terça-feira, 15 de julho de 2014

O FIM DOS CAMPOS ELISEOS

Palacete do Barão do Rio Pardo - Foto Douglas Nascimento, São Paulo Antiga
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O nome do bairro dos Campos Eliseos, em São Paulo, capital, vem do francês Champs Elysées, que, quando do loteamento do bairro nos anos 1870, era o que havia de máximo em termos de luxo no planeta Terra.

Realmente, naquela época, a influência francesa começava a ser muito grande na cidade, que, por sua vez, crescia muito rapidamente depois da abertura de duas ferrovias que instalaram suas estações exatamente 'as margens do que viria a ser um novo bairro, o primeiro dos pontos elegantes de uma cidade que queria ser grande, mas, que na época, era menor do que Santos, por exemplo.

O que chamou para lá os barões do café no final dos anos 1870 foi o fato de ter sido o primeiro bairro em São Paulo a ter as ruas em formato quadriculado e com ruas mais largas do que o usual na cidade. Não era um bairro planejado, como seriam os Jardins América e Europa, abertos em 1913 e 1922 (35 anos depois), mas era um princípio de, digamos, intenção.

Outra grande vantagem era a existência a uma distância que se podia percorrer a pé, se necessário das estações da Luz e da Sorocabana, ainda em suas versões originais, pequenas, simples, hoje inexistentes, demolidas que foram quando da construção das versões mais novas logo depois, embora em pontos diferentes das de 1867 (Luz) e de 1875 (Sorocabana) e bastante próximos das atuais.

Numa época em que os fazendeiros moravam no interior e vinham a São Paulo apenas para cuidar de negócios e puxar o saco do Presidente da Província, a existência das estações que possibilitava acesso fácil e rápido ao porto de Santos e ao interior, às suas fazendas, morar em Campos Elíseos, nas alamedas Nothman, Glette, Ribeiro da Silva, rua Guaianases, Conselheiro Nébias e Visconde do Rio Branco (atual avenida Rio Branco) era tudo o que eles desejavam.

Só para constar, a avenida Paulista e a Vila América (hoje, rua Cerqueira César) viriam apenas depois de 1891. Antes dela, viria Higienópolis, com o Colégio Mackenzie e a magnífica mansão dos Prado (1884), esta praticamente fundando aquele bairro.

Porém, os Campos Elísios eram mais próximos das estações do que os seus futuros concorrentes. Para lá se foram a Igreja e o Colégio do Sagrado Coração de Jesus, na alameda Glette, esquina da alameda Barão de Piracicaba e também a casa de diversos barões, entre as quais a de Henrique Santos Dumont, na esquina das alamedas Glette e Cleveland, exatamente em frente ao pátio da Sorocabana (1893) e do Barão do Rio Pardo (1883), na alameda Ribeiro da Silva com a Barão de Piracicaba.

O tempo foi passando e o bairro conheceu diversos concorrentes, alguns já citados. Com a chegada dos automóveis e a modernização em 1912 do centro novo da cidade, com a construção de dos palacetes do Anhangabaú, do Teatro Municipal, do Hotel Esplanada, dos jardins do Vale do Anhangabaú e pouco mais tarde, do prédio da Light, era agora fácil a todos - pelo menos os com dinheiro suficiente para comprar seu automóvel, mas principalmente os que podiam pagar os bem mais baratos bondes elétricos que começaram a ser instalados em 1900 - chegar aos trens.

Mesmo assim, a Sorocabana, quando construiu sua magnífica estação projetada por Cristiano das Neves, entregue pronta parcialmente em 1930 e definitivamente em 1938, ainda sabia da importância do bairro, não mais a Meca dos milionários, mas ainda um excelente bairro para se viver. Se isso não fosse verdade, é muito possível que ela tivesse construído sua estação em outro ponto mais favorável.

Porém, o fim da Segunda Guerra Mundial teve consequências sérias para São Paulo. Acelerou a decadência das ferrovias, desgastadas pelo uso excessivo durante o conflito e sem peças de reposição fáceis de se arranjar devido ao conflito. Os milionários rapidamente se agarraram aos seus carros e às linhas aéreas para se locomover para o exterior e interior. A frequência nas linhas férreas passou a ser dos mais humildes. As ferrovias passaram cuidar cada vez menos dos seus trens de passageiros e as estações começaram um período de decadência, que se estendeu pelos bairros ao seu redor.

As casas de Dumont e do Barão do Rio Pardo já eram colégios na época. Os moradores começaram a se afastar dali e suas casas, a ser derrubadas ou abandonadas.

Para piorar as coisas, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, estabelecida numa antiga mansão na alameda Glette, esquina com rua dos Guaianases e o Palácio do Governo, na esquina das mesmas ruas mas do lado oposto, foram transferidos respectivamente para a Cidade Universitária (1966) e o Morumbi (22 de abril de 1965).

Por volta dos anos 2000, o bairro já estava claramente em situação de abandono, sujo e cheio de oficinas e bares e pequeno comércio. Também nos anos 1960, o alargamento da avenida Rio Branco entre a avenida Duque de Caxias e a alameda Eduardo Prado derrubou diversos casarões. Atualmente, ela ainda é uma das ruas que mais casarões tem, além da rua Guaianases.

A casa de Henrique Santos Dumont, bem como o casarão ao lado, ficaram abandonados e quase em ruínas por anos e anos até serem ambas restauradas e transformadas em museus há cerca de cinco a seis anos. O antigo Palácio do Governo (prédio de 1897) permanece fechado e sem uso há anos, porém, atualmente está em estado bastante bom, pelo menos externamente.

O casarão do Barão do Rio Pardo está em ruínas e praticamente irrecuperável. A mansão da faculdade foi demolida não muito tempo depois da saída do pessoal. Como aconteceu em outras cidades, a presença da estação ferroviária - ambas ainda funcionam como tal - criou em volta de si uma região perigosa. Hoje, ambas servem apenas aos trens metropolitanos da CPTM. Não existem mais trens de passageiros de longa distância. Como são prédios muito grandes e a E. F. Santos a Jundiaí e a Sorocabana, suas antigas donas, não mais existem, a maior parte dos prédios teve de arranjar algum outros usos. Ambos passaram por reformas, mas a Luz ganhou de longe essa "disputa". Virou um museu, o da Língua Portuguesa. Já a Julio Prestes, quase a seu lado, ficou com trens apenas na sua gare, na estrema esquerda do prédio de quem olha da calçada. Parte do prédio transformou-se num teatro de luxo e o restante, os outros andares, abriga o CONDEPHAAT, mas está longe de poder considerar ser um local bem mantido - justamente o órgão estadual que visa preservar o patrimônio paulista. Casa de ferreiro, espeto de pau.

Mas a grande tragédia foi o surgimento, há cerca de dez anos, da Cracolândia em boa parte do bairro, principalmente em volta do Liceu Sagrado Coração de Jesus. A rua Helvétia é praticamente intransitável, tomada por viciados, drogados e traficantes durante as vinte e quatro horas por dia. O bairro ali praticamente morreu.

Enfim, a ideia de escrever alguma coisa sobre o bairro me veio quando li o jornal Folha de São Paulo do dia 23 de abril de 1965, que mostrava a festa de inauguração do Palácio do Governo na avenida Morumbi e o do dia anterior, que contava a festa de despedida do Governador Ademar de Barros do Palácio dos Campos Eliseos.

Enfim, o que realmente causou a decadência atual foi a saída de entidades importantes e que ainda mantinham a dignidade do bairro, como o Palácio do Governo e da FFCLUSP. Erros que n"ao podem se repetir. Principalmente em relação ao primeiro, que hoje está num local isolado (mais ainda já estava em 1965, quando da mudança) e longe do contato com o povo que representa. Além, é claro, da decadência extrema das ferrovias, fato que jamais deveria ter sido permitido pelos governos que nos guiaram durante os últimos oitenta anos.


4 comentários:

  1. Ótima análise. Gostei da observação - que nunca tinha ouvido - de que a decadência das ferrovias se deveu também à falta de material de reposição após o período da 2ª GG. A não preservação e restauro do prédio da foto é um crime de lesa-patrimônio da humanidade. Ah, lembro que já na década de 1970 a alameda Glette era mais conhecida pela grande casa de prostituição que tinha, o que gerou a expressão "ir lá na Glete".

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  2. A Crise de 1929 talvez tenha sido a grande causa do começo do declínio da importância das ferrovias no Estado de SP, já que foi justamente a Cultura do Café que as construiu para o escoamento até Santos.

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  3. Amo esse bairro, tem alguma coisa que me atrai sempre me emociono ao ir lá !!!

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    1. Eu morei muitos anos nos Campos Elíseos e tb amo cada esquina desse bairro, adorava ficar vendo os casarões antigos e deixando minha imaginação fluir em como deveria ter sido nos áureos tempos

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