quinta-feira, 13 de maio de 2010

MEMÓRIAS DE MINHA MÃE

"Olhos Grandes" - 1926

Meu avô Sud chegava em casa todos os dias e encontrava as três filhas juntas esperando junto à porta. Apontava para cada uma delas e dizia: "Olhos grandes!" (para minha mãe, Astrea, a mais velha). "Olhos azuis!" (para Lélia). "Olhos doces!" (para Mévia, a mais nova).

Na época em que ele foi Diretor Geral do Ensino, de 1943 a 1945, a casa vivia cheia de gente à noite: eram, principalmente, professores e professoras. Minha avó Maria ficava nervosa e corria para a cozinha para fazer bolinhos e preparar ponche - ponche quente, que não era comum, mas que todos apreciavam. Depois, guardava os licores coloridos em garrafas que punha num armário baixinho de madeira (conheço esse armarinho: muito bonito) e guardava os salgadinhos e doces numa gaveta trancada no bufê da sala.

Anos mais tarde, surpreendeu-se ao saber que meu tio Flávio (irmão temporão de vovó, não muito mais velho que Astrea) descobriu que retirando a gaveta de cima, que não tinha chave, ganhava acesso aos acepipes e pegava-os, distribuindo à Astrea e irmãs, para que elas não o caguetassem. "Por que não me contaram?", perguntou à minha mãe, então já casada. Resposta: "ah, o Flávio é que chegava com os doces e não nos dava, nós não sabíamos onde ele os arranjava". Era mentira. Vovó ficou brava por saber.

Mamãe brigava com meu tio Aécio, seu irmão, nem três anos mais novo do que ela. Para se vingar, ele ia à garagem, onde Astrea guardava suas panelinhas de barro trazidas de Minas com que brincava, atirando-as ao chão na frente dela. Aí era uma gritaria. Vó Maria batia nos dois, pois nenhum admitia culpa alguma. Batia mais na mamãe e nem tanto no Aécio. Anos depois, vovó disse que fazia isso porque a mamãe não chorava, ficava com cara de durona, aguentando o tranco. Já Aécio morria de medo de apanhar, chorava e gritava e vovó ficava com pena.

Astrea já estava maior e saía com a prima Meire para passear. Lélia, seis anos mais nova e criança ainda, chorava no portão da rua Capitão Cavalcânti, na Vila Mariana: "eu também quero ir". Chegava a Baia (a empregada) e perguntava à mamãe o que ela tinha feito. Resposta: "nada, só vou sair e não vou levar a Lélia". Baia, então, levava Lélia, distraindo-a com uns docinhos.

Vovô resolveu comprar uma casa "no interior" para descansar durante os finais de semana e achou uma chácara em Mogi das Cruzes (já falei sobre ela por aqui). Disse a Maria que precisava pedir um empréstimo e se Maria concordava. Vó Maria respondeu: "não precisa, eu tenho o dinheiro. Economizei do que você me dava para as compras". Sud achou o máximo. Pegaram o dinheiro (incrível, não?) e comprou a casa.

Mamãe contou-me tudo isso hoje à tarde, em sua casa no Sumaré, onde nasci e onde ela mora há sessenta anos. Lélia morreu em 2002, no caminho para São Lourenço. Aécio faleceu em 1988. Mévia está infelizmente doente há anos. E Astarté, a primeira filha, que morreu às vésperas de completar seis anos de idade em 1924, tem sua história também.

Uma tarde, uma amiga de vovô e de vovó foi visitá-los e queria conhecer os filhos. Vovó chamou-os para a sala (depois de dizer "não pensem que vão ficar lá: é só para cumprimentar, dizer o nome e sair de fininho" - criança não tinha vez nos anos 1930) e depois de conhecer os quatro, perguntou a Sud: "quem é aquela menina de olhos azuis?", ao que Sud respondeu: "é a Lélia". Ela falou: "essa, não, aquela, menorzinha, ali atrás" e apontou para um quadro com a fotografia de Astarté.

Todos gelaram. A moça pediu desculpas e disse que era vidente, que não queria assustá-los. A cena foi presenciada por minha mãe.

3 comentários:

  1. Curioso. O primeiro carro que tive foi-me dado pela minha mãe, que o comprou usando a poupança que fez a partir das economias feitas com o dinheiro das compras diárias. Parece que o super-faturamento doméstico era uma tradição do passado. Infelizmente ela não foi mantida. :(

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  2. E era geralmente dinheiro vivo! Nada de banco nem poupança.

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  3. De fato. Até meados da década de 1970 minha mãe escondia seu dinheirinho em pontos estratégicos. Certa vez, numa mudança de casa, o pessoal da transportadora descobriu sem querer algo em torno de quinhentos reais em valores de hoje. O dinheiro foi repassado incontinenti para meu pai, que ficou contentíssimo com a bela surpresa. Já minha mãe...

    Mas a partir de 1976 a inflação apertou e já não dava pra deixar o dinheiro no colchão. Ela acabou abrindo uma poupança na CEF.

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