, não há solução.

Ou há? Bomba atômica na cidade? Fujamos todos antes disso acontecer!


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

VELHAS PONTES SOBRE O TIETÊ

Foto da ponte de madeira sobre o rio Tietê. Do outro lado, o bairro dos Remédios. Citada como sendo em 1968. Acervo Eliana Belo Silva

Para quem como nós, moradores de São Paulo há tantos anos, que estamos acostumados a ver tantas pontes de concreto altas sobre o rio Tietê hoje em dia, pontes que são mais viadutos do que outra coisa, visto saírem de bem antes das margens do rio sobre as avenidas Marginais...

Pois então, poucos de nós chegamos a ver ou nos lembramos das pontes antigas de madeira ou mesmo de concreto saindo das margens do rio e não "lá de trás".

Hoje numa lista de discussão discutíamos sobre algumas delas, pelo fato de ter aparecido a fotografia de uma datada de 1968.

Aliás, essa data parece não ser correta, possivelmente é de alguns poucos anos antes, justamente por estar ela sobre o rio Tietê entre a atual barragem do Retiro (na fos do Pinheiros no Tietê) e o obelisco da rodovia Castelo Branco. Ela foi certamente destruída na época da construção da então rodovia do Oeste, que foi inaugurada justamente em 1968.

Além dessa ponte, comentou-se de velhas pontes de madeira e de concreto que cruzavam o rio, como uma na Vila Guilherme. Houve quem se lembrasse de mais duas em Osasco (uma na vila Castanhal). Mas existiam outras em São Paulo, que foram desaparecendo à medida que se retificava o rio (anos 1930 a 1970). E de mais uma no Itaim Paulista, que desapareceu e não foi mais reconstruída depois de uma enchente no final de 1976. Esta deve ter sido uma das últimas.

Note-se que essa ponte e mais outras tinham boias para sustentação sobre a água, em vez de pilares.

sábado, 13 de novembro de 2010

UM DIA O TREM PASSOU POR AQUI


O título desta postagem é também o de meu segundo livro, o primeiro sobre o assunto ferrovias e escrito e publicado em 2001.

O Brasil teve cerca de 38 mil quilômetros de ferrovias. Hoje tem 28 mil, sendo que boa parte - talvez um terço disso - não está sendo utilizada, estando estes trechos abandonados por falta de interesse das concessionárias. Já os trens de passageiros ocupam hoje menos de três mil quilômetros de toda essa malha.

Pedro Leal Dutra - 2010

Nos dez mil quilômetros arrancados e nos aproximadamente nove mil quilômetros que permanecem em seu lugar, mas que não estão sendo usados, a expressão "um dia o trem passou por aqui" é mais do que válida. Muita gente olha para esses locais, com ou sem trilhos, com construções bem ou mal conservadas, ou mesmo já demolidas, com saudade de um tempo que não era necessariamente melhor do que hoje, mas que, sem dúvida, oferecia uma oportunidade de viagens por locais hoje não mais trafegáveis, no meio de fazendas, em serras de vistas maravilhosas e outros pontos.

Stenio Gimenez - 2010

Trechos como os da Serra de Botucatu, onde trens trafegam - mas não de passageiros - na foto acima, de onde, desta linha da Sorocabana, podia-se ver ao longe o movimento de trens na linha da Paulista, a quilômetros ao norte, em Torrinha.

Pedro Leal Dutra - 2010

Como o da pequena parada de São Marcos, por onde um dia passaram as linhas da Leopoldina em Minas Gerais - foto acima - já sem trilhos.

Ralph Giesbrecht - 2004

Como o da serra de São João, em Santa Catarina, entre Porto União e Caçador - outra foto acima - com trilhos e sem movimento ferroviário.

Nilson Rodrigues - 2008

Como o do trecho de viadutos, num local denominado Viaductos, ao norte do Rio Grande do Sul - com trilhos e sem tráfego nenhum, foto acima.

Ralph Giesbrecht - 2005

Finalmente, para não tornar esta postagem interminável, como em Sítio Novo, lugarzinho paradisíaco no interior baiano, onde mesmo trens cargueiros são raridade hoje em dia, visto acima.

Enfim: um dia, o trem passou por aqui, por ali, por acolá - e nós ficamos somente a ver navios.