sexta-feira, 4 de abril de 2014

TUPÃ, SP: 50 ANOS DE DIFERENÇA

Estação original de Tupã, ainda a pequena - sem data
Já escrevi sobre Tupã, exatamente no dia 29 de dezembro de 2010. Descrevi resumidissimamente a cidade, depois de passar algo como uma hora rodando por ela, no percurso de automóvel entre Lins e Quatá. Nessa postagem disse que a cidade deveria ter uns 100 mil habitantes, mas não conferi - citei sso. Na verdade, no censo de 2010, o município não tinha nem 70 mil.

Claro que o meu principal motivo ali era conhecer a estação ferroviária. Para variar, já estava abandonada, trilhos e dsvios cobertos de mato, transporte ferroviário, nenhum, embora até houvesse passado por ali recentemente alguns comboios da ALL para retirar açúcar da usina.
Manchete sobre a estação de Tupã, 23/5/1963
Por que estou falando de Tupã, cidade a 435 km da capital e numa Alta Paulista decadente? Porque ontem, na já citada reunião da Frente Parlamentar em Defesa da Ferrovia Paulista, havia representantes de Tupã, que deixaram claro a sua revolta pelo fato de a ALL não ter qualquer interesse em carregar açúcar da usina, além de outras mercadorias em potencial. "Façam contratos e eu carrego", disse o cara-de-pau senhor que foi apresentado como Presidente da ALL pelo deputado Mauro Bragatto. A ALL pratica o capitalismo sem risco e pouco se importando que ela tem uma concessão pública cujo mau desempenho (embora com lucro satisfatório para eles) compromete a já precária infra-estrutura de transporte no país.

Trens de passageiros da FEPASA em Tupã ainda eram comuns na estação ainda ativa em 1986 - Foto Israel Silva

E aí? Hoje, por uma incrível coincidência, encontrei num jornal Folha de São Paulo de maio de 1963 uma reportagem que também reclamava da ferrovia em Tupã - que era a segunda mais famosa ferrovia brasileira, atrás apenas da Central do Brasil (a qual não se comparava em eficiência à Paulista) e a segunda mais eficiente, atrás apenas da ex-SPR, a então E. F. Santos a Jundiaí. A estação, construída em 1940, portanto 23 anos antes, já não comportava o movimento de passageiros e de mercadoria.

O prédio e o pátio acabaram sendo, de fato, ampliados, em 1968. A estação recebeu uma cobertura metálica que foi trazida da estação de Guatapará, na região de Ribeirão Preto, e que havia sido desativada naquela época. Tudo muito bom, todos ficaram contentes, mas a decadência veio logo depois e, desde o final dos anos 1990, está tudo abandonado. O último trem de passageiros passou por ali em março de 2001, já no período de concessão da Ferroban, que antecedeu a ALL e sucedeu a Fepasa em fins de 1998. Havia muito movimento na Alta Paulista até o fim da Fepasa, e havia cargas também. Os trens seguiam até o fina;l da linha, em Panorama, onde havia um porto fluvial no rio Paraná.

No mesmo ano de 1963, encontrei outras reclamações de tamanhos de estações, como a de Cedral, da E. F. Araraquara. Sinal de que, naquele tempo, apesar de já ser o início da decadência, o movimento nesses locais era grande.
A estação de Tupã completamente abandonada em dezembro de 2010 - Foto de minha autoria
E ontem, na Frente de Defesa das Ferrovias, o pessoal da cidade nem falava do abandono do prédio ou do pátio. O que queria eram trens e interesse da atual concessionária em carregar mercadoria. Passageiros? Isso é coisa do passado. Um dos presentes afirmou que a ALL havia se comprometido a voltar a usar a linha em 2015 para retirar açúcar em Tupã, mas que, até agora, não havia visto qualquer sinal de obras que permitissem isso - já que a linha da ex-Paulista, após Bauru, está um lixo, com trilhos pendentes em voçorocas, dormentes podres etc.

Tristeza, meu Deus! O básico para a infra-estrutura existe, mas a concessionária de serviços públicos - eu disse público - não quer nem saber. Mais sobre a estação de Tupã aqui.

2 comentários:

  1. Olá Ralph!
    Acompanho seu blog há um certo tempo, ainda não tive o prazer em cumprimentá-lo pelos excelentes blog e site do estacoesferroviarias.com.br
    Sou "neto" da Alta Paulista, pois minha mãe é nascida em Tupã, o que motivou a postar aqui.
    A cidade quanto a região se encontra numa situação já sabida como decadente, tanto é que uma falecida tia-avó minha falava que Tupã era a "Cidade Latinha". Lá tinha tal fábrica, tantos mil habitantes, tinha uma estação ferroviária funcionando.
    Apesar da minha pouca idade (24), a maior parte das vezes em que fui à Tupã fui de trem. Todas as minhas férias na infância ia em casa de parentes nesta cidade. Eu me apaixonei pela ferrovia, mesmo pegando pelo rabo a Fepasa, na época dos Trens Bandeirantes, guardei muita coisa em minha memória, tenho passagens, um pôster dos trens expressos e até um parafuso de dormente. rs
    O que sempre me ficou me intrigando que no trecho entre Bauru e Tupã que eu utilizava muito por sinal, o trem chegava em Tupã junto ou até antes do ônibus, pois a rodovia João Ribeiro de Barros era sempre um enrrosco em Marília, e o trecho ferroviário era relativamente "novo" e muitas partes tinha autorização pra rodar em VMA, porém a estatal se foi e o trem acabou, e ingenuamente me pergunto Por quê????

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  2. Tupãense, emigrei do município há mais de quinze anos, porém ainda o visito cerca de uma vez por ano. A cada vez, presto muita atenção à situação da ferrovia e constato que ela não existe mais. Em certa época, provavelmente por volta de 2010 quando citou que houve alguma atividade de carga de açúcar, não só o mato como também o arenoso solo da região já cobre muitos trechos. A estação, pelo que apurei, sofreu incêndios e até mesmo a estrutura metálica já se foi.

    Todo este patrimônio que realmente era de todos nós foi jogado fora. Enquanto por lá ainda é possível pelo menos aproveitar o traçado com os cortes e aterros existentes, aqui onde resido atualmente (oeste catarinense) será necessário um esforço hercúleo para um dia haver algo semelhante ao que foi desdenhado naquela região. Uma das principais atividades do agronegócio catarinense, a pecuária suína, está fracassando justamente pelo alto custo de produção decorrente do frete do milho proveniente do norte e do escoamento para o litoral.

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