sexta-feira, 28 de junho de 2013

DE TREM DE PETROLINA, PE, A PAULISTANA, PI


Estrada de Ferro Petrolina a Teresina. Alguém no Brasil ainda se lembra dela? Extinta em 1972, já ne época nem tinha mais esse nome, mas era um prolongamento da linha que partia de Salvador e chegava a Juazeiro, junto ao rio São Francisco.

Petrolina é uma cidade pernambucana que fica na margem esquerda do rio São Francisco, exatamente à frente de Juazeiro. Porém, desde 1923, quando o primeiro trecho da Petrolina-Teresina foi aberto, chegando até uma estaçãozinha de nome Rajada, nos confins do município de Petrolina e no meio de coisa alguma, e até 1967, não havia uma ponte que ligasse as duas cidades.

Juazeiro e Petrolina somente foram unidas por uma ponte rodoferroviária em 1965. Até então, para se chegar a Petrolina era necessário crizar de balsa ou de barco o rio. Os passageiros que quisessem chegar 'a cidade de Paulistana, no sul do Piauí e perto da divisa com Pernambuco não tinham outra alternativa.

A ferrovia somente chegou a Paulistana no ano de 1938, a 204 km de Petrolina. Jamais atingiu Teresina, onde deveria atingir o porto de Parnaíba.

Em 1929, estava sendo contruída a estrada entre Petrolina e Rajada. A revista O Malho, carioca, viajava pelo Brasil inteiro e retratou nessa época várias ferrovias brasileiras, inclusive a construção da ferrovia aqui em epígrafe, que, nessa época, já havia chegado em solo piauiense.

A estação de Mafrense havia sido inaugurada em 1928. As fotos publicadas em uma página da revista datada de  21 de dezembro desse ano são mostradas aqui e retratam algo que somente atingiria as duas últimas estações, Acauã, em 1936, e Paulista, depois Paulistana, em 1938. É um belo documento.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

MEMÓRIA NO CHÃO: O CRIME DO QUARTEL DO SEGUNDO EXÉRCITO

O palacete, em fotografia de 1977 publicada no jornal O Estado de S. Paulo, pouco antes de sua demolição
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José Paulino Nogueira, campineiro de família poderosa do século XIX, atuante na antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e na Companhia Funilense, depois anexada à Sorocabana, também teve sua casa na capital paulista.

Este magnífico palacete foi erigido em 1893 na então elegante rua Conselheiro Crispiniano, entre a rua Barão de Itapetininga e a rua de São João, hoje avenida.

Em 1919, a casa foi vendida pela família e passou a ser ocupada pelo Quartel-General do 2o Exército, sediado em São Paulo. Assim o foi até 1968, quando o Exército dali se retirou. Sem interessados pelo palacete vazio, a Prefeitura acabou por adquiri-lo em 1973.

Boas notícias: Não, péssimas. A cidade ainda sofria da síndrome de "a cidade que mais cresce no mundo" e, com isso, belíssimos palacetes ainda iam caindo, uns após os outros. Somente como exemplo, o belo casarão de René Thiollier havia sido derrubado pelo seu filho Alexandre em 1972, que pouco se importou com os "pedidos de clemência", que uma parte incipiente chegou a fazer na época.

O prédio da rua Conselheiro Crispiniano ficava já num local onde chamava pouca atenção, pois o "centro novo" (o antigo Bairro do Chá) já não era o centro das atenções paulistanas como o havia sido até o início dos anos 1960. E, em 1977, o prédio foi sumariamente (e eu acrescento, criminosamente) demolido por ordem do prefeito Olavo Setúbal.

Curiosamente, os descendentes de José Paulino conseguiram entrar na casa no início de sua demolição, com a autorização de conseguir retirar alguns objetos. A porta de jacarandá foi parar na entrada da sede do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
No mapa da Sara Brasil de 1930, o  palacete aparece no centro do recorte acima. Junto a ele, na esquina da rua Conselheiro Crispiniano com a rua de trás do Teatro Municipal, aparece o célebre, mas tambémm já demolido, Palácio Trocadero.

No lugar da casa demolida, foi criado, já em 1978, o "Recanto Monteiro Lobato". Apesar de que tenha sido um consolo pelo fato de não haver ali sido construído outro edifício, que seria certamente colado ao do lado, que ocupava o Cine Marrocos, a área foi praticamente toda impermeabilizada, como a desastrosa Praça Roosevelt o foi, dez anos atrás. E, como todas as praças construídas na área central nessa época, tornou-se um centro de reunião para mendigos e sujeira. Depois, foi abandonado de vez. Somente recentemente foi reformado, mas seu futuro não deverá ser muito diferente do tal recanto, espremido entre altos edifícios.

A bela mansão de José Paulino, que deu seu nome à rua do Bom Retiro e à cidade de Paulínia, sumiu para sempre, em vez de ser mais uma representante da era de ouro da nobreza paulista. Restauram poucas fotos, como a que aparece acima. A memória paulistana foi para o chão, nem pela primeira, nem infelizmente pela última vez, com a demolição desta bela casa.

terça-feira, 25 de junho de 2013

E SE AMEDEO NÃO TIVESSE MORRIDO?

A história da família Mennucci nos conta que Amedeo Mennucci, italiano de Lucca e o único dessa família que veio como imigrante e ficou por aqui, nunca mais retornando, morreu no distante ano de 1931, com cerca de 70 anos de idade. Deixou dois filhos  um foi meu avô Sud  e quatro filhas.

Mas… e se ele não tivesse morrido? A história poderia ter-se desenrolado de outra forma! Vejam esta "linha de tempo", meio fantástica, mas que teria sido uma possibilidade.

Quando Amedeo já estava desenganado em seu leito de morte, eis que subitamente ele começou a se recuperar. Três dias depois, teve alta e saiu do hospital. Filhos e esposa felizes, ele foi para casa, na Avenida Rudge. No dia seguinte, chamou Sud para uma conversa reservada. Contou-lhe que iria pegar suas economias e viajar de volta para a Toscana. Já que ele enganara a morte, queria aproveitar seus últimos anos de volta a Lucca, para onde jamais havia retornado.

O fato é que ele não aguentava mais sua esposa Teresa: mimada, chata, fofoqueira e intriguenta. Pediu a Sud que não comentasse nada e que respeitasse sua opinião. E que não entrasse em contato com ele nunca mais nem deixasse que sua esposa e filhos o fizessem. E foi-se, depois de se despedir dos filhos e da esposa. Ela estaria a partir de agora viúva, sem sê-lo.

De volta a Lucca, os pouco mais de quarenta anos que se passaram não haviam alterado a velha cidade murada em praticamente nada. Não procurou os Mennucci de lá. Encontrou, depois de algum tempo, um velho amigo de infância, Giuseppe. Conversaram muito. Contou a ele sobre sua vida no Brasil, em Piracicaba e em São Paulo. Enquanto isso, mesmo com mais de setenta anos, fazia trabalhos como o bom marmorista que era.

Uns dois anos mais tarde, Amedeo voltou a ficar doente. Sem ter a quem procurar para ajudá-lo, procurou Giuseppe. Amedeo havia ouvido dele sobre umas experiências que ele fazia já havia alguns anos em criogenia  conservação do corpo sem matá-lo , para que pudesse ser despertado anos mais tarde, quando pudesse haver uma cura para o que ele tinha.

O velho Amedeo foi piorando rápido. Como no Brasil, os médicos não haviam conseguido decifrar exatamente o que o havia contaminado, que doença, afinal, ele tinha. Propôs a Giuseppe que o congelasse. Afinal, calculava ele, não tinha nada a perder. Giuseppe aceitou o desafio. Era uma técnica ainda pouco desenvolvida, e ele, embora fosse médico, não sabia os riscos reais que seu amigo "brasileiro" correria.

E Amedeo acabou congelado. Enquanto os anos passavam, Giuseppe foi ampliando suas experiências, treinando sucessores. Seu "laboratório" sobreviveu à Guerra, Amedeo também. Porém, com a morte de Giuseppe, seu sucessor continuou cuidando do único paciente congelado que tinha, sem espalhar a notícia. E a dúvida começou a assaltá-lo: se descongelasse o velho, perderia os dados que coletava, valiosíssimos. Ainda por cima, se ninguém sabia o que havia o acometido, como iriam curá-lo?

Por outro lado, o congelamento não poderia se estender indefinidamente. Claudio, sucessor de Giuseppe, acabou não tomando a responsabilidade de tomar uma decisão. E ali ficou Amedeo, dormindo por décadas, até que, no início de 2013, o médico que nessa época comandava o hospital decidiu que era hora: Amedeo deveria "ressuscitar", enfim. E assim foi. O traumático processo de recuperação do velho — a esta altura, com já mais de cento e cinquenta anos de idade, mas com corpo e mente de pouco mais de setenta — demorou alguns meses, mas lá estava o bravo velhinho, acordado e disposto a conhecer o "admirável mundo novo".

Em Lucca, a diferença não era tão grande, novamente. Se fosse São Paulo, disseram-lhe, ele iria ter um choque. Amedeo, o marmorista, estava sem saber qual seria o seu futuro. Ser marmorista nos dias de hoje já não é a mesma coisa que no final do século XIX ou no início do século XX. Ele ainda tinha um dinheirinho. Alugou um quartinho e resolveu rever seu mundinho em volta. Que tal Pistoia, a cidade em que se casara? Tão pertinho dali.

Andando pela cidade, sentou-se numa mesa de bar, perto da estação. De repente, fixou os olhos numa moça que viu ao longe, passeando com seu marido. Ela o lembrava alguém. Ali? Mas quem? Ele foi se aproximando lentamente. A moça o intrigava demais. Tomou coragem e perguntou ao casal se eles eram dali. A moça disse que sim.

Amedeo olhou para ela e disse: "Seu marido pode ser daqui, mas você não é. Você tem sotaque bem brasileiro. Eu sei, porque vivi lá, muito tempo atrás, por isso sei." A moça ficou contente: "Senhor…" "Amedeo. Amedeo é meu nome." Ela respondeu: "Senhor Amedeo, estou contente de encontrar alguém que gosta de meu país. Eu vejo poucos — ou nenhum — brasileiros aqui. Casei-me lá com meu marido, que era daqui e fatalmente voltaria para cá no fim de seu contrato." E completou: "Foi um prazer conhecê-lo. Qual é mesmo seu sobrenome?" "É Mennucci, moça. Amedeo Mennucci."

A moça empalideceu. Disse, meio emocionada: "Meu nome é Verônica. Desculpe, esqueci de lhe dizer. Mas… meu pai é um Mennucci. E agora me lembro… o bisavô dele se chamava Amedeo, como o senhor; e o seu filho, Sud, era avô dele. Fora meu pai, eu não os conheci."

Amedeo teve de se sentar. Ele havia descoberto algo inacreditável: essa moça simpática era sua trineta. E estava ali, em frente a ele. Mas, se ele respondesse que ele era o próprio, como ela reagiria? Seria difícil de acreditar. Ele olhou nos olhos dela, que estava com lágrimas pelo rosto. Ela sabia. Ele não precisava dizer mais nada. Eles se abraçaram por longos minutos, e ninguém precisou explicar nada nem contar uma história simplesmente extraordinária.

domingo, 23 de junho de 2013

HISTÓRIAS DO TREM BAIANO

A estação de Monte Azul em 2011. Foto Odair Lopes\

Hoje preparei uma página da série sobre os trens de passageiros brasileiros que existe dentro do meu site de Estações Ferroviárias do Brasil. No caso, um trem de passageiros que existiu por menos de trinta anos na Bahia: o trem que ligava Salvador a Monte Azul.

Esta última cidade fica no extremo norte de Minas Gerais. Foi projetada para ser a última estação da Linha do Centro da antiga Central do Brasil e ficou pronta em 1948. Anos antes, durante a Segunda Guerra Mundial, Getulio Vargas determinou que, devido ao fechamento das linhas de cabotagem do litoral brasileiro devido ao afundamento de navios por submarinos alemães, haveria de se apressar o projeto da Central de ligar as linhas mineiras e baianas, para se permitir que, finalmente, se unissem as linhas do Sul e do Norte do País. Afinal, as rodovias brasileiras eram, na prática, inexistentes, com pouquíssimas exceções. A maioria delas não era muito mais do que picadas, principalmente nas regiões mais pobres.

Só que, como tudo no Brasil, a ferrovia atrasou. Ela deveria ter sido feita em no máximo três anos a partir de 1942. A guerra acabou em 1945 e a ferrovia ficou pronta em 1950, quando o extremo sul da ferrovia baiana, que era a estação de Contendas (desde 1928) e que pertencia à Viação Ferrea Federal do Leste Brasileiro (VFFLB) foi finalmente ligado ao então extremo norte da ferrovia mineira pertencente à Central do Brasil, a estação de Montes Claros (desde 1926).

Entre 1942 e 1950, surgiram diversas estações nesse trecho de pouco mais de 600 quilômetros e pertencentes às ferrovias citadas acima. Novas cidades surgiram, mas em uma zona bastante pobre do Brasil, que, desde então, pouco evoluiu. A maior cidade de toda essa linha dividida em duas ferrovias creio hoje ser Monte Azul.

A página ainda é razoavelmente simples, mas por ela pode-se ter uma ideia bastante boa do que era uma viagem de trem entre a capital baiana e a cidade de Monte Azul. Aqui, sempre houve baldeação para os trens da Central, mesmo após a união das duas ferrovias pela RFFSA.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

FIFA GO HOME!

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 Campeonato Brasileiro de Seleções, 1922 - bons tempos?
Eu passei a gostar de futebol durante a Copa do Mundo de 1962 no Chile. Eu tinha 10 anos de idade. Via o pessoal andando nas ruas com um radinho de pilhas na mão e junto do ouvido, ouvindo a transmissão do jogo. Lembro-me disso especialmente no jogo contra a Inglaterra. Eu quis então ouvir o jogo seguinte, contra o Chile. O Brasil ganhou com um show do Garrincha. No jogo seguinte, a final contra a Tcheco-Eslováquia (meu Deus, estou velho, esse país nem existe mais!), outro show do Garrincha e do Amarildo e o Brasil foi campeão.

O Brasil tinha um timaço e eram praticamente os mesmos de 1958, quando deram um show de bola em seis times europeus. Eu não a acompanhei, eu tinha apenas seis anos. Porém, em 1962, depois de me tornar da noite para o dia um viciado em futebol, li tudo que pude sobre a Copa anterior. Nela, o último jogo das oitavas-de-final, contra a Russia (na verdade, a CCCP ou URSS, abreviaturas em russo e em português da União Soviética), virou lenda.

O que acham de um jogo de um time brasileiro com jogadores que os europeus não tinham a mesma ideia de quem fosse, como Vavá, Garrincha e Pelé, dar um vareio de bola naquela que era considerada a melhor seleção do mundo - a URSS, campeã da Europa dois anos antes? Com dois minutos do primeiro tempo, o Brasil ganhava de 1 a 0, depois de mandar duas bolas na trave e de o lateral russo levar dribles desconcertantes do desconhecido Mané Garrincha e de Pelé deixar tontos seus marcadores? O jogo terminou dois a zero e somente não foi mais porque os brasileiros se desinteressaram do jogo perante um adversário tão fraco (sério!).

Eu virei um fanático por futebol e acompanhava o Campeonato Paulista, então o melhor campeonato do País, depois de ver, logo depois da Copa, o Santos de Pelé e Coutinho - este era muito bom - despachar o forte Peñarol uruguaio de Pedro Rocha por 3 a 0 no tira-teima da final da Libertadores em Buenos Aires. O Santos de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, ganhou o Paulista também pela terceira vez seguida em 1962. E já tinha vencido o torneio Rio-São Paulo, antes da Copa. O Rio-São Paulo, sempre com dez times, foi o embrião do atual Campeonato Nacional. Os mineiros e gaúchos que me perdoem, mas nessa época não eram ameaça a ninguém e nem participavam de um campeonato forte como o Rio-São Paulo.

Tenho inúmeras histórias para contar sobre o futebol do fim dos anos 1950 e dos anos 1960. Jogos que empolgavam com jogadores que realmente gostavam dos times em que jogavam e não ganhavam essa baba de hoje que os faz serem praticamente mercenários. Jogos como Santos, 7 x Palmeiras, 6, São Paulo, 4 x Santos, 1, Palmeiras, 5 x Seleção Hungara, 3, no Pacaembu quando o fortíssimo Palmeiras de 1965 (a "Academia") não tinha medo de ninguém.

Ainda vi a Copa de 1970, sensacional. Ver jogadores como Pelé, Rivelino, Gerson, Jairzinho, no auge de sua forma, jogando como nnca foi um privilégio. A partir daí, o futebol começou a declinar. Muita retranca, que contaminou a Seleção e jogadores começando a deixar o País em massa para jogarem na Europa. Os campeonatos estaduais perderam força quando o Campeonato Brasileiro começou a existir no início dos anos 1970. Mesmo assim, ainda me interessava em ver a Seleção - fato que foi diminuindo à medida que os técnicos começaram a chamar somente jogadores que atuavam fora, desprestigiando quem jogava aqui.

A convocação dos jogadores,, que era uma festa nos anos 1960 e 1970, começou a perder prestígio à medida em que técnicos medíocres e arrogantes passavam a chamar jogadores desconhecidos. Nos anos 1990 e principalmente 2000, a situação somente piorou. Como resposta, os jogos passaram a ser aborrecidos a partir dos anos 1990 - mesmo com as três finais que o Brasil chegou em três Copas seguidas (1994, 1998 e 2002). Hoje, com técnicos que convocam jogadores razoáveis em prejuízo de muita gente boa e pondo-os para jogar em posições a que não estão acostumados nos times em que jogam, além de não terem tempo para treinamentos, os amistosos e torneios de que a seleção pariticipam não me atraem mais.

Hoje, eu acho sinceramente que a Copa no Brasil foi um erro. Com ela, veio a Copa das Confederações, neste ano de 2013. Por coincidência ou não, o povo se revolta neste instante contra tudo e contra todos - e têm razão para reclamar de tudo. Como a tal Copa está aqui e os jogos vão acontecendo, é normal que o mundo preste um pouco mais de atenção para o país. E com o povo nas ruas protestando contra Deus e o mundo, um dos principais inimigos passou a ser a arrogante FIFA, com suas regras absurdas e com seus gastos excessivos ("seus", nada - foram do Brasil mesmo, para que a FIFA lucre muito com o dinheiro dos outros).

Como escrevo estas linhas enquanto os jogos são jogados e os protestos estão nas ruas, não sei o que pode acontecer amanhã ou depois em termos de acontecimentos danosos que possam eventualmente levar a FIFA e seus membros a arrumarem as malas e cair fora antes do final dos jogos - e talvez levando-os com eles para algum país "civilizado".

A verdade é que eu peguei uma birra da FIFA de tal forma que não tenho prazer algum em ver jogo algum deste torneio e ainda torcer para que algo dê "errado" nos próximos meses de forma a que a entidade mude a Copa de lugar. Não é da FIFA a única entidade que passei a me enojar - mas também me causa asco o que a entidade "governo brasileiro" fez (construir doze - doze - estádios novos a um custo superior a 33 bilhões de dólares) e o que ela não fez - que foi a prometida infraestrutura em transportes e aeroportos, por exemplo. No duro mesmo, somente se construíram estádios, com o pomposo neologismo "arenas" inclusive em cidades sem tradição futebolística, onde pouquíssimos e desinteressantes jogos serão disputados (são elas Cuiabá, Manaus, Brailia e Natal) e, depois da Copa, correndo riscos de se tornarem construções abandonadas (como as estações ferroviárias das quais sempre falo neste blog).

E ainda acham que o povo não tem razão de reclamar, na já histórica Revolta dos Vinte Centavos. Interpretem esta revolta popular da forma que quiserem, mas seja do que dela resultar - mesmo que não seja nada - a incompetência do nosso governo e a arrogância e mercenarismo da FIFA vão causar prejuízos para os dois. Mais, muito mais, para os primeiros.

Quanto a mim, que li hoje sobre a possibilidade de a FIFA parar a Copa das Confederações e cair fora, além de mudar de local a "sonhada" Copa do Mundo do ano que vem, eu lhes digo: já vão tarde. Não precisam voltar nunca mais. Vamos fazer rodeios nas "arenas", para horror dos ambientalistas. Quanto ao dinheiro que já gastamos... bom, já estamos acostumados a jogar dinheiro no ralo. Vamos sobreviver mais uma vez. Mal, como sempre, mas vamos.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SAUDADES DE ERNESTO

Ernesto Giesbrecht (Ponta Grossa, 1921 - São Paulo, 1996)
Nas últimas postagens deste blog - faz três dias que não escrevo nada - falei sobre ferrovias. Não há grandes elogios nesta área: na maioria das vezes, estou metendo o pau no que foi feito dela aqui na terrinha.

Mas nestes três dias, o que fiz, além de trabalhar? Acompanhei, durante boa parte do tempo, os protestos nas cidades brasileiras, desde São Paulo até Garça, que ocorreu hoje. Tudo via Facebook e Inernet em geral, além de jornais de papel - sim, eles ainda existem.

Com 61 anos, ainda tendo a concordar com as manifestações. Mas não me atrevo a entrar nelas, pois, afinal  é muita emoção para um cara com quatro pontes de safena e sessenta e um anos de idade.

Acompanhar as coisas pela imprensa falada, impressa e pela Internet é, no mínimo perigoso - nunca se sabe qual é a verdade ou a mentira de quem escreve. Nas ruas, você pode conversar com as pessoas, encarar a polícia, os bandidos infiltrados, os políticos e os fanáticos e os sinceros que se espalham por ali. Certamente, você terá uma avaliação melhor.

Aí, começa outro problema - o país é grande demais e tem 5.500 municípios - é impossível acompanhar tudo, por motivos óbvios. Já o meu assunto favorito, ferrovias, é pesquisado todos os dias, literalmente, há dezessete anos, de todas as formas. A ideia e o conhecimento são muito maiores, é mais fácil de dar uma opinião, embora, claro, nunca se chegue a uma verdade absoluta, se é que isto existe.

Fiquei com uma certa vergonha de falar de ferrovias abandonadas e roubadas no meio de tanta gente protestando, muitos de forma sincera e com muita esperança. É evidente que existem muitos aproveitadores, desde os que tentam obter vantagens pessoais imediatas ou a curto, médio e longo prazo, neste "brincadeira" (como políticos, por exemplo) até os que simplesmente vêem nessas manifestações uma oportunidade imensa de desrtuir pelo simples prazer de quebrar tudo até os que assaltam lojas e transeuntes no meio de uma confusão de milhares de pessoas.

Embora eu seja a favor, repito, dessas manifestações, a cada opinião que leio vou moldando minha opinião a respeito de diversos fatores, desde os que a causaram até as que podem ser as possíveis ou mesmo as imprevisíveis consequências de tudo isto. Às vezes fico mais otimista, às vezes pessimista. Fui até chamado de fascista por um cara que nunca me viu, por que defendi o regime militar. Ora, diabos - eu vivi esse regime e convivi muito bem com ele, o que não significa que o apoiasse incondicionalmente. E posso dizer com certeza que não sou fascista.

Mas, afinal, o que eu, como pessoa, marido e pai, quero? O que eu exijo ou acho que o governo atual deva fazer? Eu resumo em uma coisa: quero que os nossos governantes dirijam o país pensando mais no povo do que neles próprios e - isto acho fundamental - que nos ouçam. A verdade é que o governo (Nota deste autor: não falo somente dos últimos anos de PT, mas estendo-me para trás até a época do altamente incompetente, pelo menos para governar um país, se é que entendem o que quero dizer, José Sarney, que, mesmo ainda vivo, tem pelo menos quatro ruas e praças em São Luís do Maranhão com seu nome. Quanto à cidade, é um imenso favelão.) - enfim, o governo, desde essa época, deixou de ouvir o povo.

Que povo? Todos. Ele somente ouve quem lhe interessa e lhe traga algum retorno financeiro e político. Isso quer dizer que 99% dos seus "comandados", sejam eles ricos, pobres ou classe média, são solenemente ignorados. Até agora, o governo, seja federal, estadual ou municipal, não entendeu o que o povo reivindica nas ruas nos últimos quinze dias.

Não entendeu, em grande parte, porque não está dando a menor bola para os manifestantes. Só que a coisa tem crescido e está se tornando perigosa para ele. Daqui a pouco, haverá sangue - e esse sangue pode sair das veias de alguns dos homens do "pudê". Afinal, já houve tentativas de invasão de prefeituras, palácio de governadores, casas de políticos, Câmara dos Deputados em Brasília, Câmaras municipais e assembleias estaduais.

É verdade que jã vi vários filmes antes e nenhum deles durou muito - este, ao contrário, já ultrapassou todos os anteriores que vi em termos de duração e de número de pessoas marchando nas ruas. Se perdurará ou acabará amanhã, eu não sei - mas, neste instante, ele é perigoso. O que é bom, pois pode incitar mudanças forçadas. Ou não. Pode ser ruim, pois pode jogar no mercado, a médio prazo, novos políticos com velhas ideias. Mas pode gerar um estadista, coisa que não vemos há muito tempo.

Precisamos de gente que volte a ouvir o povo, e não de idiotas como aquele colunista do "Estadão" e da Globo que falou, há cerca de uma semana, literalmente, que a classe média não tem direito a protestar, pois todos eles são filhinhos de papai. Ora, eu sou classe média e dou duro para viver. Jamais fui filhinho de papai. Aliás, meu pai era ingenuamente honesto. Tão honesto que me educou de forma a seguir regras de conduta e de civilidade. Saudades do velho Ernesto. Muitas saudades. O idiota citado retratou-se três dias depois, mas já era tarde.

Precisamos de gente que tenha autoridade no poder e que tenha assessores (ministros e secretários de Estado) que entendam dos assuntos de suas pastas e não homens que apenas estão lá para obter vantagens, sem ligar a mínima para o cargo teoricamente importante que ocupam.

A lista vai longe.Não vou escrever tudo o que acho. Primeiro, porque pedir autoridade neste país já me faz ser chamado de fascista. Segundo, porque a lista é longa demais. Terceiro, porque não sou o dono da verdade. Se fosse, estaria rico hoje. E, muito pelo contrário, estou pobre. Sou incompetente? Talvez seja. Sou honesto? Sim, como o velho Ernesto o era, sou honesto e ingênuo.

Enfim, quem está nas ruas protestando e exigindo mudanças com sinceridade me representa. E representa meu saudoso pai, o Ernesto. Ele, sua honradez e sua ingenuidade fazem muita falta e não somente a mim.

domingo, 16 de junho de 2013

EM PARAPUÃ, A CIA. PAULISTA ESTÁ LITERALMENTE EM RUÍNAS

Trilhos pendurados em Parapuã. Fotos Marcelo Braguini Ferreira, junho de 2013.

Parapuã é uma pequena cidade do oeste paulista, fundada em 1934, aguardando o progresso que seria trazido pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, projetada para passar por ali e cravar uma estação ferroviária.

A ferrovia somente chegou ali em 1949. Porém, continuou sua passagem pela região e atingiu as barrancas do rio Paraná, em Panorama, em 1961.

A "Alta Paulista" e a "Nova Alta Paulista", como se chamaram as regiões após Piratininga (próxima a Bauru) cresceu com a ferrovia e até com a espera por ela. E entrou em decadência juntamente com a ferrovia, que, depois de 1998, deixou de por ali circular, embora tenha a concessão da América Latina Logistica - a (im)popular ALL.

Esta passa além de Bauru apenas de vez em nunca, com autos de linha e eventualmente com carros de capina química.

Em Parapuã, recentemente, abriu-se uma vossoroca debaixo da linha que um dia deixou passar os famosos expressos da Paulista e depois, da FEPASA. A concessionária ALL, como sói acontecer, pouco se importou e não apareceu por ali.

Hoje, carro algum da ferrovia pode pensar em passar por ali no sentido Adamantina. E fica tudo por isso mesmo. Vergonha para o Brasil. Afinal, os donos da linha não são, desde a desastrosa entrega da FEPASA para a RFFSA em 1998, mais o estado de São Paulo, que, portanto, nada pode fazer. Quanto tempo demorará para que a ALL se mexa para resolver o problema? Ou acaba de ser decretado, com isso, o fim de vez da ferrovia e do tráfego para Adamantina e Panorama?