domingo, 9 de agosto de 2009

O FIM DOS TRENS DE PASSAGEIROS NO BRASIL

Os trens de passageiros no Brasil acabaram. Todo mundo sabe disso – ou quase todo mundo. Sobraram somente os trens metropolitanos em algumas capitais, os trens da Vale – Carajás, Vitória-Minas e Drummond-Ipatinga –, o trem da E. F. Amapá (sim, existe e funciona!) e os trens turísticos, sendo diários o Curitiba-Paranaguá e o da E. F. Campos do Jordão.

E agora? Eles voltarão? Muita gente me pergunta isso e os jornais às vezes debatem a matéria. Muita gente sente saudades do tempo em que podia andar de trem, culpando o governo pelo seu fim – mas ninguém se lembra que a reação dos usuários pelo final desses trens foi praticamente nula.

Eles foram acabando a partir dos anos 1960 e terminaram de vez – fora as exceções citadas acima – em março de 2001, em São Paulo. Aliás, desde meados de 1998 que somente São Paulo os possuía. Em meados de 1996, existiam as seguintes linhas de passageiros regulares no Brasil, todas em São Paulo (repito, as exceções citadas acima funcionavam): Júlio Prestes-Presidente Epitácio, Santos-Juquiá, Luz-Barretos, Luz-Panorama, Campinas-Araguari e Luz-Santa Fé do Sul. Ou seja, as linhas-tronco das antigas Sorocabana, Paulista, Mogiana e E. F. Araraquara, mais a “linha do litoral” da Sorocabana.

Eram trens em mau estado de conservação e serviço cada dia pior. Aos poucos todos foram se acabando. Quando acabaram de vez em 2001, eram apenas três das linhas citadas acima e, mesmo assim, não com o percurso completo que tinham ainda em 1996.

Quem se utilizava desses trens eram gente muito simples e andarilhos, além de uma minúscula parcela de fanáticos por trens, gente que teimava em viajar para ainda sentir o restinho do que eles foram até vinte, trinta anos antes. Passagens baratíssimas, com preços irreais. E este é o problema hoje.

Quando se pergunta para as pessoas que morrem de saudades dos trens se elas voltariam a usa-las, elas dizem que sim, principalmente porque “eles sempre foram um meio de transporte barato”, comparando com as passagens de ônibus. E aí o problema pega. Se reativarmos qualquer linha, ela terá um preço muito mais caro do que antes, pois não se reativariam as mesmas porcarias que existiram no “fim dos tempos”. E aí, as pessoas usariam mesmo os trens, caros?

Outro dia vi um incauto reclamar do preço do trem turístico São Paulo-Jundiaí que corre todos os sábados pela CPTM desde o mês de abril. 28 reais. Caro? Se 28 reais é caro para fazer esse percurso, imagine-se quanto custaria para fazer São Paulo-Barretos, por exemplo.

A retomada dos trens regulares de passageiros, em qualquer ponto do País, não significaria apenas reformar linhas, locomotivas e carros, ou mesmo comprá-los novos. Significaria também a restauração de inúmeros pontos de embarque – leia-se estações ferroviárias – no seu percurso. Locais que hoje estão em sua grande maioria completamente deteriorados (mesmo que o prédio da estação em si tenha sido reformado) e que afugentam, por razões de segurança, as pessoas interessadas em tomar os trens para fazer suas viagens. Tais condições não afugentavam pessoas simples e andarilhos, mas com certeza seriam um empecilho para as pessoas mais abastadas que agora se disporiam a utilizar um trem mais caro do que ele era.

Enfim, as condições para se restaurarem as linhas que jamais deveriam ter sido abandonadas pela FEPASA e RFFSA não são fáceis de serem cumpridas. Por isso, a enorme dificuldade em se reativarem essas linhas – fora a falta de empenho do Governo em oferecer condições para tal.

14 comentários:

  1. No filme "Singles" (Vida de Solteiro, 1992), um dos protagonistas (Steve Dunne - Campbell Scott) trabalha no departamento de trânsito de Seattle. Ele é apaixonado por trens e prepara um projeto de um supertrem para apresentar ao prefeito local. Antes da apresentação, ele faz uma prévia para a namorada. Ela ouve, mas no fim diz: "as pessoas amam os seus carros". Na apresentação para o prefeito, a situação fica ainda mais constrangedora. O prefeito diz que já se deu mal com trens, e as pessoas se esquecem disso e ainda insistem nessa idéia. Agradece pelo tempo que o rapaz gastou no projeto, mas a palavra final dele é NÃO!
    Será que isso também não é uma triste verdade para o Brasil? As pessoas detestam o trânsito, mas amam os seus carros.

    ResponderExcluir
  2. As vezes fico pensando, reformar as principais estações. Reformar alguns carros de passageiros e pegar algumas Dash-9.

    Sp, Jundiai, Campinas, Sumaré, Americana, Limeira, Rio Claro, São Carlos, Araraquara, Matão e São José.

    Seria viavel, reformando as estações deterioradas, colocando esses trens em horáriso decentes e respeitaveis. Eu mesmo, falo por mim, mesmo custadndo 100 reais uma passagem para São José iria um ou duas veze por mês pra lá somente pra ter o prazer em andar novamente eum um trem de longo percurso em São Paulo.

    ResponderExcluir
  3. Ralph hoje saiu no Estadão uma reportagem interessante, com as reformas na Marginal viagens de ônibus de Jundiai a Sp estão levando uma hora e meia até duas horas. Até São José acho que até seria útopico termos trens de nv mas no percurso SP - Campinas acho que seria viável.A linha é praticamente dupla, trens saindo de hora em hora nos dosi caminhos achoq ue teria uma boa demanda e o tempo seria menor, eu mesmo ja pensei muitas vezes em sair de SP, ir morar em Campinas, Vinhedo ou Valinhos, um trem que fizesse esse percurso com uam boa média horária de velocidade e sem atrasos seria uma boa, eu repensaria e talvez me mudasse pra um dessas cidades.

    ResponderExcluir
  4. Que saudades do Trem de Prata que as 23h partia da Julio Prestes em direção ao Rio de Janeiro. No mesmo horário saia outro da estação Pedro II no Rio.
    Saudades também do trem azul da Paulista que fazia Baurú x SP.

    ResponderExcluir
  5. Olá Ralph,

    Sempre tive fascínio pelos trens. Com certeza foi devido ao contato que tive com eles quando era ainda criança e viajava com meus pais para a cidade do interior de onde vieram. O tamanho das locomotivas, dos vagões e de toda a composição, assim como a suntuosidade das estações e o vai e vem dos viajantes impressionavam qualquer um, ainda mais uma criança com tudo a descobrir.

    Agora muito mais velho, mas ainda fascinado pelo transporte ferroviário e após estudar um pouco sobre a Economia e o Desenvolvimento, principalmente dos países europeus e dos Estados Unidos, é possível acrescentar algo racional ou lógico na questão.

    A racionalidade histórica nos dá uma pista de que provavelmente a admiração que muitas pessoas têm pelos trens está registrada nos respectivos DNAs de cada um. Muitos autores demonstram que as estradas de ferro foram responsáveis pelo grande salto do desenvolvimento econômico dos séculos XVIII e XIX, fazendo com que um sistema que predominava desde a Idade Média e que era baseado no transporte puxado por animais fosse definitivamente superado.

    O argumento principal é que a velocidade máxima de uma carroça puxada por cavalos atingia no máximo 20 km por hora enquanto que os primeiros trens com locomotivas a vapor chegavam a atingir a velocidade de 90 km por hora. Essa diferença para maior de quase quatro vezes a velocidade a qual todos estavam todos acostumados proporcionou um novo patamar de deslocamento, responsável pela expansão dos mercados e domínio para fins de exploração econômica das terras mais distantes. Foi um impacto enorme nos nossos antepassados e que provavelmente ficou registrado no inconsciente geral. Até porque as ferrovias foram rapidamente implantadas nos países mais distantes e periféricos.

    O transporte automotivo mais leve, baseado em caminhões, ônibus e veículos ainda menores, os chamados automóveis de passeio, foi implantado nas duas primeiras décadas do século XX com outra abordagem. Apesar de inicialmente manterem o mesmo patamar de velocidade dos trens, proporcionavam maior flexibilidade, versatilidade e alcance sem restrições, pois não dependiam da existência dos trilhos.

    ResponderExcluir
  6. Apesar do avanço proporcionado pelas ferrovias, o sistema econômico desde então vem vivendo um grande conflito em relação à logística da movimentação física. A solução desse conflito estaria no equilíbrio dos vários tipos de modais, sendo utilizados conforme o custo x benefício dos recursos e resultados obtidos. Tal aspecto é flagrante na Europa e no Nordeste dos Estados Unidos, onde os modais de transporte parecem ter evoluído de uma forma muito equilibrada.

    No caso do transporte de passageiros é de encher os olhos de qualquer um os trens Acela Express (que correm no chamado NEC Northeast Corridor, provavelmente a localização geográfica mais privilegiada do planeta, pois liga a cidades de Washington, Philadelphia, Baltimore, Nova Iorque e Boston, entre as maiores e mais cotadas); os HSTs do Reino Unido; os ICEs da Alemanha, Bélgica, Holanda; os TGVs da França; os AVEs da Espanha e o ETRs da Itália. Todos se deslocando em velocidades altíssimas, concorrendo com o modal aéreo nos quesitos de tempo, conforto, segurança e preço.

    Nota-se, no entanto, que os trens de alta velocidade são um evolução dos trens de média velocidade que ainda correm nas linhas daqueles países. Alguns, como os da americana Amtrack, da inglesa FGW ou mesmo da DB alemã, são de uma qualidade, conforto e segurança que nunca tivemos por aqui.

    O interessante é que não precisei sai da minha casa para “ver” esses sistemas todos. Bastou um pouco de tempo e paciência para navegar no YouTube a partir de um link que apareceu quando estava vendo um vídeo sobre uma viagem realizada por um railfan chamado Ricardo em 1996. Meu presente entusiasmo pelas ferrovias também se deve às várias navegações que fiz no seu site Estações Ferroviárias. Uma coisa foi levando a outra.

    Acho que vale muito a pena continuar o debate sobre o transporte ferroviário, seja de cargas ou de passageiros. Tem sido noticiado ocasionalmente o projeto de um trem de alta velocidade entre São Paulo – Rio – Campinas. Se o debate for ampliado como se deve, muito provavelmente teríamos a possibilidade de ver um sistema moderno funcionando antes de deixarmos este mundo. Se poucos se interessarem, o mais provável é que o lobby do modal rodoviário irá prevalecer e o país continuará a depender dos ônibus, caminhões, automóveis, concessionárias de rodovias e outras indústrias desta cadeia.

    Um abraço.

    C.Alberto / Son of ’68.

    ResponderExcluir
  7. Carlos Alberto, sem duvida, não depender dos trilhos foi fundamental para o automovel, onibus e caminhão vencerem - mas isso não deveria ter significado o fim dos trens de passageiros no Brasil nem o abandono das ferrovias, pois estas têm vantagens que os "borrachudos" não têm. O fato de os trens não terem sido modernizados no Brasil a partir dos anos 1950 também contribuiu para o desinteresse do pessoal mais abastado e mais exigente deixar os trilhos para lá. Erro crasso do governo, a partir de 1960 dono de todas as ferrovias do país.

    ResponderExcluir
  8. Sr. Giesbrecht: sempre acompanho seu blog e as reportagens sobre ferrovias no Brasil. Nascí em Jaú-SP, em frente da antiga estação da CP e velha Douradense. Crescí parte de minha infância acompanhando as manobras no pátio ferroviário da rua Humaitá. (hoje existe uma rodoviária no lugar). Mas quero comentar sobre a reativação do transporte de passageiros por ferrovia. Pela primeira vez lí em seu blog a preocupação com o custo das passagens. Uma das causas da decadência da antigas ferrovias (incluida aí a famosa CP)foi o preço barato das passagens, os quais não acompanharam os custos operacionais. Esse assunto pode ser lido nos livros, como: O Drama das Estradas de Ferro no Brasil-Hugo de Castro e Douradense - A Agonia de uma Ferrovia-Tese de Mestrado de Ivanil Nunes da FAPESP. Será que esse pessoal que deseja a volta dos trens de passageiros estão dispostos a pagarem o preço correto de uma passagem atual? Muitos citam os trens europeus. Morei quase dois anos na Alemanha, nos anos 70 e viajei por toda a Europa de trem. Mas o preço da passagem era quae igual à uma passagem de avião. Usei o trem porque sou fanático por ferrovias e fazia turismo. Mas se estivesse com pressa ou viagem de trabalho, viajaria de avião. Assim, não sei se trem de passageiro seria viável em nosso país, com esse nosso baixo poder aquisitivo. O custo operacional de um ônibus é muito inferior a uma composição ferroviária. Não vai dar para concorrer. O preço baixo das passagens faliu a velha Douradense quando o transporte de café diminuiu e inviabilizou investimentos de modernização da Paulista. Quando a mesma foi estatizada,tinha uma dívida enorme(de empréstimos com bancos do exterior) e investimentos de modernização zero. Não dava lucro e mal conseguia cobrir os custos de manutenção. Por isso ocorreu o grande problema de aumento de salários que o pessoal reinvindicava e que terminou na estatização da companhia. Pode-se argumentar que o governo não permitia os aumentos necessários. Mas e se permitisse? Quem naquela época teria poder aquisitivo para viajar de trem? Assim, não acredito na viabilidade da volta dos trens de passageiros. Agora está na moda o famoso TAV. É esperar para ver no que vai dar.

    ResponderExcluir
  9. Eusafe, a situação é muito mais complexa do que isso. O fim dos trens de passageiros do Brasil foi causado por uma série de fatores, entre os quais a falta de visão (veja o artigo sobre a cegueira nos últimos dias) dos administradores (leia-se governo, pois depois de 1961 tudo foi estatizado) em ver um mercado que estava mudando. Além disso, não houve investimentos na malha ferroviária nem no material rodante para permitir que determinadas linhas lucrativas pudessem concorrer com o lobby das empresas de onibus. Quem sustentou os trens de passageiros sempre foi a classe mais abastada, e ela deixou de usar o trem porque as ferrovias não estavam investindo e as alternativas de automoveis e onibus e aviões foram se alastrando e diminuindo os preços. Enfim, foi culpa de ambos os lados evitando tomar a solução que certamente existia.

    ResponderExcluir
  10. REALMENTE SERIA INTERANSSANTÍSSIMO O TRANSPORTE FERROVIÁRIO RETORNANDO AS SUAS ORIGENS. TENHO MUITAS SAUDADES, DE QUANDO VIAJA DA MINHA CIDADE DE CLÁUDIO, PARA GONÇALVES FERREIRA EM MINAS GERAIS. ÁS VÊZES,EU CONSEGUIA DORMIR NA ESTAÇÃO FERROVIARIA PARA OUVIR AQUELE BUBÚRIO DAS RODAS DO TREM SOBRE OS TRILHOS, O APITO AO LONGE ANUNCIANDO SUA CHEGADA A ESTAÇÃO. SERIA MARAVILHOSO SE O NOSSO GOVERNO, JUNTAMENTE COM AS AUTORIDADES COMPETENTES PUDESSEM REATIVAREM TODAS AS ESTAÇÕES QUE ESTÃO ABANDONADAS, CLARO, SEM ESQUECERMOS DOS VAGÕES,ENFERRUJANDO AO TEMPO. OXALÁ TOMARA, QUEM SABE, UM DIA, ALGUEM, OU ESTE ALGUEM PUDESSE SER UMA AUTORIDADE DENTRO DA POLITICA, SE INTERESSARIA, QUEM SABE, SOBRE ESTE TEMA TÃO APAIXONANTE. ESTAÇÕES FERROVIARIAS E VAGÕES ABANDONADOS.

    ResponderExcluir
  11. Caro Ralph, seu blog é ótimo. E é bom saber da existencia de pessoas que ainda amam as FERROVIAS aqui no Brasil.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  12. o Brasil é realmente um país de filhos da puta mesmo! Pela volta dos trens ninguém faz nada! Ninguém se mobiliza.Mas para organizar uma marcha em prol do uso da maconha, conseguem mobilizar mais de 10mil pessoas. País desgraçado, viu!

    ResponderExcluir
  13. -Vamos nos unir para assinar e divulgar uma PETIÇÃO PELA VOLTA DE TRENS DE PASSAGEIROS no Brasil?

    -Segue o Link: https://secure.avaaz.org/po/petition/Queremos_a_volta_dos_trens_de_passageiros_por_todo_o_Brasil/

    -Quem assina, compartilha, divulga?

    ResponderExcluir