domingo, 14 de agosto de 2011

MEU AVÔ E OS TEMPOS SEM PAINT SHOP (I)

Nos tempos em que não havia computador pessoal, notebooks, desktops, i-pads e outros e nem Internet, as pessoas queriam agradar os outros e punham a mão na massa: trabalhos manuais, gráficas e imaginação.

Lembranças que valeram a pena ter sido guardadas.

Como as homenagens recebidas por meu avô Sud Mennucci em diversos locais do Brasil.


Esta, em Piracicaba, na Escola Normal que dez anos mais tarde recebeu o nome dele.


Também esta, no Club Comercial de São Paulo, prédio que existiu dos anos 1920 aos 1960 no Parque Anhangabaú, ao lado dos também demolidos palacetes Prates e da Câmara Municipal.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O VLT DE SANTOS SAI OU NÃO SAI DESTA VEZ?

O TIM de Santos - anos 1990. Foto Julio Cesar de Paiva

O jornal A Tribuna, de Santos, mostrou em 11 de agosto uma reportagem sobre o VLT de Santos a São Vicente. Diz que agora ele vai sair e que terá 15 quilômetros, ligando o Valongo à Ponte dos Barreiros, onde o leito da velha Sorocabana - que deverá ser, em princípio, aproveitado para a passagem do VLT - sai da ilha e entra na parte continental do município de São Vicente.

Antes, quando a licitação não deu certo, ele saía da estação Ana Costa, na avenida do mesmo nome. Agora, decidiram prolongá-lo até o Valongo - e certamente haverá trechos de linha que terão de ser colocados em algum leito que não foi ferroviário no passado.

A decisão é correta, mas os velhos costumes brasileiros continuam os mesmos: tudo demora, tudo é confuso, tudo é feito a passos de tartaruga. Sairá esta linha nos 24 meses que afirmam agora? E quem afirma é o nosso querido governador, Aidemim, desculpe, Alkmin.

Ele também diz que a linha deverá depois ser estendida até o Guarujá e a Praia Grande. Pergunto: por que depois e não já? A população da parte continental de São Vicente e do município da Praia Grande é bem grandinha para absorver esse trem. Até 1997, o trem da FEPASA que fazia a linha Santos a Juquiá, no Vale do Ribeira, era bastante concorrida. Em novembro, acabaram com ela. Motivo? Falta de vontade, mesmo.

Fora isso, tinha o TIM, operado pela CPTM, que durou de 1990 até 1999. Ligava Santos a Samaritá. Também acabou, dois anos mais que a linha de Juquiá. Corriam na mesma linha.

Com isso, os usuários passaram a depender de ônibus que passam por ruas cheias de lombadas e valetas e com trânsito carregadíssimo, especialmente nas férias e em fins de semana. O motivo para se acabar com os trens simplesmente não existia. Foi desleixo, mesmo, e, com certeza, também por pressão de empresas de ônibus.

Vamos ver se agora se cria vergonha na cara e se repõe o trem, como VLT, no caso. O Ceará está dando um banho em São Paulo em termos de transporte por VLTs. Vamos deixar isso barato?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

ANÚNCIO POLITICAMENTE INCORRETO... SE FOSSE HOJE


Se hoje já é difícil preservar um imóvel em São Paulo e no Brasil, imagine em 1957. A fotografia (muito ruinzinha, infelizmente) que vemos acima, publicada no jornal Folha da Manhã (atualmente Folha de S. Paulo) em 1957, estava acompanhada do escrito que completava o anúncio:

"O maior negócio do ano - Magnífico terreno para lojas e apartamentos - Na avenida General Olímpio da Silveira, esquina da rua Conselheiro Brotero, com 70 metros de frente para a avenida por 20 para a outra rua, até 50 metros, alargando-se para 70 metros de fundos. Área 3.000 metros quadrados, gradil de ferro, construções antigas. Avaliado por Cr$ 22.000.000,00 (vinte e dois milhões de cruzeiros), preço médio com alguma facilidade. Farta condução e todos os melhoramentos centrais. Aceita-se como parte do pagamento participação em futura construção, sendo a entrada mínima de Cr$ 8.000.000,00. Local privilegiando para construção de lojas e apartamentos de frente para a avenida. Negócio realmente valioso e de futuro, ao lado do cine Santa Cecília. Não se atende a intermediários. Tratar com os procuradores (...)".

Hoje em dia, jamais se publicaria um anúncio desses. A celeuma criada em torno de uma demolição de um palacete como esse acabaria com as ideias de venda pelo proprietário (quem terá sido?). O casarão teria de ser demolido às escuras e a venda seria feita nos bastidores.

Como se vê nesse caso de cinquenta e quatro anos atrás, os procuradores estavam vendendo era o terreno, pouco se importando com a casa, que chamam de "construção antiga". As cercas de ferro eram, claro, para venda como sucata. O belo casarão foi-se, não sei se tão rapidamente assim ou não. Não fui até o local verificar o que existe lá hoje (embora já tenha passado por ali em frente inúmeras vezes, todas as vezes de carro) in loco, mas olhei preguiçosamente pelo Google Maps.

Não se construiu edifício algum ali. O terreno parece ser (olhando de cima), uma oficina de automóveis, ou mesmo uma loja de veículos usados... não sei. Triste fim para um belo casarão, cujo terreno não serviu nem para um edifício razoável. Também, 12 anos depois dessa fotografia da Folha, à frente do terreno passaram o horrível Minhocão, que acabou de vez com qualquer valorização que ali pudesse haver.

domingo, 7 de agosto de 2011

OS TRILHOS DO BEM - A HORA E A VEZ DE SOBRAL, CE

Os carros do VLT chegam a Sobral (Foto Paulo Regis)

Primeiro foi em Juazeiro do Norte e no Crato, o VLT - Veículo Leve sobre Trilhos - que foi inaugurado no final de 2009 e funciona até hoje utilizando-se dos trilhos da antiga Rede de Viação Cearense (RVC), abandonados desde o início da concessão da malha pela CFN em 1997.

Agora, é a cidade de Sobral que vai se utilizar dos trilhos da linha Norte da antiga RVC que cortam a cidade. VLTs acabam de desembarcar na cidade vindos de Barbalha, próximo ao Crato, onde funciona a fábrica desses veículos. É a segunda cidade que vai utilizá-los. Prevê-se agora a sua utilização em linhas da METROFOR em Fortaleza - só que, aqui, os trilhos serão novos.

Iniciativa dos políticos cearenses - não tenho certeza que partiu das prefeituras locais ou se do governo estadual, já que essas linhas são e serão operadas pela METROFOR, empresa estatal cearense - eles se constituem em verdadeiras exceções no meio do mar de cegueira e de má-vontade que tem prevalecido em inúmeras cidades brasileiras com relação a utilizarem linhas férreas, abandonadas ou não, para o transporte público de passageiros.

É verdade que as três cidades citadas não são as primeiras a fazerem isso. Na verdade, várias capitais que dispõe de trens metropolitanos já o fazem há anos. São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Natal, Teresina, João Pessoa, Recife, Maceió e Salvador vêm-no fazendo há dezenas de anos: porém, as linhas hoje utilizadas jamais chegaram a estar abandonadas por anos e anos até que alguém olhasse para elas e dissesse: por que não? Também o que se opera nelas são trens a diesel, elétricos, novos ou velhos, mas jamais VLTs.

A primeira cidade a fazer uso de linhas abandonadas para VLTs foi Campinas, que se utilizou das linhas da antiga Sorocabana em 1991 e instituiu, operado pela FEPASA, o VLT que operou em diversos bairros da cidade até 1995. Porém, por uma série de erros na época, ele foi abandonado nesse último ano e jamais voltou a operar. As linhas seguiram abandonadas e agora, as estações também.

Nos últimos anos, algumas poucas cidades mais pelo Brasil também se declararam adeptas a ter um VLT - algumas delas teriam, inclusive, de repor trilhos, arrancados há tempos. Arapiraca em Alagoas, têm-nos: porém, não se ouve mais nada acerca da ideia. Já Macaé, no Rio de Janeiro, parece seguir com a sua implementação. A cidade é cortada pelos trilhos da extinda linha do Litoral, da antiga Leopoldina. A FCA não as está utilizando.

Tenho ouvido algumas críticas aos carros fabricados em Barbalha. São críticas técnicas, a que não posso responder realmente, por falta de conhecimento. Porém, não sei até que ponto são válidas, pois isso, somente o tempo dirá.

Meus cumprimentos aos governantes que se decidiram pela implementação destas linhas. Não sei como estarão atuando em outras áreas: proém, na área de transportes, deram um passo realmente correto e importante.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

CERTIDÕES DE NASCIMENTO

Edifício Barão de Jundiaí, hoje; do lado esquerdo, o Edifício Chalita, ambos na rua das Palmeiras
Com os anúncios de lançamentos de três edifícios residenciais em São Paulo, andei pelo bairro de Santa Cecília à procura de como eles estariam hoje. Os três ficam em ruas não muito procuradas hoje para se morar e isto não somente pelo bairro em si.
O Edifício Chalita e do seu lado direito o Barão de Jundiaí. A dificuldade de se fotografar prédios altos em ruas estreitas e com câmaras simples é muita...
Dois deles ficam na rua das Palmeiras, com muito trânsito de automóveis, caminhões e ônibus. O terceiro, na rua Fortunato, com menos trânsito, mas ainda longe demais da badalada Higienópolis. Surpreendeu-me a conservação (pelo menos a externa) desses edifícios, em relativo bom estado depois de mais de cinquenta anos.
Um dos anúncios de lançamento do Edifício Barão de Jundiaí em 1944 (Folha de S. Paulo).
Os dois primeiros são vizinhos; a diferença entre eles foi de treze anos. O mais antigo é o Edifício Barão de Jundiaí (no anúncio; na fachada, hoje, "Barão de Jundiahy"), no número 147, lançado em julho de 1944. O primeiro vendia apartamentos com o prédio já pronto - visto que ele anunciava "posse imediata". Dizia também que o prédio era uma construção"Ramos de Azevedo", assim, entre aspas. O que ele queria dizer com isso? Que apenas o estilo era o mesmo de Ramos ou que era o escritório deste o responsável pelo projeto?
Um dos anúncios de lançamento do Edifício Chalita em 1957 (Folha de S. Paulo)
O outro é o Chalita, no número 145. Ao lado esquerdo do anterior, foi lançado em 1957. Notar que no desenho do anúncio, existe uma constução baixa ao seu lado. Porém, o "Barão de Jundiaí" já estava ali havia 13 anos. Engodo publicitário. Os estilos eram completamente diferentes. Acredito que as cores da fachada também.
Um dos anúncios de lançamento do Edifício Aruanã, na rua Fortunato, em 1957 (Folha de S. Paulo)
Finalmente, a cerca de três quarteirões dali, o edifício Aruanã, na rua Fortunato, não é junto à alameda Barros, como ele afirma, mas sim, à Frederico Steidl, continuação da Barros, que fica um quarteirão depois. Aliás, nem é tão junto assim, mas na metade do quarteirão... é um dos poucos edifícios altos da rua.
O Edifício Aruanã, hoje
São casos de edifícios que (pelo menos externamente) não se degradaram com a vizinhança. Os anúncios de seus lançamentos são como verdadeiras certidões de nascimento dessas construções.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

INCENDIÁRIOS

O carro da Leopoldina incendiado em Muriaé (Cleber Agostini)

Foi Cleber Agostini, colaborador de meu site Estações Ferroviárias do Brasil, que me mandou uma mensagem hoje, totalmente indignado, transcrita logo abaixo:

"Algum tempo atrás, faz uns 20 anos mais ou menos, fui ao Horto Florestal de Muriaé-MG, cidade vizinha à minha, com aproximadamente 150 mil habitantes. Apesar de ter animais em cativeiro, do que discordo completamente, estava o local indo bem, inclusive com uma mini-estação de trem, uma homenagem à nossa antiga ferrovia que tinha linha passando por Muriaé, cujo nome da estação era "Estação Sertaneja". Mais precisamente, era uma lanchonete muito bonitinha que ficava no centro do parque que havia sido inaugurado no horto para cativar mais as crianças e a população em geral.

Voltei lá com meus filhos no último dia 31 de julho e me veio uma indignação, decepção, sei lá, deu raiva! Mas como moramos no Brasil, onde a educação, infelizmente deixou de vir de berço há décadas, um infeliz (para não dizer palavrão aqui) teve a coragem, a maldade de tacar fogo no lindo carro de trem que era parte da lanchonete onde as pessoas se deliciavam com o lanche em meio ao parque e a natureza. E mesmo queimada, ela resiste e com boa vontade voltará à sua plena forma.
Coisas de gente pequena, fraca, ignorante e sem educação.

Pensei muito em mandar ou não estas fotos que tirei, que certamente lhe chateará também. Imagine isso funcionando e bem cuidado. Quantas cidades pequenas não poderiam copiar a ideia e trazer um pouco de memória a um país tão falido de cultura, em uma área agradável!

Por favor, me desculpe o desabafo, mas essas coisas a gente divide com amigos e com quem gosta de ver o que é bonito e bom. Espero poder enviar outras fotos com a estação reformada".
O mesmo carro antes do incêndio (Sargento Rangel)

Bom, o Cleber deve saber que outros carros, vagões, locomotivas e até estações ferroviárias são constantemente incendiadas no Brasil, a maioria por vandalismo e não acidente.

Já vi tudo isso queimar em Paraguaçu Paulista, SP, Tranqueira, PR, Dois Córregos, SP, Presidente Altino, SP, Itirapina, SP; Adamantina, SP e certamente muitos mais que não me vêm à memória agora.

Parece que isso é uma forma de afirmação para inúmeros inúteis e vagabundos por aí. Uma pena, pois geralmente nada acontece com esses "coitadinhos" como punição pelo prejuízo.

ME ENGANA QUE EU GOSTO

Trenzinho a vapor em Inema, entre Paraíba do Sul e Werneck, em 2004 (Christoffer R.
)

Notícias dos últimos dias fazem uma verdadeira apologia dos "trens turísticos" no Brasil. Pelo menos três prefeituras estão engajadas na introdução do que chamam muitas vezes de "um grande salto para o turismo da cidade".

Bobagem. Uma dessas iniciativas está na cidade de Paraíba do Sul, próxima a Três Rios, no Estado do Rio, às margens do rio Paraíba. A "maria-fumaça" (a imprensa e os adoradores de trens turísticos adoram este termo para as locomotivas a vapor ou vaporeiras) com dois ou três carros de madeira reformados vai trafegar entre a estação principal (já desativada desde os anos 1980) e os distritos de Werneck e de Cavaru - que já tiveram suas estações também e que milagrosamente ainda estão de pé.

Este trenzinho - chamado de Trem do Caminho Real, nome bonito mas de pouso significado - já circulou de cerca de 2003 a 2007, mas a sua administração era totalmente irresponsável: nunca se sabia quando ele iria andar. Conheci várias pessoas que foram para lá em finais de semana e que jamais conseguiram pegá-lo, pois sempre havia uma desculpa para que ele não trafegasse.

Iniciativas deste jeito têm probabilidade de dar certo quando se envolvem associações de preservação ferroviárias sérias na sua operação - e no Brasil há pouquíssimas deste calibre, embora as associações sejam numerosas. Prefeituras sempre se envolvem com politicagem neste campo e vira e mexe a iniciativa afunda. Aliás, quanto mais eles se metem, mais os empreendimentos afundam.

Só para constar: esse trem turístico anda num trecho da linha de bitola métrica da antiga Linha Auxiliar, da ex-Central do Brasil e da ex-Leopoldina, e, depois de Cavaru, está completamente abandonada, embora esteja concessionada à FCA, que jamais a usou desde que a recebeu em 1997. Foi sobre essa linha que escrevi há um mês na matéria Linha Auxiliar - Sobras de Guerra.

A outra linha turística anunciada deverá correr entre Itu e Salto, em Sào Paulo. A ferrovia que existia ali foi arrancada há vinte anos, depois que, em 1986, uma variante foi construída entre Campinas e Mairinque. Portanto, qulquer linha que siga entre as velhas estações desativadas das duas cidades (como eles querem), terá de seguir por esse leito e trilhos terão de ser recolocados, via permanente refeita, pontes refeitas... não será fácil.

Prefeitos se enganam, ou enganam o povo, quando falam que "esses trens trazem o turismo". Não trazem. No máximo, eles aproveitam os turistas que vão a esses lugares: Itu pode ser chamada de cidade turística, tendo a vantagem de estar não muito distante da capital de São Paulo. Já Salto... Paraíba do Sul, então, nem se fala.

No chamado "circuito das águas" paulista, na região de Amparo, Socorro, Serra Negra, Lindoia etc. também agora quer-se colocar trens por ali. Difícil. Não há trilhos ali há 40 anos. Por que não se toma a iniciativa de introduzir trens regionais para transportar passageiros e concorrer com as criticadas linhas de ônibus que exercem um oligopólio pelo País afora? Provavelmente por que prefeitos, governadores e governo federal não têm o menor interesse nisso, embora, para "inglês ver", digam que sim.

Trens turísticos, quando não são uma iniciativa particular, somente servem para enganar o povo. Louve-se portanto a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, que põe seus trens para rodar tirando do bolso de seus associados seus investimentos em Jaguariúna, Passa-Quatro, São Lourenço, Rio Negrinho e Marcelino Ramos. Louve-se a FCA, que bem ou mal, por politicagem ou não, mantém linhas trafegando em São João del Rey e Ouro Preto. E até a estatal CPTM, que mantém trens entre São Paulo e Jundiaí, Mogi das Cruzes e Paranapiacaba em finais de semana em suas próprias linhas bem mantidas exatamente para que trens metropolitanas que servem ao público sirvam-no bem.

Mas desprezo a politicagem de "me engana que eu gosto" de prefeitos de pequenas cidades que, em vez de lutarem por seus eleitores para que estes tenham transporte decente, ficam incentivando bobagens como trenzinhos de brinquedo.