segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

QUEM FOI HECTOR LEGRU?

O prédio original da estação de Hector Legru, em 1919, hoje Promissão, SP

Ontem eu estava lendo um livro de 1950. Ele mostra o Estado de São Paulo em 1950, com a capital de então, seguido de uma viagem de avião - imaginária ou não - por todo o Estado naquele tempo. É, na verdade, um livro para escolares do ginásio, talves do ensino de segundo grau de então (era chamado de Escola Normal).

O livro, de nome Viagem através do Brasil: São Paulo, foi escrito por Lourenço Filho, concunhado de meu avô Sud Mennucci, nascido em Porto Ferreira e tio do Lólio, meu primo escritor e quase vizinho aqui em Santana de Parnaíba. Fazia parte de uma coleção editada pela Melhoramentos, que mostrava na mesma coleção a viagem por outros Estados brasileiros.

O livro é tratado em tom professoral, mas é bastante interessante. Não há fotografias, somente ilustrações de pessoas e de cidades e locais, feitas por Percy Lau. Porém, até Lourenço caiu numa armadilha quando, na página 185, falando sobre a cidade de Glicério e de outras na região da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, escreveu: "A luta com os índios (durante a construção e o início de operações da ferrovia) durou vários anos. Em 1906, sacrificaram eles um piedoso sacerdote (...) Pouco tempo depois, mataram o Engenheiro Hector Legru e vários trabalhadores". Erro crasso.

Legru não era engenheiro e não foi morto pelos índios. Nunca esteve na região e jamais pisou no Brasil. Ele era, na verdade, um banqueiro francês e também o principal sócio de Percival Farquhar na Brazil Railway Company, empresa que possuía, entre os anos de 1906 e de 1918, diversas ferrovias e portos no país, especificamente nos Estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e no atual Estado de Rondônia. Depois de 1918, ela ainda manteve a posse da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina até 1942.

A Brazil Railway ainda nomeou com seu nome duas estações ferroviárias no Brasil: a de Hector Legru, na Noroeste, que depois se tornou a estação e a cidade de Promissão, e a de Legru, em Santa Catarina, no município de Porto União. Esta última também teve o nome alterado mais tarde para Engenheiro Eugênio de Mello - não confundir com outra, com o mesmo nome, em São José dos Campos, SP. Por que teriam sido nomeadas duas estações com o nome de alguém vivo e que nunca havia vindo - e não veio também mais tarde - para o Brasil? Certamente para adular um dos dois sócios principais das ferrovias na época. E olhe que Legru chegou a ser procurado pela polícia francesa por fraudes financeiras... Farquhar, por sua vez, sempre recusou em vida homenagens como esta.

O competente Lourenço Filho não foi o único a cair no "conto do Legru". Há diversas literaturas sobre este na Internet e em algumas piblicações que constroem uma biografia errada para o francês, às vezes chamado também de belga...

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