domingo, 7 de novembro de 2010

NOS LIMITES DA METRÓPOLE

Rio Icavetá, sentido foz, fotografado da estrada da Capela Velha (Ralph M. Giesbrecht, 7/11/1910)

Hoje estive nos confins da Grande São Paulo. Ou melhor, em um dos seus confins, visto que o perímetro dele é realmente enorme. Não sei quanto daria em quilômetros, mas... talvez uns 300 quilômetors ou mais. Os confins a que me refiro estão aqui perto de casa: mais precisamente, num junto à divisa tripla entre Santana de Parnaíba, Itapevi e Araçariguama.

Essa divisa remonta ao início do século XIX, quando São Roque separou-se de Parnaíba (1842). Depois, Araçariguama separou-se de São Roque e ficou com essa divisa. Já a divisa Cotia-Parnaíba (hoje, ali é Itapevi-Parnaíba) é mais antiga: ambas eram parte de São Paulo, Capital, até 1625, quando Parnaíba se separou, e de 1856, quando Cotia desmembrou-se também da Capital. Em 1842, portanto, formou-se essa divisa tripla, junto à estrada real de Ytu, que, ali, fica no ponto mais alto, no divisor de águas entre as bacias do rio Tietê e do rio Cotia.

Para chegar ali, eu não fui pela rodovia Castelo Branco, mas pela estrada da Bela Vista, que liga Alphaville ao centro histórico de Santana de Parnaíba; em seguida, tomei a antiga estrada de Araçariguama (que hoje tem nomes como rua Anhembi, estrada do Suru e estrada da Capela Velha) e fui até a rodovia Castelo Branco.


Antes de chegar a ela, noto que a estrada está toda asfaltada; há um ano atrás, não estava. Cerca de um quilômetro antes da Castelo, cruzo um pequeno povoado com algumas casinhas antigas: é o Icavetá, cruzado por um córrego - que tem o mesmo nome - que deságua no Tietê, perto da barragem de Pirapora. Ainda se vê o riozinho, que passa sob uma ponte (foto acima) com corrimãos de metal pintados de amarelo. Aparentemente, o rio barrento não cruza a estrada por aqueles imensos canos de concreto. Não se vê o nome - nem do bairro, nem do rio. Sei que ali ainda é Parnaíba.

Entrei na Castelo, atravessei-a no km 44 e fui no sentido da antiga estrada real de Itu. Lá, chegando, a velha placa azul de metal diz: avenida Manuel Candido de Paula. Em qual município estamos? Ao cruzar a Castelo, em Itapevi. Ao chegar na velha estradinha, pode ser ele ou Araçariguama. Não há placas que digam isso. Se for Itapevi, estamos ainda na região metropolitana. Já se for Araçariguama, estamos no interior. Mas olhando em volta, não há diferença alguma.


Segui à esquerda, sentido Cururuquara (um bairro dividido entre Parnaíba e Itapevi, mais no primeiro) e entrei na primeira estrada à direita. Ah, esqueci de dizer que o asfalto havia acabado logo depois que cruzei a Castelo. Na esquina, duas placas antigas com uma propaganda apagada de uma imobiliária no topo do pau, indicam que a Estrada do Paiol sai à direita, descendo o morro. Embaixo do nome , entre parênteses, "São João Novo". Por que isso? Por que ela leva a essa localidade ou porque está nesse distrito (que fica em São Roque, mas São Roque não chega ali).



Desço a estrada e meço cerca de dez quilômetros no hodômetro (com h ou sem?). Passo por matas, por morros, por pequenos sítios e chego na frente da estação ferroviária de São João Novo, onde começa de novo o asfalto. Na foto acima (de 2007, tomada por Ricardo Koracsony), cheguei pelo outro lado do prédio, vindo da esquerda. O trem da CPTM para uma estação antes, em Amador Bueno; desde 2000, ele não segue mais até Mairinque. A estação, de madeira (uma raridade) é hoje um velório: várias pessoas estavam sentadas em seus bancos do lado de fora das salas. Aqui, estamos em São Roque. Onde foi a divisa? Não tenho a menor ideia. Atavesso o pequeno bairro e chego à rodovia que liga Itapevi a São Roque. Sigo pelo asfalto e volto para casa.

Em zona rural, alguém só sabe em que município está quando um fiscal municipal aparece para cobrar impostos.

sábado, 6 de novembro de 2010

VÁ A INTERLAGOS COMO HÁ SETENTA ANOS

Detalhe do autódromo em 1940 (O Livro Vermelho de Telefones - S. Paulo/1940)

Pois é, amanhã tem corrida de Fórmula 1 no Autódromo de Interlagos. Tudo bem, mas, realmente, não ligo para ela. Até já fui a uma, no início dos anos 1980, mas por pressão de amigos. Não me perguntem quem ganhou ou quem correu, não me lembro. Também fui ao Autódromo em, creio, 1968, com dois amigos da escola, fanáticos por corridas, que queriam ver um treino de carros "envenenados", também não me perguntem quem eram os corredores que estavam por lá. Fomos e voltamos de ônibus, lembro-me que ele seguia pela Nove de Julho e pela Santo Amaro, depois, sei lá por onde... uma epopéia, realmente, naquela época. Pelo menos, não precisamos procurar vaga para estacionar o carro.

O Livro Vermelho de Telefones - S. Paulo/1940

O autódromo (acima) foi inaugurado em 1940. Nessa época, ir para lá devia ser pior ainda: as estradas que lhe davam acesso nem eram asfaltadas. Já estacionar o carro não seria problema, mas, também, quantas pessoas tinham carro naquele tempo em São Paulo? Os loucos que iam, iam ou de carona com algum amigo rico ou, sei lá, de bonde até o largo do Socorro, de lá atravessavam o rio Pinheiros e daí, sei lá o que faziam. Iam a pé? Era subida e com certeza no mínimo 1 hora, 1 hora e meia de caminhada.

Mesmo assim, com a inauguração, já publicaram um mapa indicando como se chegava ao autódromo. Sim, o mapa é de 1940. A primeira coisa que você precisa fazer é decifrá-lo. Muitasa avenidas tinham nomes diferentes das de hoje. A 9 de Julho acabava na Brasil. A Augusta e a Rebouças acabavam no canal do rio Pinheiros, até já tinham ponte sobre ele, mas... e daí? Marginal não havia. Era chegar lá e ficar parado, olhando.

O Livro Vermelho de Telefones - S. Paulo/1940

Portanto, o caminho melhor seria mesmo pela avenida Interlagos, ainda sem nome - o mapa a chama de "Nova" Auto-Estrada. Ela, como hoje, saía da Auto-Estrada, a "velha", então... a hoje Moreira Guimarães e depois Washington Luiz, ambas sem asfalto e sem a duplicação de hoje. Note ainda no mapa (acima): "estrada de rodagem para Santo Amaro" era a avenida Santo Amaro. "Linha de bonde para Santo Amaro" era as atuais avenidas Ibirapuera e José Diniz. O Jockey Club já é assinalado em seu local atual. Represa Nova é a Billings. Aliás, o nome Interlagos vem do fato de o bairro ficar entre as duas represas (lagos). Avenida Aracy é a Indianópolis, e "rua Nova" é a Professor Ascendino Reis.

A nova Auto-Estrada dava direto no Autódromo, anunciado então como "o primeiro autódromo da América do Sul" e "um dos mais belos do mundo". A mesma reportagem citava o Circuito da Gávea, no Rio - circuito de rua - e dizia que este "já teve grande esplendor" e "está hoje em decadência (...) talvez por falta de volantes estrangeiros" e "de um público desinteressado e diminuto".

Veja/Carlos Namba/5-4-1972

Enfim, por incrível que pareça, o caminho mais fácil e mais curto para quem está no centro de São Paulo hoje em dia ainda é o mesmo de setenta anos atrás. Divirta-se, mas, se levar seu bisavô junto, não se esqueça de dizer a ela que hoje tem muito mais carros na cidade que em 1940 e que vocês vão provar as delícias de um maravilhoso congestionamento. Além disso, estacionar o carro vai ser algo muito, mas muito mais desafiador que naquela época. Em 1972 já era... (veja fotografia acima)

A não ser que você pegue o trem da CPTM, que - pasmem! - para a 600 metros da entrada do autódromo. E é um senhor trem! Em 1940, não havia aquela linha dali... ela somente seria aberta em 1957.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

COMO AS PREFEITURAS CUIDAM DE SEU PATRIMÔNIO HISTÓRICO NESTE PAÍS


Bem, as notícias recebidas hoje não são nada boas. Servem, no entanto, para mostrar como as prefeituras brasileiras cuidam de seus bens históricos. São três exemplos. Dirão os leitores: "ah, mas são mais de cinco mil e quinhentas prefeituras no Brasil, então, mostrar somente três casos e três municípios diferentes não prova nada". Bem, isto vai da opinião de cada um . Para mim, por tudo que tenho visto por aí em anos e anos de pesquisas, a situação é grave.

Gazeta Regional - Passos, MG

O primeiro caso: Passos, Minas Gerais. Sua foto, recente, está acima, recebi hoje. Há quase quatro anos, eu e minha esposa estivemos nessa simpática cidade, não muito distante da fronteira paulista/mineira e até 20 anos atrás ponta de linha do ramal que levava o nome da cidade. A estação havia sido construída no início dos anos 1920 pela Mogiana. Com a eliminação do ramal nos anos 1980, os trilhos foram retirados da cidade e a estação tomou outros rumos. Primeiro, o prédio foi abandonado; depois, foi restaurado pela prefeitura. Em 2006, era a sede do centro de memória da cidade. Visitamo-lo e lá encontramos pessoal trabalhando e que nos recebeu muito bem.

Bem, hoje chegou a notícia de que a construção (muito bonita, por sinal: quem quiser ler mais sobre sua arquitetura, clique aqui) está de novo abandonada. Ora, que diabos! Para que restaurar, gastar uma "grana preta", para depois largar tudo à própria sorte? Terá sido vingança política? Ou o tradicional sistema de administração "cultura prioridade zero"?

Cedoc/RAC/Agência Anhanguera

Soube hoje que o tradicional bonde do Taquaral (foto acima), na cidade de Campinas, está quebrado há um ano e meio. A Prefeitura não o consertou até hoje. Essa linha de bondes circunda o parque do Taquaral há décadas e é a última remanescente das linhas de bondes que existiram na cidade até cerca de 1966. Esta linha foi colocada nesse parque depois da extinção das outras, com o bonde que sobrou. Tem uma grande procura e é conhecida internacionalmente. Pois aí está, largada às traças, porque a Prefeitura não o conserta. Típico.


Finalmente, para completar as más notícias, o palacete Saraceni (ou Sarraceni), último bem histórico decente da provinciana, suburbana e cidade-dormitório de Guarulhos, Grande São Paulo, foi demolido às três horas da manhã de hoje. Tratores invadiram o local e puseram abaixo a simpática e histórica casa, transformando-a num monte de entulho (foto acima e no topo da página). Quem tirou estas fotografias foi ameaçado por seguranças do local, mesmo tendo-as tomado de área pública - a calçada (a casa estava no terreno do shopping center de Guarulhos).

Quem a demoliu teve o aval da prefeitura, que, como sabemos (postagem de 21 de outubro último) havia destombado o prédio (de novo: !!!!) depois de um parecer do arquiteto Faggin, conselheiro do CONDEPHAAT. Neste parecer, este senhor afirma, entre outras alegações, que "...nada justifica a permanência desta obra. Podemos passar sem ela na perspectiva de que ela será sucedida por usos mais contemporâneos e o que se espera, projetos arquitetônico e urbanísticos mais expressivos...".

Quem a demoliu fê-lo na calada da noite, às três horas da manhã, por... medo? Bem, como o proprietário é o shopping center de Guarulhos, foi ele; e a ele, posso dizer que jamais pisarei nesse território cujos donos ignoram a memória de uma cidade que já não tem mais seu passado. Claro, quem sou eu? Estes senhores pouco se importarão com minha decisão. Eu, pelo menos, jamais deixarei um centavo em suas caixas registradoras. Aliás, não gastarei mais um centavo em qualquer estabelecimento comercial nessa cidade.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SUD MENNUCCI E O RECENSEAMENTO DE 1940


Quem deu a chefia do Estado de São Paulo para o Recenseamento Geral de 1940 para meu avô Sud Mennucci sabia o que estava fazendo. Ele provavelmente sorriu como um bebê quando vê um doce ao receber a notícia.

Depois de vinte anos sem se fazer o recenseamento, Getúlio Vargas tomou esta nova contagem como algo muito sério para o Brasil. Ele não estava errado. E, pelo menos em São Paulo, entregou o serviço para quem entendia do assunto e, não somente isso, gostava de viajar e, antes de viajar, conhecia com a palma da mão o que ia ver. Sud viajou para boa parte das cidades-sede do censo e promoveu-o como se fosse a sua vida em jogo. Não é esta uma afirmação vazia. As notícias da época e seus relatos e entrevistas a jornais, as fotos que ele e seus colegas tiraram dessas viagens, muitas delas guardadas no seu belo arquivo, provam tudo isto.

A cada viagem sua, os jornais promoviam a epopéia. Afinal, viajar por um Estado onde metade dele não tinha ainda nem trinta anos de povoamento era realmente algo desafiador. Não acredito que meu avô conhecesse todos esses locais, apesar de viajar muito. No papel, sabia muito sobre eles. Conhecia a geografia e a hidrografia de cidades próximas e das muito afastadas como se as tivesse conhecido in loco. Era sopa no mel.


Para muitas delas ele foi de trem, meio de transporte ainda principal e mais confortável, confiável e rápido da época. A fotografia acima foi tomada da frente da antiga estação ferroviária da cidade de Ourinhos - Sud, seus amigos, colaboradores, curiosos e puxa-sacos aparecem nela.


Para uma ou outra, de avião - mais veloz que o trem, é verdade, mas caríssimo e ainda não tão confiável. As fotografias tomadas na pista do aeroporto de Araçatuba mostram um desembarque de meu avô saindo do avião, cercado de curiosos (acima) e descendo a escada de acesso à pista passando no meio de um túnel de gente. Avião se esperava na pista mesmo. Bem diferente de hoje em dia, quando na maioria dos aeroportos a gente não tem vista para a pista por questão de segurança dos passageiros... leia-se terrorismo (mesmo assim, é bom lembrar que viajei de Ponta Grossa a São Paulo em 1993, portanto somente 17 anos atrás, e esperei o avião na pista. O prédio estava abandonado!!!).


Muitas fotografias foram tiradas também dos escritórios locais. Nesta, acima, o carro do recenseamento aparece estacionado em frente ao escritório da cidade de Rio Claro.

Sem computadores, os resultados levaram anos para serem publicados. Porém, em 1941, já se tinha uma ideia do que havia sido contado e catalogado. Sud adorava dar explicações e entrevistas para os jornais, falar do crescimento das cidades paulistas, etc. Não conheço a organização do censo de hoje, mas não duvido que a empolgação por fazê-lo seja muito menor do que naqueles tempos de - ainda - grandes descobertas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ERROS HISTÓRICOS PAULISTANOS

Capa de um Guia de São Paulo - ano de 1963 (não aparece, mas é). Acervo Ralph M. Giesbrecht

Confiar plenamente em mapas de cidades antigos para traçar a história da urbanização não é algo que se recomende. A consulta serve como guia para a pesquisa; porém, todas as consultas que faço e coloco em meus estudos têm sempre a nota: "de acordo com o mapa tal, publicado em...", dado a constantes erros que existem e que nem sempre podem ser detectados.

Nos muitos anos - décadas, já - em que tenho estudado diversos mapas da capital paulista, já constatei erros claros e possíveis erros em diversas oportunidades. Desde nomes de ruas que mudam ao sabor dos mapas (por exemplo, a rua Cardeal Arcoverde se chama Arcoverde e Joaquim Arcoverde em mapas mais antigos, mas este não é um erro tão grave) até ruas traçadas de forma errada ou que, por exemplo, são traçadas de forma correta em relação a hoje, mas não nos dão a certeza de que esta rua já existia em dada época, ou que fosse então apenas um projeto a ser implantado.


Vejamos alguns casos. No mapa acima, a avenida Sumaré aparece com o seu curso terminando na rua Varginha no ano de 1937. Pode ser real. No entanto, vemos ruas tracejadas (devem ser projetos) à direita que não foram implantadas dessa forma.


Já no outro mapa (acima), a avenida aparece no ano de 1963 traçada somente até a rua Professor João Arruda e com uma praça oval no entroncamento das ruas Atalaia e Grajaú. Ora, esta praça jamais existiu (sei pois morei a um quarteirão dali por pelo menos 24 anos); quanto ao final da avenida na rua citada, isto era parcialmente real. Em 1963, a avenida era pavimentada com paralelepípedos, ainda em pista única e mais estreita do que é hoje, entre as ruas Tácito de Almeida e Atalaia/Grajaú. Dali para a frente, sentido Perdizes, era de terra e sem ser mais larga a partir do final da sua pavimentação, até a rua João Arruda, e daí para a frente era um córrego a céu aberto, praticamente sem ter nenhuma construção ao longo dela, até a rua Turiassu, onde hoje termina a avenida.


Vendo um mapa do Braz publicado em 1963 (acima), encontrei a Avenida Alcântara Machado bem mais larga do que as outras ruas na época - ver acima. Porém, uma boa parte dela, mais especificamente o trecho a partir do viaduto sobre a via férrea, sentido leste, é a rua dos Trilhos, que jamais teve essa largura. Erro crasso. Quanto à avenida antes da linha férrea, já seria ela larga nessa época? Pelo mapa, sim.


Voltando às Perdizes, o mapa feito pela empresa SARA BRASIL (acima) a pedido da Prefeitura e publicado em 1930 mostra uma linha de bondes unindo a avenida Doutor Arnaldo ao alto da rua Cardoso de Almeida na rua Caiubi. Até onde se sabe, não encontrei nenhuma referência ao fato de esta linha de ligação (a linha efetivamente existiu do cruzamento da rua Caiubi para o norte e da avenida Doutor Arnaldo, entre a Cardeal Arcoverde e a rua Teodoro Sampaio para o leste) ter em alguma época existido. Teria ela sido feita e depois retirada rapidamente? Era um projeto que a SARA aceitou como real? Este mapa da SARA em teoria é um dos mais confiáveis dos já emitidos. Outra coisa que se nota nesse mapa: para quem conhece bem a região, vai notar que a rua Macaé tinha um traçado muito diferente do que tem hoje e que a rua Veríssimo Glória não aparece. Foi mesmo assim? Ou somente nos primeiros mapas do bairro?

Há muito mais erros. Não dá para mostrar tudo, teria de escrever um livro sobre o assunto e aprofundar-me em muitas pesquisas mais. Sempre lembrando que até em mapas de ruas recém-publicados em São Paulo (e em diversas cidades) existem erros. Mesmo assim, acho o assunto realmente fascinante.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

NA COVA DOS OSTROGODOS (OU: SAUDADES DE ITIRAPINA)

Foto: Antonio Gorni

Eu não estive na Alemanha nos últimos dias. Mas meu amigo Gorni, sim. Ele registrou suas impressões ao andar de trem:

Na semana passada tive a oportunidade de fazer uma rápida viagem no InterCity Express (o TAV alemão) entre Hannover e Düsseldorf.

O percurso entre essas duas cidadas é normalmente cumprido em 2h 30 min, o que resulta numa média de 100 km/h - uma marca alucinante em termos brasileiros, mas meio pífia para os tão decantados trens de alta velocidade. Pareceu-me até inferior aos InterCity ingleses, que também não são o topo de linha. Note-se, contudo, que o número de paradas é muito grande, especialmente próximo à região de Düsseldorf, o que deve comprometer a velocidade.

Foi uma experiência bastante interessante, já que faziam 14 anos desde minha experiência com os InterCity ingleses.

Eu fui de segunda classe. A poltrona é confortável, ainda que não reclinável. A foto ilustra o interior do carro. Um ponto bastante negativo é a falta de locais para a colocação de bagagens pesadas. A rigor, elas só poderiam ser colocadas na prateleira superior do carro, o que exige um bom preparo físico do usuário. Há poucos lugares (não previstos em projeto) para acomodar malas mais volumosas no chão, ao contrário do que eu havia observado nos InterCity ingleses (havia locais demarcados no piso nas extremidades dos carros e entre assentos cujas costas se tocavam). Acabamos colocando as nossas numa área usada para pendurar casacos, que felizmente encontrava-se vazia. Mas haviam pacotes volumosos acomodados nas plataformas dos carros - algo irregular, mas comum. Se fosse aqui no Brasil, seria fácil para algum gaiato surrupiá-los do trem. Parece não ser o caso na Alemanha.

Infelizmente, no dia de minha viagem o pessoal da Deutsche Bahn estava fazendo "operação padrão", eufemismo que na prática significa "greve". Nosso trem ficou paralisado por motivos misteriosos numa estação erma a 40 minutos de Hannover por mais de 100 minutos, atraso esse que não foi recuperado posteriormente.

O jeito foi ir ao carro-restaurante - ou, no caso, "Bistro": uma espécie de lanchonete que serve sanduíches e pratos rápidos. Mas seus lugares estavam ocupados. A solução foi comprar os sanduíches e refrigerantes e comer em minha própria poltrona, a qual dispõe de uma mesinha similar à dos assentos de avião. Na extremidade de cada carro há lixeiras seletivas para reciclagem. Infelizmente os alemães não dão muita bola para elas, abandonando o lixo de seus lanches nos assentos que ocuparam. Parece que na primeira classe há um serviço de garçom, a exemplo da Classe Executiva dos trens da EFVM.

Nem apito esses TUEs interurbanos tem! Na partida, você ouve o apito para liberação do trem e, em seguida, uma campainha toca na plataforma - por sinal, quem for cinéfilo achará que ela parece com o tema dos violinos do filme "Psicose", de Hitchcock. O ruído dos trilhos é pouco, mas anódino - nada do "tátá-tátá" que se ouvia nos trens da CP, mais ou menos a cada 20 ou 25 segundos, que você acompanhava desde os carros anteriores da composição, passando pelo seu e seguindo para os posteriores. Essa sinfonia se perdeu...

OK, o serviço é razoável, mas não tem um centésimo do charme dos trens da minha infância. Não tem Jundiahy, Ityrapina e muito menos Angico. Nem cheiro de mato. Nem cafezais. Muito menos a placa "Limite para Locomotivas Eléctricas". E o frio é de matar se você sai na estação...

Eu quero ir, minha gente
Eu não sou daqui...
Eu não quero nada, nada
Quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada!

Caetano Veloso - 1969

Gorni

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MONTEIRO LOBATO E A PROFESSORAZINHA DA UFMG


Bom, acabaram-se as eleições deste ano. Durante meses, vi gente a favor e contra os dois candidatos (os outros nem contam) defendendo-os ou atacando-os em jornais, radios, televisões ou nas calçadas. Até no twitter, facebooks, blogs etc.

Por parte dos dois candidatos mesmo, não vi um programa de governo decente nem qualquer proposta que parecesse séria. Cada um deles pode até ter boas intenções e ideias de realizações, mas não se preocuparam em colocar isto de forma clara. Não tive paciencia de assistir debates: porém, assisti alguns pedaços em gravações e somente um trecho do último deles ao vivo pela TV.

Ouvi bobagens sobre educação, sobre religião, sobre aborto, sobre saúde. Propostas e explicações totalmente irracionais. O Estado é supostamente laico, portanto, não tem de dar satisfações sobre qualquer religião. Aborto sempre existiu e sempre existirá. E é perigoso por diversos motivos, o principal deles a profilaxia necessária, que não existe pois tudo é feito às escondidas, e é feito assim porque é proibido. Fosse livre para quem quiser fazer, estaria tudo bem melhor.

Já a educação vai mal neste País há muito, muito tempo. Antes do século XIX, só havia escola para quem fosse muito, mas muito rico. No século XIX, começaram timidamente as escolas públicas, que também não tinham lugar para todos que podiam e que deveriam estudar. Quem tivesse posses mandava seus filhos para estudar em escolas particulares - que também eram poucas, ou para a Europa.

Pelo menos no Estado de São Paulo, a situação começou a melhorar no final desse século. As escolas públicas melhoraram muito em qualidade, mas não em disponibilidade de vagas. Até os anos 1930, a discussão não era sobre nível de ensino, mas sobre o fato de não haver vagas nas escolas públicas para todo mundo. Daí para a frente, aos poucos foi mudando: hoje, pelo menos neste Estado, há vagas para todos, mas a qualidade do ensino público é lamentável. Um dos motivos é o baixo salário dos professores.

Saúde? Bem, enquanto se fala que tudo melhorou em termos da área pública, continuamos assistindo a denúncias no país inteiro sobre atendimento precário nos hospitais e postos de saúde. INSS, então, com filas e mais filas. Aliás, desde que nasci. E estou com quase 59 anos. O que ouvi candidatos falarem neste assunto é o que sempre ouvi: vamos fazer, e no final, nunca fazem. Tanto na saúde quanto na educação.

Enquanto isso, vamos perdendo tempo com bobagens. Fora religião e aborto, meio ambiente: no caso, "meio ambiente" está longe de ser bobagem, mas pensar que tudo vai ser feito em termos sustentáveis numa economia de mercado é ser ingênuo e mentiroso. Se quiserem, basta ler uma postagem minha de poucas semanas atrás aqui. Cultura? Meu Deus, cultura é um fator primordial, pois é a base, junto com a educação, de uma civilização, de uma nação, de uma pátria. E sobre isto pouco ou nada ouvi. Cultura continua sendo prioridade zero, salvo as exceções de praxe. O risco de não a termos é o emburrecimento da população.

Vejam isto: nos últimos dias, parte da obra de Monteiro Lobato foi condenada por uma professora da UFMG por ser racista. Meu Deus, racista? Como, racista? Seja qual for a explicação que se dê ao que a professora falou, não dá para engoli-la. E se procurarmos agulha em palheiro, vamos notar, no mínimo, que a obra foi escrita nos anos 1920 e 1930. Uma das mais belas obras do mundo, que espelha uma realidade brasileira daquela época - o meio rural. Note bem, daquela época. Portanto, qualquer coisa que tenha conotação racista numa análise de hoje é uma aberração.

Naquele tempo, os usos e costumes eram muito diferentes dos de hoje. Justificavam-se atos então que hoje não podem ser justificados (mas que sempre podem ser explicados). Não vou entrar em detalhes, mas perder tempo hoje com esse tipo de afirmação, tentando privar a geração atual de ler uma das mais belas obras literárias brasileiras e mundiais como as de Monteiro Lobato, porque ela teria conotação racista em 1920? Se é que teria! Ora, os tempos mudam - e vão continuar mudando.

Vamos gastar tempo com coisas mais importantes. E, se possível, mandem a tal professora plantar batatas (veja abaixo-assinado). Pelo menos, ela vai saber que, um dia, a população rural do Brasil era muito maior do que a atual. Alguma coisa, afinal, ela, como professora, precisa conhecer sobre a terra onde mora.