Mostrando postagens com marcador Ana Costa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ana Costa. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O TREM SANTOS-GOIÂNIA (1966)

O trem Santos-Goiânia (ou Brasília), em algum trecho de seu percurso, em 1966 (Folha de S. Paulo, 5/6/1966)
.

Pois é, há quase treze meses, pouco mais de um ano, publiquei aqui neste blog um artigo sobre o que teria sido o primeiro trem para Brasília no Brasil. Foi o trem que seguiu de Rio de Janeiro para Anápolis em julho de 1958, seguindo por bitola estreita (métrica) pela Linha Auxiliara da Central, depois seguindo pelo ramal de Jacutinga, entrando pela linha da Barra da RMV (Rede Mineira de Viação) em Santa Rita do Jacutinga (onde Central e RMV se encontravam) até a estação de Rutilo, de onde seguiu para Anápolis, em Goiás, pelos trilhos da E. F. de Goiaz que se encontravam com a RMV em Goiandira.

De Anápolis não havia trilhos para Brasilia. Aliás, Brasilia ainda estava em construção. O percurso foi feito pelos convidados em ônibus especial. 1.524 km de linha e mais o percurso no ônibus.

Houve depois um ou outro trem que fizeram o percurso. Os planos para a ferrovia para Brasilia, que seguiria por um terceiro ramal a partir da E. F. Goiaz (não passaria por Anápolis), continuaram a ser feitos e eram constantemente postergados.

Finalmente, em 1968, o primeiro trem que saiu de São Paulo, a partir de Campinas com bitla métrica, seguiu pela Mogiana até Araguari e dali pela EFG até Brasília, finalmente com trilhos.

Passou a ser um trem regular, em um determinado ponto foi interrompido, voltou nos anos 1980 e terminou por volta de 1990. Havia outro trem que saía do Rio de Janeiro.

Porém, houve um outro trem, que em cinco dias percorreu, entre o final de maio de e o início de junho de 1966, um caminho diferente: partiu de Santos, da estação Ana Costa, da Sorocabana, e seguiu pela Santos-Juquiá, saindo em Samaritá para a Marinque-Santos, de Mairinque seguiu pela linha da antiga Ituana (Sorocabana) até Campinas, onde saiu pela Mogiana e depois E. F. Goiaz (já chamada de Centro-Oeste) até... desta vez, Goiânia. A linha para Brasilia, como escrevi acima, ainda não estava pronta.

A troca de tripulação da Sorocabana para a da Mogiana era feita na estação de Guanabara, em Campinas.
Roteiro do trem (Folha de S. Paulo, 5/6/1966)
.

Considerado como um teste de sucesso, vieram a partir dali as promessas: a linha aos poucos seria retificada (realmente o foi, em trechos tanto da Ituana, como da Mogiana quanto da ex-EFG) e a bitola larga seria implantada em todo o percurso, pelo menos entre Campinas e Brasilia. Esta última previsão jamais se consolidou.

Fica a nota. Hoje, o mais próximo que nós, paulistanos, chegamos de Brasília por trem é a estação de Jundiaí, ponto final de uma das linhas da CPTM. Quem sabe um dia... quando o inferno congelar.

sábado, 16 de julho de 2011

OS TRILHOS DO MAL (VI) - A HORA E A VEZ DE SAMARITÁ

Trecho de linha já arrancado

Os "Trilhos do Mal" continuam atacando nas ferrovias brasileiras, e principalmente nas paulistas. Com o tratamento "preferencial" dada a elas pela concessionária ALL - "preferencial" em termos de que elas tem preferência no abandono das linhas que a concessionária opera - elas vão aos poucos se acabando.
Situação de linhas no final dos anos 1950 (IBGE). Ainda não existia a ligação Paraitinga-Piassaguera. O trecho arrancado agora foi aquela linha horizontal no centro do mapa.

Não era esperado, em 1998, que as linhas tivessem esse fim. Afinal, a FEPASA, dona delas até março desse ano, quando a repassou à "zumbi" RFFSA, ainda operava, mal ou bem (principalmente mal) praticamente 100% das linhas. Até trens de passageiros ainda existiam nas linhas maiores.
Outro trecho arrancado.
A FERROBAN , que arrematou suas linhas em novembro desse mesmo ano junto à RFFSA, começou a operá-las em janeiro de 1999. Com isso, já suspendeu todas as linhas de passageiros em operação alegando o mau estado da via permanente - só que, por contrato, deveria operá-las ainda por dois anos. Já começou mal. Muitos ramais de carga ainda operantes ou trafegáveis foram também postos de lado.
Trecho arrancado.
Em agosto, as linhas de passageiros voltaram a operar à força - e com serviços ainda piores dos que a FEPASA. Só que dois trechos não voltaram: o tronco da Sorocabana e o trecho Campinas-São Paulo. A cidade de São Paulo, em janeiro de 1999, portanto, despediu-se sem qualquer festa de seus trens de passageiros de longa distância.
A linha arrancada vista pelo Google Maps (imagem de 16/7/2011). Vêem-se também as linhas da Santos-Juquiá, da Paratinga-Piassageura e da Mairinque-Santos

Começa, então, o roubo de trilhos, a demolição clandestina e o roubo de materiais nos prédios do antigo patrimônio da FEPASA. Ninguém cuida, ninguém se importa. O mato invade as linhas nada usadas.

Em 2006, a ALL assume a FERROBAN, e consegue piorar ainda mais as coisas.

Ainda outra parte do trecho arrancado.
Em 2008, com a adaptação das linhas da antiga Santos-Jundiaí no acesso a Santos, o trecho de bitola métrica entre as estações de Paraitinga e de Ana Costa, em Santos, ex-Sorocabana, deixa de transportar os carqueiros que desciam a serra de Marinque em bitola métrica para o porto - eles passam a entrar por Paraitinga, seguir para Piassaguera e daí ao porto de Santos, como já faziam os comboios de bitola larga havia muitos anos - mais precisamente, desde 1978, quando foi aberta a ligação Paraitinga-Piassaguera.
Mais um trecho arrancado que acompanhava a estrada.

Agora, três anos depois, vai-se a linha que ligava Paraitinga e Samaritá para o espaço - os trilhos estão sendo retirados. Para que? É verdade que os trens não mais os usam - mas deixam de ser uma alternativa de passagem. Já não podiam chegar mais ao porto, onde os trilhos na região da avenida Ana Costa foram soterrados pelo asfalto. Agora, eventualmente, não permitem mais passagem de carga em trens de bitola métrica do ramal de Juquiá-Cajati (que passa pela estação de Samaritá). Graças às fotografias enviadas ontem por Marcio Jam e aqui reproduzidas em parte, pode-se aqui ter uma ideia do prejuízo já feito.
Mapa da linha que foi arrancada agora. A vila à direita é Samaritá, a rodovia que corta é a Manuel da Nóbrega (SP-55). Paratinga (ou Paraitinga) fica na curva da ferrovia (formato de triângulo) à esquerda (Google Maps, imagem de 16/7/2011)

Dirão os mais entendidos em ferrovias que não fará diferença, pois o ramal citado já não opera dEsde 2003 (mais um assassinado pela FERROBAN) - mas ele está lá, com constantes promessas (nunca cumpridas) de voltar a operar. Poderia ter utilidade, então, a ligação Paraitinga-Samaritá? Bem, nunca se sabe, mas por que não deixá-la lá?

Ou sou apenas um dos últimos otimistas em ferrovias neste país? O último trouxa?

terça-feira, 20 de abril de 2010

SUMMER OF ´68

Quem conhece o "disco das vacas" do Pink Floyd, lançado por volta de 1970, conhece a música "Summer of '68". Então, no verão de 1968 — ou melhor, meses depois dele, em setembro desse ano, nas tradicionais "Férias da Batata", que ninguém conhecia com esse nome na época, pelo menos no Colégio Visconde de Porto Seguro, onde eu estudava; eram as "Férias da Primavera", uma semana de folga no mês de setembro.

Eu e meus amigos Aluísio, João e Roland (este, já falecido) fomos até o apartamento de meus pais na Vila Noêmia, em Praia Grande, lugar ainda semideserto e sem telefone — o único telefone ficava na padaria na beira da praia, que não tinha a avenida que tem hoje na orla. Dormimos lá na primeira noite e depois resolvemos visitar outro grupo da classe, que estava na Praia das Tartarugas, no Guarujá. Toca pegar o ônibus, descer em São Vicente, pegar outro, descer na Ponta da Praia, pegar a balsa, atravessar o canal, tomar outro ônibus e dali seguir até a Praia das Tartarugas.

Ela ficava na ponta da praia da Enseada — ainda fica, lógico — mas era um local isolado logo depois do início da Estrada de Pernambuco, aquela que segue para a balsa de Bertioga. Antes dela, só o Jardim Virgínia, e, antes dele, nada até as cercanias do Morro do Maluf, na outra ponta. Ficamos lá uns dois dias, dormimos na sala mal acomodados (com 17 anos de idade, que diferença faz?) e na noite do dia seguinte tínhamos de voltar para a Praia Grande. A casa era uma antiga garagem de barcos adaptada; acho que ainda existe, mas não como casa, como loja.

Só que não havia ônibus depois das oito, nove horas da noite. Fomos então caminhando: "Vamos a pé, mesmo." Só que a praia era longa e deserta. Tão deserta, que nem ladrões havia. Em um determinado ponto, apareceu um caminhãozinho. Pedimos carona, e o cara, assustado, deu. Na carroceria. Ele seguiu por alguns quarteirões, e o motor fundiu (teria sido o nosso peso?). Descemos e continuamos a pé mesmo. Chegamos a Pitangueiras às 4 da manhã. Lá, pressionamos o Roland para dormir no apartamento dos pais dele ali, mas ele se recusava, pois não tinha "autorização dos pais" para isso. Mas o sono era maior. Ficamos lá, mesmo.

Na tarde seguinte, fizemos a viagem de volta dali para a Vila Noêmia. De novo ônibus, balsa, ônibus, ônibus. Trem, literalmente, nem pensar — ninguém se lembrava dele! E ele existia: poderíamos tê-lo pegado em Ana Costa e ido até Pedro Taques, mas não.

Chegamos finalmente ao apartamento e tivemos que brigar com a faxineira que apareceu por lá, mandada por meus pais: ela não queria lavar a louça, que estava jogada na pia havia dois ou três dias, encardida e com a sujeira grudada. Nada como rapazes responsáveis. No fim, ela não lavou, mesmo, e sobrou para a gente.

Depois, mais um ou dois dias, e pegamos o ônibus para São Paulo — via Santos, claro, pois não havia ônibus diretos. Ah, bons tempos. Tudo era difícil, mas era engraçado.