sábado, 2 de janeiro de 2010

A HISTÓRIA DE SÃO PAULO CONTADA POR SEUS RIOS E CÓRREGOS

O córrego do Itaim divide até hoje São Paulo de Santana de Parnaíba, desde a separação dos dois municípios que se deu em 1625. À esquerda, Parnaíba. À direita, São Paulo. Uma pena a imundície do pequeno rio.

A história de São Paulo contada por seus rios e córregos daria um grande livro. Um livro onde se tentaria desenterrar histórias esquecidas de como uma cidade pode crescer orientada pelos seus rios e córregos. E como isso pode ou não ser bom. No caso de São Paulo, eu diria que não foi.

É lógico que aqui não dá para escrever praticamente nada sobre o assunto. A cidade nasceu sobre uma colina situada junto a um rio, o terceiro maior rio da cidade atual em largura, o Tamanduateí. O estabelecimento da cidade sobre a colina era estratégico em termos de defesa – a pequena cidade original chegou a ter uma cerca em volta, no século 16.

Depois, a cidade alcançou seus outros rios e córregos, espalhando um grande município através deles. Vários bairros que eram afastados do centro da cidade e depois unidos pela conurbação no século 20 surgiram às margens desses cursos d’água e foram povoados por causa deles (entre outras razões). Pinheiros, à margem do Pinheiros. O Tatuapé por causa do córrego do mesmo nome. E outros.

Outros cursos serviram de divisas de loteamentos, causando o caos atual da cidade – os bairros que se formaram desses loteamentos geralmente acabaram sendo unidos de formas nem um pouco planejadas. E houve córregos que apenas cruzaram bairros sem jamais terem sido origem de uma avenida de fundo de vale (como o córrego da Traição, que está debaixo da avenida dos Bandeirantes).

O córrego do Sapateiro tem uma história, por exemplo. Suas nascentes, curiosamente, estão a cem metros da casa em que meus avós moravam na Vila Mariana, que eu sempre cito aqui em minhas recordações: entre as ruas Capitão Cavalcanti e Sud Mennucci, na parte mais baixa das duas ruas. Embora a nascente já tenha virado galeria de águas, ele corre poucos metros e entra num terreno que, creio (não passo lá há algum tempo), ainda está baldio. De lá ele corcoveada pelo seu pequeno vale, debaixo de terrenos, cruzava a rua Rio Grande, passava ao lado do antigo Matadouro (hoje Cinemateca), passava sob a antiga linha de bondes para Santo Amaro (junto a onde está hoje a saída do túnel que liga a Juscelino à Sena Madureira), passava dentro do Parque Ibirapuera, servia de limite para a Vila Nova Conceição, tendo sido nos anos 1980 canalizado para dar origem às avenidas Antonio Joaquim de Moura Andrade e depois a Juscelino Kubitschek (uma continuação da outra). E finalmente desembocava no rio Pinheiros.

Ele foi, junto o córrego Curitiba, seu afluente, um dos formadores do lago artificial do Ibirapuera – uma barragem, enfim. Era também chamado de córrego do Curtume. Hoje somente se pode fotografá-lo próximo à sua nascente na Vila Mariana. O resto está todo embaixo de ruas. E, claro, no lago do parque, onde está represado.

4 comentários:

  1. Ha mais de 300 cursos d'agua somente na cidade de Sao Paulo que estao: soterrados, aterrados, poluidos ou canalizados. E hoje se fala em racionamento e falta d'agua. Nao falta agua, falta agua limpa e acessivel.

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  2. Um córrego que sumiu foi o do Bexiga. O mapa mais novo em que ele aparece é de 1890:

    http://arquiamigos.org.br/info/info20/img/1890-download.jpg

    Ele corria entre a rua de Santo Amaro e a rua dos Valinhos (atual Major Diogo. A rua Misericórdia que aparece no mapa é a atual Abolição). Eu acho que ele está canalizado sob a atual rua Japurá. Depois passa sob o viaduto Jacareí, faz uma curva à esquerda, cruza a Santo Antonio e deságua no Saracura próximo do viaduto 9 de Julho.
    No Estadão de 16.10.1896 há uma nota sobre os trabalhos de canalização desses 2 córregos:

    "Foram aceitas as propostas apresentadas à superintendência de obras públicas pelos srs. Dr.Samuel... para canalisação do córrego Bexiga e do Dr.Arthur... para a do córrego Saracura ambos nesta Capital."

    Em 03.04.1897 o Estadão publicou a seguinte nota:

    "Pelo dr.secretário da agricultura foram solicitados do da fazenda os seguintes pagamentos:
    de 20:250$742 ao Dr.Arthur..., proveniente de trabalhos executados na canalisação do córrego Saracura;
    de 63:100$872 ao Dr.Samuel..., proveniente de trabalhos identicos executados no córrego Bexiga"

    As obras duraram só 4 meses e foram pagas pelo governo do Estado (suponho que a prefeitura não tivesse secretaria da Agricultura).

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  3. No Estadão de 25.03.1917, página 5, Queixas e Reclamações:
    "Proprietários e moradores da Alameda Lorena pedem-nos que chamemos a attenção do sr. Prefeito municipal para o estado de abandono em que se encontra essa via pública, no trecho comprehendido entre as ruas Rocha Azevedo e Peixoto Gomide.
    Existe alli um córrego, sem ponte, impedindo o transito de pedestres e vehiculos...:

    http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19170325-13968-nac-0005-999-5-not

    Que córrego seria esse? Não aparece em nenhum mapa da época. Eu confio mais na notícia que naqueles mapas porque ali era o fim da cidade e os mapas eram imprecisos nos arrabaldes. Havia um córrego onde hoje é a 9 de Julho e que era cortado pela Lorena mas ele ficava entre a Casa Branca e a Pamplona.

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