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terça-feira, 17 de outubro de 2017

UM LIVRO PARA PENSAR


Catorze anos depois de lançar meu terceiro livro (então o segundo sobre ferrovias, de nome Caminho para Santa Veridiana), recebi hoje o primeiro exemplar da minha quarta obra, de nome O Desmanche das Ferrovias Paulista.

Embora este possa ser considerado como uma espécie de complementação do meu livro de 2001, Um Dia o Trem Passou por Aqui, que contava a história dos trens de passageiros no Estado de São Paulo, ele conta a realidade amarga do que causou o fim destes trens e, pior, um desmonte injustificável da própria malha.

Ele conta episódios, alguns isolados, a maioria não, que foram ocorrendo das estradas de ferro de nosso Estado a partir de 1945 e que resultaram no panorama que hoje existe nesta área.

Foi um prazer, para mim, escrevê-lo, depois de uma pesquisa de dois anos, somada a todo o estudo que tinha realizado nos dezenove anos anteriores.

Espero que todos que o lerem gostem. Infelizmente, ele abrange um universo pequeno de pessoas. O custo de impressão de um livro como este, de quase 400 páginas, é grande e, para um escritor que apenas tem alguma fama entre os admiradores da ferrovia brasileira, número não tão grande assim de pessoas, a falta da distribuição nas livrarias faz com que ele tenha sido impresso apenas em pequena tiragem.

Daqui a alguns dias, ele também será lançado no Amazon, como um e-book.

Alguns leitores irão possivelmente achar que ele poderia ser menor e menos detalhado; alguns, que ele poderia ser mais detalhado. Outros acharão que faltam alguns episódios. Outros, talvez, que alguns terão sido superdimensionados. Afinal, é impossível selecionar tudo o que ocorreu,,,

Sobre as notícias e relatos caçados em jornais, revistas, sites e pessoas, há comentários de minha autoria; a ideia é mostrar o pensamento da época sobre os desmandos que iam ocorrendo.

Enfim, quem o ler vai julgá-lo. De minha parte, espero que ele sirva para que os imensos erros ocorridos e que ajudaram a desmanchar nossas ferrovias, não sejam repetidos no futuro. Se é que há futuro para as ferrovias em São Paulo e no Brasil.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

1925 - O ESTADO DE SÃO PAULO TINHA QUASE 7 MIL KM DE FERROVIAS


ACIMA: Anos 1950 - o ramal de Piracicaba da Paulista (de leste a oeste no mapa) e os trilhos do ramal da Usina Santa Barbara, que talvez tenha sido o maior ramal particular existente no Estado, nos anos 1950 (mapa IBGE)

No tempo em que havia trem no Brasil. Aliás, a gente só pode hoje falar de tempos há muito idos, em termos de ferrovias paulista e brasileiras. Enfim - achei aqui um relatório simplificado da situação das ferrovias paulistas no ano de 1925, no dia 31 de dezembro.

Ou seja, quase 92 anos atrás. Cortavam as terras paulistas 6.859 quilômetros de ferrovias.

O Estado paulista tinha 809 quilômetros de trilhos que pertenciam à União, divididos entre a Noroeste (474 km), a Central do Brasil (279), a E, F, Minas e Rio (25), a E. F. Lorena a Piquete (20) e a E. F. de Bananal (11 km).

Em ferrovias de administração estadual eram 2.229 quilômetros, divididos entre a Sorocabana (1.864 km), a E. F. Araraquara (281), a E. F. Campos do Jordão (46 km) e o Tramway da Cantareira (38 km).

As estradas de ferro particulares ainda eram a maioria, com 3.821 quilômetros que incluíam a Mogiana 1.340 km), a Paulista (1.294),  a E. F. do Dourado (275), a SPR (246), a E. F. Santos a Juquiá (152), a E. F. São Paulo-Goiaz (143), a E. F. S. Paulo-Minas (106), o Ramal Ferreo Campineiro (40), a E. F. Monte Alto (31), a E. F. Jaboticabal (26), o Tramway de Piraju (26), o Ramal de Dumont (23), a E. F. Itatibense (20), a E. F. Votorantim (20), a E. F. Perus-Pirapora (16), a E. F. São José do Barreiro (16), o Tramway de Santo Amaro (12), a E. F. do Guarujá (9), o Tramway Santos-São Vicente (9) e a E. F. Noroeste do Paraná (7 km).

No total do que existia, 5.612 quilômetros eram em bitola métrica; 895 em bitola larga; 330 em bitola de 0,60 m - aqui se incluem os 3 ramais da Mogiana e os 2 da Paulista em bitola de 0,60; 12 em bitola de 1,44 m (o tramway de Santo Amaro) e 9 em bitola de 1,35 (o Tramway Santos-São Vicente). Estes dois últimos eram já linhas de bondes, mas continuavam sendo chamados de tramways e considerados ferrovias pelo fato de estarem situados entre dois municípios.

Finalmente, havia entre esse total 234 quilômetros eletrificados, divididos na Paulista (94 km), da Campos do Jordão (46), do Ramal Ferreo Campineiro (31), Tramway de Piraju (26), Tramway de Santo Amaro (12), Guarujá (9), Santos-São Vicente (9) e Votorantim (7 km).

Salienta-se ainda que havia em construção dois prolongamentos da Paulista (em Cabrália Paulista e em Bebedouro), a retificação da Sorocabana entre São Paulo e Sorocaba, além de algumas outras citadas e que nunca foram terminadas, como o ramal de Guaíra (Mogiana), a variante Bacaetava-Tatuí, a E. F. Norte-Sul de S. Paulo e a a ferrovia Itararé-Itaporanga (nominadas assim na época).

Especificava o artigo também que, embora não estejam computadas nos números acima, havia em funcionamento uma série de ferrovias para uso particular, citando como exemplos: a linha da Cia. Melhoramentos, em Caieiras; as dos Engenhos Centrais da Sucrerie e da Usina Monte Alegre, ambas em Piracicaba; o Tramway da Usina Santa Barbara, na cidade do mesmo nome, o da Fazenda Guatapará, em Ribeirão Preto (na época) e o ramal da Cia. Paulista de Combustíveis, em Caçapava e muitos outros.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

1939: FERROVIAS E RODOVIAS


Afinal, quais foram os motivos que levaram à decadência das ferrovias brasileiras. Fulano, beltrano, sicrano, falta de dinheiro, falta de investimentos, incompetência geral, corrupção...

Um dos motivos que muito prejudicou as estradas de ferro na área de carga, exatamente aquela que realmente mantém as ferrovias, foi a falta de vagões.

O problema era recorrente nas estradas brasileiras. O motivo pelo qual volta e meia havia falta de vagões só poderiam ser dois: falta de dinheiro e falta de visão e planejamento decentes para prever o que se precisaria para as cargas.

Estas faltas foram acusadas pelos relatórios e pela imprensa seguidas vezes. Sorocabana, Paulista, Mogiana, E. F. Araraquara, Central do Brasil, Noroeste, Santos-Jundiaí, FEPASA e ferrovias menores. Nunca deixou de existir e muito dinheiro foi perdido com isto.

Aí chegaram os caminhões e... bem, vocês podem imaginar.

O anúncio publicado nos jornais em 18 de junho de 1939, acima, mostra a propaganda de uma empresa de nome Empreza Agricola Paulista Limitada, com sede no centro de São Paulo e que oferecia terras ao longo da rodovia que hoje é a SP-079, que partia de Sorocaba e chegava até Juquiá, no Vale do Ribeira.

Esta rodovia havia sido inaugurada em 1938, portanto um ano antes e, embora sem asfalto como praticamente todas as rodovias paulistas dessa época, passou a ser um concorrente direto para a E. F. Santos-Juquiá e a própria Mairinque-Santos. Note-se que, na propaganda, estão mostradas as duas ferrovias e também suas posições em relação à rodovia. E, pior, citava a falta de vagões e a demora nos embarques destes com mercadorias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

LÁGRIMAS PAULISTAS


(O post abaixo é uma transcrição de um e-mail que recebi há pouco mais de um ano de um amigo, Paulo Filomeno).

Caro Ralph:

Espero que esteja tudo bem com você. Há muito não nos falamos, mas saiba que estou sempre de olho no que você escreve. Porém, tudo vai de mal a pior nessa área ferroviária. Ainda mais para quem de certa forma está ligado profissionalmente à area como eu. É uma desilusão atrás da outra.

Ontem, em particular esse post da Sorocabana (http://blogdogiesbrecht.blogspot.com.br/2016/01/trilhos-cobertos-de-mato-e-velha.html) caiu como uma facada, por um motivo simples, que vou lhe explicar e descrever abaixo. Minha memória é normalmente muito boa, não esqueço nem o que deve ser esquecido, então você pode imaginar o que eu me lembro de minhas viagens de trem, até andanças nos subúrbios nos anos de 1978 eu lembro, passeios com meus pais para Santos em 1970 (com data e tudo) então vai vendo. 

No dia 28 de janeiro de 1981 (exatamente há 35 anos atrás), tendo acabado de me matricular na Faculdade de Engenharia e tendo que viajar para encontrar meus pais (que já tinham saído de férias alguns dias antes) em Campos Novos Paulista, cidade que fica entre Ourinhos e Marília, fui, claro, de trem. Meu primo e meu tio, que me acompanharam para a matrícula na faculdade, me levaram até a Julio Prestes, na época com a Rodoviária ainda funcionando em frente e com uma vizinhança, ainda, digamos, muito menos pior que a de hoje. Mas eles me levaram para lá não sem antes deixar os veteranos fazerem uma avenida de fora a fora no meio de minha vasta cabeleira que à propósito não via uma tesoura desde uns bons 6 ou 7 meses (aposta com os pais que ia entrar na faculdade para não precisar cortar o cabelo). Eles chamaram aquilo de "corte Larry" em alusão a um dos 3 Patetas que tinha apenas dois tufos de cabelos nas laterais da cabeça. Mas, já prevenido, havia separado um boné junto com as demais peças de viagem.

Me deixaram praticamente na esquina da Santa Efigênia com a Duque de Caxias e assim que saí do carro, muito feliz pelas circunstâncias do momento, li aquela bela inscrição "ESTRADA DE FERRO SOROCABANA" no alto do prédio (que graças a Deus ainda existe, assim como os vitrais da Paulista na Libero Badaró) e com enorme sorriso dirigi-me à entrada da Estação, sem deixar de admirar sua maravilhosa arquitetura, vitrais, etc. A fila na bilheteria não estava grande, o trem deveria sair às 20h38 e eram por volta de 19h15, pouco mais, pouco menos. Pedi uma passagem leito (mordomia que o paizão concedeu pela entrada na facu) e só havia disponível leitos superiores, teria que dividir a cabine com outra pessoa. Não me importei e comprei. Se quisesse, enquanto não viesse o sono, poderia ficar num carro de primeira classe. 

Ao dirigir-me à catraca de embarque (o trem saía na plataforma à direita de quem olha a via a partir das bilheterias), imediatamente dois guardas ferroviários e um funcionário da Fepasa me abordaram para entender qual a razão de eu estar viajando daquele modo (cabelo cortado de um jeito esquisitíssimo, roupas largadas, mala sem alça levada embaixo do braço) e ainda com uma passagem para o carro leito. Felizmente a faculdade tinha já emitido a carteirinha no momento da matrícula e poucos segundos depois lá estava eu, bicho de faculdade, com pouco mais de 17 anos conversando animadamente sobre a Fepasa, Sorocabana, etc. e tal com o funcionário, que fez questão de me acompanhar até o local onde iria encostar o carro leito, bem no final da plataforma. Lembro que ele contou de dois engenheiros que haviam sido demitidos por especificarem trilhos curvos, com raio de x metros, para serem assentados, entre outras coisas. Porém, o que era para ser 20h20 (horário do trem encostar) passou a ser 21h00 e de repente lá vem a LEW puxando um extenso comboio de 18 carros, com vários carros de segunda, alguns de primeira, depois outros tantos de segunda, mais outros de primeira e lá na frente o carro restaurante e o carro dormitório. Assim que o trem parou, o funcionário da Fepasa pediu para chamar o Chefe do Trem e explicou a minha situação. Foi então que entendi o motivo da preocupação de ficar comigo e da abordagem: Sujeitos que tinham minha aparência eram geralmente foragidos de cadeias por aí; o Chefe satisfeito com as explicações me levou até o carro dormitório, ao passar pelo carro restaurante apresentou-me a um dos garçons e finalmente ao guarda do carro dormitório, ao qual entreguei a passagem, ele me disse que seria chamado antes de Ourinhos. Nesse momento, o carro deu aquele "tranco", duas lindas locomotivas elétricas estavam sendo engatadas àquele não menos lindo trem de 18 carros, que em Ourinhos seria segmentado, parte seguiria para o Norte do Paraná e a parte da frente (com o restaurante e o dormitório) até Assis (fim do trecho eletrificado e da sinalização CTC). Das duas locomotivas, a que estava encostada no trem era a 1-C+C-1 2069, de fabricação Westinghouse e ainda na 1.a pintura da Fepasa (azul / cinza), mas a frontal era do mesmo tipo, mas da série das GE, já na 2.a pintura Fepasa (vermelha com faixas brancas) embora não me lembre seu número. E até hoje nunca consegui uma foto da 2069 para a minha coleção. Se tiver ou souber quem tenha, agradeço se puder me dar uma cópia. A vi pela última vez no final dos anos 80, no pátio do CEASA, estava dirigindo na Marginal Pinheiros e quase bati o carro quando a vi, ainda com seus pantógrafos balão.

Logo após o trem partiu, com 40 minutos de atraso, terminei de colocar minhas coisas no leito, já tinha minha "leitura de bordo", um exemplar da Revista Ferrovia, que estava sendo distribuída por um veterano que era estagiário da então RFFSA aos que estavam se matriculando na Faculdade de Engenharia. Da leitura, entre outras coisas, lembro até hoje que o "fator de massa", que deve ser utilizado num cálculo para esforços na via permanente varia de 1,03 (vagão europeu de 2 eixos) até 1,4 (locomotiva elétrica). Exemplar de janeiro de 1981, podem ir lá ver.

Mas o caso é que logo de saída, no maravilhoso e sensacional pátio da Barra Funda (que deu lugar ao - deixa pra lá) deu para ver num desvio paralelo à linha os dois trens da ex-série 5000 da CPTM que se chocaram na curva da fábrica Matarazzo no final de dez/80 (os acervos dos jornais tem a reportagem, um trem subiu em cima do outro) todos amassados e fiquei acompanhando a vista até Presidente Altino, lugar então de frequentes excursões de minha parte "para ver trem". Aí fui ao carro restaurante para jantar e conheci o senhor que viajaria comigo, de uns quase 60 anos, que me deu os parabéns pela entrada na faculdade e sugeriu vivamente que eu pedisse o Filé a Cavalo, o que acabei aceitando, embora na época, muito mimado e enjoado, não gostasse de clara de ovos. Mas estava bom. Foi a primeira vez, também por sugestão dele, que despejei azeite sobre o arroz, o que faço (não sempre) até hoje. Batemos um papo enquanto jantávamos, eu falava a ele da minha paixão por trens e ferrovias, de que ia certamente um dia trabalhar com isso, etc. e tal. Ele era representante comercial e disse que viajou muito de trem e ainda gostava, mas só fazia isso por puro gosto e reclamou do atraso, ia para Assis e tinha que voltar no mesmo dia. Disse que eu, gostando de trens, não tive chance de conhecer as verdadeiras Sorocabana e Paulista e disse que era melhor eu procurar outra coisa para fazer, pois sentia que a política ia matar todas as ferrovias (deveria ter pedido outros conselhos a ele, talvez ele me dissesse para comprar ações de uma tal de Apple ou de uma tal de Microsoft naquela época, mas na realidade ele só me falava de algo que era perceptível e eu não queria ver). Logo que terminamos, ele pediu licença para se deitar e foi para a cabine. Eu disse que iria mais tarde, mas que já poderia ir se fosse incomodar o sono dele. Ele disse que não havia problema e nessa altura o trem já se encontrava pouco a frente de Jandira, naquele trecho bastante sinuoso que até hoje os trens metropolitanos da CPTM ainda percorrem próximo de Itapevi e depois, até Amador Bueno. Mas eu acabei ficando na plataforma entre dois carros, o trem era composto dos velhos carros Budd inox e dos já não tão novos Mafersa inox, que tinham até freio a disco. Os Mafersa abriam "meia porta" e assim, ali me instalei acompanhando o trecho. De noite não dá para ver nada, embora a noite estivesse totalmente estrelada, mas o interessante era ver a cauda do trem lá atrás naquelas curvas e as duas locomotivas lá na frente trabalhando pra valer e soltando umas chispas no contato do fio com o pantógrafo de vez em quando. Aí avistava um farol verde "lá na frente", que iluminava o inox do trem com um reflexo verde e quando a locomotiva chegava e atravessava o circuito de via, imediatamente mudava para vermelho e parecia que o trem mudava de cor também.

Fiquei nessa até pouco a frente de Mairinque, lembro da estação de Amador Bueno com aquele letreiro que só tinha lá e fui para a cabine. Tentei não ser muito barulhento, nem usei o banheiro da cabine, tinha ido no banheiro de um dos carros para não fazer barulho e subi para minha cama. Mas mesmo assim o senhor me avisou para não esquecer de colocar a rede de proteção, pois num chacoalhão mais forte eu poderia ir para o chão. Realmente, não havia me atinado o que era aquilo que estava sobre a cama, agradeci, liguei a luz de cabeceira (ele já tinha ligado o ar condicionado), comecei a ler a revista e o trem seguia sua marcha pela noite da Região Sorocabana. O chacoalhar do trem e o ruído (para mim) eram altamente relaxantes, porém não conseguia pegar no sono devido à leitura interessante e aos fatos do dia também, não é todo dia que se "reza uma missa" na secretaria do colégio para entregarem os documentos a tempo (certificado de conclusão, histórico, etc.), depois ir fazer a matrícula, chamar o tio por ser menor e estar desacompanhado, pegar um trem e etc. Mas como tudo tem um lado bom, o fato de não conseguir pegar no sono me faz lembrar até hoje de algo inesquecível: O apito do chefe do trem lá longe autorizando o trem a partir das estações e o maquinista respondendo com um silvo curto. Aí o trem punha-se em marcha e uns 10-15 km depois outra estação (esse trem era parador após Sorocaba). Mas, no final das contas, acabei dormindo. Tive um despertar entre Botucatu e Rubião Júnior, mas logo voltei a dormir. Estava em sono profundo quando o guarda-cabine bateu à porta dizendo que estávamos chegando em Ourinhos. Meio zonzo, acordei, pulei para baixo e fui dar uma lavada no rosto e escovar os dentes quando percebi que o trem estava parando. Coloquei a calça não sei de qual jeito, peguei minhas coisas, me despedi rapidamente e fui correndo para sair do trem, quando o guarda disse que ainda era a estação de Canitar, que eu não me preocupasse, que o trem parava em Ourinhos por 15 minutos. Ainda estava escuro, começando a amanhecer e vi a hora: 5h55. O maquinista tinha tirado o atraso! A previsão de chegada em Ourinhos era 6h08 e eu achava que meus pais já estariam lá devido ao atraso; em épocas de telefonia precária, quando o celular não era nem considerado ficção científica, só dava pra comunicar o básico... Mas tudo estava em tempo.

Tudo estava em tempo, inclusive um maravilhoso amanhecer ao lado de um canavial, numa região que tem um "cheiro" que só quem conhece ou é de lá sabe. Eu não consigo me "lembrar" do cheiro (acho que é muito difícil lembrar de um cheiro e reproduzí-lo em seu cérebro sem ele estar presente, ao contrário de uma imagem ou som), mas quando eu o sinto, diversas lembranças me vem de imediato. O fato é que o trem passou sob o pontilhão da Raposo Tavares e logo entrou em Ourinhos. Próximo à estação, vi a velha VW Variant com meus pais parados numa cancela. O trem havia chegado primeiro. Logo o trem chegou e lá fui eu desembarcar na ponta da plataforma de uma estação repleta de gente. Desci, não sem antes cumprimentar decentemente o senhor que me acompanhara, que já estava de pé indo tomar o café no carro restaurante e aproveitei também para olhar mais de perto alguns detalhes da "Loba" 2069, o apelido da locomotiva entre os ferroviários e nunca me saiu da cabeça o enorme símbolo da Westinghouse fixado na lateral da locomotiva, bem como a locomotiva da RFFSA emum desvio lateral pronta para engatar na metade do trem com destino a Maringá. Ao chegar na frente da estação ainda meus pais não haviam chegado, pelo fato do trem ser comprido e ia ficar parado lá por pelo menos 15 minutos. Meu pai teve que retornar uns 4 quarteirões para encontrar uma cancela que o trem não estivesse fechando e assim, pouco tempo depois, chegaram.

Minha mãe, ao ver meu estado (fiz questão de tirar o boné e perdi peso por ficar sozinho em casa, e já era magro...) não sabia se ria ou se chorava, mas meu pai veio rindo logo que saiu do carro. Fomos embora e eu falando sem parar sobre a viagem, meu pai perguntando coisas esquisitas sobre que horas o trem havia passado em Campinas - ele nem sabia que as linhas se separavam na Lapa - e chegamos em Campos Novos Paulista. Fui direto para um barbeiro que já se encarregou de passar a máquina zero no corte Larry, com ajuda (documentada por fotos) do meu pai e da minha mãe.

E se passaram 20 anos e tudo se acabou, mais 15 anos e tudo se arrasou. Ontem, ao se completarem 35 anos desse dia, com a Sorocabana sendo mais nada, eu li seu post e imediatamente me veio na cabeça a música "Killing me softly with this song". Troque "song" por "notícia do meio ferroviário brasileiro", que ao invés de "song" nada mais é do que uma marchinha repetitiva e mal tocada e assim nós, os ferreo-fãs brasileiros e as próprias ferrovias vamos sendo assassinados devagarinho. E somos impotentes para fazermos qualquer coisa.

Hoje com 52 anos eu tenho saudades só de duas coisas: Do meu pai, que faleceu em 2004 e dos passeios de trem que eu fazia pelo Estado. Meu pai eu tenho certeza que vou vê-lo novamente um dia (me desculpem os que não acreditam, mas eu estou certo disso - ele está no seu site numa foto em Matão, também coincidentemente tirada há 36 anos). Mas dos trens, esqueça. Só no dia que inventarem a tal Máquina do Tempo. Mas vai ter gente querendo fazer com essa máquina coisas muito mais desinteressantes do que viajar num Carro Pullman da CP (do Trem R) em meados dos anos 50 ou ir para Santos com um dos Cometa, Estrella ou Planeta.

É isso, desculpe ter te enchido de tanto texto. Mas pela coincidência da data tive que fazê-lo. Se achar que seus leitores vão aguentar isto e quiser publicar no blog, fique à vontade.


Um abraço; Paulo Roberto Filomeno

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FERROVIAS PAULISTAS: SÉCULO XX E XXI



sábado, 29 de outubro de 2016

CEM ANOS DO RENASCIMENTO DA CIA. PAULISTA

Estação de Batovi, em Rio Claro, em 1916, sendo terminada para receber trilhos da bitola larga: se fosse uma foto de hoje, significaria que estava já depredada e sem trilhos. Esta escapou: já não tem trilhos, mas não foi depredada.

Em 1o de junho de 1916, cem anos atrás, a lendária Companhia Paulista de Estradas de Ferro renascia, inaugurando a linha em bitola larga entre Rio Claro e São Carlos e, assim, mostrando a que veio, com um atraso de 26 anos.

Atraso que foi causado não por causa de falta de vontade de construir a linha, mas, por que em 1880, estava com a ponta da sua linha-tronco d bitola larga em Porto Ferreira e extremamente confiante que sua linha de Rio Claro seria prolongada sem problemas até São Carlos e além.

Estavam enganados, porém. O governo não queria isso. A Rio-clarense entendeu que, se ela fizesse o que o governo provincial queria - que era seguir para São Carlos e Araraquara, mesmo que fosse em bitola métrica, passando pela Serra de Corumbataí, onde fazendeiros locais eram extremamente influentes e queriam a ferrovia passando na porta de suas fazendas - ela conseguiria fazer a linha. A disputa pelo direito de construir a linha ficou com a Rio-clarense, que, efetivamente, a faria e, em 1885, já chegava a Rio Claro, em 1886 a Brotas e em 1887 a Jaú.

A Paulista ficou com a linha parada em Rio Claro (onde era obrigada a dar saída para a linha métrica da Rio Clarense) e em Porto Ferreira, onde, o máximo que conseguiu foi desviar sua linha para o oeste, alcançando Descalvado e nada mais, porque, ali, também, seu excesso de confiança perdia o direito de chegar a Ribeirão Preto, derrotado pela Mogiana, que fez isso partindo de sua linha em Casa Branca.

A Paulista ficou 12 anos meio parada, pensando em como poderia fazer para salvar seu investimento. Conseguiu paliativos, como construir o ramal de Santa Veridiana, mesmo sob uma saraivada de balas da Mogiana, que alegava ter zona privilegiada ali. Fez também a navegação fluvial até Pontal, incentivou cidades locais a terem sua própria ferrovia e assim levarem cargas para a Paulista, como a E. F. de Santa Rita, a Descalvadense e a Itatibense, mas isso não era, realmente suficiente.

Em 1889, a Rio-clarense decidiu vender a sua ferrovia. A Paulista titubeou de novo e não comprou. A empresa ficou com os ingleses, que fundaram a Rio Claro Railway e continuaram fazendo planos para avançar, para Ribeirão Bonito, Água Vermelha, Pitangueiras, Agudos e Barretos.

Em 1892, a Paulista acordou e conseguiu comprar, agora a peso de ouro, a Rio Claro Railway.

Agora, ela ficava com os seus planos, mas teria de dispender muito dinheiro para conseguir alargar todas aquelas linhas em bitola métrica. Teria de esperar.

Só que não esperou parada. Tomou para si as obras que estavam já em andamento (Água Vermelha, Jaboticabal e Ribeirão Bonito) e assumiu os projetos (Bebedouro, Rincão e mesmo Barretos). Fez, ainda, tudo em bitola métrica, mas não se esqueceu da larga.

No início dos anos 1910, a bitola métrica ia de Rio Claro a Barretos, de Itirapina a Jaú, de Dois Córregos a Piratininga, de Pederneiras a Bauru, de Guatapará a Pontal, de Água Vermelha a Ribeirão Bonito.

Em 1916, a Paulista, depois de seis anos construindo novas estações e armazéns por todas as suas linhas, métricas e largas, mostrando poder, abria a linha de bitola larga Rio Claro-São Carlos, em trajeto diferente da que já havia (correndo a oeste da serra de Corumbataí, até Visconde do Rio Claro) mantendo todas as métricas ainda funcionando - inclusive a Rio Claro-São Carlos, que, entre Visconde e São Carlos seguia paralela à linha larga, com estações de duas plataformas!

Em 1928, a bitola larga já alcançava Rincão e estava totalmente eletrificada!

Em 1930, a larga já estava em Colômbia, às margens do Rio Grande. A métrica funcionava apenas nos 5 ramais (Água Vermelha, Ribeirão Bonito, Pontal, Jaú e Agudos) e entre Rincão e Bebedouro;  - a expansão da larga passou pela margem direita do rio Mogi, cruzando o rio duas vezes e, o ramal de Agudos já estava agora com a ponta em Marília.

Em 1941, já em plena Segunda Guerra Mundial (lembre-se que o "renascimento" de 1916 também estava, mas na Primeira!), reformou completamente o ramal de Jaú e ligou-o a Bauru, eletrificando todo o trecho Itirapina-Jaú.

Em 1947, dois anos após o término da guerra, a eletrificação chegava a Bauru. A Paulista era já há um bom tempo a melhor ferrovia do país e da América Latina. O ramal de Agudos estava em Tupã.

Até 1950, já havia comprado duas ferrovias médias, a Douradense e a São Paulo-Goiaz, e começava a investir na modernização de suas linhas principais. Em 1954, a eletrificação chegava até Cabralia Paulista. O ramal de Agudos, já tronco oeste, chegava a Adamantina em 1950 e em 1959 a Dracena.

Em junho de 1961, uma greve "sensibilizou" o governador para a encampação da que era a única ferrovia privada do Brasil e ainda a melhor da América. Neste país de absurdos em que vivíamos e ainda vivemos, nada mais surpreende.

Em 1976, a linha Rio Claro-São Carlos de 1916 foi substituída por uma variante mais moderna, que funciona até hoje com trens cargueiros, a maioria vindo de Mato Grosso..


segunda-feira, 11 de julho de 2016

A FEPASA DE 1905

Hugo Augusto Rodrigues
"Uma nova era economica se anuncia. O espirito de associação cresce e affirma-se garantindo a expansão das forças nacionaes. É o preambulo de um grande futuro que desponta. É o signal da vitalidade que nos anima, exprimindo o grau de confiança em nossos proprios recursos. A fusão da Paulista e Mogyana, tendo por escopo a acquisição da Sorocabana, é uma gigantesca tentativa, que cobrirá de beneficios S. Paulo e o Brasil inteiro. É a conquista de toda essa vasta riqueza concentrada na bacia do Prata".

Com uma frase como esta, parecia que o futuro do Brasil era maravilhoso e a curto prazo. Este texto foi escrito nas páginas do jornal O Estado de S. Paulo, em 16 de outubro de 1904, um domingo. Ele apoiava, claramente, a então dada como praticamente certa (pelo menos pelo jornal) fusão das três maiores ferrovias paulistas.

A crise econômica da época de Campos Salles estava acabando. A Sorocabana havia falido - a crise vinha de longe, desde antes da sua fusão com a Companhia Ytuana em 1892. A massa falida foi assumida pelo Governo Federal. O Governo do Estado estava comprando-a. São Paulo era mais rico que o Brasil?

Outro domingo, 20 de novembro de 1904, e o mesmo jornal diz que "ouvimos, de pessoas bem informadas, mas, ainda assim, damos uma noticia com as necessarias reservas, que se levantam algumas difficuldades para a fusão da Paulista com a Mogyana. Ao que dizem, a Ingleza, descontente com a projectada ligação de Itaicy, não só prestará a facilitar o emprestimo necessario para a acquisição da Sorocabana,  mas tambem procurará, por todos os meios, embaraçar que essa operação se realise. É possível, porem, que os iniciadores da fusão desistiram de levar a nova estrada ao porto de Santos e, então naturalmente, as difficuldades desapareçam".

A São Paulo Railway, SPR, ou "Ingleza", como queiram, jogava pesado com as três empresas brasileiras, duas particulares, uma estatal. Havia muitos interesses em jogo, como houve com a Mogiana, que tonou uma rasteira da SPR e viu a compra da Bragantina por esta (1903) jogar ao lixo sua pretensão de estender um ramal até Santos ou São Sebastião) e não depender mais dos ingleses.

Além do mais, a Sorocabana estava em rixa com os ingleses por causa da sua intenção - aliás, não somente intenção, como ela chegou por um tempo a fazer isso - de desviar suas cargas e também passageiros para Mairinque e chegar a São Paulo pela sua própria linha e não mais por Jundiaí, que ficaria somente com as cargas que seguissem para Santos.

Itaici era o foco deste problema. Estação que funcionava havia mais de trinta anos, a partir de 1897 passou a estar ligada até Mairinque, o que possibilitava o desvio para a linha-tronco da Sorocabana do que vinha de Piracicaba, Campinas e da Funilense. Agora, já se anunciava a possibilidade de ligação de Itaici também com Campinas, o que não somente desviaria cargas de lá e da Funilense, como também da Mogiana, que estaria ligad a Mairinque por uma linha direta sem alteração de bitola.

Pouco mais de três meses se passaram e, em 25 de janeiro de 1905, agora o jornal Correio Paulistano informava que o Congresso Estadual reunir-se-ia em 6 de março para organizar a Sorocabana nas mãos do governo do Estado ou transferir sua exploração, A fusão não deu em nada, a Sorocabana acabou sendo posta à venda pelo Estado e a SPR entrou na dança para comprá-la. Porém, o empresário Percival Farquhar foi mais hábil e ficou com ela.

Quanto à Mogyana, a intenção de ser absorvida pela Paulista não a agradava, ainda mais com a Sorocabana já fora da "fusão". E tudo parou por aí.

Calro que houve muitos outros detalhes nessa história.

domingo, 9 de agosto de 2015

CP EM CAMPINAS - ONTEM E HOJE

Campinas - locomotiva V-8 puxando um trem de passageiros - possivelmente anos 1960/70

Hoje recebi estas fotos de Wanderley Duck, que comunica que a foto atual foi tirada por Valentim (não sei o sobrenome).

O local é Campinas, na linha da antiga Companhia Paulista, atrás da rotunda.
Fotografia no mesmo local, em 2015

O fotógrafo também desenhou um mapa mostrando a sua posição na hora da foto, que era, claro, a mesma posição do autor da fotografia mais antiga (em preto e branco) e que me é desconhecido.
Google Maps - posição do fotógrafo. Do lado direito dessa imagem foi construída a nova rodoviária em 2007, numa parte da esplanada da estação.

As duas fotografias são bastante parecidas; para um observador menos atento e conhecedor das ferrovias paulistas, porém, não é bem assim:

1) O muro semi-destruído não seria aceitável na época da primeira fotografia;

2) A linha em primeiro plano já não pode mais ser usada; além de mato sobre ela, trilhos já foram arrancados;

3) As locomotivas V-8 como a da foto antiga já foram todas encostadas, abandonadas e quase todas elas sucateadas;

4) Trens de passageiros em Campinas não rodam mais desde 2001.

Enfim, as fotografias espelham a realidade em geral das ferrovias paulistas e brasileiras.

sábado, 1 de agosto de 2015

PESSIMISMO NA REDE FERROVIÁRIA PAULISTA

Fotografia de locomotiva da RUMO no pátio de Araraquara em julho deste ano. Foto Angelo Francisco Pereira

Uma nota publicada no site https://www.portosenavios.com.br/ em 30 de julho (anteontem) mostra claramente que a grita do abandono das ferrovias pelas concessionárias ferroviárias não é somente nossa, ferreofãs.

Alías, o título do artigo é, para mim, irônico. E, neste caso, está direcionado para a Rumo, sucessora da ALL em São Paulo (e no sul do Brasil). É bom lembrar que, no universo atual das siglas ferroviárias, a COSAN é a proprietária da RUMO.

E, claro, a postagem não cita os nomes SOROCABANA e NOROESTE, pois são empresas que não existem mais, oficialmente, desde os anos 1970. Somente servem para orientar os interessados no histórico de como essas linhas surgiram.

E mais isto: o nome ALL ainda é citado, mas ela também foi totalmente absorvida pela RUMO. Mais uma sigla para atrapalhar a leitura de artigos como este. E não confundir NOROESTE com NOVOESTE. O último nome foi apenas o que foi dado pela última em 1996 para renomear a primeira.

Transcrevo abaixo a postagem do site Portos e Navios na íntegra:

PLANOS DE EXPANSÃO FERROVIÁRIA AVANÇAM
30/7/2015 – Escrito por CLIPPING – Publicado em PORTOS E LOGÍSTICA

Bauru e região - Aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em fevereiro, a fusão entre a ALL, maior empresa de transporte ferroviário do Brasil, e a Rumo Logística, que pertence ao grupo Cosan, criou uma gigante do setor de logística no País.A fusão da ALL com a Rumo, que atua no mercado de serviços de logística multimodal para exportação de açúcar pelo Porto de Santos (SP), criou a gigante logística avaliada em cerca de R$ 11 bilhões, com 19 milhões de toneladas de capacidade de elevação no Porto de Santos, 966 locomotivas, 28 mil vagões e 11,7 mil funcionários diretos e indiretos.

Sob o comando da Rumo

Desse modo, a Rumo passou a comandar quase 13 mil quilômetros de linhas férreas. Nesse período inicial de integração, a empresa irá operar com foco na expansão da capacidade de operação, redução de custos e aumento da eficiência operacional.

As mudanças já começaram. Em maio, a nova concessionária anunciou suspensão do transporte de trens entre Três Lagoas e Corumbá em Mato Grosso do Sul, com a demissão de mais de cem funcionários e a desativação de mil quilômetros de ferrovia.

Segundo o diretor do sindicato dos ferroviários, Marcos Antônio de Oliveira, a empresa Rumo tem interesse nos grandes corredores ferroviários e, por isso, a linha que corta o centro-oeste paulista correria o risco de em um curto espaço de tempo perder o interesse e a função.


No trecho da ferrovia que passa por Mairinque, na região de Sorocaba, com destino ao porto de Santos, a partir de agora apenas trens carregados com placas de celulose vão passar.

Cimento, grãos

Antes, os trens circulavam carregados com cimento, grãos e combustível. A ordem é diminuir o movimento no trecho. Em média, o transporte pela ferrovia é 30% mais barato do que o rodoviário, mas com a diminuição do tráfego na região, o transporte terá que ser feito por caminhões.

De acordo com a assessoria da ALL a malha Novoeste continua em operação.

Paulínia e Campo Grande

Houve redução da circulação de carga de produtos perigosos entre Paulínia e Campo Grande e no caso de combustíveis, foi suspenso o transporte porque a via não oferece condições mínimas de segurança.

Planos no papel

A Cosan tinha colocado no papel o compromisso de investir 1,5 bilhão de reais na ampliação da malha ferroviária que liga o interior de São Paulo ao Porto de Santos, implementar melhorias nos terminais portuários e armazéns, além de comprar material rodante (locomotivas e vagões) moderno e mais produtivo.

Porém, os projetos de expansão e modernização ficaram travados por conta de questões de obtenção de licença ambiental em alguns trechos, situação não prevista no plano de ação.

Assim, pouco se avançou em investimentos e obras e o trem parou.

domingo, 10 de maio de 2015

OS RAMAIS DE 1976

Último trem de Descalvado (31 de julho de 1976)
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O ano de 1976 foi para São Paulo o ano em que praticamente todos os trens de passageiros dos ramais das ferrovias paulistas foi eliminado. Houve um "rabicho" até fevereiro de 1977. Eram esses os ramais que haviam sobrado do grande corte dos anos 1970.

A FEPASA havia sido formada em novembro de 1971. Os ramais métricos da ex-Paulista haviam sido eliminados todos nos anos 1960, com exceção de um, que foi passado em 1970 para a Mogiana (o ramal de Pontal, que entroncava com o ramal de Sertãozinho em Pontal). Sobravam os três ramais de bitola larga. A ex-São Paulo a Minas era praticamente um ramal (Evangelina-S. Sebastião do Paraizo). A ex-Mogiana teve ainda alguns empurrados para os anos 1970, e a ex-Sorocabana tinha vários ainda com trens de passageiros. A ex-E. F. Araraquara não tinha mais ramais.

E veio o baque em 1976. Porém, há linhas que foram extintas durante esse ano das quais jamais consegui ter informações que me levassem a quando, efetivamente, elas foram eliminadas. É sempre assim: quando se inaugura uma linha, se fazem grandes reportagens, todos ficam sabendo. Quando se as elimina, pouco se noticia, parece que temos vergonha do que estamos fazendo. E não é para ter?

Vamos conferir? (nota: cito abaixo apenas os ramai que começaram esse ano ainda com trens de passageiros. Não cito as linhas-tronco, que tiveram-nos até bem mais tarde).

Os três ramais de bitola larga eram todos ex-Paulista (mais uma abaixo citada):

Ramal de Piracicaba (Nova Odessa-Piracicaba) - Os trens de passageiros foram extintos em 20 de fevereiro de 1977. Cargas ainda seguiram pelo ramal, cada vez menos, até os anos 1990. Hoje o ramal está abandonado e vários trechos de trilhos já foram retirados - ou roubados.

Ramal de Descalvado (Cordeirópolis-Descalvado) - Os trens de passageiros, que então já eram somente mistos, foram suprimidos em 31 de julho de 1976, entre Pirassununga e Descalvado. Continuaram correndo de Cordeirópolis a Pirassununga até o dia 20 de fevereiro de 1977. O ramal continuou carregando cargas até cerca de 1990 e foi totalmente suprimido entre 1995 e 2002.

Ramal de Santa Santa Cruz das Palmeiras (Pirassununga-Palmeiras) - Os trens de passageiros foram suprimidos aparentemente (não há uma confirmação) no mesmo dia (31 de julho de 1976) em que se extingui o trecho Pirassununga-Descalvado. Mas foi em 1976.

Linha Barretos-Colômbia - esta linha não era um ramal, era o trecho final da linha-tronco principal da ex-Paulista. Porém, desde sua abertura (1930) até então, os trens que nela corriam sempre o faziam partindo de Barretos, num bate-volta até a cidade de Colômbia, estação terminal às margens do rio Grande, divisa com Minas Gerais. Em 15 de julho de 1978, esses trens também foram suprimidos - sobreviveram dois anos ao apocalipse de 1976.

Agora, os da ex-Mogiana - todos métricos:

Ramal de Caldas (Aguaí-Poços de Caldas) - Os trens de passageiros foram extintos em 1976, sem data exata conhecida. O ramal funciona até hoje para carregamento de bauxita. Porém, não atinge mais a cidade de Poços de Caldas, onde os trilhos foram arrancados.

Ramal de Guaxupé (Casa Branca-Guaxupé) - Os trens de passageiros foram extintos em 1976, sem data exata conhecida. Voltaram a funcionar em 1986 por um dia apenas (era para ser a viagem de reinauguração) entre Casa Branca e São José do Rio Pardo. Logo em seguida a linha foi fechada e os trilhos arrancados.

Ramal de Sertãozinho (Barracão-Guatapará) - Os trens de passageiros foram extintos em 1976, sem data exata conhecida.

Linha do Rio Grande (Ribeirão Preto-Jaguara) - Os trens de passageiros haviam sido extintos em 1970, de Pedregulho a Jaguara sem data exata conhecida, depois, entre Franca e Pedregulho em 1972 a entre Ribeirão Preto e Franca em 15 de fevereiro de 1977 (depois de uma brave interrupção em julho de 1976). O último cargueiro circulou em 1980. Em 1988, a linha foi definitivamente erradicada.

Ramal de Guatapará (Ribeirão Preto-Guatapará) - Os trens de passageiros acabaram em 1976 - sem uma data fixa encontrada. O ramal teve os trilhos arrancados em 1978.

A ex-São Paulo-Minas tinha apenas uma linha, métrica (Evangelina-São Sebastião do Paraiso). Nessa linha rodaram trens de passageiros até 1976, sem que eu jamais achasse uma notícia do dia de sua desativação.

A ex-Sorocabana tinha várias linhas, todas métricas, ainda em funcionamento para passageiros:

Ramal de Juquiá (Santos-Juquiá) - Os trens de passageiros acabaram em 1977. Porém, voltaram a funcionar entre 1983 e outubro de 1997. A linha seguiu com cargas até 2003 e depois foi abandonada, embora ainda exista.

Linha Mairinque-Santos - Os trens de passageiros faziam esta linha em dois pedaços. Mairinque a Evangelista de Souza e Evangelista de Souza a Santos. Ambos foram extintos em 1976. Porém, a linha voltou a funcionar para passageiros no trecho entre Santos e Embu-Guaçu de 1982 a 1997, quando parou em outubro.

Ramal de Jurubatuba (Julio Prestes-Evangelista de Souza) - Os trens de passageiros de longa distância, que seguiam até Santos, foram extintos em 1976, mas não há notícias que confirmem até qual mês. Hoje esta linha - ou parte dela (é ligada hoje à estação de Osasco, seguindo pelo antigo leito até a estação de Grajaú) pelos trens metropolitanos da CPTM. O transporte de cargas parou por volta de 2000 e os trilhos não ligam mais Grajaú ao entroncamento com a linha Mairinque-Santos, onde se juntavam na estação Evangelista de Souza.

Ramal de Dourados (Pres. Prudente-Euclides da Cunha) - Neste caso, o tráfego de passageiros se estendeu até 1978 - possivelmente março. O tráfego de cargueiros não durou muito e a linha foi totalmente erradicada em meados dos anos 1980.

Ramal de Bauru (Botucatu-Bauru) - O tráfego de passageiros funcionou até 1976, sem notícias de quando exatamente. O tráfego de cargueiros continua até hoje. Este ramal é, na prática, hoje, uma continuação da linha da antiga Noroeste.

Ramal de Itararé (Iperó-Itararé) - Os trens de passageiros funcionaram até janeiro de 1979, quando já circulavam apenas como trem mistos. Há algumas indicações que em 1977 era teria deixado de funcionar por algum tempo, tendo sido reativada antes de fechar definitivamente em 1979. O trecho Itapeva-Itararé foi extinto em 1994. O ramal ainda funciona para cargas e é uma das ligações com o Paraná, por uma linha que liga Itapeva a Pinhalzinho e a Ponta Grossa. Pela linha Sorocaba-Iperó-Itapeva-Apiaí (o ramal para Apiaí foi construído já pela Fepasa em 1973) ainda rodou muito tempo mais tarde o trem Sorocaba-Apiaí, de 1997 a 2001.

Ramal de Piracicaba (Itaici-Piracicaba) - Esta linha de passageiros também foi extinta em 1976, sem notícias mais exatas. Foi erradicada em 1991.

Ramal de Campinas a Mairinque (Campinas-Mairinque) - Chamado também de linha da Ituana, o tráfego de passageiros morreu em 1976. Quando exatamente? Sem notícias. O ramal acabou sendo totalmente erradicado em 1987, quando ficou pronta a variante Campinas-Guaianã em bitola mista, usada atá hoje como parte do "Corredor de Exportação", tornando-se parte da linha mais importante do Estado atualmente.

domingo, 26 de abril de 2015

UM DIA O TREM PASSOU POR AQUI (2)

Uma das fotos da estação de Itatingui, tirada por mim na época, que sugeriu o nome do livro
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Uma das coisas que aconteceram nos últimos tempos e que me deram muita alegria foi a descoberta, por acaso, de um livro publicado nos Estados Unidos, de nome Brazilian Railway Culture, escrito por Martin Cooper, a quem não conheço — nem havia ouvido falar dele até três dias atrás. Porém, agradeço demais a ele pelo que escreveu sobre mim e meu livro.

Achei-o na Internet, pesquisando sobre ferrovias, como sempre faço, e não pude ler o livro todo até agora, pois o que eles publicam são partes dos livros. Um dos capítulos fala sobre alguns livros escritos no Brasil e seus escritores. O que ele falou de meu livro deixou-me muito contente, realmente, pois ele captou a essência de um livro escrito por mim há pouco mais de treze anos (2001) e que, infelizmente, tem sua tiragem esgotada.

Fruto de uma pesquisa que, na época, completava pouco mais de cinco anos, além de troca de ideias com diversos aficionados por ferrovias brasileiras e do exterior, meu foco foram os trens de passageiros do Estado de São Paulo, que, quando da publicação do livro (novembro de 2001), haviam sido definitivamente extintos oito meses antes, em péssimas condições e correndo em pouquíssimas linhas, comparadas com as então ainda existentes no Estado de São Paulo, reservadas pelas concessões para transporte de carga e para serem sucateadas — disto ficamos sabendo mais tarde…

O livro Um Dia o Trem Passou por Aqui, com subtítulo "A história e as estórias dos trens de passageiros do Estado de São Paulo e as saudades que eles deixaram" tem alguns comentários a ser feitos por mim.

A capa é uma foto que Alberto del Bianco postou em um e-mail, quando eu já estava terminando o livro: ele disse tê-la encontrado depois de algum tempo numa gaveta. A intenção não era fornecer uma capa para o livro, mas, sim, mostrá-lo em cima de uma porteira em Ubá Paulista, próximo à estação de Itirapina, em 1959, observando a passagem do trem mais famoso de São Paulo — o da linha-tronco da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

O título veio de um comentário feito por Sergio Romano (até onde me lembro), quando viu uma fotografia postada por mim numa lista de discussão de ferrovias na Internet: "Um dia o trem passou por aqui." A foto mostrava a antiga, simples, muito bonita e então semiabandonada e já sem trilhos estação de Itatingui, lugarejo rural no município de Pederneiras. Esta linha havia sido extinta no já distante ano de 1966. Achei essa frase ideal para o título.

O texto de abertura do primeiro capítulo do livro foi, na verdade (e isto é citado ali), escrito por meu avô Sud Mennucci, em 1912, para um jornal da época — não identificado no recorte de seus arquivos, que me chegaram às mãos seis anos antes. Quando estava já revisando o livro, minha esposa se ofereceu para fazê-la também. Ela, a um determinado momento da leitura, disse-me que esse trecho era muito bonito (retratava um fato real relatado por meu avô numa viagem feita a partir de Limeira, com baldeação em São Carlos, onde meu avô tomaria outro trem para chegar a Dourado, onde dava aulas na época), alem de romântico, e deveria, na opinião dela, abrir o livro — em lugar de abrir o quarto capítulo, como estava no rascunho —, pois ele certamente abriria mais o interesse do leitor pelo resto da leitura. Eu achei que, sim, valia a pena e mudei, fazendo todos os ajustes necessários no resto do texto. Na verdade, o quarto capítulo virou o primeiro.

O autor do livro americano percebeu isso. Não a troca de capítulos, mas impressionou-se com aquele relato de meu avô e pelo fato de ele abrir o livro. Isto deixou o casal feliz aqui em casa.

Devo ressalvar que o livro foi totalmente patrocinado por mim e minha esposa e não teve qualquer evento de lançamento. O editor fui eu mesmo, contratando e intermediando os serviços de impressão com uma gráfica paulistana. Foi o meu segundo livro (o primeiro foi a biografia de meu avô Sud, patrocinada pela Imprensa Oficial do Estado, do qual também fui o editor) e o primeiro de dois sobre estradas de ferro paulistas. Não foi distribuído em livrarias, teve uma tiragem de apenas mil edições, que, com raras exceções de um ou outro livreiro que quis pegar meia dúzia de edições para deixar exposta em livrarias pequenas, foi vendida por mim, ajudado pelo meu site de estações ferroviárias. A tiragem levou dez anos para esgotar-se.

Por outro lado, é extremamente difícil este livro ser encontrado em sebos, o que significa, no meu ponto de vista, que quem o tem não quer desfazer-se dele.

E, por fim, devo dizer que, do final dos anos 1990 para cá, foi lançada uma quantidade relativamente alta de livros sobre ferrovias brasileiras, alguns muito bons e possivelmente até melhores do que os meus. Ainda assim, o meu foi um dos poucos citados neste livro americano. O texto sobre ele é curto, toma no máximo duas páginas, mas comenta realmente o que vários leitores falaram acerca dele após seu lançamento.

Não transcrevi o texto, mas coloco-o por fotografia (print screen), abaixo. E obrigado ao apoio que sempre deram a mim e ao meu livro.

segunda-feira, 30 de março de 2015

AS FERROVIAS EM SÃO PAULO E SEUS RESULTADOS EM 1931 APÓS O CRACK NA BOLSA DE NY

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo de 18 de janeiro de 1931, as ferrovias paulistas então existentes no início desse ano haviam tido os seguintes resultados financeiros, que podem ser lidos na reprodução abaixo.

Eram 25 ferrovias, e algumas divididas em trechos de acordo com sua conveniência. Dessas estradas, 17 eram privadas (depende também muito de como as classificamos como "privadas" e o restante era do governo estadual ou federal.

A Noroeste e a Central do Brasil eram da União. A Sorocabana, São Paulo-Minas, E. F. Araraquara, E. F. Campos do Jordão, Tramway do Guarujá e a Cantareira eram direta ou indiretamente do Governo do Estado.

Seis ferrovias não apresentaram resultados nos dois anos (1929 e 1930). Uma delas apresentou os números somente em 1929.

Números contábeis são números. Em teoria, sete deram lucro (aqui, receita menos despesa) nos dois anos: no caso da Sorocabana e da SPR, consideramos que mesmo havendo secções com prejuízo, o total resultou em lucro. Cinco delas deram prejuízo em pelo menos um dos dois anos. Seis deram prejuízo em dois anos. Uma delas - a São Paulo-Minas - estava falida e havia sido "acolhida" pelo governo estadual. Somente voltaria 'as atividades na sua linha completa (dois ramais) nos anos 1940.

Segue a tabela. Para ver as linhas da direita (lucro ou prejuízo) cliquem sobre a figura.