Carro da SPM, preservado em 2006 em São Sebastião do Paraizo/Jorge HerethHoje vi uma fotografia de cem anos no site "100 anos atrás", do Estado de S. Paulo. Esta mostrava a "inauguração da E. F. S. Paulo e Minas" na estação de Guardinha. A foto não tem uma reprodução boa - provavelmente a sua impressão no jornal também não era boa. Na verdade, fotografias não eram comuns ainda em jornais.
Segundo os dados históricos da própria São Paulo e Minas - ferrovia extinta já há 39 anos - a estação de Guardinha foi inaugurada em 10 de outubro de 1910. Somente alguns meses depois, em meados de 1911, foram inauguradas as duas estações seguintes, Sapé (depois chamada de José Honório) e São Sebastião do Paraíso. Todas as três ficavam em Minas Gerais. A ferrovia terminava em São Sebastião. Mais tarde o ramal de Passos, da Mogiana, se uniu à linha, mas essa é outra história.
Inauguração da estação de Guardinha em 1910/O Estado de S. Paulo, 8-11-1910O jornal não dá a data da fotografia. Acredito que ela tenha sido tomada no dia da inauguração, portanto, quase um mês antes de publicada. Isto, claro, se a data de 12 de outubro estiver correta e se a fotografia realmente tenha sido tirada nesse dia. São as eternas contradições da história, nem sempre resolvidas definitivamente. No duro, mesmo, são detalhes.
Pátio de Guardinha, em 2009/Tarcio CandianiA São Paulo-Minas havia sido fundada na cidade paulista de São Simão em 1892. Para chegar até Minas Gerais, passou por duas empresas e uma falência. A ferrovia, de 136 quilômetros, somente teve um aumento de extensão: em 1928, quando construiu um ramal até Ribeirão Preto, ramal este com 43 quilômetros e que funcionou por um ano somente - daí fechou, pois a ferrovia "quebrou" mais uma vez, aí nas mãos da Companhia Eletroquímica de Ribeirão Preto, que faliu junto. Somente reabriram esse ramal em 1944. O resto do tempo, ficou rodando apenas parte da linha de 1910. Os problemas eram burocráticos e também de falta de dinheiro do Estado. Sim, do Estado de São Paulo, que ficou com a massa falida da estrada de ferro em 1929.
A história não conta muitos detalhes dessa ferrovia. Sabe-se, no entanto, que apresentava contínuos problemas de operação. Em 1968, foi encampada pela Companhia Mogiana, a mando do Governo paulista, já dono das ferrovias havia tempos. A Mogiana sempre quis a São Paulo-Minas, desde a época em que ambas eram empresas privadas. A SPM era uma intrusa na concessão da Mogiana. Quando a emcampação veio, em 1968, o primeiro ato da Mogiana foi extinguir parte da linha original, de São Simão a Ipaúna, antiga estação de Seerinha, onde se encontravam os dois ramais.
Em 1971, um caso até hoje não bem explicado e que teria envolvido o governador Laudo Natel fechou definitivamente as instalações de Bento Quirino. Ali, no entroncamento das duas ferrovias, havia perdido o sentido de existência: a saída do ramal desaparecera em 1968. Boa parte da estação e de seu pátio foi destruído. Os funcionários da São Paulo-Minas perderam muita coisa naquele dia. Logo em seguida, formou-se a Fepasa, sobre "as cinco ferrovias de S. Paulo", que, na verdade, já eram três: a SPM e a E. F. Araraquara existiam desde três anos antes apenas de nome. Quem as operavam eram a Mogiana e a Paulista.
Trilhos na entrada da cidade de Altinópolis em 2006/Ralph M. GiesbrechtNão sobrou muita coisa da São Paulo-Minas. A maior parte de suas velhas estações foi demolida. Apenas a linha entre a estação de Evangelina, na área rural de Ribeirão Preto, e São Sebastião do Paraíso, continuou em operação a partir da formação da Fepasa, num total de curtos 93 quilômetros, que foram abandonados de vez em 1998, com a entrega da Fepasa para a RFFSA e posterior privatização.
Estação de Altinópolis em 2006/Ralph M. GiesbrechtAs linhas estão hoje abandonadas; trilhos foram roubados em vários trechos, estações demolidas ou abandonadas. Apenas os prédios de Bento Quirino, Altinópolis, São Sebastião do Paraíso e de Serra Azul estão bem cuidados. As estações de Ribeirão Preto, Guardinha e Águas Virtuosas estão largadas.