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terça-feira, 10 de abril de 2012

UMA CARTA DE LEO VAZ A MEU AVÔ - HÁ CEM ANOS

Leo Vaz (esq.) e Sud no Parque do Guapira, em 1920

Monte Alegre (1) – 23/9/1912

Caro Sud (2).

Abraços.

Já andava, ha dias, com a penna (3) na mão para repetir a dose enviada na minha ultima carta, suppondo que a não tivesses recebido por teres sahido de Piracicaba antes que ella lá fosse ter. Mas, antes que o fizesse, cá veio ter a tua carta de 28. Mais uma razão pois para por de parte a indolencia e executar a ideia.

Foi para mim uma surpreza ver no “Jornal” e na “Gazeta” a noticia da tua nomeação e partida para Dourado (4). Porque foi esse um projecto de que nunca me fallaste e que eu não suspeitava siquer que tivesses na cachola. Porque diabo abandonaste a Piracaia (5)? Julgava-te definitivamente installado na Pedantopolis onde me parecia estares muito a gosto de teu genio mordaz e ironico: - tantos typos... É verdade que delles ha em todo o globo e, por certo, não os encontrarás em menor quantidade nesse Dourado, que por signal não sei onde fica e vou consultar a Geographia para descobrir a estrada de ferro que ahi vae ter.

Tens razão quando affirmas que conheço perfeitamente esse nosso proximo... Mormente agora que vim dar neste lugarejo onde esse senhor encontra todas as condições favoraveis para florescer. Tal qual como o da tua descripção, ha aqui um proximo adoravel. Desses mesmos que chegaram, em materia religiosa á nobre conclusão de que “a religião é indispensavel, porque é um freio!...” Mas eu me fiz accessivel a todas estas boas pessoas entre as quaes me divirto, observando-as em todas as faces da sua banalidade. De resto, teem para mim a serventia de se fazerem optimos parceiros para o bilhar, onde me proclamaram, graves e profundos, o primeiro taco! E acham, de certo, que me proporcionam, com isso, a suprema felicidade! Imagina agora, tu que o sabes, onde vão ter as aspirações litterario-philosophicas de um mortal, num recanto destes – na ponta de um taco!

Resta-me porem o consolo do trato diario com os nossos amigos invariaveis – os livros. E por fallar em tal, aproveito a occasião para completar a digestão de alguns que acabo de ler e dos quaes sinto necessidade de fallar com alguem que me entenda. E desses alguens bem conheces a abundancia...

Li, como ja te fallei noutra carta, as “Notas” de Eça. Deste livro nada tenho a accrescentar, pois que ja bem me conheces a opinião sobre o autor. A proposito – tinhas me promettido collaboração para o artigo sobre Eça, publicado pelo “Jornal” e, afinal vi-o sahir tal como o mandei. Porque te abstiveste de completar a parte referente ás obras que me faltam ler? É verdade que o mandei um pouco atrazado; mas, enfim, isso não constitue, absolutamente, um obstaculo.

Pois, palavra que não achei mais graça no artigo, sem a tua ajuda, porque, certo de que o farias, deixei ao teu cuidado as ultimas demãos. Mas é claro que alguma razão tiveste para assim proceder, portanto, vamos adiante. Li a “Origem do Homem” de Haeckel. O resultado dessa leitura, bem como da ultima que fiz da “Antiga e Nova Fé” de Strauss, foi o dar base scientifica ou philosophica a concepções velhas acerca dos factos e das coisas do Universo, concepções que, talvez por intuição, já eu tinha, como sabes, de me ter ouvido já, como sucedeu com Büchner e outros de que me fallaste, ha tempos, em cartas. A respeito porem, de Strauss, não posso deixar de te communicar a minha má impressão, vendo um allemão tão infantilmente allemão, ao lado do philosopho.

Como julgo que se deu comtigo, foi para mim uma perfeita descahida a ultima parte dessa obra de Strauss em que elle se põe a prégar a monarchia e a endeusar a Allemanha, os allemães e, synthese de ambas as cousas – os Hohenzollern (6). Lembrei-me daquella passagem de Eça, quando diz existirem na Allemanha escolas philosophicas cujo fim é explicar, analysar, decifrar e, sobretudo, impor o Kaiser ás consciencias... Com effeito, depois de se manter tão bem na primeira parte do livro, Strauss, para mim, infantilisou-se saxoniamente. Talvez o sangue latino seja quem me leva assim a fazer tal juizo ao autor que não perde vasa para depreciar o carater dos franceses. Seja! Mas si é esse preconceito de raça que me domina neste caso, elle é sobremaneira desculpavel diante do chuvinismo estreito e tolamente ingenuo da parte de um philosopho da envergadura de Strauss.

Tambem não pude tragar o traductor da obra que, a todo instante oppõe notas aos conceitos do autor, levado por um tambem estreito sectarismo positivista. Depois desta leitura accendeu-se-me o desejo de ver o mesmo assumpto tratado por um latino, francez de preferencia. Indica-me pois, tu que tens lido mais do que eu nesse campo, um autor que, pelo menos seja razoavel.

Quanto ao Positivismo, já que nelle tocamos, sempre o considerei uma doutrina tão secca, arida e estreita como toda outra religião e que, por isso mesmo que é uma Escola, me repugna ao espirito, porque sempre tive uma invencivel tendencia ao Livre-pensamento, mas tomado na sua exacta expressão, isto é, completa independencia no modo de encarar e resolver os problemas, sem me filiar a doutrina nenhuma, embora bebendo os principios naquellas que me parecem mais justas.

(1) Leo Vaz vivia nessa época em Monte Alegre, cidade próxima a Amparo, SP. Leo foi jornalista e escritor, nascido em Capivari, SP.
(2) Sud Mennucci, meu avô.
(3) Não somente esta palavra, mas muitas outras neste texto foram escritas no português de 1912. Letras duplas, falta de acentos e outras diferenças eram comuns.
(4) Dourado foi a terceira cidade onde Sud lecionou, após Piracaia e Cravinhos.
(5) Piracaia, cidade próxima a Atibaia, que Leo Vaz cognominava "Pedantopolis".
(6) Dinastia a qual pertencia o Kaiser Guilherme II da Alemanha, reinante na época.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O FIM DO EXÍLIO?

A foto publicada hoje no jornal "O Estado de S. Paulo". Meu avô Sud é o último sentado à direita. Dois para a esquerda, Julio de Mesquita Filho. Mais dois, José Mindlin, depois Manequinho Lopes e Leo Vaz.

Hoje, no jornal O Estado de S. Paulo, saiu uma reportagem sobre a morte de José Mindlin. Não tive tempo de ler ainda, então fiz como o leitor brasileiro típico: vi as fotos. Qual não foi minha surpresa ao saber que ele havia trabalhado no jornal, e na mesma época que meu avô Sud Mennucci.

Mindlin era bem mais novo, doze anos. Morreu com 96. Meu avô, mais velho, morreu com 56 há mais de sessenta anos. A surpresa maior foi ver uma foto tirada no jornal em 1931, mostrando Julio de Mesquita Filho, meu avô, Mindlin, Manequinho Lopes, Leo Vaz e outros. Segundo o jornal, foi a foto de despedida de Mindlin.

Talvez eu até tenha a foto. Se não tiver, tenho uma muito parecida. Minha grande surpresa é ter visto meu avô nela.

Afinal, meu avô tornou-se persona non-grata no jornal. Depois de ter sido convidado por Julio de Mesquita Filho em fevereiro de 1925 por uma carta de fazer inveja a qualquer mortal, onde Julio (cujo pai ainda era vivo na época) quase implorava para meu avô deixar a Delegacia de Ensino em Piracicaba e vir para a Capital trabalhar no jornal (não estranhem o termo "implorar", pois o texto da carta mostra isso), um dia a situação azedou. A carta dizia entre outras coisas que "já eu estava temendo que sua resposta fosse a que hoje recebi (da carta anterior, convidando-o pela primeira vez: essa carta não tenho). Acho que você tem razão. Entretanto, como você é moço e cheio de talento restava-me ainda uma vaga esperança que sua resposta fosse afirmativa. Entre São Paulo e Piracicaba, para quem se dedica à cultura do espírito, embora menos remunerado aqui do que lá, supus que a Capital vencesse. (...) A época é dos corajosos e não estou propondo a você a escalada do Himalaia ou a jornada de Verdun. Meu velho Sud: não me dê uma resposta definitiva, sem afastar da cabeça os obstáculos que ainda lhe tolhem uma decisão favorável. O 'Estado' é uma empresa que não morre, o que já não acontece com os que nele trabalham. Os que o dirigem hoje, amanhã já não mais existirão. Você é, dentre os rapazes da minha geração, o único que eu vejo - quando penso nisso - nas condições de tomar-lhe, um dia, a direção. Tem V. o talento equilibrado e profundo que requer a chefia de uma casa como esta. (...) São todos os nossos ideais de remodelação do Brasil e criação de uma mentalidade forte e alevantada que se abrem diante de nós. Que dirá V. disso tudo? Nem assim voltará V. atrás? Tenho certeza que sim, e, por isso, aqui fico à sua espera, para pormos mãos à obra, a começar de 1o de fevereiro. Do amigo certo, a) Julinho. São Paulo, 2 horas e meia da madrugada de 12 de janeiro (de 1925)".

A carta ainda dizia o salário oferecido (1,5 conto de réis, um bom dinheiro na época), uma vaga para Sud lecionar no Liceu Franco-Brasileiro e tocava no nome de grandes amigos de Sud que já trabalhavam no jornal como redatores, como Leo Vaz, Amadeu Amaral e outros. Sud acabou indo. Ficou no Estado até sair para ser redator-chefe de O Tempo, jornal criado em dezembro de 1930 por Miguel Costa. Depois, tornou-se Diretor da Imprensa Oficial do Estado, deixando O Tempo apenas quinze dias depois. Julinho tinha razão.

Tinha tanta razão que Sud acabou por ser mesmo diretor do Estado, de 1943 a 1945, só que isto ocorreu na época da intervenção de Ademar de Barros no jornal. Quando o jornal foi devolvido, Sud renunciou ao cargo, em dezembro de 1945.

Não se sabe o que foi exatamente que detonou a rixa entre o jornal e Sud. Sabe-se, no entanto, que os problemas começaram quando Sud foi nomeado professor da recém-criada Faculdade de Economia da USP e o jornal imediatamente criticou dois professores que não tinham diploma universitário (Sud era professor primário e jamais cursou faculdade alguma). A campanha durou um mês e fez com que meu avô pedisse demissão.

Minha família sempre disse que a inimizade tornou-se grande. Jamais ouvi o outro lado, pois à época em que comecei a pesquisar sua ha vida já estavam todos mortos. O fato é que não havia nada que se referisse a meu avô no jornal. É certo que ele faleceu em 1948, apenas dois anos após a discussão; mas tinha fama suficiente para merecer algumas páginas eventuais no jornal. Apenas sua morte foi publicada secamente.

Hoje, ao ver a foto no jornal com meu avô, fiquei emocionado.