domingo, 13 de abril de 2014

COMO SE CUIDAVA DAS FERROVIAS BRASILEIRAS (OU: ÉRAMOS FELIZES E NÃO SABÍAMOS)


Uma fotografia (acima) postada no Facebook pelo Bruno, amigo meu de Cruzeiro, SP. é muito interessante: mostra uma tomada feita em Cachoeira Paulista mostrando um DP (um dos trens Rio-São Paulo que existiam na época) numa linha recém-aberta ao tráfego (a variante entre Cachoeira e Cruzeiro) e um auto de linha na linha que já teoricamente deveria estar fechada e que seria logo arrancada.

Não tem data, mas deve ter sido tirada em 1968, ano em que se abriu a variante e os trens passaram a correr por ela. Pode, também, ter sido tirada em 1969. Não creio que possa ser mais velha do que isto.

O interessante da fotografia é que mostra um momento em que as duas linhas, que ligavam os dois mesmos lugares, ainda conviviam. A linha antiga, com um auto de linha trafegando, mostrava que, por alguma razão, ela ainda estava sendo cuidada. Afinal, seria arrancada logo em seguida, sem utilidade. Esta linha "velha" é a que passava pela estação do Embaú, que foi desativada exatamente naquela data, demolida e que jamais teve uma estação na linha nova com o mesmo nome, como costumava acontecer com frequência.

Vejam também os senhores que em 1968/9 ambas estas linhas eram de propriedade da Estrada de Ferro Central do Brasil, que era parte da holding RFFSA. A Central e a RFFSA eram constantemente achincalhadas pela imprensa durante boa parte de sua existência como famosas por não darem manutenção suficiente a suas linhas. No caso da Central, o número de desastres era impressionante.

E, mesmo assim, vemos a Central cuidando de uma linha desativada e, quanto à linha nova, também vemos que está bem cuidada. Ou seja, há 45 anos a manutenção das linhas brasileiras (com algumas pouquíssimas exceções) ainda era feita de forma muito melhor do que o é hoje. Hoje, com exceção das linhas da CPTM e do metrô paulistano, no Estado de São Paulo (imaginem no resto do Brasil) as linhas férreas são pessimamente conservadas.

Mato, dormentes, trilhos, sujeira, tudo isto é relevado a enésimo plano visando apenas e tão somente lucros. Nada contra lucros - eles são a essência da existência de um negócio. Porém, quando se trata de infra-estrutura do Estado e do País, concessionada pelo Governo a terceiros ou não, o lucro tem de ser levado a níveis "suficientes" - ou seja, o fator responsabilidade não pode ser excluído. Vejam o caso da ALL, principal concessionária em São Paulo, que se nega a limpar seus pátios ferroviários, alguns colocados nos centros das cidades, espalhando sujeira, ratos, baratas e doenças em zona urbana e rural. A ALL também nos oferece notícias de desastres de forma bastante constante, só não sendo maior do que a frequência da Central do Brasil porque o número de composições ferroviárias em tráfego hoje é muitíssimo menor do que era em 1969.

Em resumo: xingávamos as ferrovias em 1969, mas éramos felizes e não sabíamos.

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