sexta-feira, 4 de setembro de 2009

LARANJA AZEDA

O nome pode ser engraçado, mas é o nome de um posto telegráfico que fica no município de Pirassununga, perto da divisa com o município de Porto Ferreira. Mais curioso ainda é que existiu uma estação, hoje já demolida, com o nome de Laranja Doce, esta em Martinópolis, do outro lado do Estado, junto a Presidente Prudente.

O posto foi aberto em 1886, mas o chalezinho que ficou até hoje foi construído em 1891 pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Sua função era regular a bifurcação de linhas que ali existia. Para nordeste, Santa Cruz das Palmeiras, pelo ramal de Santa Veridiana. Para noroeste, Porto Ferreira, na continuação do ramal de Descalvado. O nome de “chalet” foi a própria Paulista quem deu, no relatório em que descrevia sua construção.

Descaracterizado, com o madeirame que enfeitava a queda do telhado da plataforma, parece-se hoje com uma casinha comum. Sem trilhos, sem nada por perto que lembre a ferrovia ali arrancada em 1997, estava em 2003 habitada por gente simples que provavelmente invadiu uma construção que a ferrovia não mais queria nem com ela se importava.

Em volta, uma ou outra construção, afastadas umas das outras, e mato, muito mato. No pequeno vale ao lado, o córrego da Laranja Azeda. A primeira referência que li sobre o local foi saber que meu bisavô (outro! Afinal, são sempre quatro, não são?) Daniel Carvalho de Oliveira havia trabalhado ali em 1881, ainda na época em que a ferrovia apenas passava por ali sem posto algum para parar e ainda sem a bifurcação.

É muito provável que ele tenha trabalhado ali como funcionário da Paulista. Ele havia vindo de Rio Claro, onde também trabalhara para a ferrovia. O que fez em Laranja Azeda não dá para saber; nada ficou registrado. Conserva de linha? Possível, porém sabe-se que existiu uma cerâmica no local, que já não funciona mais e que também não sei se já existia há 130 anos atrás. Ele poderia ter trabalhado nela.

De lá, Daniel foi para Porto Ferreira, muito próxima, cidade que nasceu com a estação em janeiro de 1880. Voltou para Portugal e retornou ao Brasil para casar-se com Constancia da Silva, que veio de Portugal para Porto Ferreira como “noiva encomendada”, por recomendação de seu irmão, amigo de Daniel. Constancia era 23 anos mais nova que Daniel. No Porto, como chamavam, tiveram treze filhos, entre os quais Maria, minha avó por parte de mãe.

Laranja Azeda, por sua vez, praticamente acabou. Chamar aquilo de bairro rural é um exagero. Mesmo com a estrada que liga Pirassununga a Emas muito próxima, a falta da cerâmica e da ferrovia parece que liquidou de vez o local. O chalet ainda existia em 2003, mas jamais voltei ao local, nem sei se a construção ainda está lá. Espero que sim, pois ela e o local marcam um pouco da memória de minha família.

2 comentários:

  1. Está! Estive em 'Pira' neste ano, e um tio meu afirmou que o "barraquinho da laranja azeda", está lá, com roupa pendurada no varal. Ali é um local muito próximo da Fazenda da Aeronáutica, uma área militar, portanto. Acredito que isso afaste um pouco as pessoas, embora não pareça, a presença militar acaba preservando até a área que não faz parte da Aeronáutica. Aliás, próximo dali hoje existe uma fazenda experimental de mudas e peixes (alevinos) do IBAMA. Área federal por todo lado. E qdo. falo em preservar, digo no sentido da floresta, daí o mato acaba invadindo mesmo, inclusive antigas construções. Sendo Pirassununga a terra da cana, nem isso plantam nas redondezas.

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  2. Engraçado. Fazem já 43 anos que mudei de Pirassununga para SP. Neste período todo, pouco me lembrei de um lugarejo chamado Laranja Azeda. Hoje, acordei com o nome na cabeça. Quando eu ainda morava por lá, era costume as pessoas se referirem, a título de brincadeira, à Laranja Azeda como uma espécie de fim-de-mundo. Fiquei feliz, ao pesquisar e verificar que o local existe, de fato, e o seu blog conta um pouco da história dele.
    banin2@uol.com.br

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