O trem Santos-Goiânia (ou Brasília), em algum trecho de seu percurso, em 1966 (Folha de S. Paulo, 5/6/1966)
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Pois é, há quase treze meses, pouco mais de um ano, publiquei aqui neste blog um artigo sobre o que teria sido o primeiro trem para Brasília no Brasil. Foi o trem que seguiu de Rio de Janeiro para Anápolis em julho de 1958, seguindo por bitola estreita (métrica) pela Linha Auxiliara da Central, depois seguindo pelo ramal de Jacutinga, entrando pela linha da Barra da RMV (Rede Mineira de Viação) em Santa Rita do Jacutinga (onde Central e RMV se encontravam) até a estação de Rutilo, de onde seguiu para Anápolis, em Goiás, pelos trilhos da E. F. de Goiaz que se encontravam com a RMV em Goiandira.
De Anápolis não havia trilhos para Brasilia. Aliás, Brasilia ainda estava em construção. O percurso foi feito pelos convidados em ônibus especial. 1.524 km de linha e mais o percurso no ônibus.
Houve depois um ou outro trem que fizeram o percurso. Os planos para a ferrovia para Brasilia, que seguiria por um terceiro ramal a partir da E. F. Goiaz (não passaria por Anápolis), continuaram a ser feitos e eram constantemente postergados.
Finalmente, em 1968, o primeiro trem que saiu de São Paulo, a partir de Campinas com bitla métrica, seguiu pela Mogiana até Araguari e dali pela EFG até Brasília, finalmente com trilhos.
Passou a ser um trem regular, em um determinado ponto foi interrompido, voltou nos anos 1980 e terminou por volta de 1990. Havia outro trem que saía do Rio de Janeiro.
Porém, houve um outro trem, que em cinco dias percorreu, entre o final de maio de e o início de junho de 1966, um caminho diferente: partiu de Santos, da estação Ana Costa, da Sorocabana, e seguiu pela Santos-Juquiá, saindo em Samaritá para a Marinque-Santos, de Mairinque seguiu pela linha da antiga Ituana (Sorocabana) até Campinas, onde saiu pela Mogiana e depois E. F. Goiaz (já chamada de Centro-Oeste) até... desta vez, Goiânia. A linha para Brasilia, como escrevi acima, ainda não estava pronta.
A troca de tripulação da Sorocabana para a da Mogiana era feita na estação de Guanabara, em Campinas.
Roteiro do trem (Folha de S. Paulo, 5/6/1966)
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Considerado como um teste de sucesso, vieram a partir dali as promessas: a linha aos poucos seria retificada (realmente o foi, em trechos tanto da Ituana, como da Mogiana quanto da ex-EFG) e a bitola larga seria implantada em todo o percurso, pelo menos entre Campinas e Brasilia. Esta última previsão jamais se consolidou.
Fica a nota. Hoje, o mais próximo que nós, paulistanos, chegamos de Brasília por trem é a estação de Jundiaí, ponto final de uma das linhas da CPTM. Quem sabe um dia... quando o inferno congelar.
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sexta-feira, 5 de setembro de 2014
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
VIAJANDO NA REDE MINEIRA EM 1947
A estação de Patrocinio em 2003. Foto Dirceu BaldoUma velha revista mineira de fins de 1947 apresenta um relato feito por um certo Floriano de Paula, onde ele contava sua viagem de trem até sua terra há mais de dez anos deixada, Patrocínio. Linha da Rede Mineira de Viação, a "ruim-mas-vai" na época. Ele narra a partir da estação de Tigre, na serra do Urubu, estação da linha-tronco da ferrovia, a que ligava Angra dos Reis a Goiandira. Não está claro se ele partiu dali ou mais do sul.
Estação do Tigre em 2004. Foto Décio MarquesEra época de seca. "Nas duas margens da ferrovia, a terra estava arada e pronta para as sementeiras, mas a chuva não caía". Em Tigre, dez horas de atraso por causa de um descalrrilamento. Dez horas!! "Não havia dormentes em bom estado na linha: herança da ditadura: dez ou doze anos sem melhoria na Rede. Outros descarrilamentos nos esperam".
A estação de Ibiá em 2003. Foto Hugo CaramuruEm Ibiá, Floriano perdeu o trem que ia "dali a Monte Carmelo e daí a Goiás. Pernoite forçado em Ibiá: no hotelzinho - dois e três num só quarto, camas nos corredores, camas sobre as mesas". E cita rumores de acordo secreto entre os chefes de trem e os hospedeiros. Diz que a cidade é pequena e que "o mais importante ali é a placa que a Prefeitura colocou na entrada da cidade: "Aviso: nas ruas velocidade máxima 15 km a hora. Multa: Cr$ 50,00". E elogia a medida.
No dia seguinte, parte o trem, que "transpôs o rio São João, galgou colinas e alcançou a primeira estaçãozinha dentro das terras patrocinenses. Desce a tarde. Os olhos se estendem pelas vastas campinas e repousam nas suaves e longínquas serras do Salitre e do Dourados (...) O comboio corre agora pelo vale do Salitre. Gado, plantações, lareiras. Mais planícies. As primeiras estrelas. Depois, ponteiam as luzes da cidade. Eis-me na minha Patrocínio".
A seguir, Floriano estende-se em descrições da cidade e de seus amigos, que revê depois de tantos anos. Não disse quanto lá permaneceu: começa outro capítulo. "Oito e meia da manhã. O trem apita (...) Estamos, assim, de novo, num pouco limpo, nada asselado e velhíssimo carro da RMV, rumo a Goiás. Em Celso Bueno, descarrilamento. Longas horas de espera: os trilhos despregaram-se. A linha está toda assim, dormentes podres é a regra. A mais extensa rede ferroviária brasileira cai aos pedaços (...)"
Conta ainda Floriano que um cego de Urucânia passa de carro em carro pedindo esmolas e ao final agradece tocando na sanfona melodias tristes. Havia também um músico goiano tocando uma concertina. "O trem desce para o Paranaíba: ponteiam as palmeiras, aos milhares. O rio está vazio: o caudal não é mais que um modesto córrego no fundo do leito preofundo e largo. Transposta a ponte, extensa e bonita, penetramos nas paragens goianas. Três Ranchos é a primeira estação. Manhã de neblina e um cafezinho na estação. Tomam o trem criadores abatidos com a devastação da seca nos rebanhos que morrem à míngua de pastagem".
A estação de Goiandira em 2003. Foto Glaucio ChavesFinalmente o trem chegou a Goiandira. Ele para na estação da Rede e a estação da E. F. Goiaz fica a 100 metros mais para a frente. Entre as duas havia um profundo corte. Os passageiros do trem de Floriano perderam o "trem da Goiana" devido aos atrasos pelos descarrilamentos citados: "parece burrice haver duas estações, as duas estradas podiam ter uma só. Mas a burrice é outra, explica-me o chefe da estação. O vagão de sal sai de Angra dos Reis, km 0, e chega a Goiandira, km 1126. O sal é descarregado e armazenado, para, dia ou dias depois, ser carregado o vagão da Goiaz. Isso para viajar mais umas poucas dezenas de quilômetros. Bastava engatar o vagão da Rede na Goiana". Para finalizar, nosso relator lembrava que "Goiandira tem duas estradas de ferro e uma rodovia. Não possui, entretanto, água canalizada, luz elétrica e outros recursos medianos e fundamentais de aglomerado urbano. Suas administrações públicas não cuidaram disso".
Sessenta e três anos depois, não existem mais trens de passageiros ali e em quase nenhum ponto do Brasil. A linha-tronco da extinta Rede Mineira foi modificada no início dos anos 1980 por causa de uma represa que alagou a antiga linha no rio Paranaíba. O trem hoje desvia antes de Celso Bueno para oeste e desemboca em Araguari. Somente cargueiros, lógico. Diversas estações foam demolidas. Celso Bueno, acima citada, idem.
Os cegos e donos de concertinas não pedem mais esmolas nem cantam mais nos trens.
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