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sexta-feira, 30 de março de 2012

BOMBAS EM BELÉM


Naquele verão de 1867, quando o trem passou pela primeira vez por Belém, ele teria parado para apanhar passageiros? Ou para que alguém descesse? Quem desceria ali, local ermo e que teria no máximo alguns barracos que sobravam da obra de construção do pequeníssimo pátio de cruzamento que os ingleses ali fizeram. Teria alguém seguido morando ali? Talvez. A possibilidade que algum botequim para alimentação dos trabalhadores que também erigiram o pequeno barraco de alvenaria - de pedra, possivelmente - que era a estação de Belém tenha se estabelecido de vez ali, esperando que mais pessoas viessem viver ali, era grande.

E, por mais que tenha demorado, o acampamento cresceu. Afinal, era um trem a cada dois dias, depois um por dia, depois vários por dia, correndo entre Santos e Jundiaí. Agora você definitivamente já viu que não estamos falando da capital paraense, certo? Aquela, que um jogador de futebol um dia disse algo como "era um prazer vir jogar na terra em que nasceu Jesus".

Não, não é essa. Aqui estamos falando na cidade que hoje se chama Francisco Morato, infelizmente uma das cidades mais feias da Grande São Paulo. Apesar disso, a estação ferroviária que ali existiu desde os anos 1970 até o ano passado (sucedânea daquele pequeno barraco de 1867 e de outra que lhe seguiu) foi posta abaixo para a construção de uma nova pela CPTM. Nesse meio tempo, uma estação de madeira serve de ponto de embarque e desembarque para os passageiros e moradores.

Ontem, uma nova pane na ferrovia - segundo o jornal que noticiou, a décima quinta este ano - parou os trens perto de São Paulo e deixou agitado o pessoal que precisava do transporte na antiga Belém. Vai daí, resolveram arranjar um quebra-quebra que lembrou aqueles dos anos 1980 e 1990 nas linhas paulistanas. O último do qual me lembro ocorreu em 1998 e destruiu a estação de Engenheiro Trindade, na Penha, fechando-a até hoje: aliás, o prédio já foi até demolido há alguns anos, sem substituição.

O curioso no caso de ontem é que alguns imbecis jogaram "bombas caseiras" que puseram fogo em alguns pontos da estação, como a bilheteria e a seção das catracas, que foram destruídas. Curioso: quem jogou essas bombas? Quer dizer que algum sujeito que queria tomar o trem e não conseguiu descobriu que, por acaso, estava com umas bombas caseiras na maleta e resolveu jogá-las ali em protesto? Acreditamos mesmo nisso? Ora, quem joga bombas em algum lugar não as tem por acaso, mas sim as traz especificamente para serem jogadas.

Portanto, será que podemos concluir que quem jogou não estava chegando nem saindo da estação, certo? Foi alguém que viu a bagunça, de fora do prédio, e resolveu ir até algum lugar e pegar as bombinhas que tinha guardado e jogar ali, não para protestar, nas sim para ferrar com tudo, por espírito de vandalismo, ou por ser espírito de porco. Ou, talvez, como dizem alguns, por "sabotagem política".

Sou mais pelo espiritismo-de-porco, mesmo. Gente do naipe de frequentadores de torcidas uniformizadas, que já vão para o estádio com canivetes, paus e pedras. Gente que não serve para nada, só mesmo para mofar na cadeia. Por acaso, no entanto, eles nunca são pegos, mesmo tendo muita gente que sabe muito bem quem são e onde eles estão.

A educação no País está caminhando ladeira abaixo. Como estaremos daqui a 50 anos? Como eu não estarei aqui para ver, vai sobrar para o meu neto, mesmo. Infelizmente para ele.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

VERGONHA NACIONAL


Os brasileiros, que ontem à noite em Belém do Pará cantaram tão bem o hino nacional (surpreendente saber que tanta gente conhece a letra) no estádio antes do jogo Brasil e Argentina, ainda têm muito a aprender. Seria bom aprenderem antes que o país acabe.

Mas, acabar? Por quê? Não, não se trata do problema do calendário azteca no final do ano que vem. Trata-se de um possível esfacelamento em alguma época futura, que pode estar próxima ou mais longínqua, causada pela falta de vergonha na cara. Ou seja, eventuais áreas com mais vergonha na cara do que outras tentarem e conseguirem se separar das outras justamente por terem mais (ou menos, sei lá!) vergonha de serem brasileiros.

Afinal, o brasileiro vem sendo escorchado durante anos a fio - mais de um século, quase dois, e isto contando-se somente o tempo de independência em relação ao império português - pelos seus governantes e diversos poderes sem protestar contra nada.

Quando foi a última vez que os brasileiros realmente protestaram? Revolução de 1932, em São Paulo? Revolução de 1930? Foi o povo ou setores do exército que promoveram essa agitação? Que não lembrem dos caras-pintadas, que me pareceu mais uma brincadeira de jovens do que um protesto real. Ou das "diretas~já", promovidas pelos políticos da oposição. Não me parecerem grandes protestos.

Já desde o governo daquele nefando maranhense, cujo nome não quero citar para não lhe fazer mais propaganda ainda (pois até no governo militar um escândalo geralmente fazia cair um ministro, um governador) que não adianta a mídia publicar escândalos - o governo nem liga. Itamar ligou? Fernando Henrique? Lula? Dilma?

Ah, mas há um mês o povo se revoltou contra Ricardo Teixeira no Twitter. Grande coisa. Por pior que Teixeira possa ser, ele preside uma associação que todos dizem corrupta e voltada para interesses pessoais que - notem - é uma entidade privada. Vai mudar a vida de alguém a queda de Teixeira? Só mesmo a dele. Ora, que se dane a CBF e quem os sustenta - as federações de futebol estaduais, também entes particulares. Que protestemos contra o que realmente nos interessa!

Enquanto isso, ninguém protesta contra o escândalo das verbas da Prefeitura e do Estado para um estádio paricular em Itaquera, nunguém liga para os escândalos dos ministérios e do Judiciário, fora os da Câmara e das Assembleias estaduais, e das prefeituras - quais escândalos? Quais Câmaras, quais Assembleias, qual Judiciário(!?), quais ministérios? Ora, se você não sabe quais foram, é porque você não se importa com eles, pois eles foram graves e sérios e todos aconteceram nos últimos dois ou três meses.

Fora Ricardo Teixeira, mas não "fora ministro, fora deputado, fora vereador, fora prefeito, fora secretário"? Será que o brasileiro gosta de sofrer mesmo? É duro ler os jornais todas as manhãs. A seção de cartas dos leitores é terrível. Concordo com praticament tudo que os leitores escrevem em suas cartas decepcionadas e indignadas - mas adianta? Nada muda. Os governantes não lêem jornais e, se lêem, dão risada. Aliás, é sabido, alguns nem sabem ler, são analfabetos, ou semi.

As cartas enviadas para a seção de reclamações contra empresas e serviços públicos são inacreditáveis. Existem leis que protegem os consumidores e, na caradura, diversas empresas não ligam a mínima para isso. Muitas nem respondem ou, se o fazem, escrevem cartas-padrão que muitas vezes não respondem a nada que o leitor reclamou. E fica tudo por isso mesmo. Dizem os advogados e juízes: "procurem a Justiça". Para que? Para ficar esperando anos e anos para se decidir sobre coisas que nem de julgamento precisariam, bastaria conferir com o que dizem as leis? Processos se arrastam pelo judiciário por décadas, às vezes por questões mínimas.

A vergonha na cara está em processo de extinção. Os políticos e empresários já a perderam em sua grande maioria; o povo está perdendo-a também, por conivência. E tome pão e circo: Copa do Mundo, Rock in Rio, Olimpíadas. E que se pegue o escudo na camisa do seu time que o torcedor veste e beije-o, mostre para a televisão (nunca viu?). Para que? É como esconder a cabeça no chão como fazem os avestruzes.

Um amigo meu disse que eu estou rabujento e desesperançoso, que sinto um rancor tremendo atualmente. Bom, com 59 anos, quase 60 e tendo uma experiência de vida como a que tenho, devo sentir o que?

Mas que ele não se preocupe, já estou em alto grau de alienação. Meu humor vai melhorar a partir da hora em que eu aceitar tudo. Quem mandou meu pai me educar para ser um cidadão honesto? E quem mandou eu aprender? Devia ter sido um mau aluno e filho ausente.

Sinto saudades de meu pai. E graças a Deus ele não está vendo tudo isto. Hoje, com os 91 anos que teria, ele ficaria desiludidíssimo com a vida.