domingo, 23 de outubro de 2011

PIRACAIA E CURRALINHO EM 1911-12

Mapa das linhas da Bragantina na região

Há cem anos, meu avô Sud Mennucci era professor primário em Piracaia, cidade paulista próxima a Atibaia. Essa cidade estava prestes a receber os trilhos da E. F. Bragantina, que viriam exatamente de Atibaia e parariam em Piracaia. Isso ocorreria efetivamente em 1914, quando Sud não estava mais lá e duraria até 1967, quando os trilhos foram retirados.

Sud, que na época tinha 19 anos mas já escrevia artigos para jornais, escreveu este (em 12 de março de 1912) para o jornal O Cachoeirense (referência ao antigo nome da cidade, Santo Antonio da Cachoeira), mostrando sua curiosidade em saber como a cidade de Curralinho (que hoje se chama Joanópolis), cidade próxima à divisa mineira, faria para escoar suas mercadorias, já que não receberia trilhos e ficaria a meio caminho entre as cidade de Piracaia e de Vargem, esta ponta da linha-tronco da Bragantina, que receberia trilhos um ano mais tarde (1913).

Este prolongamento da linha-tronco da ferrovia era o que Sud chama de ramal das Palmeiras, embora eu não tenha conseguido identificar de onde meu avô tirou este nome. O artigo é longo, mas vale a pena ler, para se conhecer a realidade destas cidades na época. Vale ressaltar também que o acesso a Piracaia era a cavalo a partir de Atibaia, meio de transporte de que Sud se utilizou para assumir seu cargo ali em 1911.

Muito se tem dito e propalado a respeito das vantagens que nos pode trazer a vinda dos trilhos da Bragantina até aqui. Não é preciso, decerto, encarecer a facilidade de transporte que viria a dar amplas comodidades ao nosso viver estreito a subordinado às veleidades dos condutores e conduções dos tempos e dos caminhos. Não é mais necessário mencionar o incremento que poderia tomar toda esta zona cafeeira, que faz parte da longa faixa que estende até Franca e que de Bragança em diante é muito bem servida. Não é preciso mostrar a rapidez das notícias, que até hoje nos são negadas pelo telefone, que, seja dito a bem da verdade, faz o possível de funcionar regularmente, mas que não tem o condão de dirigir as condições meteorológicas, nem de prevenir os desastres; notícias essas que nos chegam com atrasos enormes como a da morte do Barão de Rio Branco, que falecera no sábado de manhã e de que só ficamos cientes no domingo à noite. Tampouco é preciso ainda citar que a nossa cidade por estar demasiado perto de São Paulo e por possuir um dos mais salubres climas do Estado, havia de ser necessariamente o ponto preferido de villegiatura dos que desejando veranear, não estão doentes para ir a Poços de Caldas.

Procuraremos apenas demonstrar o grande comércio que se desenvolveria em proveito de Piracaia, se esta se fizesse de ponto coletor de todas as riquezas da zona sul mineira que vem desembocar em Curralinho como ponto forçado. Construída a estrada de ferro, pondo-nos em comunicação direta, em prazo máximo de três horas e meia com a capital do Estado, um dos grandes problemas está em saber atrair, do município de Curralinho, o transporte de cargas de suas produções e dos municípios limítrofes mineiros. Ora, é justamente esse problema que apresenta duas soluções. São João do Curralinho ficará situado a meio caminho, mais ou menos, entre a estação de Piracaia e a estação mais próxima do ramal das Palmeiras, isto é, ficará a dezessete quilômetros de Piracaia e a quinze da outra estação. Postas nestas condições, a questão se reduz unicamente a isto: qual das duas estações preferirá o município curralinhense? Sem dúvida nenhuma: a melhor! De um lado, ficam-lhe quinze quilômetros de uma estrada boa, mais ou menos plana. Do outro, tem dezessete quilômetros de caminho em piores condições, pouco tratado, a não ser uns três quilômetros, perto da cidade, e além disso cheio de morros. Logo, a outra será a preferida.
Restos de pontilhão da ferrovia em Piracaia

Há coisas que se podem dizer, mas se não devem escrever, dirão alguns. Para nós, todas as coisas, com exceção das imundas, se dizem e se escrevem desde que se tenha em vista o aforismo: “A liberdade de um começa onde acaba a do outro e vice-versa”. É por isso que eu não trepido em afirmar que nós devemos nos enfeitar e apresentar-nos ao município de Curralinho de maneira que sejamos os preferidos. É preciso que nos municiemos para atraí-los, que saibamos dar vantagens pois que a luta se resume no terreno das vantagens.

Analisemos. Dissemos que como estavam as estradas a outra seria a preferida. Mas ela traz em si defeito gravíssimo de se afastar de Bragança uns dez ou quinze quilômetros. Donde se conclui que o lucro de dois quilômetros de estrada de rodagem é neutralizado pelos dez, no mínimo, da estrada de ferro e que representam em aumento nos fretes de carga uma boa porção de réis. E logo a primeira vantagem anula-se por si. Mas é justo que convenhamos que ela por si só não é capaz de fazer-nos os preferidos. Obedecendo apenas esse benefício natural nada teremos. Temos porém a nosso favor uma causa fortíssima: é que estando a estrada que vai para a estação do ramal das Palmeiras toda ou quase dentro do município de Curralinho, a este somente compete tratar da sua conservação. Essa despesa por pequena que seja fará sempre peso no erário municipal, porque quinze quilômetros não são uma ninharia. Ao passo que na estrada entre esse município e o nosso será forçosamente repartida a despesa de conservação entre os dois aos quais tocará mais ou menos nove quilômetros cada um, soma bem menor que a de quinze. É pois a segunda vantagem que levamos para que o escoamento seja a nossa estação e não a do ramal das Palmeiras.

Mas ainda assim o problema continua sem solução logo que se aponte o estado atual da estrada, que se não presta a satisfazer os fins que se propõe, dada a sua má construção, os seus morros aos quais pouca suavidade se procurou, deixando de parte toda a técnica dos declives, Às vezes subindo um morro quase íngreme para evitar uma pequena volta de poucas dezenas de metros, não compensadas pelo esforço que deverão fazer os animais de tiro para galgar a subida, ou trás esquecendo uma reta que atalharia bem o caminho. É preciso porém que se diga que sendo a estrada feita e conservada por particulares eles não têm obrigação de fazer mais do que fazem.
Estação de Vargem em 2005

Entramos pois no nó górdio da questão: a estrada precisa ser feita de novo, aproveitando-se da existente apenas os trechos bem construídos e os que servirem de atalho. Logo é apenas uma questão de dinheiro, para o qual se deverá olhar e nem se poderá, sob pena de fazer perder ao município grandíssima parte de seu futuro desenvolvimento. É preciso que se construa debaixo de todos os modernos requisitos para as boas construções. Deverá ser mais ou menos nivelada, conservando apenas o declive máximo de 30%, deverá ser de uma largura de 8 metros, e não se terá medo em rasgar um morro pelo meio, desde que ele traga um resultado satisfatório, como também não se vacilará em aceitar uma volta até com o máximo de 20% desde o corte não faça benefício algum apreciável e seja apenas sumidouro de dinheiro.

Achamos que nada é melhor do que o fato de uma empresa americana de estradas de ferro, cuja linha ia até New York e que para chegar com 3 minutos de lucro a essa cidade não trepidou em aterrar um brejal enorme na travessia. Gritarão alguns que é necessário dinheiro. Peçam auxílio ao Governo do Estado. E demais, que nos deve importar o gasto se o juro auferido surpassará de muito a expectativa fazendo-nos crescer em importância invejável? É natural que falando na construção da estrada não nos referimos somente a Piracaia. São João do Curralinho, que não é a menor interessada no negócio, deve por força aceitar uma parte da incumbência da referida tarefa. Repartindo-se as despesas, e com o auxílio provável do Governo veremos que não caberá muito a cada município. Mas ainda resta um ponto a solver. Quando deveria ser feita a estrada? Logo depois de concluído o ramal de Piracaia? Está cvlaro que não. Tudo, em boa razão, manda que se a inicie senão conjuntamente ao menos pouco tempo depois do começo dos trabalhos da Bragantina, de modo que quando esta entregue ao tráfego público o ramal, nós poderemos contar com o transporte de cargas de Curralinho.

Resolvido isto, deveríamos cuidar do transporte de passageiros. Entre Piracicaba e Limeira existem umas linhas de trolys, que põem em comunicação direta e diária a primeira cidade com o interior do Estado. O serviço lá é feito com a máxima regularidade que podem oferecer transportes a tração muar e caminhos sujeitos à violenta soalheira de junho e às chuvas torrenciais de dezembro. Assim a meu ver a Câmara de Piracaia faria um grande bem em subvencionar uma linha de trolys regulares, com partidas e chegadas a horas certas, infalíveis e maximé com animais bons e empregados cumpridores de seus deveres. Em Piracicaba, Limeira e Rio Claro usam-se umas conduções denominadas jardineiras, de molas, a seis lugares, cobertas de encerado, bancos estofados de maneira a aliviar os solavancos inevitáveis em caminhos de rodagem, e altas bastantes para evitar a lama e a poeira. Podia-se fazer o mesmo aqui. Três léguas ou antes dezessete quilômetros são uma distância, com boa estrada, a se fazer em duas horas. Havia até, aqui, a supressão do ponto que existe em Piracicaba para a muda de animais a meio caminho que lá é de seis léguas.
Estação de Piracaia em 1999

Em resumo: construção da estrada nas condições de bem servir o transporte, manutenção da mesma com verba especial pelas câmaras dos dois municípios, criação das jardineiras de linha, regularidade do serviço, presteza e antes que tudo seriedade e teremos atraído a grande bacia para onde convergem todos os produtos sul mineiros, que nos garantiria um desenvolvimento enorme, sem nenhum prejuízo e até com lucro para o atual comércio de Curralinho. Não vejo necessidade de explicar quais sejam os benefícios se tal se desse, mas como pode haver algum ingênuo ou fingindo-se como tal que nos pergunte quais são, responderemos que em outra ocasião, se não nos faltar tempo nem espaço e se os lazeres no-lo permitirem demonstraremos esses resultados que são tantos, e de tal quilate, que só não os vê quem não quer.

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