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terça-feira, 22 de novembro de 2016

ANOS 1940: A BAGUNÇA DOS NOMES DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS

A estação e a cidade de São José dos Campos quase viraram Camponésia em 1943
Entre 1938 e 1943, houve uma febre de mudança de nomes de estações ferroviárias, considerando-se que era um absurdo a existência de nomes de estações iguais a outros, ou iguais a distritos, ou a municípios, ou que fossem muito longe da sede do município, etc.

Mesmo antes desse período, houve diversas estações, distritos e municípios que tiveram nomes alterados, mas cada caso era isolado dos outros, eram por motivos específicos.

Propunha-se a mudança de nome de uma estação porque ela tinha o mesmo nome, por exemplo, de um distrito de um município que às vezes ficava a 600 km de distância. Em muitos dos casos, mudava o nome tanto da estação quanto do município do qual ela era a principal.

O curioso é que, mesmo com essa campanha, ainda sobraram diversas estações com nomes iguais a outras.

O primeiro estudo foi feito dentro do Estado de São Paulo. Mais tarde, isto se estendeu pelo Brasil inteiro e foi um fuzuê. Houve reclamações de todos os lados e a troca radical de nomes tradicionais de estações, municípios, distritos, etc. E na maioria das vezes a reclamação era procedente.

Realmente, uma bobagem. A lei, que realmente acabou prevalecendo, causou a troca de inúmeras localidades no País inteiro, e meu avô, Sud Mennucci, foi um dos incentivaram essa "revolução". Admiro muito meu avô, a quem não conheci, mas de quem escrevi a biografia, em 1997. Admiro, mas certamente não por esta "paranoia" de sua parte. Ele foi um dos mais ativos colaboradores dessa "revolução", pelo conhecimento geográfico que tinha, especialmente no Estado de São Paulo, com uma memória de fazer inveja.

Tenho, de seus arquivos, esboços de leis, de reuniões no Instituto Brasileiro de Geografia, recortes de jornais, leis já feitas, etc..

ÉSeriainteressante citar as mudanças (dentro do Estado de São Paulo) que foram propostas para mudança de nomes de diversas estações paulistas, pelos mais variados motivos.

Nomeio abaixo algumas que foram sugeridas, de acordo com o decreto-lei no. 3599, de 6/9/1941, transcritas na ata da reunião do IHG de 28/3/1942. Estas foram sugeridas, mas, por algum motivo, não foram aplicadas. Em alguns casos, os nomes foram até alterados, mas para outros, diferentes.

Nesta lista, os primeiros nomes eram do que existia na época. O segundo, da ferrovia. O terceiro (em negrito) era o nome sugerido. O quarto e último é o nome que a estação (e/ou município) tem hoje. Aliás, como a esmagadora maioria das estações brasileiras foi fechada e até demolida, muitos desses nomes nem têm mais sentido, a não ser que algum bairro ou município tenham adotado o nome.

São José dos Campos - Central - Camponésia - São José dos Campos
Areais - SPR - Itiquiri - Areais
Campo Largo - Bragantina - Itapetinga - Campo Largo
km 7 - Bragantina - Buturucaia - km 7
km 22 do ramal de Piracaia - Bragantina - Baitacas - km 22
km 69 do tronco da Bragantina - Bragantina - Mandacaru - km 69
Bacuri - Noroeste - Guacuri - Bacuri
Iporanga - Noroeste - Açoiaba - Iporanga
Junqueira - Noroeste - Abrigo - Junqueira
Mirandópolis - Noroeste - Comandante Arbués - Mirandópolis
Bom Sucesso - E F Campos do Jordão - Mandu - Bom Sucesso
Anhumas - Mogiana - Anhara - Anhumas
Corredeira - Mogiana - Campininha - Corredeira
Guatapará - Mogiana - Angaíba - Guatapará
Itaoca - Mogiana - Itapuá - Itaoca
Macaubas - Mogiana - Jabaetê - Macaubas
Orindiuva - Mogiana - Jaguari-Mirim - Orindiuva
Porangaba - Mogiana - Poranduba - Coronel Pereira Lima
Tibiriçá - Mogiana - Tijupá - Tibiriçá
Entroncamento - Perus-Pirapora - Agarapê - Entroncamento
Nova Parada Sete - Cantareira - Arapecó - Nova Parada Sete
Via Queimada - Central - Caitaba - Vila Queimada
Vargem Grande - Central - Mamanguá - Vargem Grande
Paraíso - Itatibense - Galvões - Paraíso
Itapema - Itatibense - Boava - Itapema
Pedra Branca - E F do Dourado - Itati - Pedra Branca
Ciro Rezende - E F do Dourado - Cambará - Cambaratiba
Areia - Paulista - Ibicuitiba - Santa Irene
Batalha - Paulista - Ibiretê - Batalha
Estrela - Paulista - Tataci - Estrela
Floresta - Paulista - Ibirati - Floresta
Macuco - Paulista - Abaretê - Macuco
Santo Inácio - Paulista - Jacaré-Guaçu - Santo Inácio
Taquaral - Paulista - Taquaretã - Taquaral
Americana - Sorocabana - Americanópolis - Guilherme Wendell
Angatuba - Sorocabana - Angaturama - Angatuba
Caixa D'Água - Sorocabana - Itatins - Caixa D'Água
Fortuna - Sorocabana - Catuaba - Canitar
Iberá - Sorocabana - Ibatubi - Martim Afonso
Itupeva - Sorocabana - Inhandijara - Itupeva
Lageado - Sorocabana - Itaiá - Lageado
Pereiras - Sorocabana - Taba-mirim - Pereiras
Santa Teresinha - Sorocabana - Guaçussaba - Santa Teresinha
Serrinha - Sorocabana - Caraia - Serrinha
Cambuí - E F Araraquara - Anajá - Cambuí

A farra foi muito maior. Essas não vingaram - o nome sugerido acabou nunca sendo efetivamente implementado, mas muitas outras que não estão nesta lista mudaram realmente os seus nomes. Imaginem o que deve ter havido de confusão, principalmente quando os nomes mudavam de novo ou voltavam para o que eram.

Em alguns casos, os nomes mudaram, mas depois voltaram a ser o nome anterior, com o acréscimo de algum nome, como "Paulista", "do Sul", "do Norte", etc. (Exemplos? Cachoeira mudou para Valparaiba e 5 anos mais tarde passou a ser Cachoeira Paulista)

Isto é Brasil. Quando tudo está em ordem, arruma-se um jeito de se o bagunçar. 


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NOMES DE ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS PAULISTAS

Estação Julio Prestes, em 2008 (Cleiton Pieruccini)

Os nomes dados às estações paulistas derivam, como no resto do país, ou às cidades, ou às fazendas, ou aos córregos, em sua grande maioria. Aliás, não é diferente das do resto do Brasil. É verdade que a Central do Brasil e a Sorocabana, mas principalmente a primeira, tinham a tendência de dar nomes de pessoas às estações, pessoas tanto vivas quanto já falecidas na época - antes dos anos 1940, era permitido homenagear em nomes de logradouros pessoas que ainda estivessem vivas.

Se pegarmos, por exemplo, a linha da Sorocabana, que começa no centro da capital, vemos que a estação original dela se chamava apenas São Paulo - se bem que ela era conhecida mais popularmente por "Estação da Sorocabana" ou por "Sorocabana", apenas. Vale lembrar que somente em 1951 a estação de Julio Prestes ganhou esse nome - ela que estava funcionando desde 1930 e que, a essa altura, já era a terceira estação inicial da ferrovia, depois da desativação de outras duas muito próximas a ela.
Estação da Barra Funda, a da Sorocabana, demolida para a construção do Memorial da América Latina. A foto é de 1978
A segunda estação - estamos falando dos dias mais recentes, não da época da inauguração da ferrovia, em 1875, quando a primeira estação depois da de São Paulo era a de Barueri - é a da Barra Funda. Os relatórios da Sorocabana dão a data de abertura desta estação como tendo sido em 1875, mas, nos primeiros relatórios dos anos 1870 ela nem é citada. Deveria ser, na época, apenas um depósito de material ferroviário, ainda pequeno, onde havia provavelmente uma parada simples apenas para funcionários. O nome Barra Funda veio do bairro - que ainda era também incipiente na época. Lembrar que ao lado desta estação havia a estação do mesmo nome, mas pertencente à São Paulo Railway (SPR). As duas estações somente foram juntadas num terceiro prédio em local diferente das outras duas no ano de 1987, que é a estação que atende hoje também ao metrô - atende três linhas, portanto.
Estação da Lapa, anos 1990
A estação da Lapa é mais recente e, como era a da Barra Funda, tem uma homônima, a cerca de 500 metros mais à frente, da SPR/Santos-Jundiaí. Esta é mais velha (1898) que a da Sorocabana (de 1957). O nome veio do bairro.
Estação de Domingos de Moraes em 2010 (Carlos Roberto de Almeida)

A estação de Domingos de Moraes é de 1920 e, como muitas estações, surgiu como um pequeno posto telegráfico sem nome (era "km 9,221" à época) e depois recebeu um, em 1921, que homenageou o antigo vice-governador (ou vice-presidente, como se chamava) com esse nome, paulista de Tatuí. O motivo? Ponto de saída do ramal da Armour, aquele ramal que até os anos 1970 cruzava a Marginal e o rio Tietê numa ponte baixa com os trilhos passando cruzando a Marginal do Tietê obrigando os carros a pararem quando por ali passavam suas locomotivas... a vapor. Agora, o por quê do nome dado, difícil de saber: teria o político terras por ali? Ou nem por isso?
Estação de Imperatriz Leopoldina em 2007 (Paulo Vinicius)

A estação seguinte é a de Imperatriz Leopoldina. Esta surgiu como um armazém regulador de estoque do café que seguia para a Barra Funda, e, quando foi "promovida" a estação, em 1931 (data oficial de sua inauguração), ela já existia como parada de funcionários (km 11) e posto telegráfico. Não se sabe o motivo do seu nome (pelo menos, eu não sei): teria sido por causa do loteamento do bairro de Vila Leopoldina (cuja avenida principal, Imperatriz Leopoldina, acaba em frente à estação) ou teria sido o contrário: o nome da estação deu nome ao bairro? A verdade é que também não está muito clara a data de mudança do nome, mas foi nos anos 1930.

Estação de Presidente Altino em 2001 (Marcos Zeituni)

Depois, vem Presidente Altino. Esta homenageou o Presidente do Estado, Altino Arantes, que somente veio a falecer nos anos 1950. Na época da abertura do pátio (em 1918, como "km 14"), no entanto, ele era o presidente. E, no início dos anos 1930, por um curto período de tempo, a estação se chamou Miguel Costa, como homenagem ao comandante das milícias de São Paulo com Getúlio Vargas. Depois voltou ao nome de sempre, acho que logo depois da revolução de 1932. O primeiro desvio industrial que saiu dali foi logo na implantação do posto, os desvios do Frigorífico Wilson, talvez até o motivo de abertura desse pátio, hoje bastante amplo. Esta estação veio a ficar na divisa dos municípios de São Paulo e de Osasco, quando houve a separação deste último, em 1961.
Estação de Osasco no início dos anos 1980 (Cartão postal)

Finalmente, pelo menos nesta postagem, veio a estação de Osasco, aberta em 1892 por um imigrante italiano, Antonio Agu, que resolveu construir uma olaria às margens da linha em terra virgem: a cidade desenvolveu-se a partir dali logo nos primeiros anos. O nome Osasco é uma exceção nos municípios brasileiros. O nome veio da terra natal de Agu, uma pequena cidade na Itália. Ele deu o nome à estação e à cidade e a Sorocabana endossou.

domingo, 26 de dezembro de 2010

NOMES ESTRANHOS E DESAPARECIDOS


O 20º município a ser criado no Estado de São Paulo - na época, ainda Capitania de São Paulo - em 1769 foi o de Faxina. O 30º foi Villa Bella. O 32º, Constituição. O 37º foi o de São Sebastião de Boa Vista. O 45º foi Xiririca. O 55º foi São José do Paraitinga. O 57º foi Belém. O 58º, Campo Largo. O 59º, Una. O 63º foi Penha de Mogy-Mirim. O 67º foi Santo Antonio da Cachoeira. Já estamos, aqui, em 1859.

E continuamos: o 69º foi Rio Verde. O 92º foi Santa Rita do Paraizo. O 93º, Patrocinio. O 95º foi Rio Novo. O 97º, Santa Barbara do Rio Pardo. O 103º foi Bocaina, já em 1880. O 107º foi Rio Bonito. O seguinte foi São Sebastião do Tijuco Preto. Logo em seguida, Buquira. O 110º foi São Francisco de Paula dos Pinheiros. Em 113º veio Carmo da Franca. Em 115º, Espírito Santo da Boa Vista. Logo em seguida, Espírito Santo de Batataes. O 123º foi Patrocínio do Sapucahy., já em 1885.

Dois municípios depois foi o de Juquery. Em 141º lugar, Pedras. Em 143º veio São João da Bocaina. Em 144º, Santo Antonio da Boa Vista. O 152º município fundado foi Curralinho. Em 160º lugar, Annapolis. Em 176º lugar, Bica de Pedra. Já estamos em 1913. O de número 200 foi Albuquerque Lins, este já em 1919.

Mais de 400 municípios foram instalados depois deste último até os dias de hoje. Muitíssimos tiveram os nomes iniciais diferentes dos de hoje, porém muitos já foram instalados com o nome atual. Eu estive fazendo uma pesquisa sobre a fundação de municípios no Estado de São Paulo até os anos 1920 e em alguns casos a situação ficou difícil. Acabei encontrando as respostas para quase todos, menos um. O fato é que em livros mais antigos aparecem nomes que não correspondem aos de hoje e pra encontrar quais são, pode tomar algum tempo...

Em todo caso, as respostas vão a seguir, pela ordem em que foram colocados mais acima. No primeiro parágrafo: Itapeva, Ilhabela, Piracicaba, Mococa, Eldorado Paulista, Salesópolis, Itatiba, Araçoiaba da Serra, Ibiúna, Itapira e Piracaia. No segundo: Itaporanga, Igarapava, Igaratá, Avaré, Águas de Santa Barbara, Cachoeira Paulista, Bofete, Piraju, Monteiro Lobato, Lavrinhas, Ituverava, Angatuba, Nuporanga e Patrocínio Paulista.

No terceiro parágrafo: Mairiporã, Itápolis, Bocaina, Itaí, Joanópolis, Analândia, Itapuí e Lins. É isso, divirta-se quem não sabia, boceje quem já sabia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

QUE CIDADE ERA ESSA?


Há algum tempo, visitando uma fundação ligada ao governo do Estado de São Paulo, alguns pesquisadores que lá trabalhavam comentaram comigo que estavam tendo dificuldades em identificar determinados dados e fotografias de cidades do começo do século XX, pois os nomes não eram conhecidos. Eu disse que talvez pudesse ajudar.

Elas me mostraram uma listagem com exatamente 99 nomes de cidades e vilas da época. Identifiquei 98. Elas ficaram surpresas e agradeceram muito, pois pouparam muito tempo de pesquisas para tentar achar esses locais. Não sou nenhum gênio no assunto, mas, pesquisando história ferroviária e do próprio Estado já havia, na época, cerca de 10 anos, acabei aprendendo velhos nomes e gravando-os. Como exigir que essas pesquisadores soubessem tudo isso?

É realmente inacreditável como os nomes de localidades e logradouros mudam no Brasil com tanta facilidade e por tantos motivos. Já postei neste blog outras vezes este assunto. Mas, afinal, por que mudaram tanto os nomes? A última "onda" ocorreu no final de 1943, quando diversas cidades, municípios, estações ferroviárias e distritos foram obrigados por lei federal a mudarem nomes que eram coincidentes, para "não causar confusão". Note-se que os CEPs não existiam nessa época. Com eles, isso tudo não seria necessário.


Nesta "leva", o problema foi, primeiro, arranjar novos nomes. Em alguns casos, eles foram forçados pelas autoridades e não agradaram aos habitantes. Neste caso, muitas cidades, estações e distritos tiveram nomes novamente alterados, em agluns casos retornando ao que eram com a adição de sufixos "do sul", "do norte", "do oeste", "de São Paulo", "de Minas", "da Sorocabana", etc.

Porém, houve muitas mudanças anteriormente. No final do século XIX e início do XX, cidades mudaram porque quiseram, embarcando na "moda" de trocarem os nomes para indígenas, assanhados pela onde de nacionalismo após a proclamação da República. Morro Pellado virou Itirapina, Penha do Rio do Peixe virou Itapira e Bica de Pedra virou Itapuí - são apenas alguns exemplos da época. Enquanto isso, já desde meados do século XIX havia localidades que alteravam seus nomes por motivos os mais estranhos possíveis, ou mesmo, aparentmente, sem motivo. A Central do Brasil era mestra em alterar nomes tradicionais de suas estações para homenagear funcionários seus muitas vezes totalmente desconhecidos, por exemplo.


No meio de toda essa confusão, quem é que sabe onde ficavam nomes como Santa Cruz dos Enforcados, Faxina, Morro Pellado, Santo Antonio do Campestre, Rio Novo, Três Ranchos, Pau D'Alho, Espírito Santo da Fortaleza, Hector Legru, Rocinha, Pombal, Rebouças, Jacuba, Cascavel, Caçador, José Teodoro, Água Fria, Santa Rita do Paraíso e muitíssimos outros, para citar somente alguns nomes no Estado de São Paulo? Afinal, a memória vai desaparecendo, documentos vão sendo destruídos e perdidos etc.

Para quem não sabe, os nomes acima são hoje, pela ordem: Piratininga, Itapeva, Itirapina, Lins, Avaré, Cerqueira César, Ibirarema, Piatan, Promissão, Vinhedo, Nova Odessa, Sumaré, Hortolândia, Aguaí, Ubirajara, Martinópolis, Cajamar e Igarapava.