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quinta-feira, 1 de março de 2012

AS FERROVIAS EXISTIRAM, SIM E NÃO SÃO LENDAS!

Uma coletânea de fotos (bem, não exatamente coletânea: são somente seis) ferroviárias tiradas ao acaso na minha coleção... deve desperta saudades em quem conheceu e tristeza em quem não conheceu. O carro acima, fabricado em 1897, pertenceu à Companhia Paulista e estava assim, há cerca de seis anos, num sítio em Tutoia, Araraquara, quando o fotografei. Mais tarde, foi vendido e um senhor o reformou, mantendo-o em um sítio em Santa Cruz das Palmeiras.
O virador acima, de bitola larga, está (ou estava) em Porto Ferreira, no pátio da estação ferroviária, quando o achei.

A placa de baldeação estava no chão da estação abandonada em Passagem, Pitangueiras, SP. Hoje, está em Jaboticabal.
A estação de Loreto serviu de cenário em 1947 para o filme "Luar do Sertão". Alguém assistiu: A foto foi tirada numa dessas filmagens nesse ano. A estação foi demolida há mais de quinze anos, hoje não sobra nem a plataforma.
Outra placa de baldeação, esta mantida em seu lugar, em Campos Salles, antiga bitola métrica da Paulista, ramal de Agudos. Nesta estação se baldeava para o ramal de Barra Bonita.
Esta velha bilheteria está na estação de Hammond, perdida no meio do mato em Guariba, SP. Há mais de quarenta anos que não se vende mais bilhete algum ali.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

FERROVIAS EM ESCOMBROS

Próximo à estação de Coroas, Rio de Janeiro, município de Valença, na antiga linha do ramal de Santa Rita do Jacutinga, ainda pode ser visto o que sobrou dos trilhos arrancados há mais de quarenta anos (foto de 2007).
Não é segredo para ninguém, até mesmo para quem não se interessa pelo assunto, que de boa parte das ferrovias brasileiras só restam escombros. Ruínas de um passado rico e glorioso que o governo não fez questão alguma de conservar, nem para usar, nem para somente ser apreciado.
Ponte ferroviária da Mogiana sobre o rio Pardo, hoje rodoviária, na divisa dos municípios de Santa Rosa de Viterbo e de Cajuru (Foto de 1998).
Mesmo assim, por ironia do destino, alguns destes restos continuam impressionando pelo que parece ser uma luta intuitiva pela vida - por se manter à mostra.
Estação de Jacutinga, em 2002 - antiga Estrada de Ferro do Sapucaí, Minas Gerais. Estação desativada no final dos anos 1980, foi ocupada por uma série de pequenas empresas, lojas e escritórios, cada vez mais se descaracterizando mais. Porém, ficou em pé. Foto de 2002.
Algumas das fotografias aqui mostradas - uma gota d'água num oceano de restos de demolição e vandalismo - mostram que, mesmo em pedaços, ainda existe beleza no que sobrou.
Ruínas do que um dia foi a estação de Baldeação, da Mogiana, importante entroncamento desta linha com a da Paulista, no município de Santa Cruz das Palmeiras, SP. A foto é de 2000.
Tudo vai se corroendo pelo tempo, pelo "progresso", aqui entre aspas, por que se começa a questioná-lo em termos de "isto tudo é mesmo progresso?".
No pátio da antiga estação de Loreto, Araras, SP, a pequena escola rural já fechada em 1997 e uma linha que não via trens havia cerca de dez anos já. Tudo foi arrasado pouco depois.
Pelo menos uma destas fotos não pode ser tomada de novo: tudo ali sumiu debaixo de um loteamento, quinze anos depois de eu ter estado lá.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A MAD MARIA DE PALMEIRAS

Almoço na Exposição Nacional de 1908. O terceiro sentado da esquerda para a direita é Percival Farquhar. À direita, sentado, de barba e olhando para o fotógrafo, o Presidente Affonso Pena.
O texto abaixo foi escrito por mim em 2005 para o jornal A Tribuna de Santa Cruz das Palmeiras, SP, daí o título.

E a Rede Globo resolveu adaptar o romance Mad Maria para a televisão. Ele discorre sobre a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, mas, cuidado – é um romance. E, como tal, não conta a verdadeira história dessa estrada. Aliás, a Globo nunca afirmou isso. Não li o livro, portanto, não sei quais mais modificações o seriado colocou na sua adaptação. Mesmo assim, assistindo a alguns dos primeiros capítulos – não consigo assistir a todos, devido ao horário – não pude deixar de notar alguns erros históricos que não deveriam aparecer mesmo em um romance ou em sua adaptação.

O primeiro erro: o vilão da história, Percival Farquhar, fala que “precisa daquelas concessões das ferrovias no Paraná”. Mas a história se passa em 1911, de acordo com o anunciado no primeiro capítulo. Farquhar já tinha todas as concessões do Paraná desde meados de 1910. Todas. Mesmo em um romance, isto soa estranho.

O segundo erro é mais problemático: Farquhar era mesmo um vilão? Quem era ele, afinal? Em primeiro lugar, como já se pôde depreender, Percival existiu mesmo. Nasceu em 1864 e morreu em 1953, nos Estados Unidos. Era um empresário riquíssimo, filho de pai igualmente rico, mas de mãe quaker – como sabemos, os quakers são famílias religiosas protestantes que têm colônias, geralmente agrícolas, geralmente no nordeste dos Estados Unidos, e são extremamente conservadores – normalmente, nem se casam com quem não seja de sua crença. A mãe de Farquhar casou-se – mas ele com certeza teve a sua educação bastante conservadora. O biógrafo de Farquhar, Charles Gauld, entrevistou-o várias vezes antes de sua morte, mas seu livro, em inglês, com mais de 500 páginas, está esgotadíssimo. Charles afirma que Farquhar tinha muito de quaker, era uma pessoa com imenso tino comercial, mas que não costumava tratar mal os outros, bem como não era típico dele praticar atos de suborno. Lidando com governos, entretanto, como era o seu caso com a Brazil Railway Company e outros países da América Latina, ele não podia escapar disso – mas tinha a sua equipe pronta para fazê-lo quando fosse necessário. Por isso, foi muito estranho para mim, vê-lo tratar o seu principal sócio e dono da Light do Rio de Janeiro – Alexandre Mackenzie, cujo nome está há anos no prédio da Light de São Paulo no viaduto do Chá que hoje é um shopping center – como se fosse um empregado qualquer seu. Mackenzie, cujo primeiro nome nunca é citado no seriado, nunca se deixaria ser tratado dessa forma. Da mesma forma, Farquhar não conseguiria falar como falou com Rui Barbosa, no primeiro capítulo, ao tentar convencê-lo a processar Alberto Torres, sabendo que o único problema de Torres era não gostar dele, Farquhar. Torres existiu mesmo, e foi uma das primeiras pessoas a tratar o ruralismo no Brasil, tendo sido ele um dos grandes patriotas nacionalistas daquela época. Não foi por menos que meu avô, Sud Mennucci, que também lutou nessa área, teve-o como um de seus inspiradores.

Em suma: ninguém é vilão apenas por ser um empresário com dinheiro. Há autores que escreveram sobre seus investimentos que o tratam como um demônio. Percival investiu muito no Brasil – muito mesmo. Em seis anos, entre 1906 e 1912, ele e sues sócios, em sua maioria banqueiros belgas e franceses, teriam investido mais dinheiro no Brasil do que o Império durante os seus quase setenta anos de existência. Aliás, sabe-se que esses banqueiros eram muito mais danosos ao País do que Farquhar, que servia como uma espécie de pessoa que dava a cara para bater. Farquhar queria lucros e médio e longo prazo, enquanto os banqueiros queriam apenas o que conseguiam durante a construção das ferrovias, ou seja, ganhar por quilômetro. Faliu por causa da ameaça de guerra na Europa, que cortou os capitais especulativos no mundo, faliu porque era, apesar de tudo, uma pessoa não tão bem informada onde deveria ser – como por exemplo ter mais detalhes de onde ele passaria as ferrovias que estava construindo, como a própria Madeira-Mamoré e a E. F. São Paulo-Rio Grande, no Paraná e em Santa Catarina, faliu porque o preço da borracha despencou da noite para o dia, inviabilizando o porto de Belém, que era dele, e a ferrovia da novela, faliu porque a inabilidade política de seus sócios e funcionários de confiança causaram uma guerra civil no Sul do País, a tristemente lembrada Guerra do Contestado, cujos jagunços incendiaram sua serraria e estações da ferrovia, deixando-o sem poder operar por mais de seis meses.

Farquhar é muito criticado por ter aniquilado as florestas de pinheiros do Sul, sem que as pessoas se lembrem que a sua serraria, embora fosse a maior da América do Sul, não era a única – e que, depois que ele deixou a Brazil Railway, inúmeras serrarias que nada tinham a ver com ele fizeram o mesmo serviço em regiões diferentes daqueles Estados. Deixando a Brazil Railway, ele se meteu na Estrada de Ferro Vitória-Minas, tendo sido ele que conseguiu desviar o seu ponto de encontro em Minas, de uma cidade com pouco a oferecer, para uma que tinha muito minério de ferro – Itabira. Aliás, ele, três anos antes de morrer, fundou a atual Acesita. Foi execrado e prejudicado por inúmeros Presidentes da Republica, inclusive Getulio Vargas – e conseguiu que gente como Monteiro Lobato, que o combatia asperamente no início, passasse a ser um de seus admiradores. Enfim, uma pessoa controversa.

E por aqui, nas bandas de São Paulo, ele, que teve a concessão da Sorocabana por mais de dez anos, também se tornou dono de 38 por cento da Companhia Paulista e de 20 por cento da Mogiana. E foi por causa dele que essas duas empresas puseram fim a uma guerra comercial de mais de trinta anos por causa do famoso direito de zona. Como acionista “pesado” nas duas, conseguiu, com seu tino comercial, fazer um acordo entre as duas, acordo este que gerou as três junções de seus trilhos de forma a que elas compartilhassem em vez de se guerrearem. Um desses pontos foi definido como sendo Pontal, onde se juntariam os ramais de Pontal e de Sertãozinho, um de cada ferrovia. O outro foi Guatapará, onde se juntavam a linha principal da Paulista com o ramal de Monteiros, da Mogiana, na região de Ribeirão Preto, às margens do rio Mogi-Guaçu. O terceiro foi a estação de Baldeação, em Santa Cruz das Palmeiras, juntando o ramal de Santa Veridiana com a linha-tronco da Mogiana. Pois é, Baldeação existiu por causa de Percival Farquhar. E foi destruída por causa do descaso de nossos governantes brasileiros.

A história de Percival Farquhar, como disse certa vez um amigo meu, daria uma tese de doutorado. Nem o livro de Charles Gauld conseguiu responder todas as questões de um homem tão controvertido. Há muito mais a se descobrir sobre este americano que foi um dos maiores investidores no século 20 no Brasil. Como se vê, ele estava em todos os lugares e há muito mais histórias sobre ele do que os leitores possam imaginar – e mais do que eu mesmo, que estudei sobre ele por muito tempo, possa imaginar. É, ele influenciou até na vida da pequena Santa Cruz das Palmeiras.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

EU NASCI EM SANTA VERIDIANA - PARTE 2






Uma postagem com o mesmo nome foi realizada no ano passado neste blog. Porém, a fazenda de Santa Veridiana, em Santa Cruz das Palmeiras, tem uma velha capela - construída em 1894, portanto, com 116 anos hoje - que estava caindo no ano de 2003.

É a única construção que sobrou de uma fileira de casas de moradores e trabalhadores da fazenda. Hoje está no meio de um canavial. Não voltei mais na igreja desde 2003, mas parece que ela ainda está de pé, embora mais depredada do que nunca e já sem o madeirame interior.

Outro crime contra o patrimônio nacional. Acima, algumas das fotos que tirei nesse ano.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O FIM DO NOSSO INTERIOR

Estação de Canindé, em 17/6/2000. Foto tirada por mim

O texto abaixo foi escrito por mim e publicado no jornal A Tribuna, de Santa Cruz das Palmeiras, em julho de 2000.

No último domingo, dia 25 de junho, li no jornal dois artigos. Um falava sobre a China. Outro, sobre Coronel Vivida. Qual seria a relação entre eles? O primeiro falava, entre outras coisas, que para se manter a estabilidade naquele país de mais de um bilhão de habitantes, concluiu-se ser indispensável melhorar a vida de 900 milhões de camponeses, e para isso, o governo chinês mantém campanhas “monstruosas” de investimento no interior do país. Pela reportagem conclui-se que, lá, cerca de setenta e cinco por cento da população ainda vive em áreas rurais. E emigrando para as cidades, onde já vivem 300 milhões de chineses, eles fatalmente estariam legados ao desemprego.

Enquanto isso, em Coronel Vivida, Paraná, a prefeitura vem investindo já há alguns anos para equiparar a qualidade do ensino com o das escolas da cidade, a fim de evitar que se acentue o êxodo rural. Comprando alimentos para a merenda de fornecedores locais, oferecendo cursos profissionalizantes para os jovens para aumentar a renda dos agricultores da região, priorizando jogos educativos e tomando outras medidas que vêm provando ser eficazes, a cidade vem tendo excelentes resultados.

Não é isto, infelizmente, o que se vê na maioria das cidades do interior do País. Coronel Vivida não é certamente o único exemplo, mas eles não são muitos. A China percebeu o problema, mas o Brasil não, com exceção de algumas cidades.
Meu avô lutou durante boa parte de sua vida, na primeira metade do século, para tentar conter o êxodo rural através de um programa de educação nas cidades do interior que fosse voltado para elas próprias e não para as cidades grandes. Na época em que começou sua cruzada, mais precisamente em 1911, quando estava se iniciando na carreira de professor onde hoje é o município de Serrana, a população rural no Brasil correspondia a mais de setenta por cento da população total do País.

Quando ele escreveu sua maior obra sobre o assunto, o livro A Crise Brasileira de Educação, em 1930, a população rural já havia diminuído proporcionalmente. Ele, infelizmente, perdeu a batalha, e olhe que ele deteve, em sua vida, um poder de fogo bastante razoável para conseguir o seu intento. O poder dos outros era, entretanto, muito maior, de forma que, hoje, mais de cinqüenta anos depois de sua morte, mais de oitenta por cento da população vive em áreas urbanas, com as consequências que se podem notar.

A zona rural em geral vai perdendo habitantes, que vão para as cidades, que, tanto pequenas quanto grandes, vão crescendo e inchando. Colônias rurais antigas e hoje vazias são varridas, literalmente, pelas máquinas que as derrubam e no seu lugar plantam principalmente cana. A impressão que fica é que ali nunca houve povoamento algum. Nenhum resquício, quase nenhuma lembrança... é até impossível de localizar com exatidão onde estava aquele patrimônio.

Poucos dias atrás, e antes de ler o jornal de domingo, estive num lugarejo chamado Canindé. Canindé não tem mais do que vinte casinhas, algumas delas, antigas e muito bonitas, sinal de que um dia aquela foi uma próspera vila. Nos anos 1920, era uma bastante próspera estação ferroviária do ramal de Igarapava, este uma continuação do tronco da Mogiana, que levava a Uberlândia e Araguari. Nessa época, um fazendeiro construiu ali um depósito de locomotivas, de onde elas partiam diariamente para o norte, chegando pelas linhas da Mogiana à beira do rio Grande, carregando lenha para as usinas e fazendas do próspero coronel, dali seguindo por seus próprios ramais.

Os anos passaram, as ferrovias se deterioraram, e para piorar a situação, em 1979, Canindé, que já não tinha mais a partida dos trens do coronel, ficou também fora da linha do ramal, retificado nesse ano pela Fepasa. Perdida no meio do canavial cada vez mais denso, e a seis quilômetros do asfalto da via Anhangüera, há poucos anos os moradores que sobraram foram procurados pela Prefeitura da cidade a qual passaram a pertencer, Aramina, para que cedessem suas terras em troca de casas prontas, num bairro novo muito próximo do centro do município.

Vários trocaram, poucos ficaram. Canindé ainda existe, mas não é nem uma sombra de seu passado. As crianças brincam nas árvores secas que ainda sobraram junto ao canavial, e a velha estação virou moradia para algumas famílias que nem sabem a quem ela pertence. Eles dizem que não saem. Até quando?

E até quando o Brasil vai resistir, com o êxodo das pessoas do interior, expulsos de suas origens pelo interesse e omissão do próprio poder público? Pobres cidades, vilas e povoados que perdem cada vez mais a sua identidade e cujo povo acaba favelizando as cidades, tendo uma queda brutal na sua qualidade de vida, e, pior, sem percebê-lo, alimentados pela esperança e pela oferta de uma vida melhor que apenas pouquíssimos conseguem alcançar... Esperemos que, daqui para frente, mais prefeitos como o de Coronel Vivida e menos como aquele de Aramina apareçam em nossas cidades.