sábado, 8 de janeiro de 2011

UMA OPINIÃO SOBRE A FARRA DA CRIAÇÃO DE MUNICÍPIOS NO BRASIL

Segundo o censo de 2010, o município de Canitar tem 4.369 habitantes. Acabemos com ele ou não?

Muitas vezes questionei a existência de tantos municípios por todo o Brasil. Vejo por aí muitos deles com populações bastante reduzidas, que não deveriam, segundo a linha de raciocínio "econômica", de forma alguma, ser mantidos como tal. Nessa linha, eles teriam de ser reincorporados a outros municípios maiores, construindo-se, no entanto, uma rodovia necessariamente asfaltada ou até uma linha de barcos ou aviões regulares (neste último caso, estou falando dos Estados amazônicos) para ligá-los à sede para uma comunicação rápida e periódica.

Há municípios que não têm estrada asfaltada que os ligue a outros e, neste caso, não estou falando de sede ao distrito, mas sim de sede a sede! Exemplo? Há um aqui pertinho de São Paulo - pouco mais de cem quilômetros - já em Minas Gerais: Consolação, entre Cambuí e Paraisópolis. Como pode se manter viável como município?

Como pode um município de 2.000 habitantes ter o mesmo número de vereadores que um de, por exemplo, 40 mil? Somando-se estes vereadores aos prefeitos e inevitáveis secretários, por exemplo, teremos gastos incompatíveis e desnecessários com relação à população. É verdade que dois municípios podem ter a mesma baixa população e arrecadação muito diferentes - um ser rico e outro pobre - mas mesmo assim o número de pessoas na representação não justifica a sua existência.

No início dos anos 1930, Getúlio Vargas determinou aos interventores dos Estados brasileiros que revissem a divisão municipal e a refizessem em bases realistas e não políticas. São Paulo fez isso. Não sei como a coisa fluiu nos outros estados. Meu avô participou desta comissão. Em 1935, saiu o resultado: embora tenham se criado vários municípios, outros foram extintos. Vi diversas partes do estudo. Ele se baseou em critérios de população, renda e facilidade de comunicação com os outros e com os distritos. As ferrovias pesaram muito nesta redivisão, na época. O livro que fala sobre a teoria utilizada para este estudo é muito interessante e se chama Brasil Desunido. Raríssimo e interessantíssimo.

Porém, o mundo mudou. Hoje, e já há um bom tempo, o critério para a abertura de novos municípios no Brasil é basicamente político, embora os políticos que o promovam neguem isto. Sempre tentam basear-se - em suas explicações para a população - que a sua criação é necessária por causa de critérios econômicos, por causa do "patriotismo" ("a população exige a criação deste município para satisfazer seu anseio de anos", como se alguém hoje em dia ligasse para isto)... mas o que querem mesmo á a criação de novos cargos para se elegerem novos vereadores, prefeitos e indicar secretarias que redundarão em novos e muitas vezes desnecessários gastos para as populações. Como muitos destes municípios criados - uma série deles foi criada após a Constituição de 1988 - não se autossustentam, a União tem de dispender dinheiro para mantê-los, avançando, em teoria, em verbas que poderiam ter outras destinações.

Aqui, apenas um adendo com relação ao citado "patriotismo municipal", citado acima: principalmente nas cidades em volta de cidades muito populosas, como Campinas, Santos e São Paulo, os habitantes desses municípios lindeiros dificilmente dizem que moram "na cidade ou no município tal", mas sim em Campinas, Santos ou São Paulo... enfim, para uma pessoa menos culta e mais em recursos, não interessa onde ela more, o que importa é sobreviver.

O último censo de 2010 mostrou que dos 645 municípios paulistas, 67 têm menos de 2 mil habitantes. 157 têm menos de 5 mil e 279 têm menos de 10 mil habitantes. Ou seja, mais de 43% dos municípios paulistas têm menos de dez mil habitantes cada. A população do Estado é superior a 41 milhões de pessoas e quase 18 milhões delas moram em cidades com menos de 10 mil pessoas.

Voltando ao raciocínio econômico: por este, deveria ser decretada a extinção de todos esses quase 300 municípios. Teoricamente, isto economizaria uma boa quantia (impossível de se calcular rapidamente) para os cofres públicos. Num cálculo rápido, pelo menos 3.000 pessoas que ocupam cargos públicos seriam dispensadas de suas funções (incluo aqui prefeitos, vereadores e alguns secretários). Seriam mais, com certeza, incluindo outros cargos não eletivos.

Porém, é inevitável que, mesmo com boas comunicações por rodovias (hoje, não há mais trens de passageiros, como sabemos), esses municípios extintos não serão tão bem cuidados assim. Além disso, a perda de mais de 3 mil empregos oferecidos hoje por essas cidades fará com que muitas famílias migrem para a sede ou mesmo outras cidades. Isto fará com que outras cidades inchem a curto prazo, aumentando ainda mais o êxodo rural e aumentando a população e a superpopulação dos outros centros.

Diferentemente de 1930, quando 70% da população brasileira vivia na área rural, hoje, quanto mais pessoas vivem nela (e aqui estamos incluindo no termo "área rural" essas cidades pequenas, que, na verdade, são zonas urbanas incrustadas em área rural), melhor é para o que chamamos de "qualidade de vida", para ambos os lados: para a cidade pequena e para a cidade grande (ou maior).

Portanto, por mais absurdo que seja em termos econômicos e por mais que sejam mentirosos os motivos para a criação de novos municípios, parece-me melhor tê-los que não tê-los. Vem daí, no entanto, a questão: vale a pena continuar criando novos municípios em áreas mais afastadas dos grandes centros (com certeza, não adianta criar novos municípios ao redor de cidades muito grandes, já conurbados com estas)?

Não sei. Acho, no entanto, que vale, dependendo de cada caso. E estes deveriam ser muito bem estudados e nunca levando em conta somente a vontade de políticos espertos. Deveriam também, para municípios com baixa população, digamos, abaixo de 10 ou 5 mil habitantes, reestudar o critério de mínimo de 9 vereadores.

Enfim, não podemos cair na tentação de fundar municípios apenas por criá-los, sem analisar a fundo o impacto que isto terá em outros assuntos mais relevantes. Esta linha de pensamento desenvolvi depois de visitar diversos municípios e distritos no oeste paulista durante a semana anterior;

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NOSSOS BELOS IMÓVEIS SE DESFAZEM

Em Dois Córregos, enquanto as casas da cidade são exemplarmente mantidas, a vila ferroviária se desfaz em poeira. Na foto, vista de duas janelas, o interior da estação - Foto Alexandre Giesbrecht em 1/1/2011

Na Revista de História da Biblioteca Nacional deste mês de janeiro, uma reportagem sobre o Palacete do Barão do Rio Pardo onde o entrevistado fui... eu! Nem por isso o palacete está bem de vida. É de 1883 e está caindo, aliás, parte já caiu. Próximo à estação de Julio Prestes - na época, chamada de Estação São Paulo -, esta foi exatamente o motivo pelo qual o barão a construiu ali: o bairro tinha, então, apenas quatro ou cinco anos de existência e com as facilidades de locomoção para o interior por uma Sorocabana que ia avançando rumo a Botucatu (chegaria lá em 1888). Veja mais sobre o palacete no site de Douglas Nascimento, São Paulo Antiga.

Mas o patrimônio imobiliário paulista continua sofrendo: em Vinhedo, cidade que conheço pouco, o CONDEPHAAT tombou, no centro da cidade, pelo que entendi, as matas e a casa-sede da Fazenda Cachoeira, com cerca de duzentos anos de idade. Porém, os donos não se conformaram e hoje existe uma batalha judicial pelo cancelamento do terreno. Enquanto isso, o casarão se deteriora. Embora eu torça pela vitória da conservação, pimenta nos olhos dos outros é colírio: a venda do terreno com a demolição da casa e derrubada da mata certamente renderá muito mais aos donos que a exploração da área para turismo. Infelizmente, aqui não é a Europa.

No passeio que fiz por parte do interior paulista na semana passada, nota-se que as casas antigas, justamente as que fazem hoje a diferença em qualquer cidade, estão desaparecendo. Em algumas, ou não existe quase nada ou o que existe não é conservado. Apenas em duas delas vi o patrimônio sendo valorizado: em Agudos e em Dois Córregos, a conservação das casas parece estar na educação dos moradores. São cidades pequenas, onde isso pode facilmente se espalhar. O mesmo ocorre no pequeno vilarejo de Varpa, no município de Tupã.

É preciso que essa filosofia se espalhe. Mas de que forma podemos conseguir isso? Somente mesmo por educação de berço. Aulas na escola desde o jardim de infância sobre a valorização da história dos locais em que se vive. Por que somente em algumas cidades se investe na manutenção de belas fachadas e das casas? O que há de diferente nelas? Afinal, isso não existe somente em cidades pequenas. Existe também, por exemplo, em Curitiba, cidade bem maior do que as citadas acima.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PEQUENAS CIDADES

Fachada da estação ferroviária em Bernardino de Campos.

Para chegar a Bernardino de Campos a partir de Ipaussu, saí por volta de 11 horas e peguei a estrada. A um certo ponto existe a entrada para uma fazenda que visitei em 2004 com minha esposa quando estávamos a caminho de Londrina. É a Fazenda Palmeiras, que tinha ao lado uma bela estação de nome Luiz Pinto e que foi demolida ainda nos anos 1990. Muito interessante o local, mas desta vez não parei ali. Fica o relato para uma outra vez.
Plataforma da estação de Bernardino de Campos. Reparem na pintura.

Cheguei a Bernardino de Campos. A cidade está bem cuidada, mas não exatamente ao longo da linha férrea, exatamente onde nasceu em 1908, a parti da estação que então havia recebido o nome de um presidente do Estado no final do século XIX. As construções não são muito interessantes, mesmo a estação tem um prédio certamente não o original. Este, dizem os registros, foi entregue em 1939 e tem a mesma tipologia arquitetônica da estação de Lençóis Paulista, construída na mesma época.
Com o nome da estação em letras típicas dos anos 1930, bonitas, os desenhos infantis são uma agressão ao edifício da estação. Aliás, eu gostaria de saber quantos habitantes desta cidade sabem quem foi o seu patrono...

Ela fechou nos anos 1990; esteve semi-abandonada, estava bem mal cuidada quando ali estive em 1999, mas agora funciona abrigando órgãos da Prefeitura local. A pintura tem desemnhos infantis: isto tornou o prédio horroroso. Há ainda algumas casas em volta, inclusive o veho armazém. Como nas outras cidades na região da linha da velha Sorocabana, o tráfego de cargueiros é apenas eventual.
"Downtown" Batista Botelho. A vila não é muito mais do que isso.

Saí da cidade, passando então por um vilarejo de nome Batista Botelho, sede de um distrito do município de Óleo. Este foi constituído no final do século XIX, mas jamais se desenvolveu: sua permanência como município já por mais de cem anos é uma verdadeira aberração. Nem Batista cresceu, embora esta sim estivesse junto à linha: a vila não tem mais do que meia dúzia de quarteirões, com algumas casas antigas e de madeira. A Óleo, nunca fui, mas fica longe da linha. A estação de Batista Botelho foi demolida nos anos 1980, sobrando somente a plataforma.
Fachada da bonita estação ferroviária de Cerqueira César.

Continuei a viagem, passei direto pela saída para Piraju, por Manduri, pela saída para São Berto e cheguei a Cerqueira César, a antiga Três Ranchos. Esta estação, depois cidade, foi instalada em 1896 pela Sorocabana e permaneceu como terminal da linha-tronco por dez anos. Isto fez com que seu crescimento fosse grande nesse período, começando a decrescer quando à medida que a linha começou a avançar para os lados de Manduri, Piraju, Ourinhos e dali até o rio Paraná, onde chegou em 1922.
Câmara Municipal de Cerqueira César.

Com isso, Cerqueira César manteve muito de seus prédios mais antigos e não cresceu grande coisa. A estação, por seu estilo, aparenta ser a mesma dos tempos de sua fundação. Dois andares, janelas arqueadas... bonita. Hoje é sede, também, de órgãos da Prefeitura local.
Este pequeno rio - Ribeirão do Lajeado, segundo o mapa do IBGE - acompanhava a linha original da Sorocabana (arrancada por volta de 1960 por causa da abertura de uma variante do outro lado da cidade) por toda a passagem pela cidade. A linha estava à direita.

De lá fui a Avaré, cruzei a cidade e segui pela rodovia que a liga com a rodovia Castelo Branco. A intenção era seguir por uma outra estrada, que a liga com Itatinga e somente ali chegar à Castelo; mas a sinalização omissa de Avaré fez com que eu acabasse mesmo chegando à estrada que eu não queria.

Pela Castelo Branco, um estirão só até minha casa, onde cheguei perto das cinco da tarde. Fim de uma viagem de dois dias pelo interiorzão, nas antigas "terras desconhecidas e povoadas por índios" de cem anos atrás. Era o dia 29 de dezembro da semana passada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DE OURINHOS A IPAUÇU

Chavantes - casas antigas não há muitas lá. Esta foi bonita um dia, mas muito terá de ser feito se quisermos recuperá-la

Cheguei em Ourinhos no final da tarde do último dia 28 de dezembro, uma terça-feira. Já a conhecia, de uns 6 anos atrás. É interessante - tem um grande pátio ferroviário, mas, quando a linha chega de São Paulo, entra pelo meio dos quarteirões do centro da cidade para chegar à estação. As porteiras estão abertas quase sempre, já que não há trens regulares (cargueiros, claro). Os carros aguardam os semáforos em cima da linha. Se surgir um trem buzinando ao longe, deve ser um escarcéu.
Rio Paranapanema visto no sentido foz, da ponte sobre ele entre os municípios de Ourinhos e de Jacarezinho, na BR-153.

Fiquei por lá mesmo nessa noite, num hotel novo e pequeno, bastante agradável, perto da saída para a ponte sobre o Paranapanema. Pela manhã do dia 29, peguei o carro e saí. Cheguei à rodovia e não havia sinalização indicando coisa alguma. Tomei a direita e segui. Não sabia qual estrada era nem aonde levava. Somente encontrei placas de retorno nos cerca de 2 quilômetros por onde dirigi. De repente cheguei à ponte sobre o Paranapanema. Ou seja, tive de entrar no Paraná, sem querer. Atravessei a ponte e do outro lado, já no estado vizinho, havia uma rotatória pequena. Em frente, dois pedágios: a rodovia se bifurcava ali, à direita para Londrina, à esquerda para Jacarezinho. Cada uma tinha suas cabines. É fogo! Atravessei de novo a ponte e fui no sentido contrário, onde acabei finalmente encontrando a saída para Ipauçu.

Em Canitar, uma das casas de madeira

No meio do caminho para essa cidade, encontrei Canitar, a antiga Fortuna, e entrei. É município, embora seja pequeníssima. Nasceu em 1923, com a estação. O censo recente registrou menos de 4.400 habitantes. Nem praça central tem. Casas velhas, poucas: a maioria são casas pequenas, algumas modernas, outras sem estilo algum e várias de madeira - estas, as mais antigas. A igreja fica numa esquina e a antiga estação da Sorocabana é a sede da Prefeitura. Entre esta e a rua principal, um campo mal cuidado e estreito. Realmente, o critério de se emancipar municípios no Brasil é estranho. Do outro lado da Prefeitura, a linha férrea, ainda com um desvio. Do outro lado dela, campo apenas. A cidade acaba ali. São poucos quarteirões urbanizados, realmente.

Esta casa, ao lado da estação ferroviária de Canitar, deve ter sido da ferrovia, possivelmente a acasa do agente da estação. Do outro lado, a cobertura do ginásio de esportes. Ou seja, a área ferroviária desapareceu...

Deixei Canitar e segui para Chavantes. A cidade é maior e cresceu para os dois lados da linha. Estava com muito movimento nas estreitas ruas centrais que correm ao longo da linha, como em Ourinhos, mas havia muitos carros estacionados. Com as passagens de nível, era tudo uma bagunça. Acho que proporcionalmente a cidade tem um dos piores trânsitos do Estado...
Armazéns ferroviários em Chavantes. Há outros prédios iguais e provavelmente a construção demolida ao lado deles (em primeiro plano) teria sido igual

Em Chavantes há uma porção de armazéns ferroviários ao longo das ruas. É possível que tenham existido vários desvios que as cruzassem... alguns depósitos parecem abandonados, outros estão ocupados por negócios vários. A conservação não é das melhores. Há algumas casas interessantes na cidade. A estação está ocupada por uma pequena loja de artesanato e tem o estilo neocolonial, como Assis, mas com apenas um andar. Certamente não é o prédio original.

Bela casa numa esquina da cidade antiga em Ipauçu

Parei o carro, tirei algumas fotografias e saí no sentido, agora sim, de Ipauçu. Esta, antiga Ilha Grande, tem o pátio ferroviário fora da zona urbana mais antiga. Para chegar nela, há de passar pelo centro da cidade e pelo lago que ali existe, com pelo menos um hotel para turistas, aparentemente tipo balneário. Aí chegamos ao pátio e vemos que a estação, enorme, construção dos anos 1960, está em ruínas. É do tipo da atual de Ourinhos, "modernosa", toda de concreto, mas em ruínas. O armazém ao lado e as diversas casas de ferroviários estão em mau estado, com exceção de uma ou outra.
Esta casa da ferrovia em Ipauçu parece bem, é bonita. Porém, não está tão bem cuidada assim e há diversas descaracterizações

A área ferroviária de Ipauçu parece um cemitério. Uma pena, mesmo. Eu já havia passado por lá cerca de 10 anos antes. Parece que muita coisa foi demolida desde então e outras coisas sofreram bastante a ação do tempo. Reformando e restaurando tudo aquilo daria um local muito agradável... até mesmo como um hotel ao ar livre, ao lado da linha hoje com pouco movimento. Era perto das onze da manhã quando deixei a cidade, seguindo para São Paulo. Porém, havia ainda uma ou outra parada por fazer.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CARDOSO DE ALMEIDA, QUASE 90 ANOS DE ABANDONO

No meio do canavial, a ferrovia encosta na rodovia, de onde tirei a fotografia, e segue para Ourinhos. Notar os postes de eletrificação, hoje inúteis.
Ao sair de Paraguaçu Paulista na tarde do último dia 28 de dezembro, segui para Cardoso de Almeida. Próxima à rodovia, à esquerda dela, cruzamos a linha e chegamos ao vilarejo. O que impressiona ali é um velho casarão, que estaria abandonado desde a revolução de 1924. Isto mesmo, não é engano. Os revoltosos que fugiram da Capital pelos trens da Paulista chegaram a Bauru e dali tomaram os da Sorocabana no sentido de Botucatu e do rio Paraná.

O casarão de Cardoso de Almeida desmoronou atrás...
Assaltaram inúmeros caixas de estações ferroviárias - o que significa que ordenaram que o trem parasse em cada uma delas - e, em Cardoso de Almeida, num episódio pouco explicado, foram até a sede da fazenda Pouso Alegre, muito próxima à estação e ali a unvadiram, destruindo por vandalismo muita coisa no seu interior. Desiludidos, José Giorgi e sua família jamais recuperaram o que sobrou. Para saber mais sobre o casarão, veja Lugares Esquecidos-Cardoso de Almeida.

...mas a frente ainda se mantém.
O casarão ficou em pé - mas recentemente, quase 90 anos depois, parte da sua traseira desmoronou. Será recuperado? Havia alguma indicação à sua volta de que alguma obra estaria começando, mas não havia absolutamente ninguém no local quando ali estive.

A bela igreja do local. Fechada.
Próximo a ele, uma casinha, à sua frente a vila ferroviária e o armazém (a estação já foi demolida há muito tempo) , mais para trás, uma bela igreja e um coreto. Mais ao longe, pequenas casas de fazendas mais novas. E ninguém no horizonte.

O coreto, ao lado da igreja.
Dali para Assis foi um pulinho. A estação seguinte seria Cervinho, mas eu já sabia que nada mais resta dela há décadas. Depois, a cidade e a estação de Assis, surgidas praticamente juntas, em 1914. Assis é maior do que Paraguaçu. Em termos ferroviários, teve muita importância. Ali se encerrava a eletrificação da linha da Sorocabana, e se trocavam as locomotivas elétricas pelas diesels. Também foi até ali que chegou a retificação da linha original da estrada. Dali para a frente, praticamente não se mexeu. A linha eletrificada da ferrovia abriu seu primeiro trecho em 1944, até Santo Antonio (Iperó) e levou 22 anos para chegar a Assis. É portanto, algo não tão antigo assim. Em 1999, a eletrificação foi desativada e os fios retirados. Sobraram vários postes, tanto de concreto quanto de ferro.

A vila ferroviária, bastante modificada e mal cuidada.
Apesar do tamanho e do crescimento, a cidade tem ainda uma ou outra casa de madeira. Até fotografei duas delas, pequenas e simpáticas, não muito distantes da linha. Entrei depois no prédio da estação e vi o museu que existe ali dentro. Como tudo que é museu no Brasil, com pouquíssimas exceções, há pouca coisa, mas é interessante. O interior da construção está bem conservado. O prédio é de 1926, uma construção em estilo neocolonial, mas a anterior era aquele prédiozinho típico da Sorocabana de então. As escadarias internas são muito bonitas. Não são muitas as estações dessa ferrovia que tiveram dois andares.

O armazém ficou de pé, a estação não. A linha está do outro lado dele.
De Assis segui para Ourinhos. O trecho entre essas duas cidades foi contruído entre 1908 e 1914 e passa mais afastado, ao sul da rodovia que liga as duas. Não entrei em nenhuma das cidades nesse intervalo: Cândido Mota, Palmital, Ibirarema, Salto Grande e algumas pequenas estações de "meio de caminho", estas todas já demolidas, sem exceção. A única foto que tirei ali foi no ponto em que, entre Ibirarema e Salto Grande, mais ou menos, a ferrovia encosta na rodovia - ali a Raposo Tavares - e se afasta no meio de um canavial, nesta época do ano ainda bastante baixo. A foto abre esta postagem.

Em seguida, cheguei a Ourinhos, onde pernoitei.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CIDADES FANTASMAS

O vilarejo de Sapezal sofreu barbaramente com a decadência.
Pouco depois de sair de Quatá sete dias atrás no sentido de Assis pela SP-284, entrei à esquerda no bairro de Sapezal.

Na verdade, chamar Sapezal de bairro é elogiar demais a localidade. O que existe ali realmente é praticamente uma cidade fantasma. Pouquíssimas casas antigas de alvenaria ou de madeira em más condições e uma estação ferroviária que é a única construção em bom estado - pelo menos externamente. Os trens cargueiros ainda passam muito de vez em quando, já que não há cargas regulares para lá - ou a ALL nada faz para consegui-las. O que existe é em alguns finais de semana um trenzinho a vapor com uma locomotiva e dois carros que vem de Paraguaçu Paulista, sede do município. A estação foi reformada justamente por causa deste trem.

A estação de Sapezal, recentemente reformada.
Porém, fora a casa atrás desta, que está supostamente em reforma, nada mais está em bom estado. Até as vacas estão magrelas. As ruas sem asfalto mostram um presente que não condiz com um passado longínquo: nos anos 1930, por dois anos, Sapezal foi sede do município do mesmo nome. Por diversos motivos, a decisão foi revertida e a cidade reduziu-se ao que é hoje. Existe até um livro sobre a história de Sapezal.

O rio Capivara, fotografado para o sul, no ponto em que cruza sob uma ponte a SP-284.
Saí de lá e voltei à rodovia, de onde segui para Paraguaçu. Porém, antes, entrei num pequenino bairro rural - digo rural, pois é separado da sede por campos - de nome Conceição de Monte Alegre. Eu tinha curiosidade em conhecer este local, que foi o embrião de diversos municípios na Alta Sorocabana, inclusive Paraguaçu e Sapezal. Constituído no final do século XIX, foi fundado, segundo a história, pelo lendário José Teodoro, natural de Pouso Alegre, MG e chamado de "bandeirante do século XIX" por ter sido um dos pouquíssimos desbravadores das matas inexploradas do oeste da Província.

A fachada da insípida estação de Paraguaçu Paulista: uma estação como a de Quatá, porém maior.
Era de se esperar que Conceição mantivesse ainda alguma reminiscência de seus tempos mais gloriosos. Foi extinto na mesma época de Sapezal, mas, de antigo nos pouquíssimos quarteirões em volta da igreja, somente uma ou outra casa de madeira. O resto é uma praça e meia dúzia de ruas asfaltadas e bem cuidadas e casas de alvenaria que não têm muitos anos de existência. Eu arriscaria dizer que nenhuma destas existia na época em que era município.

Plataforma da estação de Paraguaçu.
Ao contrário de Conceição, que perdeu sua condição por estar longe da linha da Sorocabana (e não tão longe - não deve haver mais do que cinco quilômetros de lá até a estação ferroviária de Paraguaçu, que, por algum tempo, na sua inauguração em 1914, foi chamada pelo povo de estação de Conceição de Monte Alegre), Sapezal tinha linha e definhou muito mais. É sempre difícil de se prever o futuro de vilarejos. Conceição é um local bastante tranquilo e agradável, além de bem cuidado. Mas é pequeníssimo, também. Aliás, justamente por possuir quase somente casas novas, não me interessei em tirar a câmara do estojo e fotografar.

Virador na estação de Sapezal, instalado apenas para que a locomotiva que vem de Paraguaçu possa fazer o retorno de frente
Conceição de Monte Alegre não pode ser chamada, claro, de cidade fantasma. Mas foi um município que desapareceu, como desapareceu outro contemporâneo, Campos Novos, não muito longe dali (embora tenha recobrado a autonomia anos depois). E como foi Espírito Santo da Fortaleza, núcleo de Bauru que perdeu a autonomia em 1896 com a mudança da sede do município justamente para a outra cidade e que logo depois passou a ser distrito de outro município (São Paulo dos Agudos) e finalmente desapareceu - mesmo com uma estação ferroviária ali plantada em 1903 com o nome de Piatã. Hoje, sumiram a estação, a linha (ramal de Agudos) e o vilarejo. Nada sobrou.

Depois, segui para Paraguaçu Paulista. Em uma das maiores cidades da região, segui direto para a estação, em mau estado, mas sendo reformada. De lá parte o tal trenzinho turístico do qual falei mais acima.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DOIS CORGO ONTEM

A estação e o que sobra do incêndio de dez anos atrás. Reparar no relógio sobre a porta.
Cheguei do meu "tour" de carro pelas Altas Noroeste, Paulista e Sorocabana na quarta-feira e na quinta já estava dirigindo de volta para a fazenda de meus cunhados em Brotas. O sossego de lá é uma beleza, extremamente relaxante. Sem internet... sem preocupações. Hoje voltamos, eu e minha esposa, debaixo de muita chuva por grande parte do caminho. São 250 quilômetros.

O banco na praça, dons bons tempos dos ferroviários e dos telefones de dois algarismos
Saí da fazenda apenas duas vezes. Anteontem, fomos a downtown Brotas, visita rápida, e ontem eu e meu filho Alexandre fomos a Dois Córregos, que antigamente era Dous Corregos e hoje é, para muita gente, Dois Corgo. Muita gente que não conhece a cidade deve se lembrar do nome por causa daquele filme do final dos anos 1990 que levava o nome da cidade.

Uma das belas casas da cidade
O município é bastante antigo. É de 1874. Quando foi instalado, a Província tinha apenas 45 municípios. Como muitos outros de São Paulo, o progresso veio com o café.

Não sei o que era ou é este prédio, mas a figura de Ícaro é muito bonita
Apesar de ter recebido uma linha da Companhia Rioclarense em 1887 e, doze anos depois, uma bifurcação ali que seguia para Agudos, já aqui com a Companhia Paulista, que havia adquirido a Rioclarense em 1892, a cidade acabou estagnando. Talvez tenha sido "obscurecida" pelo grande crescimento de Jaú, ali perto, mas o fato é que a cidade parou rapidamente de crescer.

Esta casa aparentemente caiu e está sendo demolida. Pena.
Em 1966, perdeu a segunda linha que ia para Agudos e passou a ser somente estação de passagem. Com um prédio grande e muito bonito, provavelmente em grende parte por causa de ter de atender duas linhas, a estação construída em 1912 ganhou fama como sendo cópia da estação ferroviária de Marselha. Papo furado, mas a lenda urbana se perpetuou. No final do século 20, um filme de Carlos Reichembach levou o nome da cidade. Deram um "tapa" na estação, já bem mal cuidada pois os trens de passageiros da Fepasa que ainda passavam por ali já não garantiam coisa alguma e ela apareceu no filme como se fosse nova.

Outra bela casa da cidade
O fato é que infelizmente no ano 2000 ela pegou fogo, já abandonada. E nunca mais ninguém a restaurou. A estação e a vila ferroviária, inclusive a parte construída em 1940 quando da eletrificação da linha e da construção da subestação elétrica, foram totalmente abandonadas pelo Governo Federal (a Fepasa foi entregue à moribunda RFFSA em 1998) e, com um incêndio então, estão hoje jogadas às traças.

Um belo vitrô antigo mantido sobre a janela hoje de vidro temperado
O resto da pequena cidade, no entanto, situada entre os dois córregos que lhe deram origem, está muito bem cuidada. Limpa, com os diversos prédios antigos muito bem cuidados e uma praça central (o que antes se chamava de Jardim Público) em excelente estado de manutenção garantem uma vida tranquila e bem bonita para quem lá mora.

Uma casa infelizmente descaracterizada com a colocação de janelas de ferro em lugar das de madeira, mas ainda do tempo das varandas laterais. A construção pode ser do século XIX
É claro que, com a visita que fizemos na manhã de primeiro de janeiro, estava melhor ainda - ninguém praticamente nas ruas, somente uma sorveteria aberta e um bar de esquina com almoço. Longa vida para a simpática Dois Corgo. As fotografias são de Alexandre Giesbrecht.