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sábado, 3 de outubro de 2015

A ESTAÇÃO DE CAPIVARI, SP, A UM PASSO DO LIXO DA HISTÓRIA


Ontem estive em Capivari. Eu e meu filho Filipe fomos a Piracicaba e, na volta, resolvemos dar uma paradinha nesta cidade em que eu somente havia estado uma vez, lá pelos idos de 1998, para ver como estava a estação - mesmo motivo de dezessete anos antes.

A cidade, bastante importante no século XIX, no início do século XX entrou em processo de decadência do qual somente nos últimos anos vem-se recuperando. Terra de jornalistas e escritores como Leo Vaz e Amadeu Amaral, foi agraciada com uma estação ferroviária pela extinta Companhia Ytuana em 1875. Incorporada pela Sorocabana em 1904, a linha (ramal de Piracicaba, ou de São Pedro, como era chamada), os trens de passageiros deixaram de passar em fevereiro de 1977 e a linha acabou extinta em 1991.

A estação, que fechou antes da linha, foi ocupada por muitos anos pela Guarda Municipal da cidade. O prédio foi construído em 1918 e é o mais bonito de todo o ramal, numa bela arquitetura que a Sorocabana somente usou  nessa edificação.

A Guarda Municipal deixou o prédio há algum tempo, que não sei precisar. O que vi ontem, no entanto, me deixou muito mal impressionado e desesperançoso. A estação, no limite da área urbana de 1877, portanto, junto á cidade embora um tanto isolada pelas suas características, está totalmente abandonada e entrando em processo de ruína.
Trilhos de um desvio ainda no seu local original.

Portas e janelas abertas e já fora do lugar, vazamentos correndo pelas paredes, madeirame da cobertura da plataforma já dando enormes sinais de podridão e sinais claros de invasão de mendigos e drogados. A escada, de madeira, ainda no local, mas não vai conseguir se manter no local por muito tempo. E uma surpresa - milagre! - trilhos remanescentes do velho ramal, de um desvio, ainda em seu leito em frente à estação.

Não sei a quem pertence o prédio, se à Prefeitura ou se ainda ao espólio da RFFSA (que herdou o espólio da FEPASA), mas é claramente uma vergonha o que está acontecendo nesse prédio simplesmente maravilhoso.
Hall de passagem da entrada para a plataforma. A bilheteria ficava na parede da esquerda.

Esta é aquela hora em que eu gostaria de ser arquimilionário e ter zilhões sobrando para comprar o prédio e restaurá-lo. Zilionários e sonhadores de Capivari, do país, do mundo, uni-vos! (mas não para derrubar a estação)

domingo, 1 de julho de 2012

O DESPREZO DA FEPASA PELOS PASSAGEIROS

O PS-3 em Osasco, provavelmente anos 1990. Foto Carlos Roberto de Almeida

Fundada, pelo menos pelo que alardearam na imprensa, para melhorar os serviços e custos ferroviários nas linhas do Estado, tanto dos trens cargueiros quanto dos de passageiros, em pouco tempo a FEPASA começou a mostrar suas garras para os já desconfiadíssimos usuários destes últimos trens.

De 1971 até o início de 1977 inúmeras linhas e ramais foram fechados para os passageiros. As cargas, então, foram reduzidas a cargas de volume grande, salvo algumas exceções. Isto levou ao fechamanto de mais ramais, inclusive para cargas, e seus consequentes desmontes.

A falta de respeito para com os usuários tanto de um trem quanto de outro se refletiu rapidamente e da pior forma possível. Em vez de reformas de base para melhorar linhas, serviços e material rodante, o patrimônio foi sendo cada vez mais dilapidado. Coisas típicas de completa falta de planejamento a médio e longo prazo. A curto prazo, era alterado a cada mudança de presidente na empresa, fato que se dava em períodos bastante pequenos.

O relato de um antigo usuário dos trens de passageiros da antiga Sorocabana mostra bem o que ocorreu para as linhas que pertenceram a essa ferrovia: "A partir de 77 restaram 3 horários na linha da ex-Sorocabana:

PS1 – 07h00 – Assis

PS3 – 17h00 – Presidente Epitácio

PS5 – 21h20 – Assis

Ao longo dos anos foram modificados para mais ou para menos nos horários e destinos, mas sempre os três trens. Não sei qual fazia baldeação em Ourinhos (nota deste autor: para dali sair para Maringá). Pela lógica, o PS5. Mas era baldeação “sem responsabilidade”. Ou seja, se chegar no horário, ótimo. Se não chegar, um abraço. Assim funcionou por um curto período para Itapetininga. De São Paulo ou intermediárias não se vendia mais passagens para Itapetininga ou Maringá. O passageiro tinha que chegar em Iperó ou Ourinhos e comprar o prosseguimento. Meio draconiano, mas foi assim. Infelizmente. Para desestimular o uso do trem.

Para Itapetininga, foi por bem pouco tempo (nota deste autor: os trens do ramal de Itararé, onde estava Itapetininga, que era ponto de mudança de locomotivas das elétricas para diesel). Não tenho lembrança das datas exatas (nota deste autor: a extinção dos trens para o ramal de Itararé, para onde o trem saía na estação de Iperó, ocorreu em 1978).

Mas, em diversas vezes passei por essa situação de viajar na “sorte” para pegar a baldeação em Iperó. E quando acabou a opção passou a ser o uso do ônibus no trecho Boituva a Itapetininga".

Por esse relato vê-se uma situação de caos, muito provavelmente criada para que os usuários se afastassem ao méximo de andar de trem. Isso ocorreu em outras linhas, também. Em países sérios, seria causa para processo e punições severas. Aqui na terrinha, todos nós sabemos que não aconteceu absolutamente nada com quem nos desserviu por tanto tempo.

Como também ele relatou, "três trens". Tristeza. Eram muitos na linha-tronco, até o início dos anos 1960, e mais muitos nos diversos ramais em operação. Ele se esqueceu de citar o Santos-Juquiá, que corria no ramal de Juquiá (portanto, não no tronco) e que somente foi extinto em 1997. Os outros ramais, tchau. Até a Mairinque-Santos, mais importante ramal de todos os da ex-Sorocabana, perdeu seus trens em 1976. Entre 1982 e 1997, ganhou um mistinho que subia a serra de Santos até Embu-Guaçu (por que não São Paulo? Nem pergunte). Mas era somente isso.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

COMO ERAM RUINS OS NOSSOS TRENS DE SUBURBIOS...

Folha de São Paulo, 3 de abril de 1977
Para quem acha que os trens estão ruins hoje e critica a CPTM todos os dias mesmo com problemas não acontecendo todos os dias (inclusive nossos jornais) dou aqui uma "refrescada na memória" de quem andava de subúrbio nessa época (1977) em São Paulo, ou mesmo para informar quem não os usava nesse tempo e hoje usa.

O artigo é explanatório por si. Fala do pulgueiro que era e do sofrimento que todos os dias era notório e desrespeitoso com o público usuário. Vergonhosamente, o governo da época oferecia isso somente e quem quisesse que usasse: quem não quisesse, que fosse a pé.

quarta-feira, 21 de março de 2012

VERÃO DE 1968

No São Paulo dos anos 1960, Roberto Dias, que vi jogar, sobressaía-se bastante sobre os outros jogadores. Ele deve ter sido o melhor zagueiro que o São Paulo já teve.

O lançamento do livro que meu filho Alexandre escreveu sobre a conquista do primeiro título brasileiro do São Paulo Futebol Clube em 1977 (bom, o fim do campeonato foi no verão de 1978) me fez lembrar do tempo em que eu era realmente fanático por futebol, nos anos 1960. São-paulino por herança de família, cheguei a assistir a boa parte do jogo que decidiu o título do São Paulo em 1957 (o paulista, numa época em que o Campeonato Paulista era um senhor campeonato e não essa caricatura de hoje), quando, em dezembro daquele ano, ele decidiu num jogo contra o Corinthians. O SPFC venceu por 3 a 1. O jogo passou direto pela televisão! Assisti no escritório da casa de meus pais junto com um bando de gente.

O fato, porém, era que eu não ligava a mínima para futebol nesse tempo. Afinal eu tinha acabado de completar seis anos de idade. Somente cinco anos depois, vendo os outros ouvir pelos radinhos de pilha a Copa do Mundo de 1962, eu dei início ao meu fanatismo. O problema é que, nessa época, o São Paulo tinha um time ridículo e raramente fazia uma boa campanha nos campeonatos. Mas eu acompanhava tudo, pelos jornais, pela televisão e pelo rádio. E pelas revistas especializadas.

Em 1963 e em 1966, com um time melhorzinho, o time embalou no primeiro turno, mas no segundo, acabou por despencar na tabela e perder o título. Em 1967, porém, o time embalou e conseguiu chegar junto com o poderosíssimo Santos de Pelé na última rodada. Decidiu-se o campeonato com um jogo extra (não havia esse negócio de saldo de gols etc.) e o Santos, claro, ganhou. Fez dois a zero logo no comecinho do jogo e o cozinhou até o final, quando o São Paulo fez um gol.

Se alguém a um determinado momento for escrever um livro sobre este campeonato específico, vai ler sobre uma querela que surgiu nas últimas rodadas devido a um jogo do Santos contra o Comercial, em Ribeirão Preto. O Santos perdia por 1 a 0 até os 40 minutos do segundo tempo. Era um sábado à noite. Aí, o Pelé recebeu a bola completamente impedido, olhou para trás, viu que o juiz não apitou nada, deu um sorriso, seguiu sozinho com a bola e fez o gol. O jogo acabou naquele momento, empatado, devido às muitas reclamações do time do Comercial, ameaçado pelo rebaixamento e à expulsão de alguns jogadores.

Como o Santos e o São Paulo corriam praticamente juntos desde o início do campeonato, cada ponto perdido por um ou outro era uma tragédia para o adversário. Nos dias seguintes a imprensa em geral falava que o jogo deveria ser anulado, ou que os pontos deveriam ser tirados do Comercial, ou do Santos etc., e começaram falando que o poder do Santos na Federação era muito grande e que ele jamais perderia esse ponto que ganhou no jogo.

Enquanto isso corria, os jogos continuavam e, no dia da rodada final, o São Paulo, que tinha um ponto a mais que o Santos, jogaria contra o Corinthians. Enquanto os jornais diziam que o São Paulo seria campeão se ganhasse, ao mesmo tempo afirmavam que o Santos, que tinha um jogo fácil e deveria ganhar (não me lembro contra quem) acabaria por "certamente" ganhar o ponto perdido contra o Comercial, prevendo que o campeonato demoraria meses ou anos para se conhecer seu campeão, devido à morosidade da justiça esportiva.

O fato foi que o Corinthians, depois de estar perdendo por 1 a 0, empatou o jogo no final. São Paulo e Santos terminaram empatados em pontos perdidos (era assim que se contavam os pontos) e teriam que decidir o campeonato, mas o Santos dizia que já era o campeão, pois ganharia o ponto perdido na justiça.

No dia seguinte, no entanto, o Santos retirou o pedido para ganhar o ponto. Claramente, ele sabia o time que tinha e previa que a final seria uma baba, como realmente o foi. Demorou mais três anos para o São Paulo ser campeão paulista, treze anos depois daquele ano de 1957. O meu fanatismo pelo futebol sobreviveu até logo depois disso. Hoje ainda gosto de futebol, mas de uma forma muito mais "light".

Ah, e o "verão de 1968" do título? Foi meio forçado, uma alusão àquela belíssima música do Pink Floyd do LP Atom Heart Mother, de 1972. É fato que o jogo decisivo de 1967 foi disputado no primeiro dia do verão de 1968 (21 de dezembro). É interessante também citar que todas as memórias que escrevi aqui vieram das minhas lembranças da época e não de alguma pesquisa que eu tenha feito. Lembro também que durante algum tempo os jornais foram tornando a história do jogo contra o Comercial e como isso afetou o título desse ano bem diferente do que realmente aconteceu na época.