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domingo, 26 de junho de 2011

O RAMAL DE UBERABA

Estação velha de Araxá
Hoje cedo, o colaborador de meu site Estações Ferroviárias do Brasil, Leonardo Fonseca Figueiredo, enviou-me uma sequência de fotos do ramal de Uberaba, tomadas recentemente. Embora ainda ativo, este antigo ramal construído pela E. F. Oeste de Minas nos anos 1920 é um dos ramais ferroviários dos quais menos tenho informações. Talvez pelo fato de que a linha passe por boa parte de seu percurso a uma distância razoável da rodovia que liga Uberaba a Araxá.
Estação de Almeida Campos
Araxá, aliás, é a única cidade grande por onde a linha passa; até 1982, passava praticamente dentro da cidade, mas a partir desse ano uma variante afastou-a da cidade. Uma nova estação foi construída, mas os trens de passageiros já haviam sido extintos no final dos anos 1970. A velha estação, um prédio de 1926, acabou se tornando o Centro Cultural Fundação Calmon Barreto. Aliás, centros culturais têm sido o destino de diversas estações desativadas - e isto nem sempre significa algo positivo.

Ponte Raul Soares, sobre o rio Araguari
É interessante como esse ramal, apesar de ter beneficiado a cidade, chegou tardiamente. Araxá já era uma cidade importante para Minas Gerais desde o século XVIII, e mesmo assim, viu a ferrovia passar longe dela por um bom tempo antes de ser finalmente alcançada. Até 1926, para ir a Araxá por um transporte decente e com menos delongas, havia que se partir da capital paulista pela SPR/Paulista e depois, em Campinas, tomar o trem da Mogiana e descer um Uberaba. A partir daqui, tomar algum transporte que o levasse pelas péssimas estradas da época para Araxá. Também se podia descer em Sacramento, também da Mogiana, e seguir para a cidade. Quem vinha de Belo Horizonte tinha de seguir até Garças de Minas e dali tomar algum tipo de transporte para Araxá. Dependendo da época, isto denotava pelo menos uma baldeação no trajeto das ferrovias.
Estação de Itiquapira
Conta-se que políticos mineiros e paulistas discutiam suas ações na época do "café-com-leite" em Araxá. Como isto tudo acabou em 1930 com a revolução de Vargas, nota-se que a ferrovia ajudou a cidade apenas quatro anos neste sentido. De qualquer forma, continuou até os anos 1940 pelo menos com boa frequência de turistas. Com a decadência dos trens de passageiros a partir do final da Segunda Guerra, esses trens foram se esvaziando.
Vagão e carro num desvio da estação de Batuíra
A cidade de Araxá ficava a 90 quilômetros de Ibiá e a 186 km de Uberaba por ferrovia - hoje, por estrada, as distâncias são bem menores: respectivamente, 70 e 124 km. É interessante notar que a variante construída em 1982 na periferia da cidade reduziu a distância entre os dois pontos de encontro da linha velha e da nova de 9 para 4,5 km! Imagine-se então como são as curvas no restante do ramal. É bastante claro que uma rodovia decente na região acabaria com os trens, a não ser que estes, assim como a linha, fossem totalmente remodelados, coisa que, como no restante do Brasil, nunca ocorreu (salvo honrosas exceções).
Estação de Estevão Lobo
Enfim, algumas das fotografias enviadas por Leonardo ilustram neste artigo um pouco algo do que sobrou do ramal, que ainda tem cargueiros passando por ele com trens da Ferrovia Centro-Atlântica/FCA.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

VIAJANDO NA REDE MINEIRA EM 1947

A estação de Patrocinio em 2003. Foto Dirceu Baldo
Uma velha revista mineira de fins de 1947 apresenta um relato feito por um certo Floriano de Paula, onde ele contava sua viagem de trem até sua terra há mais de dez anos deixada, Patrocínio. Linha da Rede Mineira de Viação, a "ruim-mas-vai" na época. Ele narra a partir da estação de Tigre, na serra do Urubu, estação da linha-tronco da ferrovia, a que ligava Angra dos Reis a Goiandira. Não está claro se ele partiu dali ou mais do sul.
Estação do Tigre em 2004. Foto Décio Marques
Era época de seca. "Nas duas margens da ferrovia, a terra estava arada e pronta para as sementeiras, mas a chuva não caía". Em Tigre, dez horas de atraso por causa de um descalrrilamento. Dez horas!! "Não havia dormentes em bom estado na linha: herança da ditadura: dez ou doze anos sem melhoria na Rede. Outros descarrilamentos nos esperam".
A estação de Ibiá em 2003. Foto Hugo Caramuru
Em Ibiá, Floriano perdeu o trem que ia "dali a Monte Carmelo e daí a Goiás. Pernoite forçado em Ibiá: no hotelzinho - dois e três num só quarto, camas nos corredores, camas sobre as mesas". E cita rumores de acordo secreto entre os chefes de trem e os hospedeiros. Diz que a cidade é pequena e que "o mais importante ali é a placa que a Prefeitura colocou na entrada da cidade: "Aviso: nas ruas velocidade máxima 15 km a hora. Multa: Cr$ 50,00". E elogia a medida.

No dia seguinte, parte o trem, que "transpôs o rio São João, galgou colinas e alcançou a primeira estaçãozinha dentro das terras patrocinenses. Desce a tarde. Os olhos se estendem pelas vastas campinas e repousam nas suaves e longínquas serras do Salitre e do Dourados (...) O comboio corre agora pelo vale do Salitre. Gado, plantações, lareiras. Mais planícies. As primeiras estrelas. Depois, ponteiam as luzes da cidade. Eis-me na minha Patrocínio".

A seguir, Floriano estende-se em descrições da cidade e de seus amigos, que revê depois de tantos anos. Não disse quanto lá permaneceu: começa outro capítulo. "Oito e meia da manhã. O trem apita (...) Estamos, assim, de novo, num pouco limpo, nada asselado e velhíssimo carro da RMV, rumo a Goiás. Em Celso Bueno, descarrilamento. Longas horas de espera: os trilhos despregaram-se. A linha está toda assim, dormentes podres é a regra. A mais extensa rede ferroviária brasileira cai aos pedaços (...)"

Conta ainda Floriano que um cego de Urucânia passa de carro em carro pedindo esmolas e ao final agradece tocando na sanfona melodias tristes. Havia também um músico goiano tocando uma concertina. "O trem desce para o Paranaíba: ponteiam as palmeiras, aos milhares. O rio está vazio: o caudal não é mais que um modesto córrego no fundo do leito preofundo e largo. Transposta a ponte, extensa e bonita, penetramos nas paragens goianas. Três Ranchos é a primeira estação. Manhã de neblina e um cafezinho na estação. Tomam o trem criadores abatidos com a devastação da seca nos rebanhos que morrem à míngua de pastagem".
A estação de Goiandira em 2003. Foto Glaucio Chaves
Finalmente o trem chegou a Goiandira. Ele para na estação da Rede e a estação da E. F. Goiaz fica a 100 metros mais para a frente. Entre as duas havia um profundo corte. Os passageiros do trem de Floriano perderam o "trem da Goiana" devido aos atrasos pelos descarrilamentos citados: "parece burrice haver duas estações, as duas estradas podiam ter uma só. Mas a burrice é outra, explica-me o chefe da estação. O vagão de sal sai de Angra dos Reis, km 0, e chega a Goiandira, km 1126. O sal é descarregado e armazenado, para, dia ou dias depois, ser carregado o vagão da Goiaz. Isso para viajar mais umas poucas dezenas de quilômetros. Bastava engatar o vagão da Rede na Goiana". Para finalizar, nosso relator lembrava que "Goiandira tem duas estradas de ferro e uma rodovia. Não possui, entretanto, água canalizada, luz elétrica e outros recursos medianos e fundamentais de aglomerado urbano. Suas administrações públicas não cuidaram disso".

Sessenta e três anos depois, não existem mais trens de passageiros ali e em quase nenhum ponto do Brasil. A linha-tronco da extinta Rede Mineira foi modificada no início dos anos 1980 por causa de uma represa que alagou a antiga linha no rio Paranaíba. O trem hoje desvia antes de Celso Bueno para oeste e desemboca em Araguari. Somente cargueiros, lógico. Diversas estações foam demolidas. Celso Bueno, acima citada, idem.

Os cegos e donos de concertinas não pedem mais esmolas nem cantam mais nos trens.