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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SÃO PAULO-PARANÁ: UMA FERROVIA QUE FEZ HISTÓRIA

No mapa, as linhas da Noroeste do Paraná original: Ourinhos-Jataí (parte) e ramal Cambará-Jacarezinho. A única linha pronta desse mapa nessa época era a da Sorocabanam onde se vêem as estações de Ourinhos e de Salto Grande, à direita, no mapa.

Na história da E. F. Noroeste do Paraná, conta um autor que os donos originais, que iniciaram a sua  construção no final de 1923, quando souberam da visita da Missão Inglesa ao Brasil no início de 1924, publicaram um grande anúncio de página inteira no jornal O Estado de S. Paulo, com a intenção de chamar atenção de Lord Lovat, um dos chefes da missão, para que ele investisse na ferrovia.

Parece brincadeira, mas foi isso que aconteceu. E foi longe: os ingleses combinaram uma visita à região e aos escritórios da ferrovia e, finalmente, acabaram por comprar a ferrovia e também as terras que existiam no seu caminho.

Formar-se-ia, então, a E. F. São Paulo-Paraná em 1928, sob a batuta dos ingleses, ela e a enorme Companhia de Terras do Norte do Paraná, dos mesmos proprietários. Disso tudo, formaram-se diversas cidades nos anos seguintes, sendo as duas maiores, Londrina e Maringá. Muitos consideram essa empresa o loteamento de terras mais bem sucedido do mundo até então.

A ferrovia acabou tendo construída somente a linha principal, sem o ramal Cambará-Jacarezinho.

Em 1935, foi aberta a estação de Londrina, numa cidade que já havia surgido timidamente em 1929.

Em 1942, quando os ingleses venderam a ferrovia para o governo federal, a linha ia de Ourinhos a Apucarana.

Em 1944, a ferrovia foi incluída na Rede de Viação Paraná-Santa Catarina. Em 1947, surgiu a cidade de Maringá, onde a ferrovia chegaria em 1954.

Em 1973, a extensão máxima da linha chegou até Cianorte. Hoje, o trecho operacional é Ourinhos-Maringá: para além daí, abandono.

Interessante notar o mapa acima, publicado no anúncio de 16 de janeiro de 1924 e, se paciência tiverem, o texto abaixo do mapa, aqui também reproduzido.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

SOROCABANA, QUE SAUDADE!

Trecho Candido Mota-Sussuí na atualidade - Foto Joaquim Antonio Martini

Por aqui passava o trem para Ourinhos.
Por aqui passava o trem para Londrina e Maringá.
Por aqui passava o trem para Piraju.
Por aqui passava o trem para Santa Cruz do Rio Pardo.
Por aqui passava o trem para Presidente Prudente.
Por aqui passava o trem para Assis.
Por aqui passava o trem para Presidente Epitácio.
Por aqui passava o trem para Euclides da Cunha.

Por aqui passava os trens que levavam e traziam cargas que desenvolveram o país.

Por aqui passava o trem que um dia levou o Presidente Theodore Roosevelt para Piraju em 1913.
Por aqui passava o trem que um dia levou meu avô Sud Mennucci para Presidente Epitácio.
Por aqui passava o trem que um dia levou trabalhadores que construíram a linha para o rio Paraná.
Por aqui passava o trem que um dia levou os ingleses para fundar Londrina e região.
Por aqui passava o trem que um dia levou o povo que fundou as cidades da Alta Sorocabana.
Por aqui passava o trem que um dia levou o progresso de São Paulo e do Brasil.

Não dá mais para cantar: "Tomei um dia de Sorocabana..."

sábado, 15 de janeiro de 2011

OS TRILHOS DO MAL (III)

Em Cianorte a linha está praticamente toda FORA da cidade, no sentido nordeste...muito estranho quererem tirá-la dali... O pátio da estação está abaixo, na figura (o retangulo ao lado da av. Pará) e sobe para nordeste, entre as av. America e Rio Branco, sobe, faz uma curva ao sul da estrada para Vidigal e outra curva e continua para o nordeste. (Google Maps)

Cianorte, PR, quer retirar seus trilhos da cidade. Grande novidade, qual o prefeito do Brasil que não quer isso para fazer uma bela e poluente avenida? A ignorância grassa feio nesse sentido pelo país.

A pergunta aqui é: numa cidade de pouco menos de 70 mil pessoas, onde um trem não passa há mais de dez anos e que é terminal de linha (do ramal de Londrina, linha Ourinhos-Cianorte), qual é a vantagem de se retirar esses poucos quilômetros, dos quais somente cerca de 2 ficam em área urbana? Ou qual é o problema de se os retirar, se é algo que no momento não serve para nada?

Pensando em termos lógicos, somente voltará a passar trens por ali se um dia algum prefeito raciocinar e chegar à conclusão de que transporte público sobre trilhos é sempre uma excelente opção para qualquer cidade. Cargueiros jamais voltarão a passar. Como cheguei a esta conclusão? Ora, se alguma carga que interesse à ALL (difícil algo interessar para esta empresa) surgir em Cianorte, ela certamente será embarcada em outro ponto, não na zona urbana, onde fica hoje o pátio ferroviário ainda existente mas desativado.

Quem utilizava a linha até os anos 1990 era a cooperativa COCAMAR, próxima ao pátio da estação. E se um dia por milagre forem continuar a linha para Umuarama. como dizia o projeto da RFFSA de 1978, ela certamente sairia de algum ponto ao norte da cidade, na zona rural e a contornaria, o que deixaria o leito na cidade continuar às moscas e ser retirado... a não ser que ele a essa altura esteja sendo utilizado por transporte público.

O prefeito quer hoje retirar os trilhos dizendo que "é um empecilho para o desenvolvimento da cidade. Queremos urbanizar aquela área, conhecida como Esplanada (...) os trilhos ligam o nada a lugar algum (...) vai realizar uma audiência pública para que a população discuta o destino da linha férrea, que passa pela área central, impede a urbanização do trecho mais valorizado da cidade e não tem qualquer utilidade, porque há décadas o trem deixou de circular pelo município". (nota: este texto entre aspas e em itálico foi extraído de uma reportagem de O Diário de 14 de janeiro de 2011. Infelizmente a nota não dizia de que cidade ele o é, acredito que seja de Maringá)

Comentando o que está acima, refuto que: o trem não deixou de passar lá há décadas (o de passageiros, sim, este parou em 1979 e circulou ali por apenas 7 anos, tendo sido um trem misto); os cargueiros passaram até pouco mais de uma década; ele não passa pela área central da cidade, embora passe pela área urbana; o leito teria utilidade para a circulação de um trem metropolitano ou VLT; os terrenos são os mais valorizados mesmo? A impressão que se tem é que eles querem que seja o mais valorizado tirando o trem, pois este é o símbolo do abandono, e, se o reativarem, será um foco de degradação. Ou seja, o prefeito quer lotear a área e conseguir mais iptu, por ele um transporte público sobre trilhos nunca será implantado. Sobra a pergunta: a cidade quer isso? Ou é o prefeito que quer, somente para arrecadar mais impostos?

Finalmente, a velha questão: quanto mais se urbaniza uma cidade, mais crescem os problemas. Será que uma cidade de 70 mil habitantes que somente tem 40 anos de vida não tem um tamanho suficiente? A qualidade de vida será baixa em Cianorte? Não são as informações que temos. Para que impermeabilizá-la mais para atender interesses particulares e não de uma comunidade? Lembrem-se das tragédias ambientais nos últimos dias no Rio de Janeiro: está certo, são cidades serranas, superpopuladas, etc... mas Cianorte quer chegar lá (embora no caso não seja uma cidade serrana)?

domingo, 17 de outubro de 2010

ENTERRANDO DINHEIRO EM ABELHA

Desenho de Carlos Latuff mostra a posição de uma estação que existiu apenas por 7 anos no Paraná

Hoje meu amigo Carlos Latuff, que perambula por boa parte do Brasil (e às vezes por outros países) à cata de aventuras, mandou-me o link de sua nova postagem no seu blog, sobre a estação ferroviária de Abelha, às margens do rio Ivaí, no Paraná. Vejam-na, é muito interessante.

Porém, o que me leva a falar sobre esta postagem e seu blog é o fato não de ele encontrar uma estação abandonada ou de caminhar por linhas ferroviárias extintas - pois isso ele faz bastante - mas sim por que não consigo me conformar em como este País tem jogado dinheiro fora através de sua história recente.

Essa linha citada por ele, onde estava a estação de Abelha, foi inaugurada em 1965 e prolongada depois em 1967 até Jussara e terminou em Cianorte, em 1972. Era um prolongamento da antiga E. F. São Paulo-Paraná, que havia alcançado Londrina em 1935 e Maringá em 1954. Para estas duas cidades, até que o ramal, que partia da cidade de Ourinhos, em São Paulo, havia cumprido parte de sua função, que foi alimentar com facilidade o crescimento dessas duas cidades (e de intermediárias) e depois escoar sua produção.

Para a frente de Maringá, no entanto, a linha foi prolongada muito lentameente. As cidades que ela alcançou pouco prosperaram e a que ficou sendo a terminal, Cianorte, já era uma cidade bastante desemvolvida quando foi finalmente alcançada pela ferrovia, em 1972. Os trens de passageiros trafegaram de Maringá a Londrina por apenas 7 anos - de 1972 a 1979. Não eram os mesmos que vinham de São Paulo diretamente para Londrina e Maringá: havia sempre uma baldeação nesta última cidade para seguir adiante.

A ferrovia deveria ter sido estendida até Umuarama. Nunca o foi, embora tenha sido gasto muito dinheiro nos projetos para que isto ocorresse, pela RFFSA. Em 1978, ainda havia publicações a respeito de um prolongamento então dado como certo. Depois, não se falou mais nisso. Para piorar as coisas, as cargas transportadas para além de Maringá, que já não eram grande coisa, foram minguando. Com a privatização da linha, em 1997, o tráfego entre Maringá e Cianorte desapareceu.

A ALL não tem nenhum interesse em carregar nada por ali. As estações, relativamente novas, viraram ruínas.

Enfim, este não foi o único exemplo de dinheiro mal empregado. O ramal mal funcionou 20, 30 anos e hoje é sucata. O que Carlos Latuff encontrou ali estes dias foram linhas abandonadas, trilhos desaparecidos, enfim, a recuperação da linha para tráfego de cargueiros dispenderia mais dinheiro ainda. E sabemos que a ALL não está disposta a gastar.

Hoje em dia, o escoamento das cargas que vêm da parte da linha ainda ativa (só para constar, os trens de passageiros entre Ourinhos e Maringá cessaram em março de 1981) descem não mais para Santos, via Ourinhos, mas sim para Paranaguá, via linha Apucarana-Londrina - uma linha que funciona desde 1975, sempre foi linha cargueira e nunca teve trens de passageiros. Foi uma ferrovia (chamada anteriormente de Central do Paraná) que levou 26 anos para ser construída (26 anos para pouco mais de 300 km de linha, durante os quais muita coisa teve de ser reconstruída) e que teve, para cada estação, um gasto absurdo de dinheiro - cada pátio tinha um prédio para estação, um armazém e pelo menos 12 casas para turmeiros. A maioria desses pátios jamais foi utilizado, muitos deles hoje são ruínas.

Haja dinheiro. Haja impostos. Haja (falta) de vergonha na cara).

quarta-feira, 26 de maio de 2010

TAV, METRÔ E NORTE-SUL

Foto de TAV extraída do blog de Caio Camargo sobre o TAV em 25/5/2010

Enquanto aqui em Sampa a linha 4 - amarela - do metrô foi inaugurada (mesmo tendo-o sido apenas com um trecho que não liga nada a nada, entre apenas duas estações), em Brasília continua-se discutindo o trajeto da Norte-Sul com gente demais dando palpite e também o TAV Campinas-São Paulo-Rio - que alguns querem transformar no Uberlândia-Campinas-São Paulo-Rio com ramais Campinas-Belo Horizonte e São Paulo-Curitiba - este com mais gente ainda dando palpite.

No caso do TAV fala-se em transporte de pessoas: as linhas comentadas acima realmente passam por regiões de alta densidade populacional, principalmente nos extremos de cada uma. Não há o que se discutir. Já no caso da Norte-Sul a situação é mais complexa, porque os interessados podem montar a rota que quiser e o governo aceitar tudo - só que eles terão de, antes, avisar as empresas que ganharão a concessão para operar a linha.

Afinal, as concessionárias que operam as linhas ferroviárias brasileiras não estão muito interessadas em fazer o que os outros querem, mas sim o que elas querem. Hoje em dia, quase 90% do volume de cargas transportados por elas no Brasil é minério (principalmente de ferro) e grãos (estes, nem 10% dentro dos quase 90%). Portanto, se algum prefeito, governador ou deputado quer que ela passe por "sua" cidade por que acha que ali tem algo que se deve carregar ou descarregar, vai ter de convencer a futura concessionária disto. E não será fácil.

A ALL, por exemplo, que é a mais massacrada pela imprensa nos últimos meses, devido ao grande número de acidentes, sucateamento (supostamente) irregular de material rodante e falta de tráfego em linhas que estão sob sua responsabilidade, está se recusando a embarcar cargas em Campo Grande, MS, exigindo que os interessados a levem, pelo transporte que lhes aprouver, ou para o terminal de Alto Taquari, no Mato Grosso, ou para Maringá, no Paraná, por rodovias em estado próximo ao intransitável.

Curioso: Campo Grande tem ferrovia - a finada Noroeste do Brasil. Por que a ALL se recusa? Ela tem esse direito? Talvez até tenha, se o contrato realmente for mal feito - mas concessão de ferrovias, onde se joga os transportes do país na balança, ou, num universo maior, sua infraestrutura, não pode ser tratado apenas como algo que dê o máximo de lucro possível. Precisa, também, ter responsabilidade de resolver um problema do país. E isso a ALL não vê e nem o governo tem um mínimo de controle.

É sinal de que o governo não tem política alguma de transporte nem de infraestrutura. Trata o problema, quando trata, apenas após uma grande desgraças ou pressões grandes. E trata mal. Lembram-se do caso dos aeroportos há 2-3 anos atrás? Pois é. Ali ele teve de agir. E agiu mal. Agora, com as ferrovias, ele ainda não acordou. Se elas pararem de repente, vai ser o caos. Não se espera que isto aconteça, mas sim que haja pelo menos o estabelecimento de uma política séria e de controle sobre as concessionárias.