terça-feira, 20 de julho de 2010

O FIM DO NOSSO INTERIOR

Estação de Canindé, em 17/6/2000. Foto tirada por mim

O texto abaixo foi escrito por mim e publicado no jornal A Tribuna, de Santa Cruz das Palmeiras, em julho de 2000.

No último domingo, dia 25 de junho, li no jornal dois artigos. Um falava sobre a China. Outro, sobre Coronel Vivida. Qual seria a relação entre eles? O primeiro falava, entre outras coisas, que para se manter a estabilidade naquele país de mais de um bilhão de habitantes, concluiu-se ser indispensável melhorar a vida de 900 milhões de camponeses, e para isso, o governo chinês mantém campanhas “monstruosas” de investimento no interior do país. Pela reportagem conclui-se que, lá, cerca de setenta e cinco por cento da população ainda vive em áreas rurais. E emigrando para as cidades, onde já vivem 300 milhões de chineses, eles fatalmente estariam legados ao desemprego.

Enquanto isso, em Coronel Vivida, Paraná, a prefeitura vem investindo já há alguns anos para equiparar a qualidade do ensino com o das escolas da cidade, a fim de evitar que se acentue o êxodo rural. Comprando alimentos para a merenda de fornecedores locais, oferecendo cursos profissionalizantes para os jovens para aumentar a renda dos agricultores da região, priorizando jogos educativos e tomando outras medidas que vêm provando ser eficazes, a cidade vem tendo excelentes resultados.

Não é isto, infelizmente, o que se vê na maioria das cidades do interior do País. Coronel Vivida não é certamente o único exemplo, mas eles não são muitos. A China percebeu o problema, mas o Brasil não, com exceção de algumas cidades.
Meu avô lutou durante boa parte de sua vida, na primeira metade do século, para tentar conter o êxodo rural através de um programa de educação nas cidades do interior que fosse voltado para elas próprias e não para as cidades grandes. Na época em que começou sua cruzada, mais precisamente em 1911, quando estava se iniciando na carreira de professor onde hoje é o município de Serrana, a população rural no Brasil correspondia a mais de setenta por cento da população total do País.

Quando ele escreveu sua maior obra sobre o assunto, o livro A Crise Brasileira de Educação, em 1930, a população rural já havia diminuído proporcionalmente. Ele, infelizmente, perdeu a batalha, e olhe que ele deteve, em sua vida, um poder de fogo bastante razoável para conseguir o seu intento. O poder dos outros era, entretanto, muito maior, de forma que, hoje, mais de cinqüenta anos depois de sua morte, mais de oitenta por cento da população vive em áreas urbanas, com as consequências que se podem notar.

A zona rural em geral vai perdendo habitantes, que vão para as cidades, que, tanto pequenas quanto grandes, vão crescendo e inchando. Colônias rurais antigas e hoje vazias são varridas, literalmente, pelas máquinas que as derrubam e no seu lugar plantam principalmente cana. A impressão que fica é que ali nunca houve povoamento algum. Nenhum resquício, quase nenhuma lembrança... é até impossível de localizar com exatidão onde estava aquele patrimônio.

Poucos dias atrás, e antes de ler o jornal de domingo, estive num lugarejo chamado Canindé. Canindé não tem mais do que vinte casinhas, algumas delas, antigas e muito bonitas, sinal de que um dia aquela foi uma próspera vila. Nos anos 1920, era uma bastante próspera estação ferroviária do ramal de Igarapava, este uma continuação do tronco da Mogiana, que levava a Uberlândia e Araguari. Nessa época, um fazendeiro construiu ali um depósito de locomotivas, de onde elas partiam diariamente para o norte, chegando pelas linhas da Mogiana à beira do rio Grande, carregando lenha para as usinas e fazendas do próspero coronel, dali seguindo por seus próprios ramais.

Os anos passaram, as ferrovias se deterioraram, e para piorar a situação, em 1979, Canindé, que já não tinha mais a partida dos trens do coronel, ficou também fora da linha do ramal, retificado nesse ano pela Fepasa. Perdida no meio do canavial cada vez mais denso, e a seis quilômetros do asfalto da via Anhangüera, há poucos anos os moradores que sobraram foram procurados pela Prefeitura da cidade a qual passaram a pertencer, Aramina, para que cedessem suas terras em troca de casas prontas, num bairro novo muito próximo do centro do município.

Vários trocaram, poucos ficaram. Canindé ainda existe, mas não é nem uma sombra de seu passado. As crianças brincam nas árvores secas que ainda sobraram junto ao canavial, e a velha estação virou moradia para algumas famílias que nem sabem a quem ela pertence. Eles dizem que não saem. Até quando?

E até quando o Brasil vai resistir, com o êxodo das pessoas do interior, expulsos de suas origens pelo interesse e omissão do próprio poder público? Pobres cidades, vilas e povoados que perdem cada vez mais a sua identidade e cujo povo acaba favelizando as cidades, tendo uma queda brutal na sua qualidade de vida, e, pior, sem percebê-lo, alimentados pela esperança e pela oferta de uma vida melhor que apenas pouquíssimos conseguem alcançar... Esperemos que, daqui para frente, mais prefeitos como o de Coronel Vivida e menos como aquele de Aramina apareçam em nossas cidades.

2 comentários:

  1. Seu avô foi um pioneiro. Já naquela época, imagine, 1930, crise do ensino. Ele tinha razão, hoje não é novidade, mas pouca gente se importa pra que lado a água corre. Estudiosos já se cansaram. Não querem mais ficar com cara de "eu te disse, eu te disse".
    Vindo pros lados de cá (Triângulo Mineiro) não deixe de entrar em contato.

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  2. Quando vivi e trabalhei em Rio Claro como jornalista, fiz uma série de reportagens sobre os distritos de Rio Claro: Batovi, Itapé, Ajapi, Ferraz e outros. A História era sempre a mesma quando eu encontrava um morador antigo, geralmente, os mais dispostos a relembrar o passado: "Isso aqui tinha muito mais gente, os trens eram regulares, tinha escola própria, movimento, comércio" - Hoje a maioria parece abandonada diante de uma Rio Claro que só cresce em sua porção urbana. Retratos idênticos em localidades vizinhas que visitei, como Ubá, Graúna e outros distritos vizinhos. Alguns chamam de evolução da agricultura, mecanização, produção em larga escala... Ainda gostaria que em São Paulo tivesse vencido o sistema parecido com o implantado em SC e no RS, com a tal "classe de pequenos produtores", lá ainda vemos as "colônias" com muito mais pessoas fixas se comparadas aos nossos velhos bairros rurais.

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