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sábado, 15 de novembro de 2014

A HISTORIA SECRETA DOS MUNICÍPIOS PAULISTAS - PARTE IX (CABRÁLIA PAULISTA E PIRATININGA)

Cabralia Paulista hoje (Google Maps) não tinha nem 4.500 habitantes em 2010
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Como já falei, meu avô Sud deve ter varado a madrugada no dia 1 de fevereiro de 1935 com o parecer escrito sobre os municípios da Alta Paulista. Para compreender melhor o que aqui está escrito, deve-se ler ou ter lido os capíyulos anteriores, V, VI, VII e VIII, especialmente este último.

Nesta nova parte, ele fala sobre o então ainda distrito de Cabrália, hoje Cabrália Paulista. Há mais um artigo recente que deve ser lido também, escrito depois do VIII, mas que não fazia parte do parecer, e sim contava a história da linha que passava por Cabrália e que foi a causadora do seu progresso e depois da sua decadência. No parecer, Sud escreve que

"Junto ao processo, ha um bem fundamentado pedido dos moradores do districto de paz de Mirante, cuja estação, na Paulista,  se chama Cabralia, pleiteando a sua elevação a municipio, desmembrando do de Piratininga.

O districto arrecadou em 1934, 74 contos de reis e  ascensão de suas rendas, mostra que neste anno ultrapassará os 80 contos.

De accordo com o Codigo dos Interventores, ainda em vigor, não seria possivel conceder-lhe a regalia; mas Mirante annexa o pedido dos moradores do districto de paz de Bandeirantes, do municipio de Agudos, reclamando a sua annexação ao novo municipio a criar-se. E o mesmo fazem os habitantes do bairro do Limoeiro, proximo á aquelle.

Bandeirantes e Limoeiro ficam na contravertente do espigão da Conquista e distam cerca de 18 Kms de Cabralia, quando distam, respectivamente, mais de 60 e mais de 50 Kms de Agudos. O desejo de pertencer a Cabralia é, pois, legitimo,desde que é esta estação e este povoado o ponto de suas transações comerciaes.

Ora, feita esta annexação,  que se impõe Cabralia terá mais que os 100 necessarios á sua elevação a municipio. Por isso, decidiu a Commissão fazer a proposta."

Sud segue falando agora sobre o municipio de Piratininga, no mesmo parecer.

"Piratininga - O espirito de equidade leva ainda a Commissão a propor uma rectificação de divisas a favor de Piratininga. Tirando-se-lhe Cabralia, embora não se haja dado a este novo municipio um palmo de terra a mais do que  tinha no districto de paz, Piratininga fica desfalcada, reduzida a pouco mais dos cem contos annuaes necessarios para manter-se.

Mas o exame das suas actuaes divisas revela que Agudos, municipio enorme, avançou  excessivamente para os lados de Piratininga e que emquanto a faixa lindeira, dos lados desta, não alcança uma legua, é de mais de tres para as bandas de Agudos, e as divisas de Agudos se prolongam encostadas a Piratininga, de maneira a constranger a esta fora de toda a proporção. 

Propuzemos, portanto, uma rectificação compensadora, que leve a jurisdição de Piratininga até o rio Turvo, alcançando  pontos que estão a distancias mais proximas de Piratininga que de Agudos."

Sud ainda continua o parecer falando de Campos Novos e de São Pedro do Turvo. Aí ele o finda e passa a emitir os projetos de leis que alterariam toda essa região, segundo ele, para melhor. Terá esmo sido melhor? A realidade hoje, oitenta anos depois, é bastante diferente. É o que veremos em próximos artigos sobre este assunto.

domingo, 14 de setembro de 2014

A VIAGEM DO TREM DE AFFONSO PENNA EM 1908

Mapa da Revista da Semana de 1908. Ver detalhes sobre os nomes citados no texto abaixo
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Em 1908, Affonso Penna viajou do Rio a São Paulo para a inauguração de algumas estações ferroviárias. Nessa viagem, ele andou pela Central, Noroeste, Sorocabana, Paulista e São Paulo Railway e participou de comemorações nas duas primeiras.

Ele chegou a São Paulo pela Central do Brasil, desembarcando na Estação do Norte (Roosevelt)... ou teria sido na Luz? O correto e normal era desembarcar na atual Roosevelt, mas em muitos casos o trem "esticava" até a Luz, pela linha da SPR.
Affonso Penna. Data não citada (Wikipedia)
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A dúvida é saber se a Central já tinha sua bitola larga direta até São Paulo, pois foi exatamente nesse ano de 1908 que o último trecho foi alargado, de Mogi das Cruzes a São Paulo. Se ainda houvesse a baldeação em Mogi para troca da bitola, ele deveria descer mesmo no Braz (havia bitola mista para que trens da Sorocabana pudessem entrar pela Central e vice-versa até 1908, mas essa bitola, até onde sei, não permitia paradas na Luz...). A viagem de Affonso Penna e o mapa colocado acima foram publicados na Revista da Semana de 8 de março de 1908, portanto ainda no primeiro trimestre desse ano.

Ou na ida ou na volta, Affonso Penna desceu e visitou o centro da cidade. Nessa época, um "arco do triunfo" de vida efêmera foi montado numa das ruas do Centro velho (velho hoje).

Em abril de 1909, pouco mais de um ano depois, ele voltaria a São Paulo e seguiria para o Paraná pela Sorocabana e depois pela São Paulo-Rio Grande para a inauguração de estações desta última, Poucos dias depois, Affonso Penna morreria no Rio de Janeiro, deixando o governo para o vice-presidente Nilo Peçanha.
Aracaçu, em 2012. Foto André Luiz de Lima
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Da (ainda) pequena estação da Sorocabana, Penna seguiu até Boituva, onde era o entroncamento com o ramal de Itararé (Santo Antonio, ou Iperó, só a partir de 1928). Por lá seguiu o comboio até a estação de Aracassu - que no texto da reportagem estava escrita como Acarassu e que hoje se chama Aracaçu - e está em ruína total. O fato de ser de madeira acelerou sua degradação. O ramal acabava ali, a construção do restante até Itararé somente seria inaugurada em março de 1909.

A seguir, a composição retornou até Boituva e seguiu até Capão Bonito (Rubião Junior, em Botucatu) e dali entrou pela linha do Tibagi - hoje parte do tronco da antiga Sorocabana. Foi até a ponta da linha, a estação de Ilha Grande (Ipauçu) e a inaugurou. Esta estação foi demolida nos anos 1950-60 e substituída por uma mais "modernosa" e maior, hoje em ruínas.

Voltando a Capão Bonito, o trem entrou pelo ramal de Bauru - naquela época, o tronco da Sorocabana. Dali foram até a cidade de Bauru e entraram pela linha da Noroeste - na prática, continuação da linha da Sorocabana - e chegaram até a estação na então ponta da linha (quilômetro 125, na época) construída, que foi naquele dia batizada como Presidente Penna (depois, somente Penna e hoje, Cafelândia). A estação daquela época foi derrubada nos anos 1970 para a construção de uma nova, hoje em mau estado e sem uso.

Mais uma vez o trem retornou pela linha, chegando novamente em Agudos, por onde já havia passado. Em Agudos existiam duas estações: a da Sorocabana e da Paulista. As linhas não se cruzavam (havia um pontilhão da linha da CP sobre a da EFS), mas, na época, tinham a mesma bitola. Especialmente para a viagem de Affonso Penna, construíram uma chave (desvio) especialmente para que o Presidente não precisasse fazer baldeação na cidade.

A composição entrou pela linha da Paulista e dali seguiu direto para Rio Claro, via Dois Córregos, Brotas e Annapolis (Analândia).

Para quem não sabe, a linha de Agudos chegava somente a Dois Corregos, onde se encontrava com a linha do ramal de Jaú. O trem seguiu direto para Visconde do Rio Claro, donde poderia seguir para São Carlos ou para Rio Claro. Não existiam ainda as linhas de bitola larga naquela região e a linha-tronco métrica da Paulista ainda era a que havia sido construída pela Rioclarense nos anos 1880. Em 1908, essa linha métrica, que passava pelo alto da serra do Corumbataí e não por onde passa hoje, ligava Rio Claro a Jaboticabal. Chegaria a Barretos em 1909.

Em Rio Claro, não havia jeito: a linha métrica passava a ser de bitola larga e havia de se fazer a baldeação.

É bastante possível que o trem do Presidente tenha parado por alguns minutos em algumas outras estações no percurso, pois sempre havia algum prefeito que queria ter a honra de apertar a mão do mandatário. E aí, tocavam bandinhas, aquela multidão de gente se aglomerando nas plataformas... muito comum na época.

Cento e seis anos depois, tudo mudou. A linha que Penna tomou de Agudos a Rio Claro não existe mais, foi substituída por outras, que estão em semi-abandono.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

UM OLHAR SOBRE VELHAS ESTAÇÕES

Estação de São Manuel, 2011

Durante anos e anos... décadas... era sempre festa. As ferrovias chegavam a uma nova cidade, a uma nova fazenda e festejava-se a chegada do progresso. A liberação das correntes. Agora, todos podiam conhecer o mundo! Para se ir de uma cidade a outra não eram mais dias de viagem. Eram, dependendo da distância, apenas horas e com conforto. Pelo menos, algum conforto, não o de carro de boi, de uma mula, um cavalo, mas um carro com assentos e que era puxado por uma máquina bem mais rápida do que um animal.

Tinha banda (sempre), tinha discurso, tinha banquete para os figurões ou um copo de água para os curiosos... tinha o presidente, o imperador, o governador, o prefeito... quem não gosta de ver os figurões, mesmo quando eles são uns pulhas que só sabem pisar no povo? Tinha o vigário, o bispo... tinha festa - em Piracicaba, em 1877, foram dois dias de festa para a chegada do trem!

É verdade que em um mundo onde não havia muita coisa para se fazer, ouvir a banda e o político falando com voz empostada era uma forma de se passar o tempo. Nem pensar em televisão, computador, rádio, i-pad, cinema.
Estação de Sapucaí, 2010

Aos poucos, eles foram aparecendo. Mesmo assim, ainda era um grande programa ir esperar o trem passar, mesmo que não houvesse ninguém dentro dele que você conhecesse. Principalmente nas estaçõezinhas de "meio de caminho", ali na fazenda ou no lugarejo de dez casas no meio do nada. Isso não existe mais. O trem de passageiros não passa mais. Está bem, passa - na Vitória-Minas e em Carajás, mas é quase só. Na CPTM e no metrô ninguém espera o trem se não precisa dele. Ali tem gente demais, todos estão com pressa.

Ademais, chegaram a TV, o cinema, o rádio, o computador, o telefone celular. Piracicaba em 1877 não tinha nada disso. Se fosse hoje, uma inauguração de estação de trem para novamente receber trens de São Paulo por exemplo somente atrairia fanáticos como eu ou algum curioso que passasse por ali por acaso nesse momento. Os discursos, se houvesse, seriam curtos, por que ninguém hoje em dia os aguenta, nem aguenta uma bandinha.

Hoje, as estações estão com outras funções, pois o trem de passageiros não passa mais. Em alguns lugares, nem o de carga. E em alguns outros, nem trilhos há mais. Entre "outras funções", inclua também o abandono, a depredação, a demolição, o completo desaparecimento. Às vezes somente uma plataforma, às vezes nada, absolutamente nada, é até difícil localizar onde ela estava em seus dias de glória.

Ainda em Piracicaba, há 15 anos atrás - vinte anos depois do fim dos trens, eu perguntei a uma guarda civil onde era a estação ferroviária. A resposta dela: eu nem sabia que aqui tinha trem... Em São José do Rio Preto, o motorista do táxi disse a um amigo meu que nem imaginava que a cidade tivesse tido trens de pássageiros um dia... e isso vai ficando cada vez mais comum, num país sem cultura e cada vez mais sem trens.
Plataforma da estação de Caiubi, 2005

Em algumas cidades, a estação local ainda segue abandonada. Um exemplo? São Manuel. Está ali, junto à cidade, em frente a uma praça. Do lado do armazém e de uma casa de turma, também abandonados. Isso, fora o bebedouro de animais antigo para os cavalos que vinham trazer os passageiros. De vez em quando, passa um cargueiro da ALL. Até param nos desvios. Ninguém liga. O prédio da estação é lindo. Mas a população não se importa, provavelmente quereria vê-lo no chão. Não têm nenhuma intenção de verem restaurado um prédio que ainda é belo apesar do vandalismo. Ele, novo, como fizeram em Agudos, somente valoriza a cidade. Mas há uma diferença clara entre essas duas cidades tão próximas. Elas têm estações de mesma tipologia - e dentro desta, a de São Manuel é mais bonita - mas Agudos cuida e São Manuel não. Agudos tem diversas casas antigas muito bem conservadas. São Manuel não.

Pior ainda são as estações de bairros rurais, de povoados. Quando sobreviveram, estão geralmente abandonadas. O que fazer com um prédio isolado, que, restaurado, provavelmente logo estará pichado e vazio? É um problema, mesmo. Há muitos exsmplos. Um dos que me lembro neste instante é o de Sapucaí, em Minas, divisa com São Paulo.

Este texto é somente para pensarmos em cuidar mais de nosso patrimônio. De grão em grão, talvez um dia a galinha encha o papo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NOSSOS BELOS IMÓVEIS SE DESFAZEM

Em Dois Córregos, enquanto as casas da cidade são exemplarmente mantidas, a vila ferroviária se desfaz em poeira. Na foto, vista de duas janelas, o interior da estação - Foto Alexandre Giesbrecht em 1/1/2011

Na Revista de História da Biblioteca Nacional deste mês de janeiro, uma reportagem sobre o Palacete do Barão do Rio Pardo onde o entrevistado fui... eu! Nem por isso o palacete está bem de vida. É de 1883 e está caindo, aliás, parte já caiu. Próximo à estação de Julio Prestes - na época, chamada de Estação São Paulo -, esta foi exatamente o motivo pelo qual o barão a construiu ali: o bairro tinha, então, apenas quatro ou cinco anos de existência e com as facilidades de locomoção para o interior por uma Sorocabana que ia avançando rumo a Botucatu (chegaria lá em 1888). Veja mais sobre o palacete no site de Douglas Nascimento, São Paulo Antiga.

Mas o patrimônio imobiliário paulista continua sofrendo: em Vinhedo, cidade que conheço pouco, o CONDEPHAAT tombou, no centro da cidade, pelo que entendi, as matas e a casa-sede da Fazenda Cachoeira, com cerca de duzentos anos de idade. Porém, os donos não se conformaram e hoje existe uma batalha judicial pelo cancelamento do terreno. Enquanto isso, o casarão se deteriora. Embora eu torça pela vitória da conservação, pimenta nos olhos dos outros é colírio: a venda do terreno com a demolição da casa e derrubada da mata certamente renderá muito mais aos donos que a exploração da área para turismo. Infelizmente, aqui não é a Europa.

No passeio que fiz por parte do interior paulista na semana passada, nota-se que as casas antigas, justamente as que fazem hoje a diferença em qualquer cidade, estão desaparecendo. Em algumas, ou não existe quase nada ou o que existe não é conservado. Apenas em duas delas vi o patrimônio sendo valorizado: em Agudos e em Dois Córregos, a conservação das casas parece estar na educação dos moradores. São cidades pequenas, onde isso pode facilmente se espalhar. O mesmo ocorre no pequeno vilarejo de Varpa, no município de Tupã.

É preciso que essa filosofia se espalhe. Mas de que forma podemos conseguir isso? Somente mesmo por educação de berço. Aulas na escola desde o jardim de infância sobre a valorização da história dos locais em que se vive. Por que somente em algumas cidades se investe na manutenção de belas fachadas e das casas? O que há de diferente nelas? Afinal, isso não existe somente em cidades pequenas. Existe também, por exemplo, em Curitiba, cidade bem maior do que as citadas acima.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CIDADES FANTASMAS

O vilarejo de Sapezal sofreu barbaramente com a decadência.
Pouco depois de sair de Quatá sete dias atrás no sentido de Assis pela SP-284, entrei à esquerda no bairro de Sapezal.

Na verdade, chamar Sapezal de bairro é elogiar demais a localidade. O que existe ali realmente é praticamente uma cidade fantasma. Pouquíssimas casas antigas de alvenaria ou de madeira em más condições e uma estação ferroviária que é a única construção em bom estado - pelo menos externamente. Os trens cargueiros ainda passam muito de vez em quando, já que não há cargas regulares para lá - ou a ALL nada faz para consegui-las. O que existe é em alguns finais de semana um trenzinho a vapor com uma locomotiva e dois carros que vem de Paraguaçu Paulista, sede do município. A estação foi reformada justamente por causa deste trem.

A estação de Sapezal, recentemente reformada.
Porém, fora a casa atrás desta, que está supostamente em reforma, nada mais está em bom estado. Até as vacas estão magrelas. As ruas sem asfalto mostram um presente que não condiz com um passado longínquo: nos anos 1930, por dois anos, Sapezal foi sede do município do mesmo nome. Por diversos motivos, a decisão foi revertida e a cidade reduziu-se ao que é hoje. Existe até um livro sobre a história de Sapezal.

O rio Capivara, fotografado para o sul, no ponto em que cruza sob uma ponte a SP-284.
Saí de lá e voltei à rodovia, de onde segui para Paraguaçu. Porém, antes, entrei num pequenino bairro rural - digo rural, pois é separado da sede por campos - de nome Conceição de Monte Alegre. Eu tinha curiosidade em conhecer este local, que foi o embrião de diversos municípios na Alta Sorocabana, inclusive Paraguaçu e Sapezal. Constituído no final do século XIX, foi fundado, segundo a história, pelo lendário José Teodoro, natural de Pouso Alegre, MG e chamado de "bandeirante do século XIX" por ter sido um dos pouquíssimos desbravadores das matas inexploradas do oeste da Província.

A fachada da insípida estação de Paraguaçu Paulista: uma estação como a de Quatá, porém maior.
Era de se esperar que Conceição mantivesse ainda alguma reminiscência de seus tempos mais gloriosos. Foi extinto na mesma época de Sapezal, mas, de antigo nos pouquíssimos quarteirões em volta da igreja, somente uma ou outra casa de madeira. O resto é uma praça e meia dúzia de ruas asfaltadas e bem cuidadas e casas de alvenaria que não têm muitos anos de existência. Eu arriscaria dizer que nenhuma destas existia na época em que era município.

Plataforma da estação de Paraguaçu.
Ao contrário de Conceição, que perdeu sua condição por estar longe da linha da Sorocabana (e não tão longe - não deve haver mais do que cinco quilômetros de lá até a estação ferroviária de Paraguaçu, que, por algum tempo, na sua inauguração em 1914, foi chamada pelo povo de estação de Conceição de Monte Alegre), Sapezal tinha linha e definhou muito mais. É sempre difícil de se prever o futuro de vilarejos. Conceição é um local bastante tranquilo e agradável, além de bem cuidado. Mas é pequeníssimo, também. Aliás, justamente por possuir quase somente casas novas, não me interessei em tirar a câmara do estojo e fotografar.

Virador na estação de Sapezal, instalado apenas para que a locomotiva que vem de Paraguaçu possa fazer o retorno de frente
Conceição de Monte Alegre não pode ser chamada, claro, de cidade fantasma. Mas foi um município que desapareceu, como desapareceu outro contemporâneo, Campos Novos, não muito longe dali (embora tenha recobrado a autonomia anos depois). E como foi Espírito Santo da Fortaleza, núcleo de Bauru que perdeu a autonomia em 1896 com a mudança da sede do município justamente para a outra cidade e que logo depois passou a ser distrito de outro município (São Paulo dos Agudos) e finalmente desapareceu - mesmo com uma estação ferroviária ali plantada em 1903 com o nome de Piatã. Hoje, sumiram a estação, a linha (ramal de Agudos) e o vilarejo. Nada sobrou.

Depois, segui para Paraguaçu Paulista. Em uma das maiores cidades da região, segui direto para a estação, em mau estado, mas sendo reformada. De lá parte o tal trenzinho turístico do qual falei mais acima.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

SÃO PAULO DOS AGUDOS

O Grupo Escolar de Agudos

Estive hoje em Agudos, depois de doze anos. Na primeira vez fui às pressas, procurando as duas estações ferroviárias: da Paulista e da Sorocabana. As duas ferrovias passavam pela cidade - a segunda ainda passa e funciona com cargueiros da ALL (respectivamente, ramal de Agudos e ramal de Bauru), mas não se interceptavam. Ambas estavam no limite da zona urbana de então, uma de cada lado da cidade.


A antiga estação ferroviária da Sorocabana.

Desta vez, apreciei a cidade. Muitos prédios antigos e bonitos, principalmente próximos à bela estação da antiga Sorocabana. Aliás, a cidade parece muito limpa e parece também preservar seus velhos casarões muito bem - não sei se é coincidência, ou se há algum incentivo por parte do poder público.

O belo Teatro São Paulo, na praça central da cidade e é a exceção: não está cuidado, parece abandonado.

Fiquei muito bem impressionado com a cidade, que há cem anos atrás ainda se chamava São Paulo dos Agudos.

Agudos Plaza Hotel. Sensacional por dentro e por fora. Sem vagas para hoje. Ao lado, o único edifício de apartamentos da cidade.

As fotos são todas de hoje, tiradas por mim. Segui viagem e fui pernoitar em Pirajuí, onde escrevi esta postagem hoje.

A antiga estação ferroviária da Paulista.

Outro belo casarão, em frente ao hotel.

Outro casarão.

terça-feira, 27 de julho de 2010

BOREBI E SANTA FLORA

Estação de Borebi em foto de 25/7/2010 por Adriano Martins - ela pode ou não ter sido a estação. Há dúvidas e ninguém na cidade sabe...

Borebi é um município do Estado de São Paulo, na região de Lençóis Paulista e de Agudos. Emancipada como tal em 1990, tinha, em 2000, menos de 2 mil habitantes, segundo dados da Wikipedia.

Ainda não entendo como pode uma cidade com um número desses de habitantes tornar-se município, com os mesmos direitos de cidades com 100, 500 mil, 1 milhão ou mesmo 10 milhões de pessoas. Desperdício de dinheiro: tem-se de remunerar pelo menos um prefeito, nove vereadores e ainda secretários e assessores. É muito dinheiro para 2 mil pessoas apenas.

Assessores que, aliás, não trabalham muito bem: no site da prefeitura da cidade, colocaram quatro fotografias extraídas do meu site de estações ferroviárias - o ramal de Borebi, da Sorocabana, saía de Lencóis Paulista (da estação rural de Virgílio Rocha) e prolongava-se até a estação também rural de Santa Flora, esta no município de Agudos -, sem dar quaisquer créditos: nem para mim, nem para o site em si nem para os autores das fotografias. Um descaso total, que está se tornando cada vez mais comum. Vergonhoso para uma prefeitura.

Ali perto de Borebi, a estação terminal de Santa Flora foi ativada para levar trabalhadores para a extração de madeira no local. Na segunda metade dos anos 1950, a estação e o trecho do ramal entre as estações de Coronel Leite e Santa Flora foi desativado, pois a exploração da madeira acabou ali. O trecho e as terras por onde ele passava, além dos imóveis e propriedades, foi devolvida pelo Governo do Estado (a Sorocabana era estatal) aos antigos proprietários.

Hoje, o nome de Santa Flora é praticamente desconhecido na região. Em Borebi e em Agudos, todas as pessoas que consultei - eu e o Adriano, que me ajuda na busca - jamais ouviram falar dele. O acesso para o local onde ela estava - difícil acreditar que ainda exista algo no local depois de mais de 50 anos - é bastante difícil, as estradas rurais são ruins.

Os mapas não mostram nenhum local com esse nome - nem os da época, nem os atuais. O nome e o local somente teve citações encontradas nos relatórios da Sorocabana e na lei que autorizou o desmonte do trecho final do ramal, em 1958.

Santa Flora simplesmente desapareceu. Curioso caso, em que um local que existia até pelo menos 1958, portanto 52 anos atrás - tenha sido esquecido por todos. Enfim: procura-se alguém que tenha conhecido ou ouvido falar da estação de Santa Flora, onde, além da estação, havia pelo menos um armazém de mercadorias para os funcionários da ferrovia e os lenheiros.

Procura-se também alguém que ponha na cabeça dos governantes de Borebi alguma ideia sobre como respeitar direitos de autores.