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sábado, 29 de outubro de 2011

A ERVA E O FERREOANEL DE SP

O Ferreoanel de 1969

A ideia era escrever a postagem de hoje falando dos estudantes da USP que invadiram de novo um prédio no campis para protestar contra a proibição de fumar maconha. Ótimo, então se liberarem a maconha está tudo bem, pois protestar contra a corrupção generalizada ninguém faz, mas este á um assunto muito que afeta muito mais o presente e o futuro da estudantada que a liberação ou não da erva. A solução? Expulsar todos da universidade e abrir processo imediatamente. Mas, no Brasil, sabe como é.

Vou então falar do que gosto: ferrovias. Conheço mais do assunto do que fumar maconha. E fui estudante da USP e passei incólume por ela. Foi há 40 anos atrás, mas a ervinha já estava lá! Assunto, então: anel ferroviário de SP. Por que? Ora, porque por acaso, procurando alguns arquivos no computador, achei um que estava procurando há muito (não hoje) - um mapa do projeto do ferroanel em 1969, 42 anos atrás.

Trata-se de um projeto da Secretaria de Transportes daquela época. O mapa, os leitores já viram, mostra linhas que acabaram não tendo sido executadas e outras que o foram, ou já o estavam quando ele foi publicado. Se ele tivesse sido construído confrome o projeto naquela época, trafegar pela atual linha 8 - ramal Osasco-Varginha - iria hoje ser problemático. Essa linha, então da Sorocabana, seria passagem de trens vindos de outros locais para o porto, ou para o Rio de Janeiro e Vale do Paraíba, contornando a cidade pelo sul.

É que naquela época a linha Mairinque-Evangelista estava para ser desativada (acreditem!!!). De qualquer forma, como as duas linhas se encontravam em Evangelista de Souza, o erro poderia ser corrigido a tempo - desde que não desmontassem a linha de Mairinque antes, como quase o fizeram.

No mapa, algumas afirmações: que um trecho entre Cidade Dutra e Diadema estava sendo desapropriado. Será que alguma coisa realmente o foi? Porque linha não foi construída, no final. Entre Ribeirão Pires e Suzano, a linha estava em construção. E estava mesmo, foi completada, se não me engano, em 1971 e funciona até hoje - serve para levar, por exemplo, aço da CSN para o porto de Santos, ligando a ex-Central à ex-Santos-Jundiaí. Pelo menos isso.

Outro trecho que já estava em funcionamento era a ligação Suzano-Mahoel Feio, em Itaquaquecetuba. Com efeito, ainda funciona. Atrapalha "pra burro" os trens da CPTM que por ali passam, mas a vaca anda. De Manuel Feio até São Miguel, havia uma terceira linha que hoje foi praticamente toda retirada. Suponho que deveria fazer parte do ferreoanel (e retiraram por que???).

De São Miguel até a via Dutra, dizem que houve terraplanagem. Mas nunca construíram nada. Será que as obras de terraplanagem realmente começaram naquela época? E da Dutra até Osasco, ficou mesmo no "projetado". Será que chegou a ser apresentado algum projeto mais detalhado? De qualquer forma, nada foi construído...

O ferreoanel de que se fala hoje é diferente, como já falei dele há algumas semanas. Seria melhor o de hoje? Creio que sim, mas há sempre o problema dos ecochatos da Serra da Cantareira (seis índios aqui, um formigueiro ali...). Naquela época, isso não seria levado em conta.

E quanto aos maconheiros (o que eles têm a ver com este texto, mesmo?), por mim, podem fumar erva à vontade. O prejuízo vai ser só seu, mesmo. Deviam era liberar essa porcaria de uma vez. Afinal, liberaram o fumo de cigarros, não liberaram? Faz muita diferença? Tem um monte de gente por aí morrendo de câncer no pulmão e o pessoal continua fumando...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

VELHA PIRACICABA DE MEU AVÔ

Estive hoje em Piracicaba, depois de alguns anos. Gosto de lá; é a terra de meu avô Sud. Fui lá somente a serviço e muito rápido; mas o dia estava bonito e, como fui à Vila Rezende, tive de atravessar o rio na antiga ponte da Sorocabana. Aliás, estão construindo uma nova de concreto ao lado dela. Será que vão derrubar a velha ponte?

Logo a jusante da ponte, fica o salto do rio Piracicaba. O "sarto", como dizem por lá. Ao voltar e cruzá-la novamente, entrei na rua que acompanha o rio e cheguei ao mesmo ponto, a montante do salto, onde estive com meus pais em 1960. Nesse dia, eu, com 8 anos, estava com o Studebaker deles; eles pararam sobre o campo entre as árvores à beira do rio. Meu pai acabou perdendo a chave do carro e foi um carnaval para conseguir abri-lo de novo. Hoje não é possível parar no mesmo local, há que se parar na rua.

Tirei rapidamente algumas fotos ali. O salto é realmente bonito.
O rio tem um grande arvoredo que o acompanha por toda a sua passagem pela cidade. Isso ocorre porque, ao contrário da maioria dos rios que cruzam a zona urbana das cidades, o Piracicaba jamais foi canalizado, retificado e muito menos entubado. É muito bonita a vista do rio, de qualquer lugar que se olhe.
Algumas casas mais antigas ainda são encontradas nas imediações do rio. Também e vários pontos se divisa o Engenho Central, hoje palco de exposições, quando as há.
Para sair de Piracicaba, temos de cruzar a área central. Ao sul do rio, há um morro que se tem de subir e descer, para cruzar a antiga linha da Sorocabana (vale do córrego Itapeva e hoje avenida Armando de Salles Oliveira). Dali, subimos de novo até chegar à avenida Guidotti, que leva para a saída para a estrada que segue para Santa Bárbara e Americana. E a rodovia dos Bandeirantes, que leva para São Paulo.
Piracicaba é uma cidade com poucas avenidas e muitas ruas estreitas. A cidade velha é quadriculada e hoje está praticamente toda ocupada por lojas, comércio e serviços; poucas residências. Mesmo assim, muito do casario antigo se conserva.
O córrego que divide claramente a cidade da área rural é o Piracicamirim, que cruzamos quando chegamos à cidade vindo de São Paulo pela rodovia dos Bandeirantes ou pela Anhanguera. O marco que cerca a cidade pelo lado leste é a famosa Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, hoje da USP.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O FIM DO EXÍLIO?

A foto publicada hoje no jornal "O Estado de S. Paulo". Meu avô Sud é o último sentado à direita. Dois para a esquerda, Julio de Mesquita Filho. Mais dois, José Mindlin, depois Manequinho Lopes e Leo Vaz.

Hoje, no jornal O Estado de S. Paulo, saiu uma reportagem sobre a morte de José Mindlin. Não tive tempo de ler ainda, então fiz como o leitor brasileiro típico: vi as fotos. Qual não foi minha surpresa ao saber que ele havia trabalhado no jornal, e na mesma época que meu avô Sud Mennucci.

Mindlin era bem mais novo, doze anos. Morreu com 96. Meu avô, mais velho, morreu com 56 há mais de sessenta anos. A surpresa maior foi ver uma foto tirada no jornal em 1931, mostrando Julio de Mesquita Filho, meu avô, Mindlin, Manequinho Lopes, Leo Vaz e outros. Segundo o jornal, foi a foto de despedida de Mindlin.

Talvez eu até tenha a foto. Se não tiver, tenho uma muito parecida. Minha grande surpresa é ter visto meu avô nela.

Afinal, meu avô tornou-se persona non-grata no jornal. Depois de ter sido convidado por Julio de Mesquita Filho em fevereiro de 1925 por uma carta de fazer inveja a qualquer mortal, onde Julio (cujo pai ainda era vivo na época) quase implorava para meu avô deixar a Delegacia de Ensino em Piracicaba e vir para a Capital trabalhar no jornal (não estranhem o termo "implorar", pois o texto da carta mostra isso), um dia a situação azedou. A carta dizia entre outras coisas que "já eu estava temendo que sua resposta fosse a que hoje recebi (da carta anterior, convidando-o pela primeira vez: essa carta não tenho). Acho que você tem razão. Entretanto, como você é moço e cheio de talento restava-me ainda uma vaga esperança que sua resposta fosse afirmativa. Entre São Paulo e Piracicaba, para quem se dedica à cultura do espírito, embora menos remunerado aqui do que lá, supus que a Capital vencesse. (...) A época é dos corajosos e não estou propondo a você a escalada do Himalaia ou a jornada de Verdun. Meu velho Sud: não me dê uma resposta definitiva, sem afastar da cabeça os obstáculos que ainda lhe tolhem uma decisão favorável. O 'Estado' é uma empresa que não morre, o que já não acontece com os que nele trabalham. Os que o dirigem hoje, amanhã já não mais existirão. Você é, dentre os rapazes da minha geração, o único que eu vejo - quando penso nisso - nas condições de tomar-lhe, um dia, a direção. Tem V. o talento equilibrado e profundo que requer a chefia de uma casa como esta. (...) São todos os nossos ideais de remodelação do Brasil e criação de uma mentalidade forte e alevantada que se abrem diante de nós. Que dirá V. disso tudo? Nem assim voltará V. atrás? Tenho certeza que sim, e, por isso, aqui fico à sua espera, para pormos mãos à obra, a começar de 1o de fevereiro. Do amigo certo, a) Julinho. São Paulo, 2 horas e meia da madrugada de 12 de janeiro (de 1925)".

A carta ainda dizia o salário oferecido (1,5 conto de réis, um bom dinheiro na época), uma vaga para Sud lecionar no Liceu Franco-Brasileiro e tocava no nome de grandes amigos de Sud que já trabalhavam no jornal como redatores, como Leo Vaz, Amadeu Amaral e outros. Sud acabou indo. Ficou no Estado até sair para ser redator-chefe de O Tempo, jornal criado em dezembro de 1930 por Miguel Costa. Depois, tornou-se Diretor da Imprensa Oficial do Estado, deixando O Tempo apenas quinze dias depois. Julinho tinha razão.

Tinha tanta razão que Sud acabou por ser mesmo diretor do Estado, de 1943 a 1945, só que isto ocorreu na época da intervenção de Ademar de Barros no jornal. Quando o jornal foi devolvido, Sud renunciou ao cargo, em dezembro de 1945.

Não se sabe o que foi exatamente que detonou a rixa entre o jornal e Sud. Sabe-se, no entanto, que os problemas começaram quando Sud foi nomeado professor da recém-criada Faculdade de Economia da USP e o jornal imediatamente criticou dois professores que não tinham diploma universitário (Sud era professor primário e jamais cursou faculdade alguma). A campanha durou um mês e fez com que meu avô pedisse demissão.

Minha família sempre disse que a inimizade tornou-se grande. Jamais ouvi o outro lado, pois à época em que comecei a pesquisar sua ha vida já estavam todos mortos. O fato é que não havia nada que se referisse a meu avô no jornal. É certo que ele faleceu em 1948, apenas dois anos após a discussão; mas tinha fama suficiente para merecer algumas páginas eventuais no jornal. Apenas sua morte foi publicada secamente.

Hoje, ao ver a foto no jornal com meu avô, fiquei emocionado.