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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

SUBURBIOS DA VELHA LEOPOLDINA

A Noite, 22/4/1935
A história ferroviária brasileira tem inúmeros detalhes. Apesar de as ferrovias hoje não merecerem praticamente nenhuma atenção séria por parte dos governos e serem considerados por muitos incautos como "coisa do passado" e como consequência as linhas existentes estarem abandonadas (mesmo as que estão em uso), um dia houve quase 40 mil quilômetros de estradas de ferro no Brasil e isso gerou uma série de histórias e de detalhes que, se alguém conseguisse juntar tudo para fazer um livro, seria uma enciclopédia com n volumes.

Falando da Leopoldina, entrando em um detalhe de seus trens de passageiros e neles entrarem no detalhes que ela teve trens de subúrbios... bom, hoje eles são chamados de trens metropolitanos que, no Rio de Janeiro, bem ou mal, são operados por uma empresa concessionária privada de nome Supervia.
Guia Levi, 1917 (mês desconhecido)
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A Supervia hoje congrega linhas que foram tanto da Leopoldina como da Central do Brasil. A linha do qual falo aqui neste texto já existia em 1917 e fazia o percurso Barão de Mauá a Duque de Caxias (na verdade, em 1917 era Praia Formosa-Meriti - o mesmo trecho, mas com nomes diferentes Ou seja, Meriti (em 1932) tornou-se Caxias, que se tornou Duque de Caxias mais tarde. Praia Formosa, hoje um pátio destruído, passou a funcionar somente para cargueiros e manobras depois da abertura da estação Barão de Mauá, em 1926, estação que fica a seu lado, Já a Supervia hoje opera um trecho que não sai mais da Barão de Mauá, abandonada desde sua desativação no ano de 2002, passando todos os trens metropolitanos do Rio a sair da estação Dom Pedro II, mais conhecida hoje como estação da Central.

E os trens da Supervia levam hoje mais longe que Duque de Caxias - chegam até Saracuruna. Quando ainda estavam com a Leopoldina, os trens chegavam apenas até Gramacho, pois ali terminava a eletrificação desde 1970. Para seguir em frente, até Raiz da Serra, hoje Vila Inhomerim, uma locomotiva diesel assumia o trem.

A partir de meados de 2005, o trem elétrico passou a chegar até Saracuruna.

Daí para frente, é outra linha, embora ela fosse nos velhos tempos a continuação da linha que seguia para Petrópolis. Como de Vila Inhomerim para frente (ou seja, a partir do início da subida da serra) a linha foi extirpada em 1964, os subúrbios, que já paravam aí sem subir a serra, continuaram a fazer o que já faziam. Hoje em dia, a Supervia faz a linha Central-Saracuruna com trens elétricos e Saracuruna-Vila Inhomerim com locomotivas diesel em menos horários diários.

Os trens de passageiros sempre chegaram a Vila Inhomerim desde 1856; mas, desde 1964, apenas os subúrbios. Porém, quando começaram os subúrbios a chegar a ela, não somente os de longa distância? Isto ocorreu em 1935, com festas. Notem na gravura as manchetes: "Realizando um grande melhoramento - Inaugurado o novo trecho suburbano da Leopoldina".

Como digo, são tantos os detalhes. Só a história deste ramal, desses trens, já daria um livro.

sábado, 18 de outubro de 2014

QUITAÚNA - ESTAÇÃO, QUARTEL E BAIRRO

 A divisa São Paulo - Cotia - Parnahyba em 1930. A estação não aparece no mapa. O rio Tietê estava bem mais próximo à linha e ao quartel. Sara Brasil
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A estação ferroviária de Quitaúna, inaugurada em 1929 pela Estrada de Ferro Sorocabana, recebeu originalmente o nome atual. Entre 1939 e 1945, teve o nome alterado para Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro. Na na época já ficava ali o 4º Regimento de Infantaria (4º RI) ou Regimento Raposo Tavares, hoje o 4° Batalhão de Infantaria Leve (4º BIL). A entrada do quartel fica exatamente ao lado da atual estação, cujo prédio já foi alterado pelo menos três vezes desde sua inauguração, a última delas em 1979.

As terras pertenceram originalmente ao bandeirante português Raposo Tavares. Em 1922, já de propriedade do Exército Brasileiro, ali foi construído o quartel. A estação, como vimos, veio em 1929. Até hoje, funciona ali uma passagem em nível no cruzamento da entrada de automóveis e de pedestres para o quartel - a entrada principal. Consta que foi nela que, num acidente com o trem da então Sorocabana, faleceu o filho do ex-Presidente Ernesto Geisel, por volta de 1963.
A passagem de nivel em 1958. Acervo Folha de S. Paulo
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A fazenda de Raposo Tavares chamava-se Quitaúna, que deve ser um nome vindo da pré-história brasileira. Com esse nome, formou-se o bairro e também forneceu o nome popular do Quartel de Quitaúna - e da própria estação ferroviária.

Em 1930, passava pelo meio do quartel e logo após a estação a linha que dividia os municípios de São Paulo e de Cotia. No sentido norte, a divisa de São Paulo seguia, mas logo que cruzava o Tietê, que passava atrás do quartel, começava a divisa com Santana de Parnaíba. O rio Tietê passava até os anos 1940 praticamente encostado à linha da Sorocabana e aos limites do terreno do quartel. A retificação que veio logo depois afastou-o dali.

Em 1961, Osasco separou-se de São Paulo e a divisa com Cotia foi esticada até o córrego Carapicuína, que, por sua vez, passa logo ao final da plataforma da atual estação de Miguel Costa, da CPTM. Em 1963, Carapicuíba separou-se de Barueri e teve sua área municipal ampliada, recebendo terras de Cotia. Com isso, a divisa em Quitaúna acabou - hoje ali é tudo pertencente a Osasco - e o córrego Carapicuíba divide Osasco de Carapicuíba.
Saída do desvio  Foto Carlos R. Almeida
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Da estação de Quitaúna ainda sai um desvio ferroviário para o interior do quartel. Hoje está desativado, mas era provavelmente por esse desvio que entrava o trem exclusivo dos militares que os transportava de São Paulo ao quartel, nos idos de 1960 e 70. Veja mais sobre a estação de Quitaúna aqui.

terça-feira, 29 de março de 2011

HERÓIS

Apesar de ser herói, Caxias só valeu dois cruzeiros em 1943
Pois é, outro dia li algo afirmando que Ayrton Senna foi um herói. Foi mesmo? Afinal, o que é um herói? É claro que isso pode variar de pessoa para pessoa, mas, para mim, chamar Senna de herói não tem sentido algum. E não vai desmerecimento meu algum a ele nisso. Senna foi um sujeito que se deu bem na vida, ganhando muito dinheiro para dirigir automóveis de corrida - coisa que fazia muito bem. Foi uma pessoa competente nas suas ações e no seu trabalho. Morreu num acidente, coisa infelizmente muito comum de acontecer em corridas cuja velocidade está ao redor de 300 quilômetros horários.

Jogadores de futebol - vários deles - são muitas vezes chamados de heróis. Tanto como Senna, são pessoas que se deram bem jogando futebol. Sabem e sabiam fazê-lo bem e conseguiram ganhar muito dinheiro com isso. É verdade que alguns, nem tanto, mas isso depende de como o sujeito sabe aplicar o dinheiro que ganha.

Herói, para mim, é a pessoa que arrisca a vida defendendo algo em que acredita sem esperar remuneração por isso. Geralmente, acredita numa pátria ou em um ideal. Que faça algo que beneficie muito mais do que a ele próprio. Pode estar lutando por sua família ou por seu povo. Ou por sua nação.

Heróis são os pracinhas que foram lutar na Itália sem treinamento algum nos anos 1940. São os revolucionários que deixaram suas famílias em suas casas para lutar por São Paulo em 1932, sem saber que era uma guerra perdida desde o início. Heróis são aquelas pessoas que durante uma catástrofe - inundações, incêndios, terremotos, tsunamis - correm para salvar quantas pessoas puderem no meio de fogo, água, detritos e lama, simplesmente para salvar vidas.

Jogadores de futebol não são heróis nem quando defendem a seleção nacional. Ganham para isso. Visam jogar na seleção apenas para ganhar mais dinheiro e ficarem mais valorizados com isso. Não há nada de errado nisso. Nem com Senna, que ficou rico por dirigir muito bem. Afinal, há que se valorizar a ambição de cada pessoa. Menos herói quem deixa o país para ganhar mais fora dele, fugindo de seus problemas no país natal - mas, no fundo, quem pode culpar pessoas por quererem melhorar de vida, ou por preferirem morar em um local diferente do local em que nasceram?

Chega de chamar de heróis pessoas que, apenas por morrerem, tornam-se heróis. Todos que morrem são bajulados, são as melhores pessoas do mundo. Por outro lado, muitos dos heróis, principalmente os brasileiros, são denegridos depois de serem idolatrados, porque começam a vasculhar seus defeitos. Ora, quem não os têm?

Heróis têm defeitos, mas são heróis por algo específico que fizeram e que levou à salvação de muita gente, de ideais, da pátria. O Duque de Caxias lutou na Guerra do Paraguai; não ficou num escritório burocrático na Corte, deu a cara para os inimigos, ao lado dos soldados que lá estavam. Todos heróis. Muitos, naquela época, talvez nem soubessem o que ou por que estavam lutando. Mas foram. Na marra, mas foram. Lutaram para não morrer, no mínimo. Caxias tinha defeitos? Com certeza, muitos. Mas foi um herói. Um dos muitos que, hoje em dia, mal são respeitados.

E não se pode confundir profissionais bem-sucedidos com heróis de verdade.