sexta-feira, 14 de agosto de 2009

RURALISMO NO BRASIL

Nos últimos anos, quando lemos ou ouvimos sobre ruralismo no Brasil, vemos o que se refere aos ruralistas, ou bancada ruralista do Congresso: deputados ou senadores (desculpe os palavrões) que defendem seus negócios em áreas rurais que eles ou seus amigos possuem pelo País afora.

Porém, 60-70 anos atrás, a palavra tinha outro significado, bem mais singelo. Meu avô Sud Mennucci foi uma das pessoas que lutou pelo ruralismo no País. Até escreveu livros sobre o assunto. Do que versavam estes livros? Ora, percebendo antes de muita gente que o êxodo rural era uma catástrofe para qualquer País numa época em que apenas 30% dos habitantes moravam em zonas urbanas, ele tratou de minorizar a fuga dos campos.

Hoje em dia, mais de 80% das pessoas do Brasil moram em áreas urbanas, gerando a favelização e a violência urbana, com a consequente queda da qualidade de vida nas cidades, que incham cada vez mais. No seu livro (1930) “A Crise Brasileira de Educação” Sud escrevia que as escolas rurais deveriam ter em seu currículo matérias que versassem sobre a vida rural e não sobre a vida urbana, pois isto levaria as crianças a desejar mais e mais migrar para as cidades. E olhem que, como falei, o problema não era tão grave assim na época.

Lutou por isso sua vida inteira, principalmente depois da boa repercussão do livro, fácil de ler e de entender. Porém, teve pouco sucesso. Tanto que as poucas escolas rurais que foram criadas com esse objetivo foram fechadas definitivamente com a reforma escolar de 1970.

É verdade que hoje em dia existem televisão (esta, já há um bom tempo) e a Internet (esta, não há tanto tempo assim) que atrapalhariam e muito os planos de Sud para as escolas. Mas nem no tempo em que estas facilidades não existiam Sud conseguiu gerar o interesse suficiente, tendo morrido frustrado em 1948. O êxodo rural explodiu no País e deu no que deu.

Eu rodei muito pelas áreas rurais de São Paulo e de outros Estados nos últimos quinze anos em minhas pesquisas ferroviárias. Uma das maiores dificuldades que existem hoje é justamente encontrar pessoas nas estradas ou junto a elas para fornecerem informações de localização. Não há mais ninguém, é tudo um deserto de pessoas. A fuga causada pela mecanização e por outros fatores é um fato. As moradias abandonadas são comuns.

Em 1932 foi criada na Capital a primeira escola rural nos meios pensados por Sud: a Escola Rural do Butantan, localizada em terras do Instituto Butantan. Afinal, nessa época, o bairro era zona rural de São Paulo. Aliás, em mapas de 1920, onde ainda se acha a divisão oficial de área central, área urbana, área suburbana e zona rural, percebemos que bairros como a Vila Pompéia e mesmo os Jardins eram considerados zona rural. Podemos imaginar o que era São Paulo na época.

A professora Elisa Rocha vem tentando coletar a memória da Escola do Butantan, fechada há anos. Ela, inclusive, trabalha no próprio prédio, que era a casa de Vital Brasil, doada por ele para a instalação do Grupo Escolar. Ela conta que a dificuldade de se obter dados sobre essa escola é grande. E também não é tão fácil achar dados sobre o ruralismo em geral.

Muitas vezes quando comento isto com amigos, alguns deles dizem que “o Brasil ser o celeiro do mundo é coisa do passado”. Acho que confundem as coisas. Morar na área rural não significa impedir que haja industrialização. Tirem suas conclusões.

Na foto acima, do acervo deixado por meu avô, uma foto de crianças em atividade na Escola Rural do Butantan.

Um comentário:

  1. Olá, meu nome é Henrique de Oliveira Fonseca e sou estudante de História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Coincidentemente estudo o ruralismo no pensamento de Sud Mennucci. Estive por muito tempo atrás de informações que me esclarece sobre a vida deste intelectual, estou muito feliz pela existência de um parente que é interessado na vida deste grande homem e que já fez até um livro sobre sua biografia.
    Tenho tantas dúvidas sobre a vida do seu avô, por isso gostaria de saber onde encontrar este seu livro para comprar, para mim seria algo inacreditável, pois estive patinando em minha pesquisa por muito tempo e fico muito feliz pela possibilidade de encontrar novos rumos em meus estudos.
    Espero ansiosamente por notícias suas.
    Deixo meu e-mail, caso queria manter contato. henrique_ofonseca@hotmail.com
    Grato, Henrique O. Fonseca

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