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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

NOMES ESTRANHOS NOS LUGARES ERRADOS

Estação de Canguera (Foto Rodolfo Sirmanas)

A estação ferroviária da Central do Brasil - é assim que é chamada - se chamava Dom Pedro II. Os trens de subúrbio da Central tinham na frente esse nome quando andavam no sentido do centro. No tempo do Império a estação se chamava Estação da Corte. Não sei exatamente quando passou a ter o nome do Imperador, mas essa não foi a primeira estação que teve esse nome. Acredite ou não, em 1886 foi inaugurada a primeira estação de Dom Pedro II... em Mineiros do Tietê, Estado de São Paulo. Foi a Companhia Rio-Clarense que a construiu, e, aliás, o prédio existe até hoje. Em 1892, a estação foi comprada pela Companhia Paulista, já com o nome de Mineiros. Somente em 1944 o nome foi alterado para o atual.

A estação de Julio Prestes, em São Paulo, todos conhecem. Mas ela tem esse nome desde 1951, antes era estação São Paulo, nome oficial, mais chamada de estação da Sorocabana. Ela teve o nome "importado" de uma estação em São Roque, que teve esse nome antes que a de São Paulo, de 1949 a 1951. Antes e depois ela se chamou e chama Canguera, num bairro de São Roque.

Nomes populares substituindo na boca do povo os nomes oficiais sempre existiram, principalmente onde essas estações eram apenas um ponto no meio de uma cidade grande. A estação de Santos, da São Paulo Railway, era chamada de estação do Valongo. A estação de Juazeiro, na Bahia, era a que ficava na beira do rio, mas existia uma outra, também antiga, de nome Teodoro Sampaio. Ninguém na cidade, no entanto, a chamava assim, mas de Piranga, nome do bairro onde ela estava - e ainda está, em ruínas. Mas se perguntarmos pela estação pelo nome oficial, ninguém sabe qual é.
Esta estação já se chamou, um dia, há mais de 110 anos atrás, Dom Pedro II
A estação de Salvador, Bahia, jamais se chamou Salvador. Era Jequitaia no início e depois virou Estação da Calçada. Em Porto Alegre, era chamada de Castelinho, pelo seu aspecto arquitetônico. Em Campinas, a estação da Paulista tinha esse nome de "estação da Paulista", e não Campinas, seu nome oficial. Havia outra, a da Sorocabana, que se chamava Campinas também, mas que o povo a conhecia como Bonfim.

Em Alagoinhas, Bahia, o povo chamava a estação de São Francisco, mas no dístico estava "Alagoinhas". Na verdade, havia outra estação na cidade com o nome desta. Ponta Grossa tinha a estação chamada com este nome, mas, durante um bom tempo, seu nome oficial era Roxo de Rodrigues. Ninguém usava este nome.

Voz do povo, voz de Deus.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DOIS CORGO ONTEM

A estação e o que sobra do incêndio de dez anos atrás. Reparar no relógio sobre a porta.
Cheguei do meu "tour" de carro pelas Altas Noroeste, Paulista e Sorocabana na quarta-feira e na quinta já estava dirigindo de volta para a fazenda de meus cunhados em Brotas. O sossego de lá é uma beleza, extremamente relaxante. Sem internet... sem preocupações. Hoje voltamos, eu e minha esposa, debaixo de muita chuva por grande parte do caminho. São 250 quilômetros.

O banco na praça, dons bons tempos dos ferroviários e dos telefones de dois algarismos
Saí da fazenda apenas duas vezes. Anteontem, fomos a downtown Brotas, visita rápida, e ontem eu e meu filho Alexandre fomos a Dois Córregos, que antigamente era Dous Corregos e hoje é, para muita gente, Dois Corgo. Muita gente que não conhece a cidade deve se lembrar do nome por causa daquele filme do final dos anos 1990 que levava o nome da cidade.

Uma das belas casas da cidade
O município é bastante antigo. É de 1874. Quando foi instalado, a Província tinha apenas 45 municípios. Como muitos outros de São Paulo, o progresso veio com o café.

Não sei o que era ou é este prédio, mas a figura de Ícaro é muito bonita
Apesar de ter recebido uma linha da Companhia Rioclarense em 1887 e, doze anos depois, uma bifurcação ali que seguia para Agudos, já aqui com a Companhia Paulista, que havia adquirido a Rioclarense em 1892, a cidade acabou estagnando. Talvez tenha sido "obscurecida" pelo grande crescimento de Jaú, ali perto, mas o fato é que a cidade parou rapidamente de crescer.

Esta casa aparentemente caiu e está sendo demolida. Pena.
Em 1966, perdeu a segunda linha que ia para Agudos e passou a ser somente estação de passagem. Com um prédio grande e muito bonito, provavelmente em grende parte por causa de ter de atender duas linhas, a estação construída em 1912 ganhou fama como sendo cópia da estação ferroviária de Marselha. Papo furado, mas a lenda urbana se perpetuou. No final do século 20, um filme de Carlos Reichembach levou o nome da cidade. Deram um "tapa" na estação, já bem mal cuidada pois os trens de passageiros da Fepasa que ainda passavam por ali já não garantiam coisa alguma e ela apareceu no filme como se fosse nova.

Outra bela casa da cidade
O fato é que infelizmente no ano 2000 ela pegou fogo, já abandonada. E nunca mais ninguém a restaurou. A estação e a vila ferroviária, inclusive a parte construída em 1940 quando da eletrificação da linha e da construção da subestação elétrica, foram totalmente abandonadas pelo Governo Federal (a Fepasa foi entregue à moribunda RFFSA em 1998) e, com um incêndio então, estão hoje jogadas às traças.

Um belo vitrô antigo mantido sobre a janela hoje de vidro temperado
O resto da pequena cidade, no entanto, situada entre os dois córregos que lhe deram origem, está muito bem cuidada. Limpa, com os diversos prédios antigos muito bem cuidados e uma praça central (o que antes se chamava de Jardim Público) em excelente estado de manutenção garantem uma vida tranquila e bem bonita para quem lá mora.

Uma casa infelizmente descaracterizada com a colocação de janelas de ferro em lugar das de madeira, mas ainda do tempo das varandas laterais. A construção pode ser do século XIX
É claro que, com a visita que fizemos na manhã de primeiro de janeiro, estava melhor ainda - ninguém praticamente nas ruas, somente uma sorveteria aberta e um bar de esquina com almoço. Longa vida para a simpática Dois Corgo. As fotografias são de Alexandre Giesbrecht.